03/10/2014

||| é só um texto carla...


||| ... última aula, de uma semana imensa que não chegava ao fim. só queria ir para casa. ou melhor, só queria sair dali para descansar. a carla disse: ó professor, posso falar consigo? isto no fim da aula. enquanto arrumava a pasta. e pensei que era coisa normal. um trabalho em atraso, uma ideia. digo sempre que sim. claro, carla, diz. e saíram todos os miúdos da sala. ficou ela e o tiago que namorava afincadamente e apaixonadamente a doce rapariga. dois bons miúdos, pensei. é bom que o amor seja assim. nem que seja só naquele tempo em que eles estão. pensei isto enquanto ela tirava uns papéis da pasta. [hoje, os miúdos do secundário mudaram as mochilas para malas ou pastas. principalmente as raparigas. deve ser a integração profissional que o mercado quer] pensei que seria mesmo um trabalho em atraso. os papéis foram-me colocados nas mãos. um volume considerável. e um frase inicial que dizia: dias cinzentos by carla r. seguiu-se um pedido. professor, gostava que pudesse ler. escrevi um livro. tinha já colocado a minha mala aos ombros. retirei a mala dos ombros e sentei-me na mesa segurando o livro. dela. professor, sinceramente só confio em si para ler. gostava que pudesse ler e dizer o que acha. nunca me pensei capaz de escrever nada. toda a gente me dizia que eu escrevia mal. que dava muitos erros. eu sorri. mas lê? se for mau diga. não importa. sorri novamente. carla, claro que sim. em primeiro lugar obrigado por me dares esta oportunidade e de me confiares esta tarefa. obrigado pela confiança. depois, dar erros não é escrever mal. é escrever com erros. [o que dirão de mim que não uso o acordo e mais do que isso invento palavras, coloco pontos e vírgulas onde me apetece e não uso letras maiúscula neste blog]. escrever bem ou mal é como uma coisa ser bela ou não. depende de muita coisa. posso ler agora? agora professor? sim, agora. pode, claro. mas pode levar para casa. eu tenho cópia. ok. então eu vou ler. e digo-te o que achei na próxima aula. obrigado carla por fazeres o meu dia melhor. ó professor... não, é mesmo. há coisas que fazem muito bem a um professor. esta é uma delas. um aluno, uma aluna, no teu caso, confiar. e querer ouvir uma opinião. são duas coisas imensas. é talvez por isso que eu ando aqui. dois beijinhos dados e um aperto de mão ao tiago que estava de plantão com um misto de orgulho e de vontade de ir embora e fiquei. eles foram. puxei a cadeira e abri o livro. comecei a ler. com e sem erros. um texto limpo. belo. simples. uma história. fiquei pela sala mais uma meia-hora ou até mais. quando saí já não estava ninguém em lado nenhum. e hoje, apeteceu-me partilhar esta indiscrição. porque a carla mandou-me uma mensagem numa rede social. anos, muitos anos depois deste momento. tantos que já nem me lembro. escreve para crianças numa prestigiada editora londrina. encontrou-me por acaso numa rede social. queria dizer: obrigado. e mandar-me os livros dela. disse para os guardar. que um dia, num café em conversa, iria receber cada um e pedir um autógrafo. e sim, ainda vive com o tiago. muitos anos depois. é disto que é feita a mais bela profissão. ser professor. e carla, agora que me lês, escreves muito melhor do que eu, mas isso nunca te disse naquela conversa em que te disse para nunca deixares de escrever...

1 comentário:

  1. Diria que se merecem, pela escrita, mas não só...
    Obrigada pelo texto!

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