29/10/2014

||| palavras [im]perfeitas...

al berto


||| as diferenças e as coisas...


||| ... eu digo tantas vezes: são só miúdos. mas parece que falo chinês. eles. passam a eles. assusta-me tanto isto. eles e nós na escola deviam ser palavras banidas. não é diluir funções. é não colocar esta barreira imediata. são miúdos sim. mesmo quando é difícil. podem é nunca terem sido miúdos mas isso é outra história. e são pessoas, também. como nós, professores. não são eles. somos nós. e quando num dia se estabelecem milhares de relações no mesmo espaço isto tem que ser evidente. porque fui a uma "mega" escola. e fiquei com uma só ideia na cabeça. ou melhor duas. a primeira resume-se a um conceito: centro comercial. cada aula é como uma loja onde entram (mas nesta obrigados) porque o conjunto em si não tem lógica nenhuma a não ser de "eles" serem consumidores de coisas pré-feitas sem lhes terem perguntado nada, nunca. a outra é mesmo do humanismo e da comunicação num aglomerado de gente de tamanha dimensão. não acredito que se conheçam, não acredito que saibam nada uns dos outros. não acredito que estas mega coisas seja escolas. são tudo menos escolas. e ali as pessoas não o são. são números, numa sala, em muitas salas, onde o anónimo é evidente e o extraordinário irrelevante. e doí-me profundamente a alma ver a escola transformada nisto. era preciso uma evolução ao contrário. mas sou eu que estou de mau humor hoje, certamente...

||| leituras [im]perfeitas...


||| música [im]perfeita...

||| a doença do powerpoint...


||| ... é tipo praga. o powerpoint. acho mesmo que já ninguém sabe viver sem o coiso. aquela coisa. o quadro serve só para projectar. seja ele interactivo ou daqueles de caneta. tudo resumido. tudo explicado. esquemas. texto, coisas. imagens são excepção. mas é uma overdose que não se suporta. qualquer coisa que nos querem "explicar", pimba. powerpoint, está aqui. eu não nego a utilidade e a coisa ser prática. nego é a utilização sempre. como se fosse a única forma útil de explicar qualquer coisa. porque não um bom esquema "à moda antiga" no quadro, escrito, rabiscado, corrigido, feio mas construído "em tempo real". mas depois dizem-me os alunos: ó professor podia ter posto isso num powerpoint. ou dizem os colegas "faltaram uns powerpoints para rever as ideias". mas eu fiz a revisão. e podia ter posto bonito. mas não queria. porque queria "pensar" em directo e ao vivo. queria explicar uma lógica. um raciocínio. mesmo sem rede. sem ter "preparado" a coisa. porque pensar é tão importante como organizar. e partilhar o processo de pensamento é mais útil do que ter um fundo bonito e umas letras giras. mas deve ser eu que gosto de giz, ainda...

25/10/2014

||| palavras [im]perfeitas...

cesariny

||| nunca se deixa de ser professor...


||| ... mesmo quando se tem que mudar. mesmo escolhemos mudar. nunca se deixa de ser professor. quando se levou uma vida de dedicação ao imenso acto de ensinar, não sai do corpo, dos gestos, do pensamento, essa coisa imensa de partilhar o que se sabe. mesmo que se tente o silêncio e o saber ouvir aprendido com décadas de falar e ouvir, aprender e ensinar. não sai da pele, nunca. é a explicação dada para dar a entender as coisas. é a forma como se explica uma coisa simples. é a co-relação de coisas que se faz naturalmente porque o conhecimento não é só um mas único e múltiplo. quando se fala e como se fala. não saí do corpo. é uma pele e não é a segunda. e a essência. a coisa feita de que somos feitos. mesmo quando se deixa de ser nunca se deixa de viver. é algo maior do que uma profissão. é um gesto, um tempo, um lugar. que se habita como uma casa. e não se pode deixar, por mais que se tente. há nisto, algo de imenso. inexplicável. e belo. ponto final.

||| música [im]perfeita...

||| leituras [im]perfeitas...


||| um ano sem política educativa...


||| ... a escola em portugal está sem política educativa há muito tempo. mas agora agravou-se. estamos em estado de liquidação. e mais do que isso, em estado de vazio de política para a educação a médio e longo prazo. arrastamos o tempo e as coisas descritos em problemas. calamos muitos e uns mais graves do que outros. a indisciplina, por exemplo. ou a violência. fechamos os olhos para não ver. calamos para não falar. e outros mais graves ainda. não saber para onde vamos. como lá chegar. o que queremos da escola e o que precisa a sociedade da escola quando cada miúdo que hoje anda em cada estabelecimento escolar de lá sair. não há uma palavra. uma linha. uma visão de quem tutela a coisa que não seja só de pura gestão. joga-se com as palavras como todos fossemos parvos. poupam-se duzentos mil euros. poupar? está bem. vamos fingir que acreditamos. mais uma vez. e calamos porque deve ser da crise. ou da ausência de ideias. novas. ou outras. deve ser isso. e sobre o que devem os miúdos saber no futuro, o que deve e como deve ser a escola, a reforma necessária e urgente do modelo de aula e tudo o resto é remetido para o silêncio ensurdecedor de um futuro que não pára de chegar. é assustador. pior do que isso, não consigo calcular o prejuízo que esta ausência de inteligência nos vai trazer num futuro muito próximo. já aqui escrevi uma vez que temia pela sanidade do próximo ministro e sua equipa. agora temo por todos. nós também. que precisamos de pensar que a política na escola e da escola não é uma coisa dos outros, mas nossa. e que urge reclamar, para nós, que sabemos o que é preciso fazer. e se não sabemos, temos que pensar nisso. urgentemente...

24/10/2014

||| palavras [im]perfeitas...

eugénio de andrade

||| do dever de contar histórias...


||| ... há um dever maior. em cada professor. o de dar significado às coisas do mundo. e uma história, bem contada, ter um poder imenso. o poder de explicar. fazer compreender. andamos esquecidos disto...

||| música [im]perfeita...

||| leituras [im]perfeitas...


||| ... dizer coisas, de cá para lá...


||| ... esquecemos coisas simples. dialogar. ensinar a dialogar. a palavra está tão gasta que já nem lhe encontramos o sentido original. de diálogo. de argumentação e contra-argumentação. de oratória. de poder de debate. parece tão estranho isto. falar disto. provocar isto. entre os alunos. e quando o fazemos vemos o lugar importante das coisas que nos esquecemos de fazer e o quanto isso pode ser motor para uma ideia, uma debate, uma reflexão. vai tudo num sentido. de nós para eles. às vezes, deles para nós ou entre eles. mas perdemos cada dia essa força que o poder do diálogo tem. e hoje dei por mim a pensar nisto...

23/10/2014

||| palavras [im]perfeitas...

eugénio de andrade

||| a escola não é o espaço dos lugares comuns...


||| ... não se ensina com base em lugares-comuns. a ciência é a base do saber na escola. as coisas vistas numa rede social ou vistas de relance numa televisão podem ser tema de conversa mas não são o conhecimento do qual é feito o saber a ser partilhado na escola. é preciso lembrar, cada aluno, disto porque a praga está instaurada. é isto tudo, só, nesta frase...

||| música [im]perfeita...

||| leituras [im]perfeitas...


||| a sala de aula não é um café...


||| ... resumo tudo numa frase: não se ensina o que só se leu na diagonal ou em fonte incerta. ou ainda, não se ensina aquilo que não se sabe. mesmo rematando tudo com o rótulo de um certo é incerto academismo. devia ser regra de ouro. não é...

22/10/2014

||| palavras [im]perfeitas...

eugénio de andrade

||| eu gosto tanto de ver um miúdo sorrir...


||| ... não sei. há uma qualquer coisa no olhar. uma tristeza. e hoje vi aquela aluna sorrir. depois, tentou conter o sorriso mas não conseguiu. e saiu uma gargalhada. daquelas estridentes. o momento era sério. a aula era séria. e riu que nem uma perdida. e chegaram-lhe as lágrimas aos olhos. contagiou-me. contagiou vários outros miúdos. aquela gargalhada contida. aquela explosão de sorrisos guardados. calados. porque infelizmente até isso se contém nesta sociedade cada vez mais falsamente séria e numa escola cada vez mais espelho disso tudo. ó professor, fogo, até me doí a barriga. a mim também, disse. e nada importou mais do que aquilo. e nada me preocupou mais do que aquilo. estes miúdos não são miúdos. é-lhes negada a essência e a razão de serem crianças. esses sorrisos. essas gargalhadas. confundidas com indisciplina ou outra coisa qualquer. tornaram-se sérios adultos descoloridos. e nada me deixa mais pensativo do que isto. este roubo da alegria que já uma vez aqui referi. nada me assusta mais do que ver um miúdo chorar. e mais ainda, me assusta, ver um miúdo não saber e não rir com vontade. de vontade livre. preocupante. muito preocupante...

||| música [im]perfeita...

||| leituras [im]perfeitas...


||| enquanto tudo forem sombras...


||| ... não gosto do discurso dos professores que acham que sabem tudo. que a solução é óbvia. que numa reunião dizem isso incessantemente. e depois, a tal solução, é sempre uma coisa que não controlam. que está fora da escola. ou fora da sua esfera de actuação [falando modernamente]. às vezes, mas só às vezes, quando me apetece perder um pouco de tempo pergunto: certo, e agora, tirando tudo isso que não pode fazer o que vai fazer, de facto? e nada. geralmente, nada. a culpa é sempre do sistema. dos outros. do tempo, do vento, da chuva, dos pais, dos avós, dos tios, das condições, da falta de condições. há sempre algo que impede a actuação simples. o fazer para resolver. são as sombras. a culpa de tudo. sempre fora deles. sempre a arrastar a memória do que foram no esquecido disforme ser que os acompanha mas cuja culpa está sempre ali, longe. e há tantos. mas tantos. que vencer um ainda sabe bem. mas muitos é complexo. e então quando se juntam todos numa reunião é desesperante. porque a reunião, marcada, afinal é sempre culpa de alguém que a marcou. e ficamos por aqui...

21/10/2014

||| palavras [im]perfeitas...

eugénio de andrade

||| não entendo o desrespeito...


||| ... eu entendo que muitos miúdos nunca tiveram tempo para o serem. miúdos. somente isso. entendo mesmo tudo. mas não o comportamento de falta de respeito. e quando estão numa sala de aula e faltam de tudo menos do que nela se passa ou fogem da ordem estabelecida para aquele contexto sinto sempre que é meu dever fazer lembrar as regras comuns. ninguém está ali obrigado. a sala de aula não é uma obrigação. é um conquista da nossa civilização. é-lhes dado. dado porque se fossem outros os tempos estariam a trabalhar numa fábrica ou no campo. ou não estando a trabalhar não teriam acesso ao saber. e pode parecer estranho mas quando leio a notícia que hoje, agora, no meu país um miúdo pobre fabuloso e que faça tudo bem é sempre ultrapassado por um miúdo rico mesmo que faça tudo mal penso. penso e repito bem alto para todos ouvirem. é preciso fazer mais. muito mais. muito melhor. e começa mesmo pela presença e participação em sala de aula. esta frase choca. revolta. devia ser de uma profunda reflexão conjunta. porque é mesmo assustador. e porque se um aluno brinca na sala de aula esta frase torna-se ainda maior. porque a oportunidade única de contrariar tudo isso está na revolta. e a revolta é a excepção de confirma a regra. e de excepção em excepção que se faça regra o que agora é mesmo só exclusão. fica, aqui, a nota. para se pensar nisso. quando nada mais houver para pensar...

||| música [im]perfeita...

||| leituras [im]perfeitas...


||| define: perpetuar...


||| ... sempre ensinei uma coisa aos meus alunos. errar faz parte do processo de aprender. mas perpetuar o erro, não. é sinal de falta de visão de futuro, no mínimo. e sou sincero. quando o representante do governo da nação vem dizer que fez a escolha certa no ministro que tutela um ministério sem legitimidade, não posso deixar de pensar em pinto da costa e na estratégia de apoiar o treinador como forma de mostrar que não o vai deixar cair. eu não gosto de futebol. não vejo ou raramente vejo futebol e por isso esta referência é sociológica mais do que outra coisa qualquer. é que é mesmo só isto que me passa pela cabeça. porque não consigo encontrar outra fonte. tentei os clássicos mas não encontrei nada disto. ou arte da guerra. ou simplesmente maquiavel. mas nada. não há nesta política um sentido de lógica. há um sentido táctico ao nível da cultura futebolística. e é isso que me assusta. que o nível seja esse. não condeno o nível futebolístico no seu contexto. mas quando o pensamento para o governo da coisa pública se limita a isso então está tudo dito. e eu, que penso alguma coisa sobre as coisas, gostava mesmo de ter alguém a quem o pensamento não fosse rectangular. e fosse um pouco mais. com rumo, linha de pensamento e lógica. e nada disso acontece. com pena minha. com muita pena minha. fica só a faltar a contratação de última hora. ah... espera. eis que chega um novo secretário de estado. aquecimento rápido e estamos no jogo, novamente...

20/10/2014

||| palavras [im]perfeitas...

eugénio de andrade

||| às vezes, o silêncio é o melhor...


||| ... ainda perpassa em alguns. a ideia do professor que tudo sabe. e que os miúdos, devem sentir isso. que o saber está deste lado. mas se há algo que se democratizou foi mesmo a fonte. as fontes. onde ir buscar a informação. e se informação não é conhecimento o mesmo se passa com as fontes. tantas e tantas vezes oiço: ó professor, e como é que sabe isso? e tantas e tantas vezes respondo que não fui ao google. fui a outro lado. a uma biblioteca. quando era da idade deles. e isso ficou em mim, aquilo que agora digo ali com a certeza dos deuses. e estranham. porque a informação teórica, julgam, é inútil. mas quando, perante um desafio prático é essa mesma informação teórica que me salva e que lhes apresento como resposta a validade da coisa muda. se há frase que detesto é mesmo a de que: se não está no google não existe. a minha resposta é que: ainda bem que há tanta coisa, mas tanta coisa que o google não sabe, nem sonha. e ainda bem que assim é. daria, talvez, para uma base de dados de informação milhares de vezes maior do que a santa caixa em branco com o traço a piscar. e o procurar, o tentar saber, o gostar de saber e de ter meios de criar novas lógicas, novas coisas, novas dúvidas, não tem igual. é talvez, por isso, que os meus alunos sempre me acharam antiquado. porque para mim um livro é tão importante como uma página da internet acedida em micro-segundos mas não lida, só por onde os olhos passam para encontrar a informação necessária. tal como o livro. mas há um diferença. o que fica. em nós. como conhecimento e não como informação que se descarta. estou velho. sou de outro tempo. do tempo das coisas que ficavam. talvez seja isso. ou não...

||| música [im]perfeita...

||| leituras [im]perfeitas...



||| do profissionalismo e das coisas claras...


||| ... ó professor, pode ser assim? a dúvida, num aluno, é sempre a coisa mais preciosa para um professor. tantas vezes matamos a curiosidade. anda por aí uma moda frase "a escola mata a criatividade" do sir ken. sou sincero. não gosto do discurso do senhor e muito menos da premissa. não, a escola não mata a criatividade. as pessoas, os adultos, não cultivam o criar. cultivam o produzir. mas isso é outro debate. mas a escola está a matar é a curiosidade. fazer perguntas. responder. criar dúvida. levar os alunos até ao espaço do "não sei responder". tornar evidente o desconhecimento da coisa. de uma coisa. de muitas coisas. e com isso despertar a dúvida. a pergunta. o desejo de saber e aprender. cultivar a curiosidade. o desafio de ir à procura. a vontade. as ganas de saber. aquele aperto no peito de raiva de não ter a resposta para tudo. não saber responder não por erro mas por desconhecimento. e enfrentar esse desconhecimento com os alunos. há nisso, toda a beleza do que pode e deve ser a escola como um todo. um espaço único para criar curiosidade. e isso sim, está em vias de extinção. e isso sim, é lastimável que esteja a ser perdido, todos os dias. mas isso, disso, ninguém fala. porque mais vale estar quieto e calado que que cheio de perguntas sobre o mundo e as coisas que nele existem...

18/10/2014

||| palavras [im]perfeitas...

pedro tamen

||| desmembrar a escola ou o que desta resta...


“não é preciso ter olhos abertos para ver o sol, nem é preciso ter ouvidos afiados para ouvir o trovão. para ser vitorioso você precisa ver o que não está visível.” sun tzu

||| ... não estamos perante nada mais do que o tornar visível o que era perfeitamente previsto. e ainda não está tudo. um ministro sem poder. com uma política e uma legitimidade concedida. mas sem poder. o poder está na forma e na força de quem dá forma ao tempo e ao espaço. somos nós que concedemos o poder por muito que isto esteja esquecido. agora resta isso. recordar isso até ao limite da exaustão. a legitimidade é outra coisa. é um poder tomado. suspenso ou dirigido. e quando lemos a proposta de orçamento de estado para mais um ano em que a educação perde muito mais do que dinheiro percebemos a lógica disto. é que a legitimidade está lá gravada no conformismo em que aqueles que detêm o poder se reservam. se instalaram nos últimos tempos. acolhendo em medo o que lhes era mandado fazer. houve resistência. há resistência. sempre. e ainda bem. mas não chega. é preciso a sublevação. a revolta. nem que seja pelo acto que sempre defendo de desobediência. é mesmo o único que defendo. quando a escola é desmembrada como está a ser e será ainda mais no futuro próximo resta esse grito perfeito. não obedecer mais. não mais. porque é evidente o que acontecerá. mesmo que seja um plágio a afastar um elemento deste poder legitimado mas não legítimo, mesmo que já nem circulem nos corredores entrando por lados estranhos e saindo antes de todos para evitarem o apupo incomodativo, mesmo que tudo isso seja só um forma de dizer não, há uma urgência maior em desobedecer. e para isso não é preciso esforço. nem mobilização. é só olhar para a injustiça. e parar. parar de obedecer. parar de ter medo. parar e dizer não. não quero mais isto. não quero o fim da escola. não quero mais ser professor neste sistema que querem criar. e não fazer. só é preciso vontade. nada mais. mas uma vontade urgente. imensa. profunda. inquietante. que seja grito. maior. porque cumprir. sempre, sem pensar, questionar ou mostrar que ainda se pensa é legitimar o poder ilegítimo. urge, em todo o esplendor do gesto, desobedecer. pode ser que assim, percebam. pode ser que assim, ainda se salve alguma coisa... 

||| leituras [im[perfeitas...


||| música [im]perfeita...

||| o equilíbrio ou o balanço das coisas...


||| ... ó professor, ok. fazemos. assim sem mais nem menos. e perguntei. digam-me lá uma coisa. numa reunião os professores trocaram umas ideias e uma das coisas foi que vocês como grupos de trabalho num projecto nunca fazem nada em conjunto. porque é que comigo, sempre que eu peço isso, vocês dizem que si e fazem? ó professor, é tudo uma questão de justiça. como assim? é que o professor faz o que diz e diz o que faz. sabemos que consigo temos que fazer porque o professor também faz. então não é justiça rapaziada. é equilíbrio. isso, professor. lá está você a complicar. não, justiça é uma coisa. equilíbrio é outra. pois professor mas está a ver, é isso. gostamos que sejam justos connosco. quando fazemos também gostamos que os professores vejam que fazemos ou façam connosco. é que nos mandam tantas coisas que depois não servem para nada. nem, às vezes, se lembram que pediram. e ficamos assim. pois, compreendo. mas eu também vos peço muitas coisas, muitas vezes sem saber muito bem no que vai dar. ya, professor, mas no seu caso damos desconto. você é maluco. ó professor, não leve a mal. é no bom sentido. e pensei... é sempre no balanço das coisas que se encontra o equilíbrio. e no exemplo. talvez, também...

16/10/2014

||| o sistema, no fim, imperfeito demais...


||| ... consolidar o alargamento de alunos por turma. nem li mais. não seria preciso. depois os números redondos. demasiado errados. e perceber que toda a gente perdeu tempo a falar de uma fórmula que, de errada, nada tinha a não ser os números. porque a intenção, essa, era aquela que um corro de vozes surgiu a dizer. é preciso descentralizar. e eu pensei logo no portugal que temos onde até nos correios para entregar uma carta há sempre um esperto que passa quem está na fila a dizer: é só para entregar isto. ó senhora manuela, como está? e lá fica com mais coisas para tratar do que só o entregar para silêncio de todos. assusta-me este coro de vozes tanto como o que parecia ser um erro que era uma política inteira que poupou um trocos e "passou" em falso "desespero" a uma solução definitiva de "as escolas é que escolhem" porque ninguém o consegue fazer "centralmente". e se não fosse a neblina que cobre isto tudo, era claro. mas assim parece que tudo vai bem ou mal e tudo se faz. passou por baixo de tudo isto um corte imenso previsto para o próximo orçamento. como o senhor que passa na fila dos correios. enquanto o diabo esfrega um olho. e enquanto a razão é iludida com truques de ilusionismo de má qualidade que até parecem bons porque ninguém os parece ver. e não sai. o homem. qual carrasco que fica no final da cena para marcar a presença do medo. inamovível.  transformado numa sombra permanente da lógica de tudo isto a que todos dizem não ter lógica nenhuma. e continuamos assim. a deixar. a deixar tudo isto. como se fosse normal. como se fosse impossível dizer: basta. tirar o tapete. nós que temos a força. do trabalho e da razão perdida. que a precisamos reconquistar rapidamente. a força e a razão. ou seremos sempre, iludidos. com erros que não existem, truques baratos de ilusionismo ou pelo senhor que passa na fila dos correios...

||| leituras [im]perfeitas...


||| música [im]perfeita...

||| se é para isto mais vale não fazer nada...


||| ... e não entendi. e eles também não. o básico, senhor. explique o básico. não comece pelo complexo sem saber se sabemos o básico. a condição fundamental para abrir uma porta não é ter maçaneta, fechadura ou qualquer outra coisa. é estar fechada. não complique sem dar as bases. e o senhor falava numa palestra sobre tudo e sobre nada. eu olhava para os miúdos e pensava no que estavam a sentir. sem começar pela base. atirando lá para cima os conceitos. as "palavras caras". e as frases ditas, tantas vezes entre conversas inúteis a ecoarem na minha cabeça: a estes miúdos falta-lhes as bases. e pergunto-me se no acelerar dos tempos, contados em minutos, em cinquenta, cem ou mais minutos, quanto tempo dedicamos verdadeiramente a essas coisas simples. quase nenhum. o tempo é do programa para cumprir. e aquelas coisas, base de tudo, são atiradas para a inutilidade da conversa da falta de bases. como entender. como entender então uma casa construída sem o fundamento das bases. como se o simples e necessário fosse desprezado para as novas metodologias e estratégias inovadoras, todas eles complexas demais para quem [a quem] falta o simples. a base. o suporte. porque há tempo para "dar" tudo, menos isso. quando o senhor terminou de falar pensei nisso. eu não entendi tudo. eles também não. mas todos batemos palmas como se tal fosse simples.



14/10/2014

||| palavras [im]perfeitas...

não me apetece dizer o autor

||| da minha sala de aula devia ver o mundo...


||| ... mas não vejo. vejo coisas e mais coisas. e queria ver o futuro inteiro. e oferecer tudo isso aos meus alunos. da minha sala de aula queria ver o mundo inteiro. e um pouco mais além. mas não me deixam. obrigam-me a cumprir metas. a dizer o que tenho que dizer porque é assim. mas não é. não é assim nem tem que ser. assim. queria ver tanto mais do que vejo. e pior do que isso é ver. e dizer que não se vê. que não se pode ver. e que o siléncio que oiço não seja mais o barulho da falta de tudo que hoje habita a escola em forma de cansaço...

||| leituras [im]perfeitas...






||| música [im]perfeita...

||| exemplos há muitos...


||| ... não fumes. não uses o telemóvel. não fales alto. estes "nãos" são, hoje, na escola lugares imaginários. se o não fumes foi arredado do espaço interior da escola para o "portão" a verdade é que está lá. e os professores e os alunos habitam esse hábito feito vício. se fosse há cinco séculos até era cultura civilizacional. por isso, pouco importa. não usar o telemóvel é outra coisa. recentemente tive a experiência de estar numa escola onde não é "proibido" e como tal é só mais uma coisa em cima da mesa. é tão melhor do que o esconder por baixo da mesa para usar. e não são só os alunos a tentar tal proeza. é curioso que o reflexo, o espelho, o estar a pensar que não se vê, é dos maiores prodígios humanos. e o falar alto. esse sim, um reflexo fabuloso [de fábula]. quase para contar aos netos em tempos vindouros. não se fala alto na aula. mas diz-se isto a gritar. para "ser ouvido" dizem. mas não se é, porque o comportamento é similar. irreconhecível na diferença e como tal, na forma que altera. que deseja alterar. se mudarmos estas três coisas que dizemos querer mudar tantas vezes mudamos tanto. mas tanto. curiosamente...

13/10/2014

||| palavras [im]perfeitas...

gonçalo m. tavares


||| mau comportamento é igual a...


||| ... um balão. foi uma vez que me lembrei disto a caminho da aula. um balão. um saco de balões. azuis. comprados numa loja mesmo já a caminho da escola. porque construir uma turma não é uma coisa automática nem algo que se "passe" para os lado dos alunos fazerem "por eles". há coisas em que precisamos ajudar. porque estamos do lado de cá. a olhar e a ver. e às vezes, vemos muito mais, do que eles imaginam. então peguei nos balões, cheguei à sala de aula e dei um a cada um. vazios. depois da barafunda inicial e de algumas piadas naturais [sim, que os adultos também as fazem], lá assentaram a ideia que o professor lhes tinha dado balões. o primeiro trabalho: encher. mais umas piadas. mais uns rebentados e substituídos. o costume. e depois o desafio. cuidarem do balão. de uma semana para a outra ou melhor, até uma nova aula. quem o fizesse teria uma recompensa. podia escolher entre três coisas: um ponto a mais na nota de média de período [não a da pauta, mas a da avaliação sumativa] ou simplesmente "livrar-se" de um "teste". coisas assim, criadas em três para os desafiar. e assim foi. uns deixaram o "coiso" no cacifo. outros levaram na mão. outros até lhes deram nomes. houve, de tudo um pouco. não fiquei surpreendido. fiquei contente. a responsabilidade é uma coisa que se ensina pelo cuidado com as coisas frágeis. ninguém os ensina isto mas todos nós lhes cobramos isto. lembro-me destas aulas que tenho repetido várias vezes ao longo dos anos. e de tempos a tempos alguém me lembra: ó professor, lembra-se de quando nos fez andar a cuidar de um balão. lembro, coisa parva não foi... ó, não, até foi giro... pois foi. 

||| ter como adquirido o provável...


||| ... sentei-me e mais uma vez pensei. ter por adquirido que os meus alunos estão [e querem estar] na aula é o meu maior erro. retorno muitas vezes a este lugar da lógica do provável. não estão ali, nem muitas vezes o estar é, de facto, presença. é uma obrigação cumprida. repetida. não sou partidário da visão da motivação constante. nem da obrigação "porque tem que ser assim". estou a meio caminho. porque estou perante pessoas. com vontades, com vidas. e com isso, penso tantas vezes que urge um tempo comum. uma vontade comum. um saber que estar é também aprender. e que a atenção se ganha e se perde num tempo contado em minutos, muitas e muitas vezes. que me cabe, como professor fazer meio caminho. de os cativar. de lhes despertar a curiosidade. e o resto do caminho é deles para ser feito. e estou sentado no corredor de acesso às salas de aula enquanto escrevo isto. e penso. penso no poder que eles conseguem ter com esta procura pela presença. e penso que quem me tutela só perceberia isso se também eu tiver que mostrar esse poder que tenho. o da presença. se a minha indignação for transformada num gesto, será sempre esse. a minha ausência é sinal de discordância. e se, em cada escola e em cada professor esse gesto fosse repetido, saberia quem desgoverna tudo isto que o silêncio é sempre a maior das armas que um professor tem. tal como os meus alunos o sabem porque já lhes ensinei, desobedecer é um direito, mas a presença ou não é a definição de força na luta quando nos sentimos injusticados. se fosse assim, seria mais fácil. mas não é. é civilizado demais, diziam-me em conversa de café. não acho. o que é, é perigoso demais, isso sim. porque uma massa de gent consciente do valor e poder da sua presença é, de facto, imensamente esclarecedor...

||| leituras [im]perfeitas...

||| música [im]perfeita...

10/10/2014

||| palavras [im]perfeitas...

eugénio de andrade

||| era o redondo vocábulo...


||| ... estava sentado no carro. a escola não era minha e ia só lá tratar de umas coisas. era o tempo do "intervalo". uma escola na periferia da "linha" de lisboa. e um magote de miúdos atravessavam o portão. olhei para quase todos eles. miúdos com um estranho ar de adultos. está bem que era uma escola secundária. são mais "crescidos". mas não são adultos. são jovens. e depois do magote inicial que se atropelava na saída, os grupos. por estilo ou preferências. por amizades. e os namorados. os carros. as motas. as conversas. os telemóveis e as selfies. uma demonstração de skate chamava a atenção de alguns. mas a minha observação era outra. a não ocupação do tempo. o vaguear. uma grande parte daqueles miúdos estava fora do portão da escola sem nada para fazer. não é que o intervalo não seja espaço para o descanso. não é isso. é o deambular sem registo próprio. acho que não sei explicar. acho que deve ser o gap entre gerações. ou simplesmente o meu olhar sobre as coisas que anda nostálgico demais. mas o que vi foi mesmo a falta de alegria. e isso fez-me pensar. são só miúdos. penso sempre isto. são só miúdos. e ainda bem...

||| leituras [im]perfeitas...


||| não esperes nada deles...


||| ... a frase, dita. a que menos gosto. "olhe, colega, não espere muito deles". abomino esta frase. sempre. e respondo sempre da mesma maneira: "não espero é nada". e deixo o tempo passar. faço um primeiro desafio com os meus alunos. vejo-os superar muito do que diziam para eu não esperar. às vezes com muito trabalho de parte a parte. com dias mais cinzentos. com horas mais frias. com fúrias contidas ou desesperos sussurrados. mas lá se faz. lá se consegue. lá se superam. e depois apetece-me sempre ser imensamente provocador. e lá fiz uma actividade. e lá colaram letras em tamanho de cartolinas coloridas na parede da sala para ficar para memória futura. dizia. aqui não se espera nada de ninguém. aqui faz-se. iam-me batendo. a "colega" que não esperava nada deles e me avisou de tal. ia-me batendo. só espero que tenha decorado a frase depois de os dois termos estado a rir em conversa bonita sobre a forma como olhamos a realidade. e ainda bem que somos todos, professores, tão diferentes nestas coisas. é com isso que aprendemos uns com os outros. só andamos esquecidos disso....

||| música [im]perfeita...

09/10/2014

||| palavras [im]perfeitas...

mário cesariny

||| os cinco trabalhos [im]possíveis de um futuro ministro...


||| ... enquanto se arrasta o fim deste estado das coisas, penso seriamente no que será a tarefa árdua de um futuro ministro da educação seja ele de que governo for, de que cor política for, de que planeta for. terá que ser alguém de um imenso e intocável prestígio. reconhecido. e adivinho-lhe cinco trabalhos de hércules ou uma travessia de ulisses. 

||| um: reconstruir a ruína em que está a confiança e motivação dos professores para trabalharem no/com [e para] o "sistema" educativo. só lá vai com um profundo e imenso diálogo, com um acolhimento verdadeiro de ideias e com uma palavra de honra acima de qualquer dúvida. com paz e com valorização. passa também por um novo e negociado [com claridade] processo de recrutamento nacional.

||| dois: reconstruir as escolas como espaços educativos. é urgente recolocar a palavra escola no seu lugar. terminar com um modelo de organização e passar a trabalhar numa lógica de comunidade, assim como, refazer toda a terminologia e modelo para recolocar tudo no lugar onde a educação é o centro e o suporte é feito pela escola e por aqueles que nela vivem os dias em colaboração e organização própria. reconstruir a escola. 

||| três: reconstruir a confiança nos actores do sistema educativo. urgentíssimo recolocar o papel central de alunos, professores, educadores e todos os elementos que habitam diariamente cada comunidade escolar como elementos estruturantes da mesma. confiar que cada comunidade se sabe auto-regular sem a necessidade permanente e constante de normas, regras, orientações e tudo o mais que um poder central e desligado da realidade emana.

||| quatro: desfazer o império do modelo organizativo e burocrático actual. acabar com um modelo de inutilidade em papel para dotar os professores e as escolas de projectos concretos e feitos à medida para cada comunidade que respondam às suas necessidades. reduzir ao mínimo reuniões e coisas que tais, assim como, documentação obsoleta e pedagogicamente inútil e dar esse tempo aos docentes para auto-formação e formação em comunidade, projectos educativos inovadores e integrados, assim como, para preparação de aulas e investigação para aprendizagens aplicáveis em contexto educativo.

||| cinco: dar liberdade de ensinar e de gerir o tempo de aprendizagem a professores e alunos. dar espaço de liberdade com áreas disciplinares que envolvam professores e alunos numa lógica de aprendizagem integrada, assim como, que permita a gestão de currículo com áreas de interesse comuns. reactivar clubes, projectos educativos artísticos, científicos e outros. valorizar as propostas de cada comunidade integrando-as curricularmente para valorização de todos.

||| ... podia dar mais mil coisas para fazer. mas se fizer estas cinco serei um professor um pouco mais feliz. por arrasto as outras iam sendo alinhadas. mas sem dúvida que espero imenso de quem terá um inferno pela frente. um terreno queimado, minado e com graves necessidades de correcção. estas são só as mais [im]perfeitas sugestões de um professor em reflexão...

||| leituras [im]perfeitas...