09/09/2014

||| não é esta a escola que eu quero...


"quando a luz se apaga nas janelas 
perde a estrela d'alva o seu fulgor"
canção de embalar, josé afonso

||| ... não quero esta escola. não quero mais esta escola. clamo por prometeu, para vir devolver o fogo roubado aos deuses. e que de pandora, aberta a caixa, ainda fique a última virtude: a esperança. que seja ela a força que falta agora. não quero mais esta escola. e se ninguém diz, digo eu, não gosto desta escola. não gosto de ser professor nesta escola. gosto de ser professor. mas esta escola não é a minha. já nem escola é. é um agrupamento. um ajuntamento. não. isto não é uma escola. é um sistema. é outra coisa qualquer. uma escola não é o lugar onde se ouve mais a palavra: cumprir. é onde se ouve mais a palavra: aprender. e é preciso dizer não. alguém que diga que não. não é esta escola que tem que existir. nesta escola estamos a perder o fulgor. nesta escola estamos a perder a força. nesta escola estamos a fazer resvalar para o inútil o conhecimento e o saber. estamos a cumprir, funcionários que fazem cumprir e por cumprir. metas, resultados, objectivos. cumprir. obedecer. estamos a trabalhar para uma tabela. devíamos trabalhar para uma única coisa. para o saber dos nossos miúdos. fazer deles estudantes. fazer deles pessoas. não como esta gente que quer continuar com esta escola. essa gente não. gente. com alma e com saber para enfrentar o futuro. não quero esta escola. quero uma escola onde o "aprender" esmaga o "cumprir". onde o "estar" esmaga o "andar". onde os professores recuperam o brilho. a força. o tempo. roubado o tempo, roubam-nos agora o fogo. o fulgor. passamos todos a andar de cá para lá com papéis na mão o dia todo e as nossas salas de aula são lugares sem espaço ao desvio do pensamento porque tudo é para cumprir. basta. chega desta escola. eu não a quero. posso ser só eu. deve ser de mim que estou mal programado. devo ter mais esse defeito. mas não aceito. não me resigno. não me calo. e não quero. não aceito. é simples. para que fique bem claro. não quero esta escola. e sei que escola quero. agora, digam o que disserem, este é o meu manifesto. por isso, chamo por ti, prometeu. vem trazer, de volta, o fogo aos homens. estamos a precisar. muito.