03/09/2014

||| uma bolsa, a bolsa ou medeia...


||| ... imagino sempre a beleza de medeia. jasão, homem imprudente mas herói consagrado tem daquelas paixões que não existem por serem feitas por encanto. mas o que gosto é daquilo que ninguém se lembra. é que medeia teve um filho. chamava-se medo. e é medo que medeia tenta matar. curioso. isto tudo enquanto olho para a bolsa de contratação de escola que agora aparece inventada lá para os lados da direcção geral das coisas da gestão de recursos humanos da educação. diria, como eduardo lourenço, que tudo o que está dito está nos clássicos da mitologia. o resto são imitações. se a ideia que o imaginário colocou sobre medeia foi a da serpente de muitas cabeças, a verdade é que nada representa melhor tudo em que está transformado o processo de recrutamento de professores do que essa mesma imagem. são tantas pontas, tantas cabeças, tantas formas e fórmulas que já só o medo faz sentido e até parece preciso ser salvo. é tudo tão desgastante. tão emaranhado. tão estúpido. tão estranho. façamos o seguinte exercício. uma escola precisa de um professor. então há tanta coisa para se passar para o lugar ser ocupado que nos perdemos a meio do caminho. há "os do quadro". se houver, está resolvido. há mas pediram a rescisão inventada para poupar uns milhares. começa a coisa. não há mais do quadro que fiquem com o horário? ok. concurso extraordinário. não chega? contratados da lista a sorte vos espera. não dá. é uma escola com autonomia ou com outra forma de relação com o monstro. então lá vem esta coisa da bolsa. tudo é sinistro. perigosamente sinistro. até o nome. bolsa. lembra um saco preto e enevoado onde são metidos muitas pessoas, professores, e depois se vai tirando de lá um a um conforme for preciso. depois descarta-se. depois do uso. é simples. não, não é. há que responder a subcritérios. outro nome estranho. se alguns fazem sentido, quem contrata, tentar saber [por exemplo se tem "competências" para ensinar alunos com surdez] outros parecem saídos do quem quer ser milionário. gosta mais de branco ou de amarelo? fez algum projecto? alguma coisinha? e pronto. estamos de volta a medeia. sim. porque tudo isto começa aí. e é explicado por isso. quase como um encantamento, por uma ideia [agora cada vez mais absurda de lembrar], foi gritado aos sete ventos que era preciso explodir com a coisa. isso e uma falsa ideia de exigência numa escola que clamava por qualquer mudança sincera. agora se percebe que foi um encantamento. um chamamento para a destruição, sim, mas da escola. e de cada professor que passa a ser desgastado para além do medo. com salas de professores vazias nas escolas, por estes dias, pensa-se que preparar o ano lectivo se faz de um dia para o outro. que dar aulas é como apertar parafusos. e que os professores são recursos humanos que se podem dar e baralhar como qualquer outro elemento que cabe numa estatística. com um ministério e os seus serviços transformados em bunker e um sistema que medeia iria invejar, resta-nos o medo. não, não é o sentimento. é o filho de medeia. porque há sempre aquela esperança que, no final, venha alguém que nos salve. é que ainda não aprendemos que enquanto não formos nós, professores, a salvar o sistema estaremos sempre ao mando destes semi-deuses fechados nos seus reinos de nevoeiro. venha o medo, salvo, por si mesmo. o filho. não o sentimento.