07/10/2014

||| a aula, essa coisa chata...


||| ... perdemos o poder de ver as coisas simples. tudo tem que ser um espectáculo. o rui era um miúdo acanhado. tímido. há palavras que já não se usam. acanhado é uma delas. olham-me sempre de lado a quando a uso. agora tem que ser tudo polido. politicamente correcto. por isso, tímido. que não é a mesma coisa mas é mais bonito e por isso serve. e o rui descobriu uma coisa que não sabia. e fui eu que lhe ensinei. era uma coisa sobre a rotação da terra. não era da minha disciplina mas tinha que a explicar porque estava a falar de galileu. e ele percebeu. as horas do dia. a noite e o fim de tarde. e porque quando vamos à praia conseguimos percepcionar a curvatura da terra. é minha obrigação, como professor ensinar. mas não é obrigação dele perceber. não é uma obrigação. é um processo. uma forma de compreender o mundo que é conquistada. aula a aula, dia a dia. é para isso que a escola serve. para perceber o mundo e ensinar a memória do saber dos homens. e ele percebeu uma coisa. os olhos brilharam. o sorriso abriu-se. disse: finalmente percebi, professor. e eu regressei ao motivo pelo qual um dia disse que queria ser professor. combater a ignorância como outros combatem a fome. porque tão grave como não ter o que comer é não saber e não perceber o mundo em que vivemos. e aquele brilho no olhar, aquela exclamação verdadeira, fez pensar nisso. que não foi para preparar para um exame que eu me fiz professor. foi para esclarecer. e isso é muito diferente. há nisso uma beleza imensa. e com tanta coisa nem reparamos nisso. eu quase não reparava no rui. que percebeu porque era claro para galileu que a terra se movia. como o tinha sido muitos anos antes para outros. e porque outros quiseram que assim não fosse. por isso, só por isso, já valeu a pena ter parado a aula. para ouvir aquela frase, daquele miúdo: já percebi professor...

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