30/06/2014

||| palavras [im]perfeitas...

cesariny

||| mas que coisa mais estranha...


||| ... via email lá me chegou um jornal escolar. cliquei. abri. espreitei. era o último do ano. vinha com uma novidade. um link. clique aqui. era a nova rádio da escola. não. não era aquela coisa de tocar música nos intervalos. era uma rádio mesmo. andei a explorar. de facto, nisto as novas tecnologias tornam possível o impossível. programas em podcast para serem guardados. resumos temáticos, de matemática a história. entrevistas com personalidades, por telefone ou convidadas. história da música. conversas com professores sobre livros e filmes. e séries de televisão. comentários e críticas. muito giro e muito bom. tudo nascido de um "clube" de rádio. e quando vejo estes sucessos silenciosos para o mundo penso sempre na falta que fazem estes "clubes". de rádio, de teatro, de ciência, do que quer que seja. porque a informalidade da aprendizagem ganha ali, naquele tempo, um espaço único para se libertar. e com dedicação de muitos tudo ganha razão e sentido. e motivação. e identidade. e neste tempo em que tudo se corta e se fecha fiquei imensamente contente por passar um bocadinho de tempo a espreitar uma coisa bem feita, quando tudo parece impossível. apetecia-me criar, para o ano, o "clube de coisas por fazer". um clube sobre criatividade. quem sabe. fica a ideia para outros também. mesmo sem horas ou tempos. mas com dedicação. somente...

||| leituras [im]perfeitas...


||| música [im]perfeita...

||| desta coisa dos palpites...


||| ... estava a ler a entrevista ao expresso. naqueles cinco minutos de pausa para um café porque o meu tempo de atenção é mesmo pequeno. uma pessoa que foi ministra diz que os cursos vocacionais são uma limpeza social nas escolas. por serem aos treze anos. aos quinze já era outra coisa porque permitiram a conclusão de um ciclo de ensino. sempre disse que neste espaço não havia lugar à política. por isso, a minha visão será outra. nem bem nem mal. simplesmente isto. aquilo que salta aos olhos de qualquer um que nos últimos anos tenha estado atento. tudo [re]começou [eu sei, é voltar um pouco atrás no tempo] com os "planos de recuperação". coisa simples que se introduzia para alguns miúdos numa turma com mais dificuldades que todos os outros. depois vem o resto. as turmas de nível. não chegou. vamos meter o "empreendedorismo" ao barulho e a urgente "profissionalização" na escola que, vocação para o mercado de trabalho tem muito pouca desde as finadas escolas comerciais e industriais e onde uma oferta de escolas profissionais verdadeiramente preparatórias para o mercado de trabalho técnico ainda escasseia. lá surgem os cursos profissionais nas escolas de linha geral. e começa a exclusão dentro de uma escola que se chama inclusiva. não por vocação, mas tantas vezes por "comportamento" os miúdos que não "seguiam" a linha geral são empurrados para estas "ofertas". e criam-se diferenciações. há os do regime geral/regular. e os outros. os dos "profissionais". até nos professores isso acontece. ah... tens uma turma dos profissionais. daqui a ainda ser preciso mais uma solução foi um passo. é que a ausência de vocação dá na urgência de novas situações. surgem os chamdos pief's. e agora, indo ainda um pouco mais longe, os vocacionais. e pronto. os sistema descarta qualquer culpa assim. é uma escola inclusiva. vejam lá. até temos cento e trinta e duas ofertas para todos os públicos e todas as situações [o exagero aqui é propositado]. e dá-me vontade de responder a esta senhora que foi ministra que devia olhar e ver verdadeiramente a escola. quando me perguntaram para descrever a escola respondi: um polvo, perdido no labirinto do minotauro a quem raptaram o fio que o pode levar à saída. e não é com soluções de criação de mais uma "via" que isto lá vai. é mesmo criar uma linha, um fio, que nos leve a todos de a a b, com lógica, organização e coerência. com modernidade, inovação e resposta integrada. com lógica. a mesma lógica que falta, agora, a isto tudo...

27/06/2014

||| palavras [im]perfeitas...

ramos rosa

||| há dias diferentes...


||| ... encostei-me à parede. a conversa fluía. sobre tudo e sobre nada. sobre a dieta mediterrânica e sobre o fado. sobre um concerto ouvido. e depois sobre uns livros. sobre o tempo, sobre eles, os nossos miúdos que conseguiram. sobre eles, os nossos miúdos que tentaram. sobre eles, os nossos miúdos, que não tentaram e deviam ter tentado. sobre uma loja no centro. sobre um produto que era melhor do que o outro. sobre a matemática das coisas. e sobre café. sobre os filhos dos outros. sobre os dias. e a política das coisas comuns. era só uma conversa. foram só cinco ou dez minutos. foram só cinco ou seis pessoas que são professores, à conversa. num pequeno intervalo entre coisas por e para fazer. e recordo isto como se fosse uma urgência. esse tempo roubado ao tempo para, simplesmente, conversar. ficou ainda a recomendação para um concerto. não há tempo para essas coisas, dizia-se em surdina. mas ficou. e cada vez mais perdemos mais isto. isto que faz tanta falta. isto que faz da escola um espaço habitado por pessoas. por gente com vida. por convivências para além das funções para cumprir. e percebi a urgência da conversa, uma vez mais. soube bem, aquele pedacinho de tempo. sem regras ou determinações. só mesmo uma pura, limpa e completa conversa entre pessoas que, por acaso, são professores. e sabe bem saber que, mesmo só por cinco ou dez minutos, estes momentos ainda ganham vida. na escola.

||| leituras [im]perfeitas...


||| música [im]perfeita...

||| numa selva, sem ver a clareira...


||| ... percebo, tantas vezes, quando é preciso verificar qualquer coisa do ponto vista legal no contexto educativo que o mundo sinistro do espírito da lei está espalhado em milhares de documentos. é impossível. é quase impossível. deram-me uma licença na faculdade que quase não serve para que eu possa perceber algumas coisas simples. a verdade é que qualquer coisa vem no decreto tal que remete para a lei tal, despacho tal do projecto de lei y. aliena a, ponto três revogado pelo artigo doze de dois mil e tal. é incrível. eu sei que é assim em tudo. em todos os domínios. mas estas leituras e seguimentos da lei são importantes para percebermos o estado a que chegámos. é impossível perceber porque nos pedem isto ou aquilo. ou mesmo, como queria, aceder às minhas funções "limpas" como professor. sempre me questionei sobre isso. se havia esse "perfil" que o estado julgam ser as funções do professor. depois de muito procurar, encontrei. eu sei que há o estatuto. não sou assim tão ignorante no que concerne à minha profissão. mas o que queria era comprar. os últimos quarenta anos. o que mudou na função. nas directivas. perceber a mudança. gostei de encontrar direitos. mas a verdade é que a selva é mesmo maior do que a capacidade de deslindar a natureza do espírito da coisa. curioso. ou melhor, representativo. do estado a que isto chegou...

26/06/2014

||| palavras [im]perfeitas...

maria teresa horta

||| desta coisa de preparar para o trabalho...


||| ... recentemente recebi um convite para ir deixar umas palavras num encontro sobre "empreendorismo" na escola. há palavras que não gosto. esta é uma delas. "empreendorismo", empreendedorismo. com quiserem dizer. respondi que não ia. porque não acreditava. não na criatividade nem na inovação. nem nas ideias para o "mercado". nisso acredito. e sei que há miúdos com imenso potencial para desenvolverem excelentes ideias. geralmente, quando falam comigo sou o primeiro a apoiar. até a ajudar ou a dar-lhes tempo para isso. mas depois vem o resto. os gurus que falam do que conseguem. as etapas para se ser empreendedor. a ideia que criar o próprio emprego é fácil e que é para todos. seguido de coisas que vendem, como por exemplo: seguir os sonhos. é sempre bonito dizer isto a um miúdo na adolescência pois é o que ele ou ela mais desejam ouvir. ao mesmo tempo penso nos pais ou educadores de cada um daqueles miúdos. muitos trabalham as oito ou mais horas num dia, muitas vezes num trabalho que não os apaixona, mas que tem que ser feito para garantir o futuro daqueles miúdos que querem seguir os seus sonhos. há direitos iguais dos dois lados. mas não gosto, nunca gostei, de ouvir tantas vezes nestes encontros: muda de vida. ou a ideia do self-made-man. ou ainda que é chato e horroroso ter um trabalho repetitivo ou pouco criativo. o mundo não é feito só de empreendedores. ou só daqueles que sustentam, com o seu esforço, que merece tanto reconhecimento como a criatividade de uma qualquer ideia, por mais inovadora que seja. não há divisão nenhuma. nenhuns são melhores do que os outros. e nenhuns são mais pioneiros do que os outros. e a escola não deve vender essa ilusão. porque nem todos podem ser empreendedores. nem, às vezes, o devem ser, como é o meu caso. ou devem ser mas nunca menosprezar aqueles que fazem um trabalho diário que suporta uma família, uma comunidade ou um bem necessário para todos. vender ilusões não é o espaço da escola. a escola é um lugar de inclusão. de preparação. não para o trabalho mas para a vida. e é urgente perceber isso. entender isso. incorporar isso. foi por isso que disse que não ia. porque ninguém num encontro sobre empreendedorismo na escola gostaria de ouvir isto que tinha para dizer...

||| leituras [im]perfeitas...



||| música [im]perfeita...

||| não é sensação, é estratégia...


||| ... raramente me "meto" nas disciplinas dos outros no que toca a exames. sento-me e olho para o de história, o meu reino e faço a leitura. todos os anos é assim, até porque, para o ano haverá mais um momento desses. mas este ano não resisti. andei a espreitar e a perguntar sobre os outros, até agora, realizados. fiquei [não vou dizer perplexo pois já não consigo atingir esse estado] mas com o nariz torcido quando vi num exame de história do décimo segundo ano um tipo de perguntas que uso no sétimo ou oitavo ano. deve ser mal meu. ou exigencia demais, então. acho que vou ter que trocar por perguntas para colorir, num próximo ano. estavam lá, no exame, perguntas que pedem para ordenar factos ou simplesmente ligar conceitos. e o resto? o comentário tem sido sempre o mesmo. mais fácil do que o previsto, dizem os miúdos [alguns, também não são todos] e a mesma coisa do lado de quem sabe fazer testes sobre o tipo ou forma das questões. eu creio que nem uma coisa nem outra está bem explicada. não se trata de ser fácil ou difícil. nem bem ou mal feito. é uma estratégia. não é a minha teoria da conspiração. é uma evidência que se torna clara se for preciso validar algo. e é. é preciso dizer que a estratégia desta política educativa até resultou. mesmo com menos recursos e com mais alunos por turma e com mais tempo de aulas e mais cortes em áreas não "nucleares" até se melhoraram resultados. e podemos, de facto, vir a ter esses valores embora eu, sinceramente, desconfie que assim não será ou não será tão claro como estão a pensar que vai ser. a razão? os miúdos estiveram a ser preparados para uma coisa que acabou por não respeitar as regras. mais uma vez. a volta perigosa nem está nos exames, de per si. está nos critérios de correcção. onde muitas vezes cabe tudo. e se forem bem lidos podem ver que é difícil fugir à penalização do não saber em detrimento do muito que cabe em cada coisa que era preciso, somente, repetir. creio que o mais perigoso disto tudo é mesmo este "aldrabar" das coisas. destas coisas que se notam e são evidentes. e são evidentes para todos. para os alunos, para nós, professores e para os educadores. é um sistema que usa estratagemas para conseguir validar-se quase num "auto-elogio" fúnebre. quem perde? todos. isso é que custa ver. todos perdemos.

25/06/2014

||| palavras [im]perfeitas...

neruda

||| desaprendemos coisas, de cansados que estamos...


||| ... há uma frase que devia ser inscrita em todas as paredes: "cada pessoa que conheces está a travar uma batalha que desconheces totalmente. sê gentil." esta é daquelas palavras que estão a desaparecer. da escola. da sociedade. e pior, entre nós, pessoas. gentil. o cansaço faz-nos desaprender a tolerância. faz-nos desaprender a compreensão. faz-nos desaprender a gentileza. faz-nos desaprender a cordialidade. faz-nos desaprender a civilidade. aprendemos rapidamente a responder na ponta da língua. e deixamos de olhar para o outro. o outro passa a ser todos os outros. aqueles que falham connosco. aqueles que nos atacam, de tempos a tempos. perdemos a noção de perguntar a razão pela qual agem connosco daquela forma. para perceber. para entender que, tantas vezes, as batalhas que os outros travam os impedem de conseguir fazer aquilo que dizem querer fazer. assim se passa com os nossos alunos. miúdos que muitas vezes são cercados por problemas maiores do que eles. maiores até do que a sua idade permite compreender. assim se passa connosco, uns para os outros. uns com os outros. em que a tolerância e compreensão dá tantas vezes lugar a uma frase tida ou uma acção tomada sem olharmos para ver o que se passa. facilmente acusamos. facilmente olhamos para tudo como se tudo tivesse que ter a perfeição que esperamos sempre que tudo tenha. e por vezes, tantas vezes, ameaçamos o outro sem sabermos nada. há reuniões assim. imensas. em que palavras ditas em voz alta ferem aqueles que tudo deram para conseguir levar as aulas para além do óbvio do correr dos dias. ou quando fora da escola ou no seu interior julgamos quem educa pela ausência de tempo para os filhos ou para quem deviam educar. esquecemos a vida. até a nossa, e as nossas certezas e falhas, para fazer esse julgamento imediato. e vamos desconstruindo o humanismo tão urgente na escola. em nós. porque nos vamos desconstruindo também. sem dar por isso, às vezes. sem ser claro para nós. tornamos tudo num gesto muito mais agressivo. muito mais bruto. muito mais imediato. e com isto vamos seguindo no caminho de uma nova forma de nos afastarmos uns dos outros. ainda mais. mais um pouco. de cada vez. em cada gesto...

||| leituras [im]perfeitas...


||| música [im]perfeita...

||| das coisas que ninguém vê...


||| ... chega a esta altura e há muito em que pensar. principalmente do que nos temos, mais uma vez que desligar. não somos todos. são apenas aqueles professores, principalmente esses, em regime de contratação. enquanto se espera um lista e depois da lista a possível colocação num outro qualquer lugar sem saber bem o que vai sair na lotaria dos concursos, a verdade é que este é um tempo de desligar. isso vai-se aprendendo [infelizmente] com o tempo. criamos formas de o fazer. não nos "ligamos" tanto logo ao início. transformamos os lugares por onde passamos todos os dias em espaços despovoados de possibilidades. focamos toda a atenção nos miúdos. por cada aula. em cada aula. e é assim que se faz um ano lectivo de trabalho. como se fosse normal, ser assim e habitar a escola assim. criamos espaços comuns com outros colegas. ficamos até com números que se acumulam no telemóvel ao fim de uns anos. deixamos memórias, construídas, nos lugares por onde passamos. diremos um dia em conversa: dei aulas, uma ano, lá. nessa terra, ou nessa escola. e parece simples. mas não é. não é porque é uma negação absoluta do que deve ser a identidade de um professor com uma escola, uma comunidade e um projecto educativo. e ainda nos atiram, de tempos a tempos, uns que acham que por estarem lá para o ano sabem de experiência tudo isto que vivemos na pele: é chato ser contratado. e já nem vale a pena falar em que somos professores. o regime jurídico do nosso vínculo com o estado é que é diferente. somente isso. já nem vale a pena [valerá sempre]. e esse é este tempo. em que o corpo se enche de uma estranho sentimento. mais um ano de dever cumprido. mais um ano de uma estranha e esquecida vontade de acreditar que para o ano, para o próximo ano, podemos voltar a estar ali. com aqueles rostos e aquelas salas. aqueles corredores que já conhecemos e o café que já tem aquele sabor na manhã mais longa de inverno. chega essa altura. ninguém vê. ninguém sabe. só nós, no silêncio secreto da esperança guardada.

24/06/2014

||| toldam-se os olhos donde corre a vida...


||| ... em mil novecentos e vinte e seis, trezentas e quarenta e cinco freguesias não tinham escolas. a primeira república fez um esforço. isso não importa nada. nem os anos seguintes de um estado que de novo nada tinha mas que levou a doutrinação a aldeias onde a escola se tornou um centro à volta do qual a imagem da comunidade lusitana se formou. depois abril. abre-se a escola, finalmente, ao mundo. aos mundos. a todos os mundos. passaram a chamar-lhe inclusiva. e agora estive a ler a lista de escolas que vão fechar. mais trezentas e onze a somar a mais de seis mil que fecharam no intervalo de tempo que vai do governo de barroso a este que agora ocupa o poder. como não podia deixar de ser chamam-lhe uma coisa elegante: reorganização escolar. e dizem, todos, de barroso a estes, que é para bem do povo. principalmente das crianças. novas oportunidades vão ter. um mundo novo vão conhecer. mais paredes, mais pavilhões e imagine-se para espanto das almas incrédulas: uma biblioteca. crianças infelizes estas que habitavam escolas pequenas. com dezenas de alunos. não eram centenas ou milhares, é certo, mas eram alguns. todos chamados pelo nome. num espaço onde podiam ir para casa a pé. ou os avós os irem buscar ao fim do dia para o merecido lanche em casa. ou somente para isso. para estarem no seu espaço. não, não é uma visão romântica ou triste da realidade. é a realidade. é que eu já dei aulas em vários dos locais onde agora vão fechar essas escolas para bem do povo e das crianças. e esses são lugares e comunidades com uma vida própria. nem melhores nem piores do que os grandes centros urbanos. diferentes, apenas. onde os mais velhos anseiam por não ver morrer o local onde nasceram pelo abandono dos mais jovens. já viram sair dos filhos, seus ou dos outros, os que restam ficaram porque tinha que ser ou por vontade própria. e a vida corre mesmo assim. é tudo perto. a escola está ali. ali com a professora que sabe de quem é filho quem está na sua sala. e onde o avô ou a avó esperam, do outro lado da cerca, os netos para o derradeiro caminho por fazer. e quando se tira uma escola desta espaço por mais romântico e utópico que isto possa parecer, o que se tira são os sorrisos. e os abraços. da família, dos próximos, da terra. por muitas oportunidades que venham a ser oferecidas pela "escola grande" nenhuma substitui estas. são miúdos que, em muitos casos, vão passar a levantar-se muito mais cedo. a ter que fazer muito mais tempo de caminho e estão longe dos seus. daquilo que ainda é seu e que um senhor sentado atrás de uma secretária acha que, num mapa, são só dez quilómetros de distância. eu até percebo a questão das "oportunidades". então dote-se estas "pequenas" escolas de uma boa biblioteca, de mais condições, de novas condições. então, é olhar para a coisa ao contrário. reorganizar e requalificar estas escolas "pequenas". valorizar a comunidade. abrir a escola a projectos externos. criar uma rede de intercâmbio entre estas escolas. não é fechar e arrancar a alma que resta a estas terras que são tão importantes como as terras que fazem as grandes escolas e as grandes cidades. verei certamente, porque sei que um dia voltarei a ser colocado num desses lugares longe do centro, o rosto daqueles que vi uma e mais do que uma vez à espera dos miúdos encostados à cerca da escola enquanto do outro lado se ouvia correr e rir. verei nesses rostos, certamente, a falta de vida que o silêncio trará. mas que importa isto para os senhores sentados algures numa secretária. são só pessoas, numa escola pequena sem oportunidades, não é?

||| palavras [im]perfeitas...

maria do rosário pedreira

||| daquele lugar imaginário...


||| ... abri, por acaso, o elogio da loucura, de erasmo de roterdão. estava na estante a chamar-me. tinha lá um post'it antigo. dizia: entregar à joana silva, oitavo a. já tem uns bons anos. nunca mais soube nada dessa aluna. mas lembro-me de lhe ter dito para espreitar o livro por causa das palavras. das que já não conhecemos pois era essa a sua curiosidade. as palavras que já não sabemos o sabor e a lógica. hoje diria que estava louco. dar a ler erasmo a uma miúda do oitavo ano. mas sempre fui assim. acho que é defeito de fabrico como professor. acho que eles conseguem mais do que pensamos. ler mais. ver mais. ouvir mais. que lhes damos o óbvio por ser mais fácil. mais simples. por dar menos trabalho. mas ficam a meio, como digo em reuniões onde já ninguém está para me ouvir. ficam a meio do que podiam ter lido, visto ou ouvido. quando olho para um mapa ou um esquema penso: é complexo para eles. vou ter que perder muito tempo a explicar. tem demasiadas relações a fazer. ou uma fotografia. ou uma imagem qualquer. ainda me lembro de ter levado esta [aqui] imagem para uma aula e ter previsto uma discussão de dez minutos e durou quarenta e cinco. foi-se a aula. é por isso que muitos miúdos no final do ano me perguntam sempre: ó professor mas afinal para que era preciso o manual? e eu respondo sempre: para estudar. para a aula, não. na aula eu uso os meus recursos. o que, no fim do dia vou para casa a pensar que gostava de vos mostrar ou falar. ou que podemos ler aqui. e isso muda de dia para dia. não tenho que usar o que dizem que é bom. o manual é um excelente auxiliar para o estudo. o vosso estudo. como recurso prefiro as minhas escolhas. porque me sinto apaixonado por elas. porque me fazem pesquisar. procurar. saber sempre mais para vos poder transmitir. e porque há sempre um novo registo. uma nova fonte. uma coisa que estava esquecida num qualquer arquivo e agora é tornada pública. uma nova descoberta. e cada aula deve ser um lugar de vanguarda e não de resignação. o que eu aprendi, por exemplo, já está parcialmente errado. eu sei que nunca vou conseguir dizer-vos que será sempre assim o que agora vos estou a ensinar. mas posso dizer que procuro, todos os dias, por aquilo que neste momento a ciência sabe, mais recentemente. mais actualizado. e que permita a leitura que hoje sabemos ser a nossa "verdade". e pronto. o raio do post'it esquecido fez-me pensar nisto tudo...

||| leituras [im]perfeitas...


||| música [im]perfeita...

||| as três dimensões da mesma coisa...


||| ... sempre ouvi dos meus alunos: fogo professor, é exigente. e sempre fui tido como tal. não. não faço "testes". muito menos os faço "difíceis". não é por aí. é por colocar neles a minha certeza e expectativa de superação de um desafio. espero sempre mais deles. e eles sabem isso. como eles, assim, conseguem o direito de esperar mais de mim e de cada aula. é uma troca. uma procura conjunta. eu sou tão exigente com eles como eles comigo. e nada passa por testes ou exames exclusivamente. é feito, no dia a dia, em cada aula. em cada trabalho criado para uma aprendizagem significativa. em cada proposta de superação. e a avaliação é uma troca. onde se deposita a confiança que se cumpriu um conjunto de propostas concretas. verdadeira e não alterada por um qualquer capricho meu ou deles. sempre fui um professor "generoso" nas notas como me disseram sempre. e repito sempre em resposta que cada nota era merecida. porque era conquistada. era partilhada nesse nível de exigência que é, também, expectativa de superação. por isso nunca ofenderia os meus alunos com um exame como o que foi proposto para história, no décimo segundo ano. se a estatística obriga ao sucesso e a política educativa quer mascarar resultados de uma estratégia errada é uma coisa. mas ninguém no sistema criado é parvo. nem nós, professores, nem eles, alunos. e quando se "facilita" com propósitos estranhos a uma lógica de superação e aprendizagem então estamos a enganar toda a gente. mais do que isso estamos a minar a confiança. qualquer professor, qualquer pessoa, com bom senso e bom gosto sabe isto. e quando se fala, em voz alta, no rigor e exigência e se transporta para o momento considerado quase "sagrado" esta estratégia de dar outros números aos números então percebemos que fazemos todos nós, em cada sala de aula, muito mais pela exigência do que qualquer deformado exame que apenas pretende assim, validar uma política educativa que falha a olhos vistos em cada dia que passa. sinto agora que sou, como cada um dos professores que fazem a escola, os guardiões de mais umas coisas. do "tal" rigor. da "tal" exigência. do "tal" conhecimento. da "tal" apredizagem. da verdadeira. sem outra qualquer razão obscura ou estratégia escondida. mais uma vez, o último reduto para o que querem destruir.

23/06/2014

||| um exame de outra coisa. faltou a história...


||| ... quando vi o exame de história deste ano perguntei, num estranho gesto não pensado, se não se tinham enganado e trocado por um de português. não, era mesmo aquele. sou do tempo em que os exames de história eram baseados em metodologias e análise histórica. agora é outra coisa e já percebi que tenho que me adaptar. ou não. ou posso dizer que não gosto. que a melhor ofensa que se pode fazer a uma ciência é retirar-lhe a sua essência e colocar outra no seu lugar. a verdade é que um miúdo com um bom domínio da língua portuguesa safava-se facilmente. não vou pelo: é fácil ou é difícil. é um exame que cumpre uma meta estatística definida por uma entidade estranha e de cabeça de medusa sobre a qual pouco sei para além de critérios de aplicação e correcção. nem vou falar nesses misteriosos propósitos finais. falo apenas na coisa. nas quinze páginas. é muito difícil escolher de napoleão ao fim da guerra com um mapa de uma berlin dividida o que podia ter estado e não estava. estamos a falar de um período histórico enorme. porque este ano o exame não abarca apenas um ano escolar mas dois. e para o ano há mais. mas o que mais me assusta são os documentos. tanta coisa boa que museus, centros de investigação e unidades de trabalho histórico estão a produzir para irem buscar estes documentos. que nem para análise são. repito. este é um exame, essencialmente de português. nisso até não está mal feito. é simples. lendo os textos chegamos a conclusões óbvias. porque são simples. uma conclusão até é actual e está num dos documentos: "portugal, grande potência ultramarina, e podendo por esse facto, ao menos na metrópole, fazer os portugueses desfrutarem de um nível de vida comparável aos padrões europeus, mantinha-se uma vergonha nas estatísticas mundiais: os mais baixos índices de produção e de consumo, as mais baixas médias de rendimento e de salários, de vida económica, social, sanitária e educativa. o mais pobre país da europa, como recentemente fomos classificados." contemporâneo, até. mas tirando essa piada óbvia, custa-me ver a minha disciplina resumida a isto. falta, substancialmente, o exame à capacidade de reflexão, de análise e de compreensão sobre factos e documentos históricos. não é a ordenar acontecimentos relativos à implantação do liberalismo [curioso] em portugal que lá vamos. e posto isto, termino. percebi a lógica. basta saberem ler. escrever. ler e escrever e a coisa fica feita. a história é sempre uma perigosa arma das almas esclarecidas. por isso, é preciso esconder num qualquer canto tudo aquilo que a compõe e com isso limitar o questionamento iluminado e crítico. tudo bem. ou tudo mal. infelizmente.

||| palavras [im]perfeitas...

manuel bandeira

||| olá professor, lembra-se de mim?...


||| ... foi há uns anos. parei o carro num dia de acelerada "pressa" para comprar pão. do outro lado do balcão a rapariga olhava insistentemente para mim. por uns momentos fiquei com aquela ideia: é pá, ainda não estou acabado. mas não era isso. ó professor, não se lembra da mim? sou a patrícia. fogo, é que era mesmo. a patrícia. crescida que ela estava. atrás do balcão. a vender pão. a mim, que tinha sido seu professor. ali nem uma coisa nem outra. nem eu professor, nem ela aluna. só duas pessoas que se reencontravam anos depois de tudo isso. pedi-lhe um café. só para poder conversar mais um pouco. tinha desistido da escola. miúda esperta. curiosa. tinha tido uma filha, entretanto. casado. era preciso trabalhar para viver. claro, é óbvio. mas da minha mente não me saía uma coisa. a nota que lhe tinha dado. geralmente lembro-me disso. tenho uma memória fotográfica e por isso lembro-me destas coisas. tinha sido minha aluno no oitavo ano. tinha terminada com um cinco. bem dado. justo. era uma miúda que sabia estudar. e ali estava ela. a vender-me pão. e eu a rever na minha cabeça todas as potencialidades que ela tinha. a astúcia para um pensamento lógico e contínuo. enquanto isso ela lá me falava da filha. e do trabalho ali que era bom. e das coisas dos dias e dos colegas. sabe professor, aqui também vem comprar o pão a professora eduarda. e a conversa foi fluindo. deixei-lhe o meu email e o meu telefone. nunca mais voltei lá para comprar pão. simplesmente porque deixou de ser em caminho e aquela tinha sido uma paragem fora da norma dos meus hábitos. antes de sair disse-lhe tudo o que tinha estado a pensar. que não devia desistir que estudar. nem que fosse de noite. de qualquer forma. que tinha tanto para dar e para aprender. que estaria sempre disponível para a ajudar fosse como fosse. que ela era uma miúda inteligente. e que só precisava de criar uma oportunidade. hoje, passados quase seis anos dessa data recebi uma email. patrícia. dizia olá professor. só para lhe dizer que terminei um curso de tradução e vou trabalhar para as nações unidas. queria só agradecer-lhe as suas palavras. não desisti como me disse. obrigado. ainda não respondi. não sei o que responder. acho que vou só dizer que não foram as minhas palavras. foi ela. e a vida. e desejar sorte, sucesso e fortuna como faço a todos os que povoam a minha vida para além do correr dos dias. as pessoas especiais. como ela se tornou. e a imagem que tenho dela é ainda daquela miúda curiosa, número dezanove do oitavo ano, que um dia entrou na minha sala de aula. ainda bem que a vida me deu a oportunidade de um dia ser professor. por isto, também.

||| leituras [im]perfeitas...


||| música [im]perfeita...

||| já deu origem a música...


||| ... velhinha expressão. tem [que] de ser... tem variantes. sempre foi assim, é uma delas. a escola está cheia dito. tem que ser assim. sempre foi assim e não me mudam as coisas de um dia para o outro. e quando se dá uma ideia parece que o cosmos todo se pode alterar só porque a nossa sugestão elimina uma "tradição" secular. apetece-me sempre atirar para o ar aquela frase: se a humanidade nunca tivesse mudado ainda estávamos na idade média. mas depois lembro-me do absurdo da frase. que tantas vezes digo aos meus alunos. que a idade média não era idade média para os homens e mulheres daquele tempo. era o seu presente. como este é o nosso. mas voltando ao "sempre foi assim". é quase como uma religião proferida por uns sábios no seu oráculo a qual, nós "jovens" mortais não temos acesso. as nossas ideias são tidas como "rebeldia". no meu caso é mais revolucionário. ainda me lembro de ter ocupado um "conselho executivo" por umas boas três horas com os meus alunos para lhes explicar a "comuna de paris". por isso podem mesmo chamar-me isso. é que uma ideia que pode simplificar as coisas é sempre mal vista. quanto mais complexo tudo se mantiver melhor. demora mais a fazer. há mais "bloqueios" para que as coisas, verdadeiramente, se façam. e isto faz sentido num universo e numa engrenagem em que o cansaço se confunde com resistência. por isso o meu perdão é automaticamente concedido. só não me digam outra vez: é porque tem que [de] ser assim...

20/06/2014

||| palavras [im]perfeitas...


drummond de andrade

||| não há nada melhor no mundo...


||| ...não há, ocupação, maior. não há trabalho mais dignificante. não há, profissão mais bela. ser professor. todos os dias de um ano lectivo. de muitos anos lectivos. de tantos rostos. de tantas conversas. de tantas vivências construídas para o futuro. não há nada mais belo. cada dia é feito de um rosto que sorriu. outro dia feito de uma história triste contada em modo de confidência e amizade. é feito daquela abraço dado pelo miúdo a quem apelidamos de "terrorista" com todo o espanto e carinho do mundo. é feito de surpresas. de dedicação. cada dia. de conversas inúteis entre pessoas que sofrem do mesmo doce mal de serem professores como nós. é feito daquela coisa que se vai ver para apresentar numa aula que se deseja que corra sempre bem. feito do livro lido. da música ouvida. do espanto que falta sempre conquistar. não há profissão mais plena. feita de desafios. de dias bons e dias maus como todos as outras. mas com a diferença de cada dia ser sempre diferente do anterior. de partilhar, horas após horas, a vida com centenas de pessoas em construção. de arriscar experimentar e ser surpreendido. de exigir, cada minuto, a maior das atenções e das dedicações. de ser um trabalho feito em silêncio que só o futuro verá. não há profissão mais bela. quando no final de um ano aquele miúdo de quem esperámos sempre uma mudança, muda. e vem, em silêncio, sem ninguém ver, dar-nos um abraço. dizer obrigado, professor. e olhamos o fim do dia de trabalho com a certeza que temos, de facto, a mais bela profissão que se pode ter. e ainda bem que assim é.

||| leituras [im]perfeitas...


||| música [im]perfeita...


||| um grupo de pessoas afastadas...


||| ...talvez seja o cansaço. talvez seja o modelo imposto. talvez seja o desgaste. talvez seja a estratégia pensada. sento-me cinco minutos sem mais nada. só para ver a cena toda a pensar um pouco. o conselho de turma, como teimam em chamar à coisa, reúne. não é um conselho. é uma dezena de professores sentados ao redor de uma mesa. pessoas. desligados uns dos outros. uns reis. outros a sobreviver. reis no sentido de senhores das disciplinas "nucleares". adoro esta expressão. fundamentais, chegam a dizer e compreendo a leitura. chumbam se assim não for. nas nucleares. depois os outros. ah... também há geografia e história. e educação visual. mas tudo desligado. as pessoas, as disciplinas. os professores. incrivelmente sem uma estratégia comum. por muito bom que seja o director da orquestra é impossível fazer melhor. cada disciplina representa o reino do programa para cumprir. das muitas coisas para fazer. da falta de tempo. da gestão dos conflitos. das aprendizagens conseguidas ou por conseguir. mas tudo estanque. fechadas dentro de si mesmas. e fecho os olhos para os abrir imediatamente a seguir. numa fracção de segundo vejo aquelas pessoas dentro de um casulo onde só impera o eco. gosto sempre de alguns remates, tipo comentários parlamentar: podias ter dito que estavas a dar isso que tínhamos articulado qualquer coisa. mas no fundo, no fundo mesmo, é a organização de um esquema naturalmente apropriado por todos que transforma um conselho num encontro. pessoas que se encontram umas vezes para discutir um assunto. geralmente, disciplinar ou notas. ou então fechados nos seus "departamentos" articulam entre si o que depois faltava tornar visível para os outros. no final tudo se despede. "está feito". para o ano há mais. do mesmo, penso eu. e soam ecos nas mãos de todos. por gritar, para fora. mesmo com todo o cansaço do mundo todos sabemos e sentimos que assim, isolados, não vamos lá. mas ninguém grita. faltam já as forças. o cansaço vai vencendo a mudança. assim...

19/06/2014

||| palavras [im]perfeitas...

almada negreiros

||| ó colega explique lá...


||| ... e pronto... é isto. nestes últimos dias ando sem paciência para o sistema. ó colega explique lá o que quer dizer com isto. e lá vou explicar. acho horroroso ter que explicar uma frase. ó colega mas então não pode ser assim. tem que ser dito como está escrito no regulamento. mas é a mesma coisa. mas não está com a linguagem apropriada. apropriada? insultei alguém. não é isso colega. é que tem que ser como está escrito. mas é a mesma coisa. mas não é. porque não são as mesmas palavras. ó raios mais isto. eu altero então. mas não percebeu, foi isso? a expressão mudou. não é isso colega. tem que colocar como está no regulamento e pronto. ok. assim será. mas posso colocar uma nota final de advertência? como assim colega? posso colocar uma advertência? no final. depende colega, consigo nunca sei o que vai sair daí. eu ia só colocar que o pensamento único tem uma linguagem única que o acompanha. e quem pensa para além da unicidade também tem direito a uma certa liberdade de expressão e linguagem. pronto, colega, já nem sei o que lhe dizer. não diga nada. deixe ir como escrevi que é só a mesma coisa mas sem os "pirlimpimpis" do sistema que fala uma língua estúpida e fechada. isso é que não pode ser colega. tem que ser como está no regulamento. ok. não desisto mas posso dar voto de vencido? como assim, colega... ufa que isto cansa...

||| leituras [im]perfeitas...


||| música [im]perfeita...


||| mas porque não pode ser mais simples...



||| ... é sempre neste tempo que se torna claro para mim, como professor, que tudo é complicado. não, não é complicado. não é isso. é deliberadamente tornado complexo. é assim com os projectos que aparecem. com receitas milagrosas e "metodologias" com etapas e coisas que tais. aparecem e desaparecem. dependem, dizem-me sempre, de financiamento e de objectivos. ok. entendo. mas porque raio é tudo tão complexo. a escola precisa agora de se livrar disso tudo. sinceramente acho mesmo isto. de se limpar dessa torre de babel em que está mergulhada de ideias, projectos e coisas que tais. descer [ou subir] ao mais simples. nos comportamentos, dizer obrigado. se faz favor. com licença. bom dia e boa tarde. regressar às simples regras de civilidade que evitam tanto vários conflitos e confusões. e no conhecimento, na aprendizagens, livrar-se de todas as linguagens esquisitas para dar outros nomes às coisas. basta um bom programa. não é preciso mais nada. mas não. se fosse assim era tudo mais complexo. mais complexo do que uma escola ter trinta medidas para gerir a indisciplina ou não sei quantas reuniões para averiguação do cumprimento de metas para depois serem "secundarizadas" por mais umas quantas de entrega de planificações e mais umas quantas no final do ano, como agora, para avaliação do cumprimento disso tudo? é para mim claro. precisamos de regressar às coisas simples. limpas de toda a imbecilidade do sistema que acha que só os especialistas são capazes de ver o óbvio e que os grupos de trabalho são mais importantes do que as pessoas que querem resolver as coisas com uma ideia, simples. estamos presos nisto. e sair é tão simples que até é complexo que não se consiga ver de tão claro que se torna tudo quando vemos a realidade para além das palavras "caras" que nos enevoam os dias e a linguagem. falta fazer tudo. o mais simples. por isso, até logo...

18/06/2014

||| palavras [im]perfeitas...

josé saramago

||| da perda da inocência e da razão...


||| ...este é o momento em que são revelados no silêncio ensurdecedor das reuniões. ouvia nos corredores da "informação" alguém perguntar a outro alguém: esta escola teve posição x com um tal porcento no ranking e o que diz deste final de ano? tipo medalha. como a sua escola é de valor x pode falar disto. e é este o momento em que tudo se cria. as tabelas se juntam. e as grelhas [que deviam servir para assar sardinhas e nada mais] confluem numa desejada harmonia que transforma a escola numa dependência do instituto nacional de estatística em versão pobre e excel. e quando não se cumprem as metas, nascem as discussões. porque todos somos empurrados para elas. para "elevar" a qualidade e os números que acompanham a qualidade escondem a ignorância de tantos. mas não importa. importa cumprir as metas. impossíveis. ou possíveis. mas cumprir. como se fosse essa entidade abstracta, qual mercados, a guiar o caminho. a meta. não que eu não defenda a evolução da escola enquanto sistema. claro que o faço. só não suporto a tirania desta coisa que transforma tudo nisso e só nisso. num crachá para vender a escola. como se fosse um produto. x numa lista de y. e o resto? o resto são conselhos de turma com discussões "infernais". professores a olharem sempre uns para os outros. para o bem e para o mal. divididos. porque a meta, está lá. e se um diz que se está a marimbar para a meta o mundo inteiro se torna pesado demais para suportar. mas é disto, desta coisa e deste tempo, infelizmente, que está tecido este fim de ano lectivo. que termine depressa. que fique lá na parede o número para ostentar durante o absurdo de um tempo que vai passar. o pior são as cicatrizes. e as vidas roubadas aos miúdos que no meio disto tudo são, tantas vezes, só aquele número na lista de papel, anónimos, como um todo que não define nem descreve a sua escola. hoje pensei nisto...

||| música [im]perfeita...


||| leituras [im]perfeitas...



||| que as há... há...


||| ... quando é demais é falta de respeito. mas a quem posso eu, professor que "superou" já tantos ministros e equipas ministrais, para questionar o sistema onde me integro mais do que o faço todos os dias na minha prática que, dizem, cada vez menos se coaduna com o tal... sistema. é que estou a ver saírem os exames. um a seguir ao outro. e penso. penso no instrumento de controlo e publicidade em que se tornaram. neste bicho de duas cabeças que serve ao seu dono e ao seu escravo. e a mais ninguém. porque nem com pinças lhe podia tocar para além do óbvio. seria muito estranho dizer que toda a escola se tornou escrava deste momento que agora ocorre com a opulência de um momento bacoco. mas que ninguém vê. nunca como agora a frase "o rei vai nú" me faz mais sentido. o sistema empurrou para a escravidão dos "exames" todos. professores, alunos, funcionários, escola, educadores em casa e fora dela. depois serve uma coisa em forma de assim ou assado. nem a dificuldade exprime qualquer exigência. e penso na estupidez inteligente disto tudo. é que todos, tudo, agora na escola, se resume a números. x que superaram. x que falharam. x que abandonam. x que ficam. em percentagem, preferencialmente. e a estupidez assusta-me. porque é tão manipulável que até é evidente. por mais estranho que tudo isto parece, cada vez mais se torna tão evidente que é cada vez mais difícil de esconder, sob o manto enguiçado da exigência tudo o que há para ser visto. não serve o seu dono porque não engana ninguém e não serve mais nada porque não é inteligente. é estupido. e a estupidez, graças aos deuses, foi a razão pela qual, para além da ignorância, que a escola, esse imenso peso da agitação social, foi criada. tempos cada vez mais estranhos, estes. em que todos se parecem querer enganar sem nenhum estar a acreditar que está enganado...

17/06/2014

||| palavras [im]perfeitas...

vinicius

||| era preciso saber ler...


||| ... prometeu. ó professor. lá está você e as suas coisas. sim, prometeu. o fogo. aquele que roubou. tal ícaro. aventureiro. ó professor não estou a perceber nada. pois não, vocês já nem sabem o que são as histórias clássicas. ya professor, diga-me só o que é/era para "meter" na dois ponto cinco. e pronto. basicamente é isto. tudo se resume a isto. o que é que é para "meter" aqui e ali. perceber não interessa. tal como não interessa explicar. parece-me, cada vez mais que isto é uma realidade. não importa explicar porque também não importa [nem tal parece ser do interesse do sistema] que seja compreendido e reflectido. é só uma coisa para "meter" na dois ponto cinco. e essa coisa é ipsis verbis. que é isso professor. fogo já tenho errado. não dei essa coisa. a coisa. para meter lá, na resposta à pergunta. escrita "tal e qual". ah... ó professor, fogo. complica tanto. será? serei eu que complico? ou serão vocês que não dominam o pensamento para descomplicar o que digo simplesmente? professor, o que interessa é responder bem. não miúdo. o que importa é pensar. perceber e compreender. responder é só um acto mecanizado se for como me dizes. professor, já chega. diga lá o que era para colocar na dois ponto cinco. e tudo se resume a isto...

||| leituras [im]perfeitas...


||| música [im]perfeita...


||| foi, sim foi...


||| ... dos vários últimos anos de trabalho no reino da educação este foi o mais difícil. não há outra forma de o dizer. foi mais complexo. o mais cansativo. o mais desafiante. o mais arriscado. o mais perigoso. o mais envolvente. e ao mesmo tempo, tudo isto. baralhado. emaranhado. em dias. e horas. e ideias, e aulas e projectos. e tudo. embrulhado. e o cansaço que agora habita em mim, professor, desfaz-se em cada papel ainda por preencher quando já só resta o sistema e uma ou outra coisa por "entregar". todo o sistema se tornou mais pesado. uma crise arrastada em todos os níveis arrastou também para a escola um cinzento pesado demasiado extenso para tantos dias de tantas coisas. é estranho dizer isto. mas é verdade. se cada dia foi um desafio, foi também uma batalha. e as batalhas são sempre momentos de combate. e de imaginação. duas das coisas mais desgastantes para qualquer pessoa. e é assim. e foi assim. e não há outra forma ou outro nome para dar a isto. foi o ano mais difícil para mim. para a escola. para a educação. e ainda falta cumprir tudo o que resta para fechar este ano e abrir aquele que está para vir. que seja agora. e simples. porque de difícil este já se cumpriu e deixou as marcas nas mãos e no pensamento. e ficaram. como registos. que seja agora. retomemos o trabalho que o caminho ainda está por fazer. que seja agora, feito, tudo o que falta.

16/06/2014

||| palavras [im]perfeitas...

al berto

||| do perigo da liberdade...

 
||| ... ó professor, vamos ter saudades das suas aulas. não vão nada. vão é gozar as férias. ó professor e aquelas aulas livres? aquelas na rua? livres? sim, podíamos fazer coisas. e parei por instantes para pensar nesse lugar de liberdade. que falta sempre ensinar. como se houvesse aulas "presas" e aulas "livres". como se, por dar uma aula na rua, tudo fosse mais feito de liberdade, quando, pela natureza da coisa tende a ser mais pensado e preparado para haver menos riscos. é curioso, isto. e a conversa é sempre boa para criar estes pontos de reflexão. a aula dirigida, pensada em sala de aula, onde até julgava que eles iam sentir essa liberdade de criar é desvalorizada para outra dada num contexto diferente. sempre defendi esta ideia da aprendizagem em contexto. e de facto muda tudo. porque há uma liberdade de olhar, de ver e de sentir que supera qualquer outra para além da liberdade racional e criada artificialmente em sala de aula. uma complementa a outra. eu sei. e é com essa percepção que os miúdos ficam. e ainda bem. porque sem antítese não há síntese. e é bom que eles levem essa ideia com eles. que há momentos em que a liberdade pensada é tão ou mais importante do que a liberdade vivida. e que um programa para cumprir não é tão importante como a liberdade de criar. é igualmente importante. somente isso. e nada mais do que isso...

||| leituras [im]perfeitas...


||| música [im]perfeita...


||| daquela coisa vazia...


||| ... é quase como ver o esqueleto da coisa. só gente. a escola nos dias que se vão passar, sem alunos. há os exames todos. os apoios. as coisas que passam. mas há um vazio que não tem explicação. é o som que muda. é a cor que muda. é a forma das coisas que vai mudando de dia para dia até ao momento em que todos abandonam o espaço e fica tudo para a limpeza. há nestes dias um tempo diferente. é um tempo de mudança. sente-se em cada instante. como se fosse a dimensão imperfeitas das coisas ainda por fazer. enche-se tudo de um trabalho burocrático ainda maior. há a presença constante da "máquina dos exames". e reuniões. e mais coisas que fazem o cansaço chegar aos olhos e aos sentidos. é estranho este tempo e esta mudança que surge nas mais pequenas coisas. até só na simples ausência de uma pressa que toma os outros dias por certo. há muitas coisas para fazer, cada vez mais, mas há também um lugar desabitado que se recolhe neste tempo. aquele da sala de aula. aquele da aula para dar ou das conversas de fim de dia no corredor. a escola ganha um vazio determinante. algo que a transforma no sistema. puro e duro. sem a estranha vida que os miúdos dão à escola em todos os outros dias. e isso está escrito em todo o lado. curiosamente...

13/06/2014

||| palavras [im]perfeitas...

fernando pessoa

||| já houve um tempo em que se festejava...


||| ... ó professor, hoje é festa. ok. desde o primeiro dia digo sempre que sim. que ajudo. à festa. preferia uma celebração mas desisto logo à primeira explicação que tenho que dar da diferença entre as duas coisas. e depois vem o que me anda a assustar. o tema será: e pimba, um tema para eles terem que "aprender" qualquer coisa. há, mas vamos ter umas brincadeiras. e pimba: pedagógicas, claro. para eles "aprenderem" alguma coisa. ah... e vamos ter umas mostras de ciência, música e tal. ok. e pimba: porque não pode ser só brincadeira. não pode? porquê? porque é que tem tudo, agora, que ter um "objectivo pedagógico". uma "aprendizagem"? raios... mas então não é uma festa. é uma aula em ponto grande com coisas diferentes. é pá, os miúdos andaram um ano lectivo a levar com "aprendizagens" e no último dia de aulas: pimba. mais ainda. festa é festa. brincadeira é brincadeira. aprender é aprender. deixem à festa o que é da festa. a celebração. a ausência do cumprimento dos rituais do quotidiano. a quebra nas regras e nas rotinas. mas não... tudo muito organizadinho. daqui para ali. depois para a sala dez, depois mais isto e mais aquilo. festa. está bem. um dia, vou conseguir, fazer a festa no último dia de aulas. sem nada para aprender. só para brincar. festa que é, celebração. porque isso é tão ou mais importante do que tudo o resto. e o último dia de aulas devia mesmo ser um momento de liberdade.

||| música [im]perfeita...


||| leituras [im]perfeitas...


||| desta coisa do universo da imagem...


||| ... nunca escrevi aqui sobre isto. mas faz-me confusão. deve ser da minha natural reserva da privacidade. alguém me perguntava: que achas das fotos da turma que coloquei no meu facebook? e ajudas-me a escolher umas para o da escola? há aqui uma linha que traço. sempre o fiz e independentemente das opiniões continuarei a fazer. posso até [como até já partilhei aqui] tirar fotografias de alguns registos ou momentos que crio ou faço com os meus alunos. mas nunca os partilho identificados. isto é, em que seja possível ver o rosto ou qualquer elemento de identificação dos miúdos. não há, para isto, nenhum regulamento, lei ou norma. é o meu bom-senso a imperar. não o faço também para lhes falar do anonimato. e da importância do colectivo em detrimento do individual. já conhecem as regras. eles. e para mim são sempre muito claras. ofendida a pessoa que me pediu para rever fotografias lá fomos para as da escola. acho que falta mesmo uma lição de história. para perceber o que é público, privado e íntimo. e nos tempos que correm em que os miúdos partilham tudo: de um pé a uma tatuagem, de um gesto a uma foto em grupo, alguém tem que lhes dizer que há esferas na vida em cidadania. e quais são. e como funcionam. e quais são as regras de civilidade para cada uma delas. quando somos nós, professores, os primeiros a confundir essas esferas da vida colectiva estamos a deixar entrar no espaço da escola uma lição por dar. uma referência por criar. e hoje, depois de escolher algumas fotos, para uma instituição que é pública, lembrei-me disto.  pessoal. colectivo. público, privado e íntimo. isto falta "ensinar" à escola do presente e do futuro...