31/01/2015

||| arte [im]perfeita...

a idade do medo
graça morais



||| sem pensar é mais fácil...


||| ... sempre me assustou a ausência de reflexão. da capacidade de pensar. de fazer ligações entre coisas, mesmo que erradas. mas tentar. transformámos a escola e o ensino num prêt-a-porter. onde os miúdos deixaram de lado a capacidade de co-relacionar coisas para terem que saber, apenas, como responder em série a um conjunto mais alargado de outras coisas. sem ligação aparente. como se tudo fosse mecânico. repetido. industrial. precisam de letras pequeninas depois das mais simples perguntar que as "descodifiquem". fomos pelo mais simples. simplificando o mais óbvio. dando modelos para tudo e mais alguma coisa. dando fichas com campos e palavras pré-determinadas para preencher. abandonámos a folha em branco. a exigência brutal de criar do zero, sempre. ou de retomar as coisas do ponto de onde já sabemos que a razão traz alguma luz onde assenta tudo o resto. e fizemos isso muito bem. tão bem que agora os miúdos só sabem pensar e fazer coisas tendo modelos para seguir. ou plataformas. ou sequências. apareceu o pavor do vazio. do fazer sem orientação. do livre arbítrio. o culto do medo do erro ou do desvio ao padrão ocupou o espaço do individual. da diferenciação. e ficámos mesmo muito bons nisto na escola. quem ensina, ganhou competências valiosas a ensinar assim. o resultado é simples. a folha em branco, assusta. apavora. qualquer miúdo. precisa de alguém que lhe diga o que lá escrever ou fazer. na folha em branco que é só uma folha em branco. e isso sim, é assustador. pelo menos para mim, que dou sempre e darei sempre folhas em branco aos meus alunos para pensarem o que lá querem colocar...

||| música [im]perfeita...

||| leituras [im]perfeitas...


||| desta coisa de educar para qualquer coisa...


||| ... às vezes é tão difícil dizer o que é um professor. explicar a um encarregado de educação de uma criança o que é um professor numa escola, qual o seu papel, qual a sua função. tudo de confunde muito rapidamente. porque queremos colocar a tónica no conhecimento e no futuro. que somos "ensinadores" de futuros que também desconhecemos mas para os quais queremos "preparar" os miúdos. mas já nem é isso. as palavras tropeçam. passados poucos minutos de discurso estamos a falar de exames. de bons e maus alunos. de comportamentos. de programas para cumprir que impedem tudo o resto. e olhamos para o homem ou mulher que temos junto de nós e que nos diz que é encarregado da educação daquele miúdo ou miúda e trocamos novamente as palavras. falam-nos de que é difícil. cada vez mais difícil. alguns da falta de dinheiro. outros da falta de tempo. em alguns contextos quase surgem com o papel de pedir contas do que andamos a ensinar. educar não, ensinar. mas esses contextos são raros. os outros, que nos falam da fome, sem falar, esses são mais comuns. falam em confissão. e deixamos de ser professores para ser pessoas. quase vestimos o papel de assistentes sociais. de tudo e mais alguma coisa. rematamos sempre: mas eu sou só professor. como se fosse só isso. porque sabemos que, muitas vezes, somos tudo e ainda somos professores para além desse tudo. e às vezes é mesmo tão difícil dizer o que é ser-se professor, hoje, na escola...

26/01/2015

||| palavras [im]perfeitas...

antónio ramos rosa

||| humanismo na escola não é parvoíce...


||| ... eu sei. diz-se numa escola que o que o sistema precisa é de humanismo e pronto. colocam logo um rótulo na nossa testa a dizer: utópico, parvo, idiota. pensam logo em abraços, balões e tudo pintado de cor de rosa, sem regras e numa coisa assim tipo parvo. ou então, reservam-se a um silêncio inquieto. do género: não perturbes o sistema em que ninguém está bem mas todos estão conformados. eu sou dos que diz que o que falta na escola é o sentido humano da educação. a relação humana em todas as suas valências. e não gosto de balões. e não, não é acabar com as notas nem com as regras. não é nada disso. é isso que muitos não percebem ou fazem o favor de parecer que não entendem. pensar que uma pessoa não é só o que sabe ou tem ou consegue não é mais do que colocar o ser humano no centro de um espaço que deve ser ocupado por todas as capacidades que cada um tem. a escola tem que ser esse espaço. não de entretenimento mas de aprendizagem. de razão, mas também de emoção. de construção e de regras. de tudo. não só para um lado ou de uma forma. não só valorizando só uma coisa. e não é pintar a escola de cores sempre felizes. é colocar o estudante e o professor, como pessoas, num deambular constante na relação entre saber e ser. numa sociedade em que cada um, cada vez mais, é só mais um, a escola tem o dever de ser promotora de reflexão, mudança e ponderação. e ensinar isso passou a ser um papel fundamental da escola para uma sociedade sem tempo ou modo. ser um baluarte de razão. de cidadania. é isso, fundamentalmente, que falta à escola. emersa em funções e tarefas esqueceu a sua essência. e isso, sim, é desumano...

||| música [im]perfeita...

||| leituras [im]perfeitas...


||| daqueles que estudam...


||| ... às vezes não damos por eles. margarida, explica ao teu colega, se faz favor. eles, os que estudam. os miúdos que ainda vão à biblioteca procurar aquele livro que falamos [de raspão] na aula. rui, eu sei que tu sabes isto, por isso ajuda a explicar. aqueles a quem reservamos cada vez menos tempo de atenção. porque é certo que sabem. que até sabem estudar. que sabem procurar as coisas, encontrar o conhecimento, que não estranham um filme, que questionam no fim. às vezes são até os mais silenciosos. ouvem com atenção. tiram notas. ficam um pouco mais no fim da aula para fazer uma pergunta que ficou por esclarecer. eles, os estudantes. e com a gestão de tudo o que hoje temos para fazer achamos natural que eles não sejam mais uma coisa para gerir. mais um tempo. e esquecemos isso. do que precisam verdadeiramente para se manterem interessados quando eles são em número menor. muitas vezes etiquetados pelos outros como os "que estudam" como se isso fosse algo de muito mau. estranho tempo este da e na escola em que nem isso já conseguimos ver. ter como certo que estes alunos serão sempre estudantes é tão errado como pensar que todos os outros não precisam de regras...

25/01/2015

||| da realidade do sistema educativo...


||| ... às vezes, sem esperar, a realidade relembra-nos do que é a escola, hoje. um professor, deslocado a mais de cem quilómetros de casa, que foi colocado num agrupamento onde tem que fazer viagens entre escolas que distam mais quilómetros entre si, com nove turmas (ou mais) e três ou mais níveis de ensino, em turmas de trinta alunos. foi uma conversa de minutos. mas a realidade do que hoje temos estava ali explicada. pelo cansaço. pelo desânimo. por ter que continuar porque o trabalho é mais forte do que a razão. e perceber a nudez crua disto é pensar e reler estas palavras ditas com a voz sentida. é uma vida inteira que se cansa. é a perda total das forças. é a completa desvalorização de uma profissão que se quer de dedicação, encanto e vontade. a realidade é assim. multiplicada por milhares. outros que se seguram à espera de "entrar" em lugares criados pela segurança social enquanto esperam subir na lista. e os que andam na escola, lá estão e ficam, estão assoberbados de trabalho burocrático e inútil que quase parece que as aulas para dar incomodam os horários de reuniões, coordenações e coisas que tais. a realidade é brutal e limpa. e às vezes é mesmo preciso rever as palavras. que descrevem o que existe. e o que se vive. hoje, na escola...

21/01/2015

||| palavras [im]perfeitas...

josé saramago

||| uma reunião a mais...


||| ... o tempo passado em reuniões nas escolas é o tempo mais inútil que existe em todo o sistema público. inútil. estúpido. porque nunca são reuniões. porque é obrigatório lá estar mesmo não estando e porque as ordens de trabalhos raramente conseguem um resultado válido. é simples perceber isto: qualquer organização onde uma reunião tivesse obrigatoriamente que ter duas horas e trinta minutos, fechava por inoperância. agora é só perceber que numa escola isto multiplica-se por quatro, cinco ou mais. e está tudo dito...

||| música [im]perfeita...

||| leituras [im]perfeitas...


||| eles e a escola...


||| ... às vezes penso nisso. nas tabelas. nas médias. nas listas. nas notas. tenho alunos com dez que tiveram muito mais sucesso profissional e pessoal do que outros que tiveram dezoito. e o contrário também é válido. as listas, as grelhas, agora são a cores. dentro do "padrão". do limite. das balizas. outros, a vermelho. fora dele. dezenas de tabelas. dezenas de grelhas. e depois justificar. explicar a razão da coisa. do "desvio". tudo transformado nisto. para quem lê, sentado, ver uma realidade que não existe mas que gosta, sistematicamente, de fazer parecer que é real. a rita, o joão, o pedro, o andré, a maria, reduzidos a percentagens. a números. todos eles. não importa que a rita tenha chorado esta semana e dito que ficou feliz por ter conseguido perceber uma coisa que até ali lhe era desconhecida. ou que o andré me tenha dito que "acabou" com a namorada e por isso não conseguia ter a necessária [e apaixonada] concentração. estes amores de juventude são sempre o fim do mundo. e ainda bem. eles, a miúda de cabelo corrido que tenho à minha frente ou o miúdo de blusão azul ao fim da sala, não são eles. são números. dentro ou fora de um padrão. verdes ou vermelhos. é nisto que a escola está transformada. é tudo isto que é preciso pensar, repensar e refazer. urgentemente...

19/01/2015

||| palavras [im]perfeitas...

miguel torga

||| do tempo necessário para ensinar...


||| ... não tenho tempo para ensinar. tenho tempo para sentar todos eles. para preencher o sumário no computador [três minutos]. tempo para fazer a chamada. tempo para ver as coisas feitas. tempo para tirar dúvidas. tempo para preparar para os testes. tempo para reuniões. tempo para resolver uma situação inesperada. tempo para reunir com a coordenação. tempo para tomar um café a correr para ter mais um bocadinho de energia. tempo para aulas extra que por cansaço já não sou aulas. tempo para mais uma reunião. tempo para estar num gabinete de apoio que não apoia. tempo para dizer coisas a fazer numa grelha que ninguém lê. tempo para escrever uma acta que ninguém lê. tempo para acabar um relatório que ninguém lê. tempo para preencher uma grelha que ninguém vê. tempo para fazer uma planificação que falta que ninguém consulta. tempo para mais uma reunião por causa de um miúdo para quem não tenho tempo. não tenho tempo para ensinar. ou é muito pouco. cada vez menos. para estar com eles, para falar com eles, para lhes dar o que sei. esse tempo preciso que é o tijolo da escola está a fugir pelos dedos de todos nós como areia. e com isso, tudo o resto...

||| música [im]perfeita...

||| leituras [im]perfeitas...


||| daqueles que se vão libertando...


||| ... às vezes penso que é da idade. ou do tempo ter passado sem eu dar por isso. ou daquilo que sei estar a ficar desactualizado. mas cheguei a uma aula a fiz a proposta. vão ter que fazer um trabalho. ó professor, sobre o quê? em grupo? como? esperem. tem uma regra. só uma. [os miúdos habituam-se a esta coisa de eu dizer as regras e mais nada].não podem usar computador ou qualquer meio de consulta electrónica ou digital para o fazer e para o apresentar. foi o caos como nunca tinha visto nos primeiros minutos. sem net? sem computador? como apresentamos? como escrevemos. ainda me lembro de lhes mostrar as mãos e uma caneta. foi dos trabalhos mais difíceis que lhes mandei fazer, disseram-me. a razão era simples. não havia um suporte. nada por onde começar. diziam. resumi a aula a uma lição: é tão curioso que o virtual seja agora real e o real tão impossível de "aceder". deu um bom debate. e fiquei eu com a dúvida sobre as verdadeiras competências que estamos a dar aos miúdos. tirado o tapete serão eles capazes de entender o mundo?...

18/01/2015

||| deste tempo da escola...


||| ... às vezes olho para os portões das escolas e não reconheço nada do que a escola podia ser. devia ser. foi. é, na sua essência. depois penso no que penso sempre nesse momento: somos muitos. a escola tem que acolher todos. não sabe como o fazer. ou sabe, não "a" deixam é fazer o que sabe. acolher todos é ensinar todos. educar, todos. dar futuro a todos. ou tentar. mesmo que não consiga. ter força e formas para tentar. o conhecimento é só um. a forma de o transmitir é tão vasta como o que cada um dos miúdos traz consigo também. há lugar ao saber. como há lugar ao abraço. ao acolher. ou não há e é aí que está o erro. o mal. o desvio da escola que agora se transforma num supermercado da repetição. depois há aqueles balões de oxigénio. na escola. o professor que não desiste. o miúdo que não desiste. o projecto que se consegue fazer. o sucesso inesperado. a boa acção feita sem ninguém saber. mas isso não aparece na escola. é uma coisa feita pelos que lá andam para manter o que dela resta. a escola é agora um imenso corredor. com portas. com salas de aula em que se enlatam pessoas que pensam para deixarem de pensar  e passarem a responder certo ou errado como terão que o fazer numa ou duas horas no final de um ano que nem isso é. ouve pouco. diz, ainda menos, a escola. tem muros. demais. tem, medos, a mais. das autorizações precisas. dos processos necessários, dos castigos urgentes. tudo, cerca a escola dentro de si mesma. e vai morrendo, lentamente. mas dizem [e é verdade] que muitas vezes é preciso morrer para se renascer. talvez seja isso que está a acontecer aos nossos olhos. onde reina o "um contra o outro" poderá nascer algo de novo. tenho mesmo essa ideia, imperfeita, utópica. que isto tudo vai morrer. chegar ao ponto de degradação tal que ninguém aguenta e em que a urgência de mudar será maior do que a falsa ideia de que cumprindo tudo o que mandam outros a escola será escola. às vezes olho para o portão da escola e pergunto, somente isto: porque é que a escola tem um portão?...

14/01/2015

||| palavras [[im]perfeitas...

josé saramago

||| do pensamento único na escola...


||| ... assusta-me a constante espera da resposta que venha da "tutela", de quem tem responsabilidade, do director, do coordenador, dos outros. sempre dos outros. um plano de formação, uma reunião, uma matéria para ser leccionada. tudo decidido pelos outros. e depois, "não nos ouvem". e depois, nada "funciona". e depois, "é o sistema". e para rematar: "tem que ser assim" e "sempre foi assim". o pensamento próprio passou a ser, na escola, um pensamento dos loucos ou dos privilegiados. e isto é assustador. a ideia que se tem que cumprir qualquer coisa só porque se tem, porque está escrito ou esperar que outros decidam por nós o que para nós é o melhor foi um conquista maquiavélica desta equipa ministerial que conseguiu elevar ao máximo o "pensamento único" para coisas que "não podem ser de outra maneira". isto era só assustador se fosse noutro organismo qualquer da função pública. mas é na escola. o lugar, por excelência do questionamento e das liberdades. mas mortos e enterrados estes princípios, agora, é tão fácil ver tudo a dizer que tem que ser assim, que esperam da tutela a panaceia ou a orientação. melhor, o rumo. e isto é triste. é a prova que se pode matar a escola mantendo só as paredes e as janelas porque quando ninguém diz que não, faz perguntas ou diz que há outros caminhos é, para os outros todos que seguem o que vem em mais um regulamento, proscrito. pensar pela própria cabeça, saber o que se quer para a escola, para uma aula, para um trabalho em equipa é agora um acto de rebeldia. melhor, de rebelião. e já não resiste a pergunta: como chegámos aqui? eleva-se a pergunta: como fugimos daqui antes que seja tarde demais?...

||| leituras [im]perfeitas...


||| música [im]perfeita...

||| as perguntas que revelam...


|||| ... lembro-me como se fosse hoje. tinha acabado uma lição. daqueles que são uma espécie de discurso sobre o mundo. uma divagação misturada com desafios para o pensamento. a sala levantou-se para sair. vieram alguns miúdos dizer que tinham gostado. outros com palavras de circunstância. e ficou um miúdo para o fim. disse-me: leia. era um caderno de linhas, dos pequenos, com quatro perguntas. quatro perguntas complexas. bem elaboradas. que mostravam pensamento, lógica acima da média, reflexão. a minha primeira reacção foi tentar responder. mas parei. parei para lhe dar os parabéns. ele tinha ouvido. foi pensando em tudo o que fui dizendo e ficaram as dúvidas. perguntar, num aluno é sinómimo de duas coisas: curiosidade e inteligência. mas raramente é isso que lhes fazemos sentir. sempre detestei aquele comentário como resposta a uma pergunta de um aluno: "ainda não sabe isso?". às vezes, uma simples pergunta é só uma confirmação. naquele caso, daquele miúdo, um desafio. a mim, ao que tinha dito, a ele mesmo. apetecia-me ficar muito mais tempo a conversar com ele. ele, merecia. como não tinha tempo, decidi deixar-lhe essas palavras mesmo. que ele merecia esse tempo e essa atenção. que teria todo o gosto em responder. nem que fosse por email. e assim foi. nenhuma pergunta devia ser deixada por fazer. nem nenhuma resposta por dar. na escola. no seu lugar, mais do que, natural...

12/01/2015

||| palavras [im]perfeitas...

fernando pessoa

||| da apatia ou do lugar dos tontos...


||| ... lembro-me da primeira vez que me chamaram idiota. foi uma professora. fiquei ofendido. fui falar com ela. levei um "trabalho para casa". ir à origem das palavras. este trabalho para casa mudou para sempre a minha forma de ver as coisas. apaixonei-me pelas palavras. pela sua razão. pela sua sombra. apatia é uma palavra dessas. de origem grega. das antigas, como lhes chamo. das que resistiram ao tempo. da negação da pathos. ou o seu inverso, ganhando sentido. uma inércia enferma. doente. estranha. e quase que podemos dizer que é este o espelho da realidade. os miúdos, apáticos. sobre a realidade, as coisas, o fazer, o tentar, as ideias. a realidade, simples. básica. cercados de casas dos segredos e coisas que tais habitam um universo "à dantas" no olhar de almada negreiros. um tempo de tragédias de faca e alguidar do qual poucos conseguem fugir. esta geração enlatada está habituada à escola como privilégio. como obrigação e como privilégio. dada, oferecida. não é preciso fugir ao trabalho. quer-se, muitas vezes, fugir da escola para o trabalho. a alguns não faz sentido a ideia de escolarização porque só essa realidade é conhecida. não pensamos nisto. poucas vezes pensamos nisto. do lado de cá. do professor. tomamos como adquirido que o sermão de que muitos não terão acesso ou tiveram acesso ao que agora existe serve para ilustrar uma realidade. ou que "eram precisos andar tempos sem fim a pé e ao frio para ir à escola". hoje, em muitos casos, essa história está tão longe como tudo o resto. está muito mais perto a miúda que toma banho na televisão fechada numa casa porque mais nada sabe fazer para gáudio de muitos do que essa realidade. a apatia vem daí. disto tudo. de nunca estes miúdos terem sido chamados a decidir nada, a dizer nada, a escolher nada, a serem responsáveis por nada. até as associações de estudantes lhes foram roubadas para serem agora agências de viagens para festas de "finalistas". compreender isto é perceber que esta apatia é tão perigosa como inquietante. porque é, de facto, desinteresse pela escola. já não é só simples não-vontade. é o resultado do que foi criado, nesta ideia do "pré-feito" que o sistema educativo actual abusa. usa e abusa. a autonomia é difícil. de ensinar e de aprender. assim como a tomada de responsabilidades pelos próprio. mas decidir é o contrário de estar apático. talvez seja este o ponto de partida para mudar. ensinar a decidir. as pequenas coisas primeiro: como dispor a sala para aquela aula, quando falar disto ou daquilo, quando ser avaliado. coisas simples que mudam o é a decisão feita para a decisão construída. porque urge pegar nesta apatia e mudar para reflexão. ou corremos o risco de alguém, no futuro, com uma visão distorcida, o fazer. e seria tão simples...



||| leituras [im]perfeitas...


||| música [im]perfeita...

||| da insustentável inutilidade da motivação...


||| ... dizem que nunca se deve voltar ao lugar onde se foi feliz. aqui, por exemplo. recomeço. não sabendo por onde recomeçar o que é mais evidente e me salta como urgente é a pergunta. uma pergunta feita. sobre a motivação. estar motivado para aprender não é um estado natural. é o meu ponto de princípio, sempre, em cada aula. é preciso regressar a esse lugar vezes sem conta. porque esse é, na sua essência, o papel último do professor. não, não é motivar. isso é para aqueles que fazem do entretenimento uma profissão. é desenvolver a curiosidade. a vontade de aprender. vontade, não como instrumento mas como método e prática. e retirar da equação o "para quê". não é aprender para "seres alguém". ou aprender para "perceberes as coisas que daqui a cinquenta anos te vão acontecer". é aprender para compreender. para despertar. para perceber. logo, mais tarde, para entender. e há uma confusão crescente nisto tudo. sempre me disseram, quando falava em curiosidade e não em motivação: ah... mas isso é muito difícil. pois é. exige muito mais do que captar a atenção e o silêncio por uns momentos. a construção da curiosidade começa por algo arredado do sistema educativo actual: a escolha. escolher o que se quer perguntar sobre o que se quer saber. o que desperta o interesse. não oferecido, programado ou estabelecido. balizado. balizado no saber a transmitir. num tal "programa" necessário, válido e útil mas integrado e não forçado. esse espaço, essa ligação é muito trabalhosa. e não é para este sistema. porque é imensamente exigente. para o professor e para os alunos. porque o que temos hoje é mesmo essa overdose de motivação, felicidade e coisas afins que não espanta já aqueles que nela cresceram. precisam de um dinossauro quando antes se assustavam com um rato. ou se encantavam com ele. a minha defesa vai sempre ser: curiosidade. sempre. mesmo que seja "impossível". 

11/01/2015

||| não sou nem deixo de ser charlie...


"o bom senso é a coisa que, no mundo, está mais bem distribuída: de facto, cada um pensa estar tão bem provido dele, que até mesmo aqueles que são os mais difíceis de contentar em todas as outras coisas não têm de forma nenhuma o costume de desejarem [ter] mais do que o que têm." 

descartes, discurso do método

||| ... até aqui voltar, hoje, o mundo girou. e neste tempo, em que parei, o mundo andou. e dois jovens comuns entraram pelas portas de um prédio comum no centro de paris e mataram doze outros seres humanos, fizeram ferimentos em mais oito ou nove, mataram uma dessas pessoas [polícia] sem remorso e foram filmados. pararam um sequestro para dar uma entrevista [com aparente calma e certeza do que estava a acontecer] a uma televisão. no fim, foram mortos tal como mataram. gritaram ao mundo que alá é grande e que tinham feito justiça. achámos, que com a morte deles, a justiça também tinha sido feita. falaram em nome de outros, reclamando os louros de terem morto "o" charlie. o mundo, ou parte dele, assistiu a isto. je suis charlie, circulou como uma mensagem simples. podemos todos ser aqueles, homens e mulheres que viveram o terror e a morte. hoje, na europa, podemos todos ser aqueles seres humanos. mas também podemos ser os outros. os que gritaram que estavam ali em nome de um deus qualquer que não o nosso. diziam eles. digo eu. e podemos ser charlie, pelo humor. pela liberdade de expressão. ou pela acutilância da inteligência e da mensagem que provoca. mas também, nenhum de nós, verdadeiramente é, charlie. je ne suis pas charlie. porque todos temos, na ponta da língua, uma censura. um lugar intocável para o humor. uma incompreensão secreta sobre tudo isto. nem que seja pensar que há irracionalidade no fanatismo quando é exactamente o contrário que acontece. ou quando sentimos que a justiça da morte de uns que mataram está feita porque morreram também. por isso, eu, não sou nem deixo de ser charlie. aqui neste espaço, não é a liberdade que impera. é a razão. a liberdade é uma condição desta. e disso sim, não abdico. como não devia abdicar ninguém que agora comenta este caso como se tivesse e soubesse do que verdadeiramente se trata. e por isso, importa explicar algo mais:
... nunca li o charlie hedbo. nem sabia que existia para além de ter estado atento quando umas caricaturas apareceram no centro de uma polémica há uns tempos. tal como estive atento, reflexivo, quando por cá, se colocou um preservativo no nariz do papa joão paulo. nunca li, não conhecia a publicação. não é isso que me importa. importa-me saber que podia existir, numa europa livre, uma liberdade assim. livre. isso sim, importava-me. sobre caricaturas e coisas que tais tenho uma visão muito pessoal. o meu pai desenhava. imenso, pintava, e bem. dele tenho sempre a memória de estar sentado ao colo ao estirador e ver nascer bonequinhos. a alguns dava "falas". por isso a caricatura para mim é sempre um espaço de comunicação livre. dessa magia do papel em branco e do olhar atento sobre o presente que é preciso sempre conhecer, pensar e desafiar. o humor é um lugar de inteligência. de leitura do mundo. sempre foi assim que o entendi. mesmo com esta pessoalidade do caricaturar com que vejo sempre cada representação criada. por isso conhecia o trabalho de um dos artistas que agora morreu. um dos homens com uma bela ligação a portugal e ao porto em particular. por isso e porque me recordo de ver o seu trabalho com admiração. é por isso que, mesmo sendo eu pequeno e indo espreitar a "gaiola dourada" às escondidas dos meus pais, tudo isto é "normal". o humor, a inteligência e o atrevimento. mas sei, também, que os limites não são aquilo que representa o normal. o normal tem limites e vistas curtas. e maomé de ligas ou o papa de preservativo no nariz são actos de vandalismo para muitos. é aí que entra a única coisa que penso sobre este caso. tudo o resto fica para aqueles que "no mundo do comentário ou num mundo virtual das redes sociais" são e deixam de ser charlie. quando estudava no ensino secundário pedi para fazer um trabalho sobre as religiões. faço uma nota prévia: sou um homem com fé. fui falar com um padre. depois, visitei a mesquita em lisboa. li o corão. li a bíblia. passei umas valentes horas à conversa com pessoas, de religiosos a crentes. visitei a sinagoga, o tempo budista, fui até a uma comunidade empirista. fui a uma reunião da igreja maná, ao templo jeová e também à igreja do reino de deus. todos, mas todos, me abriram a porta. todos, mas todos, falaram comigo. todos, mas todos, me explicaram as suas razões e a sua fé. e forma como viam o mundo. todos, mas todos, me deixaram entrar nos seus "templos". percebi então uma coisa. que tolerar não é compreender. tolerar é sempre ter alguém que se acha tolerante e outro, o tolerado. uns e outros. les un et les outres. e isto faz muita diferença. a mesma que leva dois seres humanos até uma rua, a entrar num prédio e matar outros em nome de um deus, seja ele qual for. compreender implica incluir. integrar. ver como igual nas diferenças. e a europa está a um passo de deixar tudo isto de lado para, como ouvi logo nos momentos seguintes, classificado pelo chefe de estado francês que tudo o que se tinha passado tinha sido um acto de "barbárie". os "bárbaros" eram aqueles que, no tempo do império romano, vivem para além dos limites do mesmo. selvagens na forma e nos modos. é este o risco. de tolerarmos estas palavras, esta forma de ver o mundo, numa europa que se desfaz em forma e valores para ser, cada vez mais, eles e cada vez menos, nós.
... não sou, nem deixo de ser charlie. tenho um profundo respeito. um pesar que o acompanha, por aqueles que morreram em nome da liberdade de dizerem o que queriam dizer num ocidente livre em que vivo. e tenho uma urgente necessidade de pensar no que levou aqueles que mataram ao ponto limite de o fazerem por "educação" para tal e por fanatismo. não sou, nem deixo de ser, charlie. porque educar para a liberdade não se faz com tolerância. faz-se com compreensão. entendimento. razão. e isso, faz de cada um de nós, educador. perceber, compreender não é um acto de complicado processo. é um simples acto de procurar saber. ver. perceber. descobrir. nisso, concordo plenamente que, uma criança, uma folha de papel, uma caneta e um professor podem mudar o mundo. e por isso é que chamo a paz para esta equação. quase nesse mesmo tempo, é preciso pensar isso. para não sermos mais eles e nós. para não termos que voltar a ser ou deixar de ser charlie.