||| ... é aquele burburinho no corredor. alguns nervosos. outros de papeis nas mãos como miúdos "grandes". outros com o olhar perdido. um ou outro, com sono. e depois entrar. pelo nome. completo. das poucas vezes em que o sistema os chamará pelo nome. joana margarida silva ferreira. ah... sou eu. o sistema. a chamar pelo nome. curioso. nunca tinha pensado nisto. no futuro, na vida. será o número. de contribuinte. de identidade [conceito tão estranho haver um número de identidade]. sentados numa mesa. um a um. separados por um espaço que lhes diz que é impossível olhar para o lado. que ali vale cada um por si mesmo que lhes tenham dito que juntos são mais. o sistema relembra-lhes isso. cada um por si quando chega a hora da verdade para esse mesmo sistema que não admite o direito de um saber colectivo mais forte do que o saber individual. sentados. a olharem para a hora de começo e fim de uma prova que foi sacralizada durante um ano lectivo. não é o último passo. haverá aulas depois disso. eles sabem disso. é simples. mas quando vejo a sala cheia e o toque soa olho para eles. miúdos. pequeninos. sim, miúdos. e lembro-me de estar daquele lado. não, não me esqueci. e olho para mim do lado do sistema, agora. se por um lado, ser professor, sempre foi mais do que uma escolha uma coisa natural em mim, nunca imaginei que fosse assim. quando estava daquele lado nunca podia imaginar o caminho que a vida me iria dar para percorrer. nem os falhanços. nem as conquistas. os exames que fiz não me prepararam para a vida. o exemplo dos meus professores [e tive muitos e bons e muitos e maus] sim. dos exames só retive essa ideia que ali aparecia, naquela sala cheia de miúdos, como algo claro e limpo. o sistema olha para ti e apresenta-te essa ideia simples: vales por ti. não podes ajudar os outros. não contes com ninguém sem ser contigo. vales x, no final. que vale trinta por cento que fizeste durante um ano lectivo. não esperes nada. o sistema é maior do que tu. és só uma peça. vais perder o nome. ser um número. como ali. entre aquelas centenas naquela escola. em todas as escolas. desejo-lhes boa sorte. no papel para ser lido diz: diga - bom trabalho. eu digo, boa sorte. deve dar um processo disciplinar. não estou a desejar sorte para o exame. estou a desejar sorte para a vida. e que esqueçam aquele momento. e que voltem rapidamente para o corredor. que aquelas horas passem depressa. e venham as conversas e brincadeiras depois. em conjunto. porque aquilo que o sistema lhes nega ali na vida é mais fundamental do que qualquer outra coisa. juntos somos mais. melhores. sabemos mais, aprendemos melhor. mesmo que durante o tempo de um exame isso seja invertido. boa sorte, portanto. sorte. para a vida que é um futuro por revelar. sem exames. com provas e desafios. mas sem exames...
