11/01/2015

||| não sou nem deixo de ser charlie...


"o bom senso é a coisa que, no mundo, está mais bem distribuída: de facto, cada um pensa estar tão bem provido dele, que até mesmo aqueles que são os mais difíceis de contentar em todas as outras coisas não têm de forma nenhuma o costume de desejarem [ter] mais do que o que têm." 

descartes, discurso do método

||| ... até aqui voltar, hoje, o mundo girou. e neste tempo, em que parei, o mundo andou. e dois jovens comuns entraram pelas portas de um prédio comum no centro de paris e mataram doze outros seres humanos, fizeram ferimentos em mais oito ou nove, mataram uma dessas pessoas [polícia] sem remorso e foram filmados. pararam um sequestro para dar uma entrevista [com aparente calma e certeza do que estava a acontecer] a uma televisão. no fim, foram mortos tal como mataram. gritaram ao mundo que alá é grande e que tinham feito justiça. achámos, que com a morte deles, a justiça também tinha sido feita. falaram em nome de outros, reclamando os louros de terem morto "o" charlie. o mundo, ou parte dele, assistiu a isto. je suis charlie, circulou como uma mensagem simples. podemos todos ser aqueles, homens e mulheres que viveram o terror e a morte. hoje, na europa, podemos todos ser aqueles seres humanos. mas também podemos ser os outros. os que gritaram que estavam ali em nome de um deus qualquer que não o nosso. diziam eles. digo eu. e podemos ser charlie, pelo humor. pela liberdade de expressão. ou pela acutilância da inteligência e da mensagem que provoca. mas também, nenhum de nós, verdadeiramente é, charlie. je ne suis pas charlie. porque todos temos, na ponta da língua, uma censura. um lugar intocável para o humor. uma incompreensão secreta sobre tudo isto. nem que seja pensar que há irracionalidade no fanatismo quando é exactamente o contrário que acontece. ou quando sentimos que a justiça da morte de uns que mataram está feita porque morreram também. por isso, eu, não sou nem deixo de ser charlie. aqui neste espaço, não é a liberdade que impera. é a razão. a liberdade é uma condição desta. e disso sim, não abdico. como não devia abdicar ninguém que agora comenta este caso como se tivesse e soubesse do que verdadeiramente se trata. e por isso, importa explicar algo mais:
... nunca li o charlie hedbo. nem sabia que existia para além de ter estado atento quando umas caricaturas apareceram no centro de uma polémica há uns tempos. tal como estive atento, reflexivo, quando por cá, se colocou um preservativo no nariz do papa joão paulo. nunca li, não conhecia a publicação. não é isso que me importa. importa-me saber que podia existir, numa europa livre, uma liberdade assim. livre. isso sim, importava-me. sobre caricaturas e coisas que tais tenho uma visão muito pessoal. o meu pai desenhava. imenso, pintava, e bem. dele tenho sempre a memória de estar sentado ao colo ao estirador e ver nascer bonequinhos. a alguns dava "falas". por isso a caricatura para mim é sempre um espaço de comunicação livre. dessa magia do papel em branco e do olhar atento sobre o presente que é preciso sempre conhecer, pensar e desafiar. o humor é um lugar de inteligência. de leitura do mundo. sempre foi assim que o entendi. mesmo com esta pessoalidade do caricaturar com que vejo sempre cada representação criada. por isso conhecia o trabalho de um dos artistas que agora morreu. um dos homens com uma bela ligação a portugal e ao porto em particular. por isso e porque me recordo de ver o seu trabalho com admiração. é por isso que, mesmo sendo eu pequeno e indo espreitar a "gaiola dourada" às escondidas dos meus pais, tudo isto é "normal". o humor, a inteligência e o atrevimento. mas sei, também, que os limites não são aquilo que representa o normal. o normal tem limites e vistas curtas. e maomé de ligas ou o papa de preservativo no nariz são actos de vandalismo para muitos. é aí que entra a única coisa que penso sobre este caso. tudo o resto fica para aqueles que "no mundo do comentário ou num mundo virtual das redes sociais" são e deixam de ser charlie. quando estudava no ensino secundário pedi para fazer um trabalho sobre as religiões. faço uma nota prévia: sou um homem com fé. fui falar com um padre. depois, visitei a mesquita em lisboa. li o corão. li a bíblia. passei umas valentes horas à conversa com pessoas, de religiosos a crentes. visitei a sinagoga, o tempo budista, fui até a uma comunidade empirista. fui a uma reunião da igreja maná, ao templo jeová e também à igreja do reino de deus. todos, mas todos, me abriram a porta. todos, mas todos, falaram comigo. todos, mas todos, me explicaram as suas razões e a sua fé. e forma como viam o mundo. todos, mas todos, me deixaram entrar nos seus "templos". percebi então uma coisa. que tolerar não é compreender. tolerar é sempre ter alguém que se acha tolerante e outro, o tolerado. uns e outros. les un et les outres. e isto faz muita diferença. a mesma que leva dois seres humanos até uma rua, a entrar num prédio e matar outros em nome de um deus, seja ele qual for. compreender implica incluir. integrar. ver como igual nas diferenças. e a europa está a um passo de deixar tudo isto de lado para, como ouvi logo nos momentos seguintes, classificado pelo chefe de estado francês que tudo o que se tinha passado tinha sido um acto de "barbárie". os "bárbaros" eram aqueles que, no tempo do império romano, vivem para além dos limites do mesmo. selvagens na forma e nos modos. é este o risco. de tolerarmos estas palavras, esta forma de ver o mundo, numa europa que se desfaz em forma e valores para ser, cada vez mais, eles e cada vez menos, nós.
... não sou, nem deixo de ser charlie. tenho um profundo respeito. um pesar que o acompanha, por aqueles que morreram em nome da liberdade de dizerem o que queriam dizer num ocidente livre em que vivo. e tenho uma urgente necessidade de pensar no que levou aqueles que mataram ao ponto limite de o fazerem por "educação" para tal e por fanatismo. não sou, nem deixo de ser, charlie. porque educar para a liberdade não se faz com tolerância. faz-se com compreensão. entendimento. razão. e isso, faz de cada um de nós, educador. perceber, compreender não é um acto de complicado processo. é um simples acto de procurar saber. ver. perceber. descobrir. nisso, concordo plenamente que, uma criança, uma folha de papel, uma caneta e um professor podem mudar o mundo. e por isso é que chamo a paz para esta equação. quase nesse mesmo tempo, é preciso pensar isso. para não sermos mais eles e nós. para não termos que voltar a ser ou deixar de ser charlie.


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