05/10/2014

||| [im]perfeitamente gostava...

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||| ... gostava que cada professor fosse mais pessoa e menos técnico. que visse os seus alunos. que cada dia e cada miúdo fosse uma oportunidade para fazer mais e melhor. gostava que cada aula fosse uma lição e que ninguém fosse deixado para trás. que cada momento fosse acolhimento e conhecimento. que cada palavra fosse abraço. gostava que cada hora de uma aula fosse um mundo. e cada dificuldade fosse um lugar para aprender. que cada frase fosse conversa.

||| ... gostava que cada pai, mãe, cada um que educa, abrisse os olhos e visse cada criança quando esta olha para eles. que fosse proíbidos os telemóveis, tablets e coisas que tais, sempre que uma criança está por perto mesmo que não peça atenção. que cada pai, mãe, que cada um que educa, visse os seus filhos. com tempo e olhos de ver o presente. o estar presente sem nada mais. que se abdicasse o perfeito e do estúpidamente virtual em troca da presença inteira e plena. 

||| ... gostava que cada pessoa pudesse lembrar-se que ensina sempre pelo exemplo, em cada gesto, em cada tom de voz, em cada forma de dizer e explicar as coisas do mundo. que houvesse espaço para a bondade do ensinar. que fosse possível saber e sentir que todos os dias se é professor e que todos o somos, de uma forma ou de outra. e que o espanto fosse um lugar comum a todos, partilhado entre a casa, o mundo e a escola.

||| ... gostava que pudéssemos ensinar que os dias não são para viver a correr. nem que as coisas são de uma forma ou de outra. que há lugar para todas as maneiras de ver e explicar o mundo. e que o grito fosse banido ou fosse só um lugar habitado e forte para combater a injustiça. que a rudeza e a brutalidade na forma de usar as palavras fosse substituída pela beleza das mesmas e pela ternura no dizer tudo o que falta dizer. que o cuidado fosse o império perfeito das relações entre quem tem que ser igual sem disfarces ou tolerâncias conquistadas. gostava que a escola fosse o espaço para guardar a memória do mundo e falar do futuro. e que os professores fossem, de novo, gente de alma cheia.

||| ... gostava que os pais, as mães e quem educa pudessem dar um abraço sentido e verdadeiro a uma criança que não fosse para uma fotografia publicável. gostava que ninguém dissesse que era dono da verdade e que alguns não dissessem que possuem a receita para a felicidade para vender aos outros. gostava que se fosse ensinando a alegria em vez da felicidade de mãos dadas coma nostalgia que também é precisa. e que houvesse lugar a estar só e saber esperar. e apreciar o tempo sem nada para fazer. reclamar, mesmo, esse tempo tão preciso. reclamar a presença, sem mais nada que não seja estar verdadeiramente presente.

||| ... gostava de saber e sentir que ser professor é ensinar tudo isto, todos os dias, cada vez mais. porque é preciso lembrar isto. o óbvio que parece esquecido. mas às vezes é preciso, infelizmente, reclamar o óbvio. não num dia destinado, mas todos os dias, naturalmente...

1 comentário:

  1. PERFEITA ANÁLISE.....SÓ FALTA NUNO CRATO DEMITIR-SE......

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