25/09/2014

||| desculpem, mas enganam a quem?


||| ... o que vejo nos rostos é um cansaço de fim de ano. os olhos vermelhos. o tempo passado em movimento. sem tempo para nada. dez turmas. onze turmas. nove turmas. cento e muitos, duzentos, trezentos alunos. e a invenção do absurdo nas mãos. os vocacionais sem vocação. nós, sem preparação. e sem tempo para ela. e ainda é só o início. e ainda bem que nem todos estão neste espaço, nem neste tempo. que se salvem alguns. a escola engrandeceu. ou formos nós que diminuímos. sim. somos menos. se olhar, em volta, na sala dos professores, vejo que somos mesmos. os mesmos, não há rostos novos. há poucos rostos novos. todas as estratégias gastas, às vezes, em dez minutos. e um dia com horas a mais. demais. e olhar para as coisas sem as ver. sem as ler. dizer que sim. tentar compreender o que pedem. já nem isso é fácil. aceitar mais uma coisa para fazer. não desistir, diz a mente. olhar para os miúdos e ver que a culpa não é deles. podiam ajudar, mas não é deles. é do monstro. do sistema. que é um monstro. atirar para as calendas gregas a conversa pedida. o filme para ver. o livro para ler e trazer para a aula. conseguir gerir cada lição. nem que seja por uns minutos. não ter tempo para responder a perguntas. abrir e fechar a porta e dizer que podia tudo ser diferente. começar a aula a desejar fazer aquilo que gostava mesmo de fazer. olhar para o relógio e ver que o tempo passa. depressa demais. largar um sorriso para uma delicadeza rara de alguém, até de um miúdo inesperadamente. ver nos outros, os outros. não reconhecer o grupo. responder a um pedido de ajuda de alguém como eu: já nãos sei o que fazer aos tipos do vocacional. passam de miúdos a entidades. perguntar como gerir tudo isso e dizerem-me que não há receitas. que ninguém sabe muito bem o que é para dar ou fazer. mas que tente. e tentar. uma vez e outra vez mais. e perguntar no fim: desculpem, mas enganam a quem? deve e só pode ser um engano reservado para a estupidez dos números. porque tudo o resto é tão claro que qualquer um vê. sorrir, mesmo assim, porque aquele miúdo, disse tudo certo e rematou com obrigado. e no final, fechar os olhos e perguntar: onde estou.

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