30/09/2014

||| do tempos dos deuses esquecidos...


||| ... aos deuses cabe o tempo. o poder do tempo. a força e a forma do tempo. é tão simples quanto isso. e nós, professores, roubamos aos deuses pedaços desse seu triunfo. e colocamos tudo em forma de palavras. tempo e palavras para ensinar a memória e o saber dos homens. resta-nos muito pouco para além disto sobre os deuses. conservar a memória. pela palavra. e só os deuses podem roubar-nos o tempo que sempre foi deles. o tempo e o chão. o tempo e a memória. não podem outros homens roubar o que não lhes pertence. porque pode, então, a palavra travar tal fuga. tal injustiça. e de nada importa tudo o resto enquanto assim for. enquanto não houver lugar para além deste. ou força para além desta. os deuses olham-nos com a piedade da permanência. sejam eles como forem. tenham eles o nome que tiverem. há no nosso exercício de ensinar a forma plena da memória do mundo. e isso ninguém tira. ninguém, outro igual a nós, pode tirar. porque precisamos habitar a matéria da palavra, nós professores, e do tempo e do silêncio. sermos escutados. ensinar a escutar. ensinar a estar em atenção. em presença. em espera. sim, todas estas palavras antigas. como a memória dos homens. daqueles sentados em volta de uma fogueira que nos trouxeram até aqui. e olhar-nos-iam abismados por evocarmos a falta de tempo para conversar. para contar as histórias que relatam a memória das coisas. e a nossa própria memória. aos deuses podemos pedir que não nos abandonem. e a nós, que ensinamos, podemos pedir, só mais uma vez, que voltemos a dar valor à palavra. e ao tempo. dela, nosso e deles. 

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