17/12/2014

||| boas festas...


||| ... um santo natal
 ||| ... um bom ano de 2015.

voltarei aqui, em janeiro. 
se os deuses assim o permitirem...


12/12/2014

||| palavras [im]perfeitas...

josé saramago

||| um email para eu pensar...


||| ... olá professor. começa assim o email recebido. temos saudades suas. das suas aulas. dos seus disparates. do seu incompreensível sentido de humor que colocava em tudo. agora temos que cumprir o programa e falamos de tudo mas sem vontade. porque não volta? pense nisso. faz-nos falta. fazia com que o pessoal fosse pensado. um beijinho, professor. e volte, está bem? a margarida, assinava. foi minha aluna. falava da falta que sinto também. ensinar é colocar em comum com eles tudo o que sei. não é muito. é só um pouco mais do que eles, naqueles momentos em que sala de aula é um espaço onde tudo pode acontecer. tudo. o previsto e o imprevisto. e fica sempre a saudade das turmas que nos dão luta. dos miúdos que perguntam para além do óbvio. daqueles grupos que nos fazem querer ser melhor. ou voltar. ou simplesmente, só isso, voltar. para eles. para o que sabemos. para o que somos. margarida, obrigado pelo teu email. fez-me pensar. e por isso, fez-me bem. e um dia faço uma visita. quem sabe, para voltar. por agora, ando ao sabor da vida. ou o que ela quiser fazer de mim para além de ser professor.

||| leituras [im]perfeitas...


||| música [im]perfeita...

||| ser professor não é isto...


||| ... ser professor não é isto. não é preencher grelhas. não é ir a infinitas reuniões sem utilidade. não é andar quilómetros para dar uma aula. não é trabalhar a correr. não é ter tempo para tudo e não ter tempo para nada. não é estar cansado demais para pensar. não é preencher formulários para fingir mudanças. não é fazer relatórios, actas, processos, fichas e mais fichas e colocar coisas em espaços vazios de um espaço numa folha vazia num computador para dizer que se cumpre tudo aquilo a que o tempo, castrado, impede de fazer cumprir. ser professor não é isto. não é não conseguir fazer uma visita de estudo porque não há espaço no programa. não é cumprir metas. nem avaliar por avaliar em catadupa. ser professor não é estar contra aqueles que são colegas só porque todos se querem salvar de perder mais tempo com tudo o que não deixa, cada um de nós, sermos professores como sempre fomos. ser professor não é isto. não é estar numa escola como sardinha em lata. não ter tempo para a conversa necessária com os outros e consigo próprio. não conseguir ler um livro até ao fim. não estar capaz de estar atento porque tantas são as coisas por e para fazer que a atenção é tão dispersa que cansa só de pensar que algo mais chama e clama pela nossa atenção. ser professor não é isto. ponto. final.

11/12/2014

||| palavras [im]perfeitas...

pedro tamen

||| ser pessoa. ser professor...


||| ... às vezes, ser professor é ser pessoa. primeiro. e no fim de tudo. e deixar que os miúdos vejam isso. simples. ou não...

||| leituras [im]perfeitas...



||| música [im]perfeita...

||| vender a educação ou a municipalização da coisa...


||| ... começa sempre da mesma forma: as experiências-piloto. depois os argumentos. proximidade. justiça. rapidez. coerência e "resposta ajustada". e o tempo. que tudo é mais célere assim. e o respeito pela ordem instituída entre todos os agentes. actores. acho que agora há um termo mais moderno que advém das escolas terem passado a "unidades orgânicas". eu é que já não sei qual é. estou cada vez mais desactualizado nesta coisa de inventar termos para coisas que sempre foram o que são. faço já um ponto de honra. sou contra esta ideia de "municipalização educativa" num país sem qualquer cultura cívica e organizativa que seja válida. válida, considero, clara. transparente. não vou argumentar com a desnecessária "virtude do povo português" do caciquismo ou do compadrio pois não é o meu estilo e não é por aí porque nisso, como em tudo, a parte não reflecte o todo. vou pela lógica de escola que se deseja. que desejo, ainda. não se trata de "uniformizar" o que naturalmente é diferente. e por vezes isto (uniformizar e diferenciar) parece simplicíssimo mas não é. ou o contrário também é válido. defendo o que sempre defendi. que cada escola deve ter uma identidade. com isso, um plano e uma estratégia pedagógica marcadamente identitária e que os recursos humanos, docentes e todos os outros, devem ser seleccionados em listas nacionais, com critérios claros e precisos (e não desvirtuados por sistemas de avaliação "a fingir" ou outras coisas que tais). parece simples. não é. não é porque vender a educação é um mercado cada vez mais apetecível. apetece pensar que a "tutela" se pudesse, ficava só com o betão. e já nem isso. porque a lógica aqui é mesmo perniciosa. porque não é baseada na lógica da razão da escola mas sim no "passar" custos e estruturas de gestão. de passar o peso da máquina para outros. e se ainda, cada professor, não pensou nisto, é melhor pensar. está a chegar o tempo de ver o quadro todo e perceber que a escola está a desaparecer a cada dia que passa...

10/12/2014

||| palavras [im]perfeitas...

vinicius

||| avaliar é errar...


||| ... sempre tive este grande problema com um dos elementos de "ser professor". avaliar. tentei vários sistemas. vários modelos. abandonei os testes como referência única ou principal há muito tempo. e num sistema centrado nos "exames" isso tem um peso gigantesco. é o rótulo de "outsider" ou "revolucionário" ou "desobediente". qualquer um deles marcado por uma peso negativo profundo e um olhar com o sobrolho levantado. avaliar é sempre cometer erros. de julgamento e de justiça. porque é um momento. sempre valorizei o contínuo. a "evolução" como agora é moderno dizer. e o pensamento é um processo lento de se construir. ser interrompido o processo de educação para o pensamento lúcido e crítico com um teste é como espetar um carro contra uma parede na frente de alguém que está a aprender a conduzir. mas agora é só isto. um edifício educativo assente na "exame-ó-dependência". e sobre esta capa de seriedade do "exame" abafa-se tudo o resto. sim, usei abafar. sou do tempo de brincar com berlindes e "abafadores". o problema é esse mesmo. um sistema montado para abafar toda e qualquer "leviandade" educativa, como por exemplo, uma visita de estudo ou uma aula data fora de portas. ou qualquer coisa que não venha a ser passível de sair no tal exame. para muitos é tão mais fácil de assim seja. somam-se notas. não se vê mais nada. mas graças aos deuses que ainda oiço notícias que dizem que as notas internas em média são mais altas que as dos exames. depois vem a explicação em jeito de justificação para o perdão: são muitos factores. é que nesses "factores" está um um principal: educar/ensinar não é treinar. muito menos para responder a perguntas em série ou em "conformidade" com o pedido. é por isso que avaliar, com sentido, é errar. é até, desrespeitar. e ainda bem...

||| música [im]perfeita...

||| leituras [im]perfeitas...


||| andar é desobedecer...


||| ... aguardava. enquanto aguardava ouvia. escutava. sempre gostei do cuidado com as palavras que o fernando alves tem. não as deixa morrer. e guardei, esta "crónica". e ouvi: andar ensina-nos a desobedecer. andar. e disse tantas vezes aos meus alunos que esta era uma forma que tinha para quando tinha testes e queria controlar o nervosismo normal dessas alturas. andava. pelos corredores. ou pelo espaço da escola. e contava sempre a história de kant, visto a caminhar a horas sempre certas. e dei tantas aulas a caminhar. a conversar enquanto caminhava. com eles, os miúdos. ajudava à conversa. dava cadência. permitia a observação das coisas ou das palavras. e isto tudo porque pensei nisto. nisto tudo em que transformámos a escola e tudo o que a rodeia. os miúdos já não caminham para a escola. são levados. são trazidos. e passam horas e horas. e mais horas, sentados. pode parecer absurda a observação por ser tão "básica". mas é deste tempo que é feito o tempo deles. sentados a ouvir. sentados a pensar. o movimento é algo negado. suspenso pela "entrada" na escola. e por estranho que pareça isto que dizer muito. salta-me à memória o andar. o mover. as montanhas por mover, de torga. ou o andar ensinado por keating. e penso nisto. sentado...

04/12/2014

||| palavras [im]perfeitas...

daniel faria


||| foi a memória que me fez pensar...


||| ... dei aulas a miúdos sem nada. comecei por ai. talvez isso tenha marcado toda a minha vida como professor. sem nada. a quem tinha sido negado tudo. nem pais. nem casa. nem brinquedos. nem memórias felizes. só eles a salvarem-se. era o professor. eu, professor. e eles. e tivemos um ano de trabalho juntos. não, tivemos um ano de vida juntos. ainda hoje sei muita coisa deles. nunca me desliguei. mandam-me mensagens, adultos agora, a dizer por onde andam. de tempos a tempos. ou encontram-me numa rede social por acaso e contam as aventuras da vida. dos filhos que tiveram, da vida que fizeram e o que conseguiram. lembram-se de mim como eu me lembro deles. e nas alturas de maior cansaço penso sempre nisso. naquele lugar seguro em que sempre desejei transformar as minhas aulas. fora das batalhas da profissão ou das regras absurdas de uma organização que se chamou, em tempos, escola. a minha aula era o seu espaço. o nosso espaço. éramos, para o bem e para o mal, uma equipa. nós. sempre disse nós. para eles. era eu e eles. mesmo eu sendo ali um mais do que eles. um pouco mais. por ser adulto. por saber um pouco mais. da vida, sabia menos. a luta deles sempre foi maior do que a minha. reconheci sempre isso. e hoje, num tempo de crianças "atiradas" para a escola e de tantos sem nada mesmo tendo tudo, penso nesses miúdos que fizeram de mim o professor que fui. e agradeço-lhes. uma coisa em especial. uma frase que repito como grito: são só miúdos. nela está contida a palavra criança. e a palavra direito. direito a serem crianças. parece utópico. não é. é por negarmos tantas vezes este direito que temos crianças que nunca o foram. e adultos que não o sabem ser. olhamos para eles desejando que se comportem como imaginamos e muitas vezes nem o fazemos nós mesmos. são só miúdos. talvez precisem de ser as crianças que nunca foram para serem as pessoas que desejamos que eles sejam no futuro que é deles e não só nosso. obrigado por me terem ensinado isso. a eles, miúdos que cresceram e me ensinaram que é nisso, em parte, que está a alma de se ser professor...

||| leituras [im]perfeitas...



||| música [im]perfeita...

||| livros, leitura e antónio botto...


||| ... às vezes tenho momentos que me são oferecidos como privilégio sem o merecer. foi conversar. sobre um livro. acabei a ouvir falar de antónio botto. e falei de antónio nobre. e de miguel torga. e de eça. e das histórias que ouvia em casa sobre escritores e as suas virtudes e pecados. das cartas. do que diziam entre si, em carta. de ter ido ao ccb, pouco tempo depois de abrir ver uma peça de teatro baseada nas cartas de amor de fernando pessoa a ofélia. e o esquecido antónio botto. e o esquecido antónio nobre. mais só, ainda. e lembrei-me de uma aula que dei no porto há quase um ano. e do largo onde está o busto/monumento a antónio nobre. esquecido, ele também. sim, o monumento. e dos alunos não saberem que era. quem tinha sido. um poeta nunca morre. é esquecido. é pior. e esquecemos porque não temos tempo nas aulas para falar deles. dos que não estão no programa. e isto mata a escola. e mata a cultura. e mata a memória. e mata a identidade. e mata o pensamento. quando não há tempo para falar deles. dos que estão para além daqueles que são obrigatórios. é horroroso dizer isto. é obrigatório dar camões. não é obrigatório. é lógico. faz parte de nós. como os esquecidos também fazem. como cesariny. ou natália correia. ou qualquer cientista cujo nome não dizemos porque não tem uma imagem no manual que o recorde. o homem que inventou a iluminação de rua, como me dizia um aluno. estamos castrados na memória pelo tempo que não nos deixam ter para falarmos de tudo o que falta ali, em sala, ser falado. depois surgem as queixas de falta de cultura. da cultura da cultura. que não existe. quando somos nós que, vencidos pela falta de tempo, esquecemos. fazemos esquecer. curioso. curioso que disto seja hoje feita a escola...

02/12/2014

||| palavras [im]perfeitas...

mário sá-carneiro

||| desfazer a imagem criada...


||| ... os alunos olham para tudo o que o professor faz. tudo. e o que não faz. tudo o que não faz. é estranho dizer isto mas hoje pensei nisto. porque há uma imagem em nós dos nossos alunos. e deles, nossa. e quando brincamos, quando sorrimos, quando nos zangamos, quando marcamos uma posição, tudo é visto. revisto. comentado. e isso faz de nós quem somos para eles. quando eles olham, conseguem ver o que não sabemos. aquilo que desejamos criar neles não é o que fica. porque é mais. sempre mais. e somos nós que precisamos, vezes sem conta, de os ver. e de os escutar. porque eles, que somos nós mesmo sem o dizermos, reflectem o que fazemos. e somos nós que criamos a aula. por mais estranho que isto possa parecer. é assim. tantas vezes. quase todas as vezes. nós. não eles. nós...

||| música [im]perfeita...

||| leituras [im]perfeitas...


||| nem sempre, nem nunca...


||| ... nunca percebi porque a sala de aula tem que estar sempre na mesma disposição. nunca entendi, nunca entenderei. sempre disse aos meus alunos que se podiam sentar como lhes desse mais jeito. em cada aula. de acordo com a natureza de cada trabalho. a forma, a articulação. mas não. a tendência deles próprios é manterem o lugar. rodam as cadeiras. não mudam o lugar, o espaço, para se adequar ao que é preciso fazer. depois estão "desconfortáveis". é preciso educar para o uso do espaço. da sala de aula. antes de ser sala da aula é sala de quem lá tem que estar. nossa sala. a nossa sala. esta é a primeira coisa a mudar. nossa de nós. de quem lá está. e depois da aula. a que se pensou. a que se quer dar. a que é preciso criar. e habitar o espaço não é estar no espaço. nem dele tirar toda a potencialidade. as salas são todas iguais. porque são das "aulas" e não das pessoas. é tão urgente ensinar a usar o espaço. aquele que é preciso reclamar para ser útil. esquecemos sempre estas coisas tão simples para depois podermos reclamar de todas as outras coisas destas derivadas...