||| ... a visão que estou a tentar analisar neste decompor da indisciplina é preventiva. raramente penso de outra forma. os factores determinantes para evitar esse limite que é a quebra da ordem pelo incumprimento da regra. em nenhum caso estamos num acto fortuito de julgamento ou simplificação. é só uma reflexão sempre com estes roteiros de pensamento muito presentes.
... não tomar nada como adquirido é um dos princípios básicos desta reflexão. assim o é na lógica de transmutação das ideias básicas que temos como asseguradas pelas diferentes visões e perspectivas sobre o universo educativo e teorias a estas associadas. aqui, espero, tento fazer também a desconstrução das mesmas numa lógica de ponto médio. de encontrar essa lógica média para uma visão mais alargada partindo do "terreno" para a reflexão.
... quatro: a dispersão // sempre, na escola, houve lugar à dispersão por parte dos alunos. negar esse facto é não ter uma visão global do que é um espaço onde a juventude habita. conceito este, de juventude, levada no que o século vinte lhe foi trazendo como caracterização. a dispersão alargou-se, dizem uns. por via das novas tecnologias. telemóveis, internet, redes sociais, actividades paralelas à escola. tudo a contribuir para a dispersão. principalmente da informação. e principalmente das relações directas tidas como "naturais" no contexto de escola. ligação directa - professor/aluno e aluno/aluno. há aqui dois factores que devo referenciar como alvo de reflexão. em primeiro lugar o adquirido que ontem falava. não podemos ter como adquirido que todos os alunos conseguem o mesmo grau de acesso a esses factores. não é assim, e não é essa a realidade. há diferenciação social, também aqui. e por outro lado o acesso à informação não é sinónimo de acesso ao conhecimento. este ponto de fuga é fundamental para a reflexão sobre esta ideia de dispersão que muitas vezes gera, em ambas as partes: professor e aluno, uma ideia de quebra da ordem. ordem essa em que o professor é o detentor da informação promotora do conhecimento e o aluno é visto como o "aprendiz". não há, aqui quebra nenhuma se a lógica de trabalho for alargada. isto é, se for possível considerar que a construção do conhecimento parte da informação e a informação por si só é apenas motor e combustível para esse conhecimento. estes factores são, de facto, recentes. e claro que as tecnologias da comunicação e informação e a mobilidade das mesmas trouxe para a sala de aula e para a escola uma nova realidade. acima de tudo a rapidez e disponibilidade do acesso. o que se confunde cada vez mais é mesmo isso: informação não é conhecimento. e acesso não quer dizer que se tenha domínio e técnica de análise dessa mesma informação. aqui nascem muitos dos conflitos que geram, muitas vezes, actos de indisciplina. quer pela dispersão natural do grau de imensidão da informação, quer pelo desvalorizar dessa mesma informação necessária para o conhecimento por estar sempre acessível. em alguns casos a articulação entre ambos os factores é determinante. é aqui que o efeito de gestão do conhecimento pode ter um papel determinante. "penso eu de que..."
... cinco: distracção // se uma coisa é a dispersão outra é a distracção. não são uma e a mesma coisa. nem parecidas. nem perto uma da outra estão. podemos pensar que a dispersão leva à distracção. mas o que leva à distracção é sempre a falta de capacidade de concentração e de foco. por muitos elementos de dispersão existentes com um bom domínio da capacidade de concentração, análise e focagem podemos dominar a dispersão e gerir a distracção. este é um daqueles factores que, como professores, muitas vezes temos como conseguidos à priori [falei disto ontem]. temos como adquirido, vezes demais, que os alunos aprenderam e treinaram a capacidade de concentração/atenção. isso raramente acontece. ver o aluno como estudante é uma coisa que acontece tarde. o estudante aprendeu e treinou a capacidade e as competências necessárias para estudar. isso não são coisas naturais. não "nascem" com "eles". devem e precisam ser trabalhadas. a curto, médio e longo prazo. em etapas concretas e com objectivos claros. e esquecemos isto. é verdade que isso é quase impossível com turmas gigantes. sim, é verdade. o que não quer dizer que não seja urgente pensar nisto. mais do que pensar criar estratégias para a determinação destes momentos para focagem e concentração. a distracção é natural em miúdos que, como estes neste tempo, nasceram cheios de apelativos desafios visuais, sociais e de consumo. mais quando os tempos são de exigência social. ou ao mesmo tempo de expectativa de futuro. ou ainda de "fama" imediata vendida a uma juventude que procura esse "aparecimento" a qualquer custo. à escola não deve caber a gestão da intervenção social. mas deve acompanhar a forma como gere a identidade social no seu contexto e a transforma para o futuro. esquecer a aprendizagem da concentração por existirem demasiados factores de distracção incontroláveis é meio caminho andado para estar a um passo do surgimento de casos ou atitudes de confronto muitas vezes tidas como indisciplina. "penso eu de que..."
... seis: identidade/referência // tomando como ponto de início para este item de análise tomemos este modelo social referido no ponto anterior. e num tempo em que o sistema considera cada vez mais o professor como um recurso humano temporário e substituível, a ideia de criar identidade/referência pode parecer um absurdo como elemento para a prevenção da indisciplina ou de atitudes tidas como tal. o mau comportamento e a má-educação são coisas que falarei no último texto. estou aqui a referenciar factores de indisciplina. e este parece-me fundamental. ao professor, nos tempos que correm, é pedido tudo e mais alguma coisa. e para além desse tudo e mais alguma coisa é ainda colocada uma carga burocrática acima da média que lhe retira tempo para o essencial. esta questão simples. simples mas determinante. se a função pedagógica for vista como uma tarefa ou conjunto de tarefas a cumprir facilmente esta identidade/referência se perde em miúdos cujas referências estão em constante mudança e questionamento. o professor como referência e a aula/disciplina como tendo uma identidade própria são urgentes e são elementos estruturantes para uma prevenção da quebra da ordem. passo a dissecar a coisa. um ano lectivo é composto por centenas de aulas. centenas/milhares de actividades pensadas pelo professor para os seus alunos. um programa para cumprir. regras para trabalho individual e colectivo. a turma como grupo. a somar a isto há a questão do que chamo identidade. dar uma identidade própria à disciplina/área temática e às aulas vistas como um percursos feito de desafios é essencial. dá segurança. cria lógica. permite aos alunos saberem com o que podem contar. o que podem esperar. e identificar-se com a lógica de trabalho. apropriar-se dos modelos. por existirem tantas disciplinas e tantos professores em vários ciclos esta noção permite conhecer e perceber as regras e a ordem. os limites de actuação disciplinada são claros para todos. até para o professor. a gestão das expectativas é assim passível de ser realidade de forma clara e precisa. a construção desta identidade/referência é feita ao longo do tempo. e permite, de forma muito simples, clarificar essa posição de cada um no dia-a-dia de trabalho. pode até incluir a surpresa ou a gestão dos objectivos por superação o que enriquece ainda mais esta realidade a ser vivida ao longo do tempo. "penso eu de que..."
