04/07/2014

||| da indisciplina ... nove de nove...


||| ... para terminar esta reflexão mais ou menos conseguida sobre a questão da indisciplina surge a necessidade de fazer uma explicação complementar. considero um acto indisciplinado aquele que quebra uma ordem instituída e apropriada por todos no contexto de uma relação pedagógica estabelecida com base em regras úteis e necessárias. não entra aqui o conceito de "má-educação" ou de "mau comportamento". explico a razão. a má-educação ou mau comportamento são frutos de uma educação primária. isto é, dada em contexto exterior à escola. são um espelho e não uma identidade. gerir esses comportamentos, geralmente materializados em acções é algo que envolve mais do que a relação pedagógica. envolve uma determinação de acção para a cidadania. envolve mais do que um professor e um aluno. envolve educadores e a comunidade escolar como um todo. é por isso que limito aqui a indisciplina nesta relação de um para um. de professor para aluno. ou de um para muitos. de professor para alunos e de alunos entre si, assim como, de alunos para com o seu professor. foi nesse sentido que escrevi estes nove pontos de análise e não qualquer outro mais alargado. é nesse sentido que estabeleço estes últimos três olhares.

... numa sociedade em profunda mutação como a nossa, embora lenta e urgente, deparo-me muitas vezes com "utilizadores" do espaço escolar em segunda geração. passo a explicar. muitos dos educadores [envolvo aqui pais e todos os outros agentes "familiares"] foram uma primeira geração que tiveram acesso à escola. a escola para uma elite burguesa ou de burguesia tradicional existiu durante um tempo histórico e este acesso é aberto muito mais recentemente do que se pensa. a escola inclusiva é o seu expoente máximo e com ela novas necessidades emergem. novos campos de actuação. novos lugares desconhecidos. e ainda bem...

... sete. coerência/consistência // um dos principais factores para a determinação das regras que dão ordem num contexto de aprendizagem é mesmo esta da coerência de actuação e da consistência dos actos. isso passa por algumas coisas muito simples mas por isso mesmo esquecidas muitas vezes que se revelam determinantes para alunos e professores. a coerência de actuação é uma realidade urgente. muitos professores defendem actuações concertadas. iguais. não penso que seja por ai. penso antes que a coerência de actuação deve ser dividida em dois níveis: geral e concreta. até aqui é óbvio. o que quero dizer é que a coerência de actuação perante actos de indisciplina deve ser tomado por todos os professores como um modelo. outra coisa é a actuação de coerência concreta que diz respeito ao modo, forma e espirito que cada professor, de acordo com a sua personalidade pode revestir essas práticas e as suas práticas pedagógicas. deve existir uma coerência partilhada e evidente sendo possível que esta se manifeste em diferentes formas de acção e/ou comunicação. outra coisa é a consistência. falo aqui num misto de interpretação entre a estabilidade, a firmeza e o estabelecimento. neste campo não é dos professores que se espera essa consistência embora tal tenha que existir. é dos alunos. é transferir para eles, tendo eles a noção da coerência de actuação dos seus professores essa estabilidade de actuação, essa firmeza de acto e esse estabelecimento de limites que urge criar. quando um professos, consistentemente, espera algo dos seus alunos e age em conformidade e coerentemente há uma ordem estabelecida que, aceite por todos, permite uma consciencialização para o trabalho que raramente se quebra. tenho essa experiência pessoal de vários anos com turmas ditas impossíveis. digo quase sempre que estes são os passos mais complexos de dar mas também os mais importantes. criar coerência e esperar consistência. esta combinação leva a que os alunos encontrem uma lógica inerente ao trabalho necessário. e vejam que as regras, mesmo que sejam só regras simples, se encaixam nessa lógica. muitas vezes saltamos este universo por ser demasiado difícil de criar. mas sem ele, o castelo da ordem é frágil e facilmente se desfaz. "penso eu de que..."

... oito. apropriação/partilha // na era das "redes sociais" e da "partilha" de tudo e mais alguma coisa os alunos, na sua maioria, ainda estão longe de transformar práticas racionalizadas em actos concretos. em primeiro lugar porque, como referi ontem, a questão da identidade é urgente. dar à escola um sentido, uma identidade, dar a cada espaço disciplinar essa mesma identidade é um percurso que é necessário resgatar. não é óbvio hoje que a escola seja útil. como não é óbvio o benefício, lógica e aculturação possível em cada área disciplinar. como não é lógico ou óbvio que haja necessidade de partilha de conhecimento ou de apropriação da utilidade dos mesmo num tempo e num espaço como aquele que é vivido e passado na escola. muitos os actos de quebra da ordem, representações da indisciplina vivida são afrontas a esta realidade. a transposição de comportamentos exteriores à escola num espaço que tem as suas regras leva a isso. e muitas vezes é só isto. essa transposição clara e linear de um tipo de comportamento de um tipo de vivência/aculturação, para outro, neste caso, a escola. a afronta é tida como "má-educação" quando representada neste desajuste de realidades. ofensa mesmo. porque o é. porque o é intencionalmente ou não, é. é um comportamento ofensivo e desviante. a razão? muitas vezes só uma. falta da apropriação da identidade do local onde ocorre e das regras que deviam ser conscientes. essa identidade é fundamental. repetimos vezes sem conta: estás na escola não estás no café. mas o café também tem as suas regras. e muitas vezes uma identidade mais construída do que a escola. e isso falta. no contexto educativo isso é construído por dois elementos: as regras necessárias [que já falei anteriormente] e a partilha. a partilha é a rede que tece as ligações entre todos os elementos de uma comunidade escolar. a necessidade do outro como agente para a aprendizagem ou simplesmente para a convivência. e isso está por fazer pelos alunos. pelas famílias [pelos educadores] e pela escola. reconstruir a identidade através das redes de partilha é um passo fundamental. "penso eu de que..."

... nove. significado/sentido // este é o último dos nove pontos que me lembrei de pensar. não há nenhuma ordem neles ou hierarquia. podiam ser muitos mais como necessariamente serão para uma análise maior. mas não era isso que queria fazer aqui. era só pensar nestes. nove. e foram nove como podiam ter sido menos ou mais. o acaso aqui é rei e senhor. e a [i]lógica disto tudo também. são só reflexões para um significado. e é esse significado que penso contribuir para muitos actos de indisciplina. ou a sua ausência, melhor dizendo. com programas impossíveis, turmas "super-dimensionadas", menos recursos [de todo o tipo], o sentido dado à escola e o significado de cada aprendizagem tem que valer no seu contexto. pelo desafio interno. mais do que qualquer fundamento anteriormente válido: tens que estudar para seres alguém ou para arranjares trabalho. a escola, alunos e professores precisam urgentemente de definir esta utilidade significativa para as aprendizagens no interior da escola. e dar esse sentido a tudo o que se aprende, desafia e cria. utilizar todos os espaços da escola, dinamizar a escola como organização, promover a lógica do trabalho para a resolução de problemas, pensar e fazer da escola um espaço de investigação, de criação, de praxis mais do que urgente permite dar esse sentido para envolver na construção da escola como lugar de estar e pertencer. e não são só os alunos. são todos os agentes da comunidade escolar. dar sentido permite minorar a indisciplina porque não se quebram as regras e a ordem sem um significado evolutivo maior. essa é a boa indisciplina. a evolução. a inovação. mas o caminho até lá chegar ainda é longo. ainda está por fazer este "combate" à indisciplina pura e dura. mas nenhuma organização como a escola tem a capacidade, competência e o saber para transformar tudo isto num instante. basta querer. ou melhor. basta começar. "penso eu de que..."

... no próximo texto indicarei a forma como coloco em prática, nas primeiras cinco aulas, esta visão para um trabalho contínuo e continuado em contexto de sala de aula.