05/09/2014

||| das lições da história das coisas...


||| ... e fui lendo e ouvindo. em conversa ou em sussurro. "pior não pode ficar". e isto foi no ano passado. e eu, com aquele humor negro que às vezes me salta da boca dizia: "ainda falta a parte em que queimam papéis. esperem." na história, quando um regime está em fim de linha, há sempre alguém, em algum gabinete que queima papéis. os rastos das coisas. era e é só uma imagem. agora é mais moderno. há umas máquinas que transformam os papéis em tirinhas. tirando a ironia disto tudo, digo que novamente que ainda nem aí estamos. abro o mundo virtual para o espreitar pela manhã. as notícias sucedem-se. erros nas aplicações para colocação de professores. prazo alargado mas a coisa não está melhor. ou está melhor às quatro da manhã para desespero de tantos. menos de vinte e quatro horas para dar uma respostas. directores em modo de "farmácia de serviço". reuniões gerais em pavilhões onde se escuta: aproveitem que o trabalho está a faltar para todos. mesmo que muitos tenham dez níveis numa disciplina. e horários por preencher. escolas ainda a aguardar orientações que não sejam só: este professor vai para aí. rescisões criadas em minutas feitas em copypaste. estamos nisto. e não. ainda não estamos na fase de queimar papéis. embora cheire a saída da equipa que desgoverna o sistema, de si, maquiavélico, ainda estamos noutra fase. no "pouco importa". há nos regimes historicamente em declínio um momento em que quem governa decide entre quatro paredes. não, não é como sempre. é diferente. é que mesmo no início, quando as quatro paredes mostram a quem governa uma realidade diferente do que a que cada um vive fora daquele espaço mas ainda há uma ligação com o real. com o dia-a-dia, nem que seja pela memória de trabalho. aqui, estamos na fase em que esse desligamento aconteceu. a plataforma está a dar erro? não importa. está tudo normal e que tudo se corrige. porque já deixaram, verdadeiramente, de interessar as pessoas. os professores que estão do outro lado. é o sistema. é assim. e este alheamento da realidade é que leva ao declínio profundo do governo da coisa. porque é a fase em que quem está do lado de cá olha para tudo e só vê absurdo e desconsideração. em que o desgaste mata a pouca ou nenhuma fé que existia na lógica que diziam haver nisto tudo. e por isso os erros sucedem-se. e por isso, o desrespeito é maior. nos gabinetes tudo se passa a resolver com uma correcção. rectifica-se. não importa o erro, importa o fim. por cima de tudo e de todos. não importa a hora a que se telefona, o dia em que se publicam as listas. isso  não importa. importa que aquela realidade desligada já da realidade das coisas se mantenha [aparentemente] viva. o problema final é só um. e já aconteceu. é que já ninguém os ouve. já ninguém acreditada. há só um sentimento brutal de afastamento, raiva e desconsideração. e sim, é aqui que se segue o queimar dos papéis. mesmo que ninguém o veja. mesmo que pareça que vai tudo ser cumprido. queimou-se tudo. o futuro, também.