||| ... foi há uns anos. parei o carro num dia de acelerada "pressa" para comprar pão. do outro lado do balcão a rapariga olhava insistentemente para mim. por uns momentos fiquei com aquela ideia: é pá, ainda não estou acabado. mas não era isso. ó professor, não se lembra da mim? sou a patrícia. fogo, é que era mesmo. a patrícia. crescida que ela estava. atrás do balcão. a vender pão. a mim, que tinha sido seu professor. ali nem uma coisa nem outra. nem eu professor, nem ela aluna. só duas pessoas que se reencontravam anos depois de tudo isso. pedi-lhe um café. só para poder conversar mais um pouco. tinha desistido da escola. miúda esperta. curiosa. tinha tido uma filha, entretanto. casado. era preciso trabalhar para viver. claro, é óbvio. mas da minha mente não me saía uma coisa. a nota que lhe tinha dado. geralmente lembro-me disso. tenho uma memória fotográfica e por isso lembro-me destas coisas. tinha sido minha aluno no oitavo ano. tinha terminada com um cinco. bem dado. justo. era uma miúda que sabia estudar. e ali estava ela. a vender-me pão. e eu a rever na minha cabeça todas as potencialidades que ela tinha. a astúcia para um pensamento lógico e contínuo. enquanto isso ela lá me falava da filha. e do trabalho ali que era bom. e das coisas dos dias e dos colegas. sabe professor, aqui também vem comprar o pão a professora eduarda. e a conversa foi fluindo. deixei-lhe o meu email e o meu telefone. nunca mais voltei lá para comprar pão. simplesmente porque deixou de ser em caminho e aquela tinha sido uma paragem fora da norma dos meus hábitos. antes de sair disse-lhe tudo o que tinha estado a pensar. que não devia desistir que estudar. nem que fosse de noite. de qualquer forma. que tinha tanto para dar e para aprender. que estaria sempre disponível para a ajudar fosse como fosse. que ela era uma miúda inteligente. e que só precisava de criar uma oportunidade. hoje, passados quase seis anos dessa data recebi uma email. patrícia. dizia olá professor. só para lhe dizer que terminei um curso de tradução e vou trabalhar para as nações unidas. queria só agradecer-lhe as suas palavras. não desisti como me disse. obrigado. ainda não respondi. não sei o que responder. acho que vou só dizer que não foram as minhas palavras. foi ela. e a vida. e desejar sorte, sucesso e fortuna como faço a todos os que povoam a minha vida para além do correr dos dias. as pessoas especiais. como ela se tornou. e a imagem que tenho dela é ainda daquela miúda curiosa, número dezanove do oitavo ano, que um dia entrou na minha sala de aula. ainda bem que a vida me deu a oportunidade de um dia ser professor. por isto, também.
