08/10/2014

||| elegia para o melhor ministério da educação de sempre...



"e ao voltar, sempre triunfantes,
 exibem a grande conquista: 
um pedacinho de pão.
 que bom, este é o pedaço de pão, 
mas onde está o resto do pão?"

brecht

||| nota prévia: elegia [aqui]

||| ... tenho, como professor, a melhor equipa ministerial de sempre. gostava tanto de, um dia, dizer esta frase. e ontem, questionado sobre a razão de, chovendo em todo o lado e por todos os meios, notícias sobre o ministro, um concurso "novo" que não passava de uma trapaça evidente, em que se falava de erros e de professores deslocados, não colocados, de vidas alteradas em poucas horas, eu não escrevia nada aqui sobre isso, respondi. tinha que responder. duas razões. a primeira é porque quero guardar este espaço para "falar" da escola e não da política da educação pois há quem o faça muito melhor do que eu. depois, porque, sinceramente, cada vez que vem mais alguém falar de concursos que não são novos, exigência que não existe, normalidade da e na escola, eu penso: tenho que fazer mais e melhor. a ignorância é o meu combate e tenho que estar a falhar. quando um povo, que eu ensinei como professor, não sabe distinguir propaganda de informação, sou eu como professor que tenho que fazer mais. mesmo que só faça uma gota de água num imenso oceano de miúdos. quando um ministério, pela sua incompetência e falta de respeito coloca todos os dias nos meios de comunicação social notícias surreais de pessoas, que são professores, a falar de vidas mudadas, de turmas com trinta alunos, com escolas fechadas, com o ar de que tudo vai bem foi só uma situação que "afecta" zero virgula oito por cento do universo eu digo: tenho que fazer mais e melhor, em cada aula. em cada conversa. em cada dia. porque isto só é possível numa sociedade para quem a mediocridade está acima do esclarecimento. e por muito bons jornalistas que possamos ter, também aí, falta esse esclarecimento. e se todos falham redondamente, resta-me o árduo trabalho de correr mais um ano lectivo a tentar combater a ignorância num sistema que a promove a olhos vistos. serei eu, professor, o último reduto da liberdade. porque sem esclarecimento não há liberdade. e mesmo estando nos antípodas da política educativa actual, uma coisa eu sei. não consigo dizer mais mal de tudo o que, com um toque simples de seriedade institucional, levaria alguém a sair pelo seu próprio pé, dignificando o lugar que ocupa que perdurará para além do lapso que foi. e por isso, resta-me. as aulas e o direito à indignação. se do último não abdico. das aulas, só posso fazer de cada uma delas um profundo momento de combate à ignorância. para que, não mais, veja este espectáculo triste e degradante de ver desfazer a escola pública em frente aos meus olhos. e para que, um dia, eu possa dizer que tenho um ministério capaz. por isso, se não sabem fazer, saiam. se não saem, calem-se. é que cada vez que mais um momento de propaganda aparece ou um lapso é cometido, sou eu, professor que tenho que fazer mais e melhor. para que coisas erradas e gente errada não exista mais na escola que tanto gosto...

3 comentários:

  1. "...este espectáculo triste e degradante de ver desfazer a escola pública em frente aos meus olhos."
    Profundo, muito profundo. É muito triste e grave o que se passa no meu país, em geral, e na educação, em particular.
    José Nunes

    ResponderEliminar
  2. Muito elucidativo da conjuntura actual...

    ResponderEliminar
  3. quem decide e o quê??? a escola da vida consciente é a base da experiência vital ~~~~~ sem temor, com amor. Vidência clara, mais que as aguas viciadas...) cada um e todos os solidários devem descobrir em si mesmos as respostas para algumas perguntas. alguns pensam que isto é uma ajuda para despertar, nãooooo? Se não, qqquê? que nos impede ver e fazer o justo. é necessário pensar a nível planetário para começar a compreender os mistérios... sorte para todos. presente.

    ResponderEliminar