07/07/2014

||| cinco aulas para prevenir...


||| ... para terminar um conjunto de "pensamentos absurdos" sobre a questão da indisciplina partilho aqui uma visão prática para as primeiro cinco aulas. é coisa que uso. com adaptações, claro, mas geralmente com a mesma lógica sequencial e temática. ao longo dos anos foi um dos elementos que tenho mantido na minha prática. não são boas ou más estratégias. nem isso são. são coisas que faço. nada mais. nem sei se podem ser replicadas. mas podem, como acho que todos devemos fazer, podem ser partilhadas...

... como tenho a sorte [ou o azar] de nunca ter estado numa escola mais do que um ano fruto de um sistema de colocações e coisas que tais que me impele a isso parto sempre da lógica de: ano novo/turmas novas. 

... aula um // apresentação. raramente apresento conteúdos ou regras. uma folha em branco distribuída a cada aluno. e o pedido para escreverem ou fazerem naquela/daquela folha o que desejarem desde que os represente. já tive de tudo. de textos de página completa até a folha rasgada em pedaços e assim apresentada no final do desafio. esta abordagem permite-me fazer sempre uma leitura do que me espera. aluno a aluno. é totalmente livre e descomprometida. um regra é estabelecida em conversa aberta e franca: o respeito. a linha inultrapassável ao longo do tempo de trabalho que ali começa. não é uma regra imposta. é de definição. um compromisso sem negociação. é o limite. o resto é mesmo só uma conversa. no bom e velho sentido do termo. uma conversa de abertura para um ano de trabalho em conjunto.

... aula dois // diagnóstico. não. nunca faço testes diagnósticos. ou coisas parecidas. logo aí começa o meu conflito com as regras dos "departamentos" mas isso são outros mil. é um diagnóstico à capacidade de trabalho individual e do grau de "coerência" da turma/grupos de trabalho. isto é, com um desafio inicial, individual, testo a capacidade de resposta dos alunos a nível individual. geralmente faço-o com uma caminhada exterior. ao património local. nessa caminhada faço os três testes que preciso para poder construir desafios que se enquadrem naqueles miúdos. uma análise individual é feita pela desafio pergunta-resposta [oral e escrita] sob forma de romance "a la dan brown". depois, o desafio de grupo. dar a possibilidade de criação livre de grupos é perceber imediatamente as relações pré-estabelecidas. pode ser a criação de um mural num determinado local pré-escolhido e pré-preparado. por grupo e em grupo. feita esta análise tratamos da relação da turma consigo mesma. se tem identidade, cooperação ou estrutura. isso é feito com o processo de decisão por unanimidade de qual é o melhor trabalho no final da aula. uma decisão por votação de "braço no ar" depois de discussão plenária. tudo isto corre [dependendo naturalmente das turmas e dos miúdos] geralmente numa espécie de dúvida/confusão. o que é bom, para mim, que estou a analisar tudo. feito isto registo estes elementos que não são estanques e são apenas um ponto de partida para o trabalho que terei que fazer nas aulas seguintes. este "teste" que passará a "monitorização" será necessária repetir em momentos seguintes no decurso do ano lectivo.

... aula três // construção. geralmente é nesta aula ou na seguinte que surgem os conflitos mais fortes. é simples, a não determinação das regras permite-o. resta só o respeito. então é preciso isso mesmo. construir uma turma para aquela disciplina. no meu caso, história, geralmente. construir uma turma passa por "gastar" uma ou mais aulas para o fazer. esta é a primeira. e a primeira é um desafio colectivo de construção de um projecto para um ano lectivo. geralmente levo cinco tema: ajuda, acolhimento, mudança, superação ou invenção. daqui eles podem criar o que quiserem. e "perdemos" uma aula nisto. a definir papeis depois de escolhido o tema. nada está ligada ao programa a cumprir. é um elemento extra. é um projecto. em que a turma se envolve e em que cada um terá um papel. e será guardado sempre tempo para isso. não são projectos teóricos ou temáticos. são acções colectivas. a história serve só de desculpa. pode ir de "reinventar" a porta a apoiar uma associação. pode ir de preparar uma exposição a organizar uma conferência. pode ser tudo. é uma rede, como lhe chamo. que liga. que permite a construção de identidade. e é um desafio feito por período lectivo. um para cada período pois permite a mutação de interesses e a evolução que acompanha a evolução de construção da "turma".

... aula quatro // identidade. esta é a aula do primeiro desafio individual depois de definido o colectivo. geralmente escrevo no quadro. "o tema será: ele é bom/ela é boa". também, geralmente esse é o tema do primeiro período. depois seguem-se outros. basicamente os miúdos terão que escolher uma personagem (histórica ou historicamente contemporânea) de quem são fãs. e saber tudo o que há a saber sobre essa mesma figura. o desafio consiste em apresentar esse trabalho, no final do período [a valer muito no peso final da nota - digo sempre em brincadeira séria], mas de todas as formas possíveis e que consigam imaginar mas sem ser um trabalho escrito. todas as formas são possíveis menos escrita. mas há aqui uma regra que cumpro sempre. esta será a única aula em que falarei nisto e neste trabalho. esclareço todas as dúvidas e nunca mais [re]lembro os alunos. geralmente o que acontece é que no final do período um deles lembra-se que há este trabalho para fazer e lá vai uma corrida para o cumprir. mas é assumir a questão de confiança e responsabilidade, assim como, de autonomia. assim será sempre em qualquer trabalho e essa percepção começa aqui. o meu papel como professor não é ser "lembrete" como lhes digo muitas vezes. a responsabilidade começa aqui e tem que ser ensinada em momentos como este.

... aula cinco // atenção. a última das cinco aulas que "gasto" nestas actividades que me ajudam a "gerir" e criar uma relação com a turma e cada um dos miúdos é, geralmente, "gasta" no não fazer nada. vai parecer altamente estranho mas é mesmo isso. geralmente "entrego-lhes" o desafio de criarem aquela aula. que pode ir de uma caminhada a uma conversa. mas que tem sempre um exercício inicial. os primeiros cinco minutos são de leitura de um texto. tenho duas versões para este momento inicial. ou escolho um livro [geralmente o "as aventuras de huckleberry finn"] que nos vai acompanhar até ao fim do ano. ou textos soltos. cinco minutos em que os miúdos estão em silêncio. a ouvir. às vezes desafios para posições curiosas. de olhos fechados. em cima das cadeiras. de costas uns para os outros. dependente dos textos e da forma dos mesmos. ao longo do ano as aulas terão momentos destes. em que eles, comigo, vão trabalhar a concentração/atenção. e com esta aula terminam as aulas de trabalho de construção do que será um percurso a criar ao longo do ano lectivo. fica a ideia. somente isso.