22/02/2015

||| palavras [im]perfeitas...

abertura de um livro de al berto

||| a sala de aula é um espaço para aprender...


||| ... a sala de aula é um espaço para ser aprendido. não é para "ir" para a aula. é para "estar" na aula. é um lugar que precisa de ser edificado em cada momento. pelos alunos. e pelos professores. dar significado a uma aula que podia ser dada em qualquer outro espaço. mas a sala, as paredes, as portas, o quadro, as cadeiras e mesas são coisas que se podem transformar no que for preciso para "ensinar e aprender". já fiz castelos de mesas. já fiz "uma selva" de cadeiras. já usei o quadro e o projector como "teatro de sombras". já usei o tecto para explicar o movimento dos astros e a importância para a navegação. expliquem-me como é possível ensinar os "descobrimentos" sem escurecer a sala toda e projectar as estrelas no tecto e explicar o que era a navegação e os instrumentos necessários para tal, sem olhar para as estrelas? a sala de aula tem tudo o que é preciso. nem mais, nem menos. só é preciso que todos, alunos e professores, a descubram. em cada aula. em cada lição. porque há ali todo o espaço do mundo...

||| leituras [im]perfeitas...


||| poesia [im]perfeita...

||| as bases dos alunos na escola de hoje...


... houve um tempo em que ler, escrever e contar eram as bases fundamentais da educação escolar. um tempo, presente ou passado. depois surgiu a literacia complexa de todas as outras competências. as sociais, as comportamentais, as científicas, as tecnológicas, as artísticas, as digitais, as outras todas. ler, escrever e contar eram coisas básicas, tomadas como "adquiridas". por muito espanto que isto possa provocar, esquecidas, agora. o ser global, o educar para tudo, ganhou espaço para além do simples. da necessidade de construir o edifício do conhecimento com base no que é essencial. ler, escrever e contar. estas três palavras, malditas pela associação a um tempo de "estado novo" fundamental o essencial. mesmo que não que queira. mas é mesmo isso. sobre isto podemos edificar algo. sem isso, tudo tem um vã estado de permanência imperfeita. podemos somar a ler, escrever e contar, desenhar. acho mesmo que é algo que urge tornar como básico novamente. o uso do poder do tacto. do pensamento visual. do desenho. mas sem o básico não há o complexo. a escola, na sua multiplicidade de coisas que quer ser esqueceu-se disto. e sem isto negamos o mais básico de tudo aos alunos: o futuro. as "ferramentas" para o futuro. back to basics. talvez, seja urgente...

21/02/2015

||| palavras [im]perfeitas...

saramago

||| está lá fora o inspector...


||| ... são os professores que, na sua paciência [já não há outra palavra] vão aguentando as "pontas" de uma escola em ruína. custa pensar isto mas é verdade. mesmo sem ânimo ou não gostando do que hoje a escola é, todos os dias, seguram com as suas mãos, gestos, presença e sobrevivência, a escola. evitam complicações maiores. casos mais graves. controlam a coisa dentro das paredes da escola e ainda tentam ajudar no que se passa fora desta. percebemos todos que este modelo não diz já nada a ninguém., muitos estão para além de cansados. estão exaustos. e o discurso lembra-me o título de uma peça de teatro fabulosa. está lá fora o inspector. é como se vive na escola de forma metafórica. em tudo há um medo. uma obrigação. uma coisa para ser cumprida ou... e no "ou" reside o medo. apesar disso, vai-se fazendo tudo o que se pode para "salvar" cada dia. já não é só cada miúdo. é mesmo cada dia. o cansaço não ajuda. leva ao conflito. ao erro. ao desgaste ainda mais alargado. e quando pensamos que não é possível inventarem mais nada lá vem mais uma reunião para "esclarecimentos". uma redução de horário ou uma lei qualquer. um item da avaliação que mudou. e no entanto, no dia a seguir, logo na primeira hora é preciso abrir a porta da sala e ensinar. sim, ensinar, senhor ministro. não é cumprir metas. é parar junto daquela miúda de olhar perdido e "gastar" tempo para a fazer perceber uma coisa que é uma dúvida contida, calada, não dita porque as turmas são gigantes e o tempo é pequeno demais. são os professores, ainda, as paredes e fundações da escola. valha-nos isso...

||| leituras [im]perfeitas...


||| música [im]perfeita...

||| há barulho a mais na escola...


||| ... às vezes dou por mim em modo de velho do restelo. sempre dei aulas onde a liberdade de participação (na forma e conteúdo) eram a regra de ouro. mas há um passo inicial, fundamental, a ensinar. a gerir o som. sim, o som. de uma conversa, de uma partilha de ideias, de uma discussão, do debate para um trabalho. para se trabalhar em grupo ou com alguma liberdade não é preciso o ruído. daquele que perturba. é preciso o barulho. o natural, o normal, da agitação das coisas e das palavras. mas o que habita agora a escola é um barulho que não permite nada. às vezes, nem ouvir uma conversa. ou passar uma mensagem. ou uma indicação. ou então é mesmo um silêncio que é a falta de liberdade. vamos de um extremo ao outro. andamos preocupados com o o uso do telemóvel, com a indisciplina, com tudo e mais alguma coisa e esquecemos o básico. o saber estar e saber usar a palavra. às vezes penso nisso em voz alta e dizem que isso já devia ser "adquirido". saber gerir o som, a forma como se debate, não nasce connosco. a escola tem a função de ensinar essas regras de convivência porque a escola não é a casa de cada um dos miúdos que a frequenta. esquecemos isso. depois o barulho torna-se, na maior parte das vezes, ensurdecedor...

20/02/2015

||| palavras [im]perfeitas...

maria teresa horta

||| avaliar não é dar uma nota...


||| ... a fantochada da avaliação dos professores ainda impera na escola. uns a irem às aulas dos outros. relatórios para aqui e para ali. um olhar sobre o ombro do outro. mais um relatório. tudo construído sobre o princípio que avaliar permite "melhorar" o "desempenho". achei logo estranho que no léxico da escola fosse entrando um conceito associado ao mundo automóvel. imaginei-me logo um renaut clio a desejar ser um jaguar nesta coisa do desempenho. e transferimos isto para os miúdos, para as aulas, para quase tudo. a nota. o importante é a nota que te fará querer melhorar. mas não é. não é só isso. nem muitas vezes é mesmo isso em si mesmo. a nota não traduz o "aprendido". traduz tudo o resto menos o aprendido. aquilo que faz melhorar o "desempenho" não é nada que se traduza só numa nota. é a valorização do conhecimento colocado numa aprendizagem de e em contexto. saber responder. saber fazer. conseguir melhorar. e isso acontece, muitas vezes, depois da avaliação e em tempo longo. num tempo que muitas vezes nem pertence à escola. é por isso que modelos assentes no valor da nota só resultam num contínuo processo de vã glória. o desempenho, esse, melhorado ou não, é para outro modelo. talvez olhar para a industria automóvel não seja assim tão mau. nem que seja para perceber que, na escola, não somos coisas...

||| leituras [im]perfeitas...


||| música [im]perfeita...

||| não perceber o óbvio...


||| ... ainda pensei que fosse uma questão de linguagem. mas é era mesmo o óbvio. sim, a palavra. o miúdo a olhar para mim. a dúvida. o desconhecimento. óbvio. o que queria dizer "óbvio". perguntei a mim mesmo como chegámos aqui. a que as palavras já não façam sentido em que nos ouve. quanto mais em quem nos devia perguntar. hoje, perguntar é estar interessado. estar interessado é estar "out". perguntar é a essência de uma aula. óbvio. mas se não sabem o que é óbvio como pode tudo o resto existir? as palavras. eu sempre bati nesta tecla. da importância do vocabulário. de ter palavras para explicar o mundo. de ter como o descrever. de o "dizer" para o "pensar". agora o óbvio é uma coisa desconhecida. e mais do que isso, inexistente. ter que olhar para isto é quase olhar para a maior necessidade da escola, neste momento. recuperar o lugar de ensino. do acto de ensinar. de começar quase tudo de novo. por muito que custe. por muito que seja estranho. mas é necessário. mais do que necessário...

18/02/2015

||| palavras [im]perfeitas...

miguel torga

||| estar sentado é um direito...


||| ... estar atento. é um direito. estar sentado. é um direito. eu sei, sei o que escrevi. direito, sim. não é um dever. olhou para mim com olhar estranho. pensa-se que no ensino superior não há indisciplina. não é verdade. há. vestida de pequenos ou grandes gestos. mas há. e no ensino básico e secundário também. indisciplina. e mais do que isso. falta de regras e de educação. mas isso são outros pensamentos que já aqui partilhei. voltamos ao direito de estar atento e sentado. e não ao dever. a obrigação é sempre um peso. cumprir um dever não é "moderno". é por isso que a atenção e a concentração são um direito. a civilização conquistou esse direito para ser usufruto de todos nós. eu, como professor, e tu como aluno. é um direito que tens. que te é dado. foi uma conquista mas agora é algo que te é dado. que tu podes ou não cumprir. um direito. que tens. ficou a olhar para mim ainda mais tempo. é tão difícil quando alguém que está na posição de professor muda a ordem "natural" das coisas. é isto que me assusta. que mais do que quietos e calados estejam adormecidos. sem direito. sem dever. só porque o sistema todo está feito para que a obediência seja algo de mais importante do que a livre tomada de decisão. bem dizia o filósofo maldito que esta coisa de dar direitos é uma experiência demasiado estranha para se fazer na escola... 

||| leituras [im]perfeitas...


||| música [im]perfeita...

||| na minha sala de aula...


||| ... quero tempo, na minha sala de aula, para levar um livro e ler um pedaço. daqueles livros que não estão no programa. quero tempo, na minha sala de aula, para falar de uma viagem ou de um lugar. de uma história que alguém me contou. ou de um filme que vi. daqueles que não estão no programa. quero tempo, na minha sala de aula, para conversar sobre o que está para vir. fazer um misto de futurologia misturada com frases que começam sempre com: no meu tempo... quero ter tempo, na minha sala de aula, para falar de uma pintura que vi, num museu qualquer. daquelas que não estão no manual ou não estão contidas no programa oficial e pré-aprovado por uma conselho de sábios de renome internacional. quero tempo, na minha sala de aula, para ouvir a música que os meus alunos ouvem e dizer que é só barulho. ou que no meu tempo ouvia os ac/dc e eles ficarem escandalizados. quero tempo, na minha sala de aula, para ouvir os meus alunos falarem da vida. do que é hoje ser jovem mesmo quando não há tempo para o ser. quero tempo, na minha sala de aula, para não fazer nada do que está previsto para cumprir metas. quero tempo, na minha sala de aula, para não fazer nada que cumpra meta nenhuma que não seja a presença e a conversa. quero tempo, daquele que não vem no programa, na minha sala de aula. e que esta seja invadida, definitivamente, por isso. e que fique, se deixe ficar, por lá, pela sala de aula, connosco...

||| palavras [im]perfeitas...

saramago

||| o que queres ser?...


||| ... quero ser jornalista. estou no décimo segundo ano. para um jornal, televisão ou rádio? para a net. e para um jornal. a net, esqueci-me disso. ainda sou do tempo do jornal de papel. eles não. aquela miúda que não retive o nome, não. a notícia é algo que aparece no telemóvel. mas gostei da convicção. de saber o que queria ser. é bom quando assim é. quando olhamos para a certeza nos olhos de um miúdo e sabemos que ele ou ela querem verdadeiramente ser aquilo no futuro. e num tempo em que todos dizem que não há futuro para estes jovens, gostei de a ouvir dizer que tinha um "projecto". era um jornal criado por ela. os olhos brilharam. gostei de a ouvir. tinha vontade. queria construir o futuro. a escola era uma etapa quase no fim. sabia o que queria ser. dizer-lhe que a vida nem sempre corre como pensamos era tão absurdo como dizer-lhe que o sonho dela era o mais fácil de todos e que tudo ia correr bem. importava dizer que o caminho é para ser feito. mesmo que não nos leve onde sonhamos. mas importa saber o que se quer. calei-me. nenhuma destas palavras de professor servem para nada. muito menos para aquela miúda que sabia o que queria ser. quero ser jornalista. rematei com um "muito bem". fazes muito bem. é uma profissão bonita e difícil. o que precisares, diz. sou professor. estar "aqui" para eles é obrigação. dizer mais do que isso é absurdo. nem sonho, nem força, nem ilusão. só isso. estou aqui para ti se precisares e no que souber ajudar. sorriu. quero ser jornalista. e desejei, por breves e seguros instantes que aquela miúda, cujo nome não decorrei, seja um dia o que desejou com tanta alma ser, naquele instante em que me disse isso de sorriso aberto...

||| música [im]perfeita...

||| leituras [im]perfeitas...



||| dar cabo da escola...


||| ... resta pouco da escola. do que é uma escola. ao entrar num espaço de uma "mega" estrutura/organização escolar parece que estamos a entrar num centro comercial. painéis avisam de acontecimentos que ninguém já vê. outros são listas seguidas de contactos, horas para isto e para aquilo, "gabinetes" disto e daquilo. listas de "convocatórias" para reuniões e mais reuniões e mais reuniões. perdidas neste mar de folhas ficam "boas ideias". um clube de cinema. um projecto. os miúdos cruzam os corredores de "fónes" nos ouvidos. o som de tudo é ruidoso. mesmo do silêncio. há tudo em dimensão maior do que devia haver. e depois há o poder que agora parecer passar de mãos do "central" para o "local". por decreto. sem ninguém ser ouvido. dizendo que todos foram ouvidos. ouvir não é escutar e a democracia cada vez mais parece uma coisa que só dá uma trabalheira. tem que parecer que é cumprida. sem o ser. séria, sem já até parecer ser. a escola é agora este lugar. sem alma ou força. sem forma ou razão. e isto é um crime. foi um crime feito por estes que pensaram na escola como uma coisa. uma coisa que se pode gerir como uma outra coisa qualquer. onde as pessoas são valores. e os valores não são saber mas "metas" a atingir. a escola perdeu a linguagem limpa, clara, precisa. desapareceu o conhecimento. é tudo para "atingir". para "cumprir". e os corredores encheram-se de miúdos sem resposta. cheios de tudo o que os faz não parar nunca. nem que seja só andarem de um lado para o outro de mãos nos bolsos e de "gabinete em gabinete". a escola é um supermercado de coisas. de tempo em aula. a aprendizagem é um luxo reservado a poucos. os bons alunos já perderam o estatuto de estudantes e são aqueles que conseguem fazer cumprir as metas. tudo isto é um crime. e tudo isto terá um peso imenso numa geração futura que já é o presente. ver isto é ver o cansaço e o desinteresse de todos. ninguém escapa a esta escola onde já não se reconhece há tempo demais. e depois promulgam-se concursos, leis, transferências de poder. já não importa a ninguém. ninguém eleva a voz. ninguém diz não. estão quase todos vencidos. a morte da escola é uma realidade. e um crime. mas está aí. presente. neste tempo para estes miúdos. o pior, o pior mesmo, é que nunca tantos precisaram da escola como agora. e isso, é o maior crime de todos. negar tudo isso. por um negócio...

08/02/2015

||| palavras [im]perfeitas...

al berto

||| da ditadura dos programas...


||| ... ó professor, isso não está no programa. pois não. nem tudo o que dou ou falo numa aula está no programa. ah... então não sai no teste. pode sair. sim, mas não interessa. não é preciso estudar, certo? não, errado. sim, professor mas não devia ensinar o que está no programa porque é isso que vai sair no exame. no dia em que eu ensinar só o que está no programa demito-me. sim, professor, mas estamos a perder tempo. estamos? e se fossem só os miúdos a dizer isto... uma visita de estudo, marcar. impossível se não estiver "integrada" no programa. e já nem é no programa. é no que sai no exame. esta ditadura impossível dos programas está a matar a aula. a lição, o pensamento. a capacidade simples de ensinar. é uma ditadura mais perigosa do que todas as outras porque é auto-regulada. imposta por quem ensina sobre os seus "colegas". não está no programa não pode existir. como se o mundo e a história e o conhecimento fossem só as coisas que cabem numa grelha feita há vários anos e que tudo fosse só uma resposta certa num espaço pré-definido cumprindo as regras ditadas. é isso que querem fazer destes miúdos. esses seres replicadores. e de nós, professores, autómatos que repetem o que o ditado manda. acho que se pudessem colocavam um gravador no lugar do professor e dispensavam os devaneios de quem quer ensinar para além do que alguém diz ser a verdade das coisas. e é assustador que sejam já, os miúdos, a auto-mutilarem o pensamento. e a sua liberdade de saber mais. é porque não é preciso. não é útil para a resposta. é nisto que a escola e a aprendizagem está resumida. é isto que é a escola numa política educativa castradora de toda e qualquer liberdade que não seja a escrita, com letras pequenas, num programa feito e refeito ao correr do tempo e do pensamento único. é contra isto que uma aula deve ser dada. em liberdade. sempre...

||| música [im]perfeita...

||| leituras [im]perfeitas...




||| a escola sofre de depressão profunda...


||| ... a minha escola. ouvi isto vezes sem conta. a minha. de meu. de identidade. de pertença. agora a escola é só um lugar de passagem. com o soar de um "novo" e constante "movimento" concursal, ouve-se nos corredores ou nas salas aquele som de medo misturado com silêncio. aquela escola pode não voltar a ser a "minha escola". e tudo perde sentido. há um misto, em todos, de desânimo, de cansaço e de depressão. a escola está em depressão. porque os que resistem são menos. porque o que se espera é menos, porque os que teimam em mudar estão a perder, cada vez mais, as forças. é o sistema que se agiganta mesmo contra quem quer mudar e mover todas as montanhas. e são as forças. o cansaço. o tentar tudo e ver uma apatia constante e a indiferença presente no rosto dos miúdos. é corrigir testes e ver erros que desejávamos, em segredo, terem sido ultrapassados. mas não foram. e perguntamos se ainda vale a pena. se continua a valer a pena. o esforço, as horas tiradas a todos e a nós também, a dedicação, o amor. se vale a pena. porque eles, os miúdos, às vezes parecem mesmo não querer saber de nada mais do que uma tal de débora que vive fechada numa casa na televisão e diz mais asneiras do que palavras. e fechamos os olhos, por vários instantes. muito mais do que antigamente. há momentos em que o barulho é impossível. em que só apetece sair dali. desistir. sim, desistir. a escola está verdadeiramente sem alegria. deprimida. emersa em ausência de vontade. e ver, sentir e saber isto é assustador. porque se há lugar onde o futuro devia existir era na escola. de lá sair. haver, pelo menos, esse lugar que nos lembrava que havia muito mais do que aquilo que nos dizem que tem que haver. mas hoje, infelizmente, a escola é um lugar de passagem. faltam as raízes, a forma e a força. é por aí que tem que começar a mudança. que quem for o senhor que se segue no lugar de poder olhe primeiro para isso. ou terá perdido tudo antes de começar...

07/02/2015

||| palavras [im]perfeitas...

mário cesariny

||| da desumanização de tudo na escola...


||| ... às vezes lembro-me da primeira vez que um miúdo chegou ao pé de mim e disse: professor, tenho fome. ou das histórias contadas em reuniões onde a fome, o abandono, a violência e a miséria eram um pano de fundo. uma constante. mas a desumanização, não. agora há tudo o que havia, com uma brutalidade ainda maior. há sempre alguém que faz um comentário: não podemos ajudar todos. ou que fecha os olhos. ou o assunto. deixámos de ver. de olhar. de sentir. são "casos". temos mais um caso. deixamos o nome de lado. é um caso. falamos das "entidades" que terão que actuar. nós, não. e nós, ali tão perto, e eles, miúdos somente, sem ajuda. desumanizamos a escola, todos os dias, com procedimentos. com organizações que são "chamadas a intervir" mas quando chegam é tarde. e nós ali. e penso naquele miúdo que uma vez, a primeira vez que ouvi tal coisa, me disse: professor, tenho fome. e eu fui almoçar com ele na cantina da escola. às vezes lembro-me dele. porque se não me lembrar dele não me lembro que eu estou ali, naquele momento, e posso fazer alguma coisa por algum miúdo na escola...

||| leituras [im]perfeitas...


||| música [im]perfeita...

||| a escola não é um lugar exigente...


||| ... os meus alunos sempre me acharam um professor exigente. soube no primeiro momento e sei sempre que sai, a um deles, a expressão: "fogo professor...". ou ficavam a olhar para mim com aquele ar de "não estou a perceber nada". e mesmo assim fui cedendo muito. ao longo dos anos. fui cedendo no que já era teimosia. não na essência. é que, não é no "falso rigor" ou por haver "exames" que se coloca a exigência na escola. ou como elemento estruturante do conhecimento. é quando, no decurso de um tempo, sabemos que o trabalho se une ao rigor e ao brio. que ensinámos isso e que podemos exigir isso aos nossos alunos. é esta cultura que falta na escola, hoje. se falta conhecimento, respeito, adequação e bom comportamento, também falta exigência. da verdadeira. não aquela que é mascarada como palavra para dizer de boca cheia mas que nunca se ensina ou pede depois nas diferentes circunstâncias de um processo em que aprender o como é tão importante como aprender o porquê. a escola não tem só como função responder aos "porquês". tem como função ensinar e demonstrar, guiar e criar os "como". a exigência é natural neste processo. e se não existir então estamos apenas a falar de cumprir. fogo professor, quer sempre mais. nunca nada está bem. eu não disse que não estava bem. disse que estava bem mas espero sempre melhor. esta coisa portuguesa do "está bom assim" não tem lugar na minha sala de aula. nunca está bom "assim". está bom e pode ficar melhor. exigir é ensinar. e esquecemos isto... infelizmente...

01/02/2015

||| arte [im]perfeita...

francis bacon

||| erros e lapsos não fazem um professor...


||| ... é urgente dizer que é preciso mandar calar aqueles que dizem que um professor que dá erros de português não devia ser professor. todos damos erros de português. de construção de frases, de escrita. todos. e todos estamos errados. porque não é isso que se diz. o que se diz é que um professor não sabe. aqueles que ensinam, não sabem. não é não saber ensinar. é não ter conhecimento. é degradar uma imagem ainda mais. porque se atira uma percentagem. e se fosse o contrário. se alguém fosse às estatísticas e visse quantos licenciados, mestres e doutores ocupam as escolas portuguesas em comparação, por exemplo, com o parlamento português ou um qualquer partido político. quantos publicam artigos, falam do que sabem, partilham ideias, ensinam a pensar. uma prova que mede o "ser professor" pelo número de erros de português que são dados num momento é, mais do que um erro, uma provocação. não é fazer aqui a apologia do erro. é fazer aqui a desmistificação do que é propaganda para a opinião pública que também dá erros de português mas que, mais do que isso, é influenciada por uma verborreia errada e intencional. ser professor não é dar ou deixar de dar erros de português. isso ninguém pensa. pensar é mais perigoso do que dar erros na língua materna. pensar diferente da linha de pensamento é um lapso ainda maior. escrever isso para registo ainda mais. estou então, errado. nem que seja na pontuação, na construção das frases ou talvez, pior, no pensamento divergente...

||| música [im]perfeita...

||| leituras [im]perfeitas...


||| a escola não é uma repartição ...


||| ... esta ilusão de tornar municipal o que é nacional transforma a escola enquanto organização na escola enquanto repartição. tem um significado. passa de orientação a serviço. é mais um serviço municipal. perde estatuto. não que isso seja relevante. o estatuto não define a importância mas sim a função. de funcionamento. mas a ideia de ser um serviço assusta. não ao serviço de, mas um serviço para. a escola. retalhada, desfeita, descaracterizada passa de mãos. como uma coisa. perde importância. de tão estrutural que é passa a ser possível e passível de "transferência". como se fosse, em si mesmo, uma coisa. que passa de mãos. a escola. estamos a falar da escola. não o espaço. a escola, na sua essência. atiram-se para cima da mesa as ideias de proximidade, de orientação, de oferta de disciplinas integradas na lógica territorial. oferecem-se percentagens de tudo e mais alguma coisa. passam-se quadros de pessoal não docente de um lado para o outro. mesmo que as regras da lei não o permitam. mas do que estamos a falar é da escola essência e não da escola estrutura. transformada em coisa. pobres de espírito aqueles que transformaram tudo isto em coisa. em coisas. que podem passar de mãos. como se as pessoas não o fossem ou a escola não tivesse um espírito histórico e uma razão maior para existir do que aquela em que agora a transformaram. tudo isto, um erro. pesado demais. para além de tudo o erro. errado. banalizado. destrutivo...