02/09/2014

||| do retorno e da irresponsabilidade...


"― não é da nossa incumbência darmos-lhe explicações. volte para o seu quarto e aguarde. o processo já está a correr, o senhor será informado de tudo na devida altura. já estou a exceder os limites da minha missão ao falar-lhe assim tão amavelmente; [...]."
kafka, o processo

||| ... eram várias estradas. uma lista feita com atenção. o som do rádio no carro ajudava aos momentos de cansaço. sair cedo. eram os mini-concursos. sim, ainda me lembro. por incrível que pareça a memória tem destas coisas. foram viagens, às dezenas [ou centenas], felizes. depois era dada a benesse de "desistir por carta". chegou a internet e passou tudo a ser contado em cliques. o corpo agradeceu a mudança pois terminava cansado. mas aqueles encontros com os outros findaram. era só um olá na fila: "também vieste aqui?". passou tudo a ser uma lista. os nomes todos na lista. todos para todas as escolas. e sempre pensei que o ministério da educação guardava mais de setenta por cento dos seus esforços e lógica de existência nesta coisa de gerir recursos humanos. uma grande agência de gestão de lugares que se moviam ao sabor de necessidades adivinhadas em gabinetes em lugares altos de onde as pessoas parecem mais pequenas. uma massa disforme e não identificável.  era só ver as listas. continua a ser assim. nomes e nomes. mais nomes. e números. e dias de vida e de trabalho que se jogam para um lugar num concurso que deixou de ser mini para ser nacional. mas há uma coisa que não mudou. estas notícias [aqui] são uma repetição demasiado presente. filas, comentários nos jornais e televisão. na era da web social ainda mais acompanhados de sarcásticas análises em directo. tudo como se fosse normal. tudo como se tivesse que ser assim. e tudo com as mesmas reivindicações de sempre. o respeito. e o conceito. são contratados. é que aqui que digo sempre: "já chega". não. são professores. o vínculo laboral é outra coisa. ninguém diz que um enfermeiro é contratado. ou um médico. há esta coisa estúpida constante de confundir o vínculo com a profissão no caso dos professores.  mas devo ser só eu que vejo esse absurdo. e neste ano, em que tudo parece um pouco mais atrasado [eu julgo que estrategicamente] só me consigo lembrar do minotauro. sim, do labirinto. é que as filas que estão feitas nos centos de emprego, na era do e/governo e das coisas todas no sistema e na internet que podiam poupar horas de trabalho e de "falta de respeito" vai ainda alargar-se mais toda esta coisa de conseguir gerir os recursos humanos. acho mesmo que qualquer gestor devia passar pelo universo da educação para perceber o que é criar o improvável dentro do impossível. desdobram-se modelos de gestão das escolas. das primeiras tentativas de "municipalização" da coisa às autonomias para fuga aos "mega-agrupamentos, passando pelos territórios de intervenção. tudo numa nova forma de concorrer que ainda está para nascer a somar ao concurso e aos concursos extraordinários. extraordinário tudo isto. assim é sempre simples "governar" uma classe profissional. chegados ao arranque do ano lectivo tudo está já desgastado. confuso. indefinido. ainda antes de começar. é por isso que o sistema representa aquilo que representa. não é "falta de respeito". é falta de consideração. que é pior. muito pior. mas isso, como tanta coisa, ninguém parece ver...