28/07/2014

||| clique... e números...


||| ... [aqui]. há professores e professores. e há os cliques. há anos que é assim. eu sou do tempo de fazer viagens por portugal para ir aos mini-concursos. muitas vezes de mochila. outras de lancheira. uma sandes e lá se ia da covilhã a portalegre. de évora a coimbra. concorrer. desistir, diziam com ar sábio, podia ser por carta. ao menos isso. agora são os cliques. e os códigos das escolas. e começa hoje essa tarefa para milhares de professores. ir ao "sistema" colocar "preferências". chama-se "manifestação de preferências". tudo isto tem um nome fantástico. as palavras são coisas fantásticas. o que qualquer professor contratado que está por lá a preencher aquilo com códigos de dois, três e mais dígitos, em primeira, segunda ou terceira prioridade, quer é mesmo ficar numa qualquer. e faz cálculos. olha para o mapa vezes sem conta. estreita o google maps vezes sem conta. faz contas. são x quilómetros para cá e x quilómetros para lá. vai metade do ordenado só para viagens e combustível. e isto se for possível fugir às portagens que agora estão por todo o lado. e faz isto dezenas de vezes. e liga ao colega e pergunta como é o caminho. e volta a olhar para o mapa e para as pessoas que estão ao seu lado. e abana a cabeça. vão doendo os olhos. petisca umas amêndoas ou uns biscoitos quaisquer. faz uma pausa. cansa. desgasta mesmo. finalmente, depois de centenas de códigos "carregados" há um botão que diz: submeter. e pergunta mais uma vez a si mesmo e a quem tem por perto: achas que faço bem em concorrer para ali? são cento e tal quilómetros de casa. a resposta é a mesma há uma dezena de anos. sim. tens que tentar tudo como isto está. e lá se clica. secretamente espera-se por uns instantes que por um milagre qualquer apareça um janelinha a piscar e a dizer: ficou, perto. onde queria. mas não. sai um "recibo". e a espera. por mais um mês. para ver se as preferências ficaram por cumprir. ou foram cumpridas. e desejar que só desta vez se fique melhor do que no ano anterior ou no ano antes desse ou nos dez anos antes desses. tudo com fundo verde. ironicamente para brincarem com a esperança. e isto ninguém sabe. e isto ninguém vê. mas isto é também o que é hoje, em portugal, querer ainda ser professor. só mais um ano. por mais um ano. ter emprego. ser professor.