27/11/2014

||| daquele olhar de quem escutou...


||| a rita. escutou. ouviu-me. disse-me em jeito brando: aprendi coisas hoje. e eu sorri. coisas, disse ela. e eu sorri. aprendeu coisas. muitas coisas. os miúdos, mesmo mais crescidos, como digo, chamam coisas ao que aprendem. coisas. como se fossem mesmo, objectos. guardados algures. há nisto algo de fascinante. eu digo sempre que eles querem saber para que serve o que ensino. e eu não estou preocupado com isso. estou preocupado com as coisas da ciência. do servir só para explicar o mundo. perceber que o mundo é tudo o que acontece e aconteceu. e isso faz de mim algo maior do que eu. é como se o saber do mundo fosse passando por mim e eu fosse, quando ensino, somente o fio condutor. não a energia ou algo mais. só o meio que permite o saber ir de um lado para o outro. o saber. essa palavra maldita ou pouco dita na escola. cada vez mais. mas é por isso que existem professores. ninguém, como nós, guarda, preserva e cuida do saber de todos nós. somos antigos magos, ansiães. guardadores dessa coisa única que nos sustem. que nos une. construtores de uma identidade muito mais antiga do que nós e que nos ultrapassará no correr dos dias. fundamento. sustento. base. somos tudo isso em cada aula. em cada momento, como este. em que a rita olhou para mim de olhos brilhantes e disse: hoje aprendi coisas. muitas coisas. e não foi de mim. foi por mim. e ainda bem. 

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