04/12/2014

||| foi a memória que me fez pensar...


||| ... dei aulas a miúdos sem nada. comecei por ai. talvez isso tenha marcado toda a minha vida como professor. sem nada. a quem tinha sido negado tudo. nem pais. nem casa. nem brinquedos. nem memórias felizes. só eles a salvarem-se. era o professor. eu, professor. e eles. e tivemos um ano de trabalho juntos. não, tivemos um ano de vida juntos. ainda hoje sei muita coisa deles. nunca me desliguei. mandam-me mensagens, adultos agora, a dizer por onde andam. de tempos a tempos. ou encontram-me numa rede social por acaso e contam as aventuras da vida. dos filhos que tiveram, da vida que fizeram e o que conseguiram. lembram-se de mim como eu me lembro deles. e nas alturas de maior cansaço penso sempre nisso. naquele lugar seguro em que sempre desejei transformar as minhas aulas. fora das batalhas da profissão ou das regras absurdas de uma organização que se chamou, em tempos, escola. a minha aula era o seu espaço. o nosso espaço. éramos, para o bem e para o mal, uma equipa. nós. sempre disse nós. para eles. era eu e eles. mesmo eu sendo ali um mais do que eles. um pouco mais. por ser adulto. por saber um pouco mais. da vida, sabia menos. a luta deles sempre foi maior do que a minha. reconheci sempre isso. e hoje, num tempo de crianças "atiradas" para a escola e de tantos sem nada mesmo tendo tudo, penso nesses miúdos que fizeram de mim o professor que fui. e agradeço-lhes. uma coisa em especial. uma frase que repito como grito: são só miúdos. nela está contida a palavra criança. e a palavra direito. direito a serem crianças. parece utópico. não é. é por negarmos tantas vezes este direito que temos crianças que nunca o foram. e adultos que não o sabem ser. olhamos para eles desejando que se comportem como imaginamos e muitas vezes nem o fazemos nós mesmos. são só miúdos. talvez precisem de ser as crianças que nunca foram para serem as pessoas que desejamos que eles sejam no futuro que é deles e não só nosso. obrigado por me terem ensinado isso. a eles, miúdos que cresceram e me ensinaram que é nisso, em parte, que está a alma de se ser professor...

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