||| ... quando vi o exame de história deste ano perguntei, num estranho gesto não pensado, se não se tinham enganado e trocado por um de português. não, era mesmo aquele. sou do tempo em que os exames de história eram baseados em metodologias e análise histórica. agora é outra coisa e já percebi que tenho que me adaptar. ou não. ou posso dizer que não gosto. que a melhor ofensa que se pode fazer a uma ciência é retirar-lhe a sua essência e colocar outra no seu lugar. a verdade é que um miúdo com um bom domínio da língua portuguesa safava-se facilmente. não vou pelo: é fácil ou é difícil. é um exame que cumpre uma meta estatística definida por uma entidade estranha e de cabeça de medusa sobre a qual pouco sei para além de critérios de aplicação e correcção. nem vou falar nesses misteriosos propósitos finais. falo apenas na coisa. nas quinze páginas. é muito difícil escolher de napoleão ao fim da guerra com um mapa de uma berlin dividida o que podia ter estado e não estava. estamos a falar de um período histórico enorme. porque este ano o exame não abarca apenas um ano escolar mas dois. e para o ano há mais. mas o que mais me assusta são os documentos. tanta coisa boa que museus, centros de investigação e unidades de trabalho histórico estão a produzir para irem buscar estes documentos. que nem para análise são. repito. este é um exame, essencialmente de português. nisso até não está mal feito. é simples. lendo os textos chegamos a conclusões óbvias. porque são simples. uma conclusão até é actual e está num dos documentos: "portugal, grande potência ultramarina, e podendo por esse facto, ao menos na metrópole, fazer os portugueses desfrutarem de um nível de vida comparável aos padrões europeus, mantinha-se uma vergonha nas estatísticas mundiais: os mais baixos índices de produção e de consumo, as mais baixas médias de rendimento e de salários, de vida económica, social, sanitária e educativa. o mais pobre país da europa, como recentemente fomos classificados." contemporâneo, até. mas tirando essa piada óbvia, custa-me ver a minha disciplina resumida a isto. falta, substancialmente, o exame à capacidade de reflexão, de análise e de compreensão sobre factos e documentos históricos. não é a ordenar acontecimentos relativos à implantação do liberalismo [curioso] em portugal que lá vamos. e posto isto, termino. percebi a lógica. basta saberem ler. escrever. ler e escrever e a coisa fica feita. a história é sempre uma perigosa arma das almas esclarecidas. por isso, é preciso esconder num qualquer canto tudo aquilo que a compõe e com isso limitar o questionamento iluminado e crítico. tudo bem. ou tudo mal. infelizmente.
