03/09/2014

||| do bunker ou da ausência da realidade...


||| ... a resposta [aqui]. pronto. está tudo bem. é preciso fazer os horários. ver os professores. e há noventa dias para se ser desempregado. não é preciso ir a correr. disse uma vez que este espaço não seria para considerações políticas ou de "governança". nem gosto da pessoalização da coisa. é por isso que vou alargar esta reflexão. há um momento em que sabemos que estamos ultrapassados pelas circunstâncias. aquele que todos lembramos. no iraque. em que o ministro dizia que estava a ganhar a guerra com os militares a poucos quilómetros. ou quando o reich era bombardeado às portas e o mestre de cerimónias movimentava divisões no mapa que já não existiam. estes são aqueles exemplos radicais. mas há outros. mais simples. quando um professor diz na sua sala de aula qualquer coisa que a ciência já provou não ser assim. porque as coisas vão evoluindo. ou simplesmente porque estamos desligados da realidade para além do dia a dia. ou porque essa realidade tem a forma que desejamos que ela tenha. estes discursos em jeito de resposta são isso mesmo. há uma palavra que define isto. alheamento. não, não é no sentido de afastamento ou desconsideração. é no sentido de observação sobre um prisma. uma perspectiva distorcida. uma irrealidade que é, na verdade, uma realidade pensada apenas. é por isso que isto é perigoso. no sentido que carlos fiolhais escrevia outro dia. é perigoso porque é incompetente. e novamente a palavra. não de falta de competência. mas falta de capacidade de real implementação ou execução. de cumprir um fim. uma decisão de gabinete é sempre assim. ouvia um governante recentemente dizer: não se pode ter um tribunal há porta de cada cidadão. e são só cinquenta e nove quilómetros. só pensei: ir. é que ir e vir são cento e vinte. e sessenta quilómetros em autoestrada são vinte e tal minutos. mas numa estrada nacional é mais. muito mais. e nem toda a gente em carro ou condições próprias para isso. mas isso é a outra realidade. a que não está nos mapas. é a mesma coisa quando alguém diz: até dia onze ou quinze está tudo pronto nas escolas. tudo lá colocado. tudo em andamento. tudo pronto. é só fazer um clique. alguém num gabinete fazer um clique. surgem as listas. as colocações e tudo o mais. mas as aulas, sim, aquela coisa que é "devida" aos professores, começam no dia a seguir. ou em quarenta e oito horas se houver sorte. horas para preparar tudo. a mala para a viagem. os horários. as rotinas para estabelecer. para muitos, arrendar uma casa nova para ficar a mais de cento e tal quilómetros de casa e as histórias que tais. e no dia seguinte estar a dar uma aula. uma de muitas. porque eles, os miúdos, não podem sofrer com este sistema. e paro por um instante. vou reler uma frase lida ontem muito depressa: as pessoas somos nós. quando dizem: as pessoas tem que compreender que... as pessoas somos nós. e as pessoas que podem ter noventa dias para se inscrever num centro de emprego, perdendo cada dia em que não o fazem o seu rendimento, somos nós. professores, mas pessoas primeiro. somos nós. e isso é muito mais real do que qualquer mapa, lista ou clique feito num bunker. é tão simples quanto isto.