||| ... o colega mas isso não está no regulamento. [raios partam o regulamento e esta mania das coisas reguladas]. sim, mas posso tentar? acho isso muito errado! não importa, posso tentar. o miúdo tinha saltado pela janela. nada mais, nada menos. e lá vem a razão debatida em reunião: família destruturada. não sei o que isso é. nunca percebi. nem me interessa que o rótulo seja esse. eu proponho fazer isto. importam-se? se não resultar metem-me um processo. pode ser? é pá, mas isso não está no regulamento! ok. então coloquem em acta que fica à minha responsabilidade. a minha proposta. durante uma semana o miúdo ia ficar comigo. um tempo lectivo por dia. uma semana. assim foi depois de muita luta e debate. tanta gente contra. até porque eu tenho o estatuto de louco e seria um perigo. durante uma semana. e lá ficou. uma semana. para se "curar" como dizia alguém. não, não era para nada disso. era para os meus colegas poderem dizer que se falhar a culpa era minha e o miúdo não tinha "cura". durante uma semana, todos os dias, lá estive com ele. a escola era no centro da cidade. tinha acesso a tudo. fomos ao cinema. a um museu. fomos ver o mar [que ele nunca tinha visto]. fomos a uma livraria. fomos ver um jogo de futebol ao fim da tarde. fomos falar com uns senhores que tinham andado na pesca. passou a semana. reunião. ó colega, diga lá o que fez ao miúdo que ele parece outro. não fiz nada. ou melhor, dei-lhe só duas coisas. como assim? despertei-lhe a curiosidade para o mundo e dei-lhe atenção. e fiz tudo da forma mais pedagogicamente incorrecta que conheço. é louco. pois sou. durante o resto do tempo até ao fim do ano lectivo nunca mais ouvi falar do miúdo. às vezes era ele que, com os amigos, que me ia desafiar para ir ver, outra vez, um jogo ao fim do dia. e lá ia eu colocar a pasta ao carro e ia com eles. percebi nesse ano que a destruturação não estava só na família. estava em todos nós que rotulamos tudo sem ver nada. correu bem. podia ter corrido mal. não importa. o que importa é sempre tentar. para conseguir ou falhar. mas tentar. o sistema não resolve nada se não for por via da mudança. não é receita para nada. até porque, tem apenas dez por cento de hipótese de sucesso. mas...
