12/01/2015

||| da apatia ou do lugar dos tontos...


||| ... lembro-me da primeira vez que me chamaram idiota. foi uma professora. fiquei ofendido. fui falar com ela. levei um "trabalho para casa". ir à origem das palavras. este trabalho para casa mudou para sempre a minha forma de ver as coisas. apaixonei-me pelas palavras. pela sua razão. pela sua sombra. apatia é uma palavra dessas. de origem grega. das antigas, como lhes chamo. das que resistiram ao tempo. da negação da pathos. ou o seu inverso, ganhando sentido. uma inércia enferma. doente. estranha. e quase que podemos dizer que é este o espelho da realidade. os miúdos, apáticos. sobre a realidade, as coisas, o fazer, o tentar, as ideias. a realidade, simples. básica. cercados de casas dos segredos e coisas que tais habitam um universo "à dantas" no olhar de almada negreiros. um tempo de tragédias de faca e alguidar do qual poucos conseguem fugir. esta geração enlatada está habituada à escola como privilégio. como obrigação e como privilégio. dada, oferecida. não é preciso fugir ao trabalho. quer-se, muitas vezes, fugir da escola para o trabalho. a alguns não faz sentido a ideia de escolarização porque só essa realidade é conhecida. não pensamos nisto. poucas vezes pensamos nisto. do lado de cá. do professor. tomamos como adquirido que o sermão de que muitos não terão acesso ou tiveram acesso ao que agora existe serve para ilustrar uma realidade. ou que "eram precisos andar tempos sem fim a pé e ao frio para ir à escola". hoje, em muitos casos, essa história está tão longe como tudo o resto. está muito mais perto a miúda que toma banho na televisão fechada numa casa porque mais nada sabe fazer para gáudio de muitos do que essa realidade. a apatia vem daí. disto tudo. de nunca estes miúdos terem sido chamados a decidir nada, a dizer nada, a escolher nada, a serem responsáveis por nada. até as associações de estudantes lhes foram roubadas para serem agora agências de viagens para festas de "finalistas". compreender isto é perceber que esta apatia é tão perigosa como inquietante. porque é, de facto, desinteresse pela escola. já não é só simples não-vontade. é o resultado do que foi criado, nesta ideia do "pré-feito" que o sistema educativo actual abusa. usa e abusa. a autonomia é difícil. de ensinar e de aprender. assim como a tomada de responsabilidades pelos próprio. mas decidir é o contrário de estar apático. talvez seja este o ponto de partida para mudar. ensinar a decidir. as pequenas coisas primeiro: como dispor a sala para aquela aula, quando falar disto ou daquilo, quando ser avaliado. coisas simples que mudam o é a decisão feita para a decisão construída. porque urge pegar nesta apatia e mudar para reflexão. ou corremos o risco de alguém, no futuro, com uma visão distorcida, o fazer. e seria tão simples...



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