22/09/2014

||| e de soslaio, a memória...


||| ... nunca percebi esta coisa da cultura do "tem de ser"na escola. ou da mediocridade, na escola. não do mau, mas do médio. o aluno médio. o resultado médio. a expectativa média. cerca-me a esperança. e na minha sala de aula não há lugar a estas coisas. por isso decidi colar na parede da sala todas as estatísticas médias. e o ranking de uma escola. e mais uns números. escrevi por cima a palavra "mediocre". seguido de: de médio. e rematei com uma legenda: nenhum de nós, nesta sala, estamos nestes números. primeiro estranharam. depois, perguntaram. depois revoltaram-se. depois pediram oficialmente para tirar da parede e por fim, perceberam. não, não era um incentivo para a superação. nem um vilipendiar dos números. era só números. e ninguém ali estava lá. eram números de outra escola e de outros alunos. que não descreviam as realidades de outras escolas nem de outras salas de aula. eram só números. não retratavam nada. nenhuma aula dada, nenhuma aprendizagem conseguida. nenhum esforço ou nenhum mérito. nenhum dia mais difícil, nem nenhum dia mais fácil. eram só números. nenhum de nós estava ali e ali não estava nada. de soslaio, a memória parecia dizer-me que era essa a maior lição que tinha para dar aos meus alunos. deviam estar ali, para estar. não para se transformarem naquilo. e pedi para retirarem aquilo da parede. para rasgarem e colocarem no lixo. ali não estava nada. só números. uma realidade que queriam que fosse viva, mas não era. por isso, agora, livres daquele espartilho da memória podíamos trabalhar. para o sucesso. para a excelência. mas partindo do zero. do nada. do que há para realmente [da realidade, da nossa realidade ali em sala de aula] para construir. 

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