26/03/2015

||| arte [im]perfeita...

paula rego

||| pensar antes de falar, na escola...


||| ... devia haver uma lei para professores e alunos. ninguém fala antes de pensar. ou daquelas frase que agora são moda colocar em todo o lado com umas fotos bonitas. ou como aqueles avisos das portas: puxe. mas diria assim - pense antes de falar. seria uma lei. ou então começar só por um dia especial que agora também são moda. o dia do pensar antes de dizer seja o que for. há dias para tudo, seria só mais um. porque a escola precisa do pensamento livre mas consistente como o deserto de água. tudo é um contínuo processo. são casos, situações, problemas, coisas para fazer. um corropio de coisas para fazer e muito pouco de coisas para pensar por muito que se oiça: tenho que pensar nisso. adiar o pensamento é cumprir o correr dos dias sem reflexão. depois assistimos a tudo como se tudo fosse normal. não é normal uma reunião durar quatro horas. não é normal não ter em consideração horários e coisas que tais. não é normal aceitar todas as regulamentações que um ministério autista e longe da realidade continua a emanar em catadupa. não é normal aceitar, sem ponderação, tudo o que a direcção envia para "ser aplicado". não é normal não ter tempo para falar com alunos de coisas que não sejam "da direcção de turma" ou "da aula". não. devia haver uma lei: "pense, antes de falar - atenção, está numa escola - dê o exemplo"...

||| leituras [im]perfeitas...


||| música [im]perfeita...

||| acabar com as disciplinas...


||| ... a notícia. a finlândia ou lá onde é, vai acabar com o ensino por disciplinas. não me incomoda, não me importa. não me interessa. ser ou não verdade. ser ou não na finlândia ou lá onde tiver que ser. como não me interessa o vídeo do outro que diz que a escola mata a criatividade. ou similares. ou aqueles que defendem uma "revolução" na educação. nada disso me importa. nem os movimentos da escola nova ou da escola velha. porque primeiro, mesmo antes de tudo isso, é preciso, por cá, refazer uma só palavra: escola. voltar a dar significado a isto de estar, frequentar, ser um elemento de uma comunidade numa escola. o estado de ruína da coisa é tal que estou mesmo inclinado para isto. a palavra, a identidade o significado. a razão de existir. a escola. tudo tem que começar por aí de tal forma deram cabo disto tudo. e pode parecer exagero. mas não é...

23/03/2015

||| arte [im]perfeita...

alfredo cunha

||| a escola é feita de pessoas...


||| ... lia outro dia que para mudar a escola era preciso primeiro mudar a sociedade. sempre fui defensor que a escola deve ser um lugar pioneiro. também me lembro da lição que dei tantas vezes: os pioneiros morrer e os colonos prosperam. a história tem destas coisas. serve de pano de fundo ao pensamento, tantas vezes. na escola somos pessoas. seres humanos. e a escola não pode ser um lugar de vazio, ou simplesmente o local de reprodução da política em que se quer transformado tudo o que seja o pensamento divergente. não há confronto na escola. mas devia haver. entre o desejado e o real. faltam limites para serem quebrados. temos uma escola obediente. nada de pior pode existir. a desumanização instala-se muito facilmente quando isso acontece. tudo passa a ser relativo. e próprio de uma tecnocracia demente. doente. a escola padece agora de todos esses males. e parece que ninguém consegue ver isso...

||| leituras [im]perfeitas...


||| música [im]perfeita...

||| reuniões e os lugares infindáveis da escola...


||| ... quando se vê a lista de reuniões numa escola ou numa mega escola como agora lhe chamam, percebemos a inutilidade de tudo. e a inoperância em tudo. na escola. porque é impossível um sistema e uma organização assim funcionar. junta-se a isso a simples noção do cansaço de cada professor. do desgaste de mais um período de trabalho para além do limite das forças, da razão e da lógica. ultrapassando qualquer limite do humanamente possível e para muitos sem dignidade ou sem brilho. perdido em coisas para fazer e a gestão do dia-a-dia que se torna ilógica cada vez mais. mas o que mais resulta, desta travessia de dias e dias, das oito horas da manhã às nove e dez da noite, em demanda de soluções que o sistema não tem e sitiados por burocracias inoperantes é mesmo a noção geral e perfeita de que tudo isto, toda a realidade, toda a escola está revertida de uma inoperância crónica e mortal. eles são só médias e nós, professores, somos só números de aulas dadas, planeadas e cumpridas ou por cumprir. perceber isso é perceber que a escola como a conhecemos existe apenas enquanto organização inútil. perceber isto é essencial para mudar. o pior são mesmos os miúdos. apanhados no meio disto. e deles, verdadeiramente, pouco se fala nas imensas horas de reuniões...

22/03/2015

||| arte [im]perfeita...

almada negreiros

||| as mãos não se tocam na escola...


||| ... foi a primeira vez que fui a uma escola dinamizar uma conversa partindo deste espaço. e ainda mais agora que tudo me custa ainda mais e que a realidade vivida é bem diferente e afastada de tudo. no final, uma professora esperou. gosto sempre das pessoas que ficam para o fim destas coisas para "falar". "gostava de lhe perguntar uma coisa. qual é a sua visão sobre o toque." a primeira coisa que me ocorreu foi o toque de horário. a campainha tipo fábrica do século dezanove. mas deixei a coisa seguir. sim, sou professora de educação física e quando peço aos miúdos [rapazes e raparigas, mas mais eles] para darem as mãos é uma carga dos trabalhos e de gozo". pensei um pouco. disse o que pensava. que esta geração de miúdos não foi criada no afecto físico. já é dessa geração. o abraço é uma coisa estranha. a ternura já é uma palavra em eclipse. estamos a caminhar para o contacto ascético e a presença sem afecto físico que se torne visível. basta um "oi" ao chegar e um "xau" ao sair. isso e o preconceito. ao contrário do que pensamos o racismo, a tolerância e a compreensão não são "bens sociais" permanentes. devem ser ensinados e mais do que isso, vividos na escola. tudo isto está ligado ao que me refere. a começar por nós, professores. que dizemos um distante olá para a sala de professores cheia ou que habitamos escolas onde nem sabemos bem onde os outros estão por tão grande dimensão de tudo. estamos a perder esse lado humano. e isso tem um peso imenso. eu nunca deixei de abraçar um aluno quando lhe queria dar os parabéns ou de dar dois beijos de cumprimento a quem quer que fosse. o exemplo é a melhor forma de ensinar a presença humana e a tolerância. porque o exemplo representa a civilidade conquistada. agradeceu-me a troca de ideias. fiquei a pensar nisto. ainda estou...

||| leituras [im]perfeitas...



||| música [im]perfeita...

||| a escola enquanto espelho...


||| ... toda a gente tem qualquer coisa para dizer sobre a escola. aqueles que lá estão, todos os dias a ensinar, são os que menos dizem. porque não se fala do desencanto. porque sabemos que a escola é um lugar perdido. e no entanto é o último lugar de acolhimento para tantos miúdos. é o último espaço seguro. é o último local onde podem, sempre, encontrar ajuda. "é preferível a ir para casa". e os professores, mesmo cansados, mesmo sem forças, são ainda quem acolhe uma conversa [cada vez mais breve mas existente] ou que procuram uma solução. isto, todos os dias. em contínuo. em tempo de aulas e fora dele. mesmo sem a certeza de um resultado. cada professor consegue ainda tentar. e tentar é saber que não se fica pelo óbvio, pelo que se conhece. o que a escola precisava era de ir buscar essa força que resta e transformar cada um desses restos de vontade em mudança. porque não é preciso mudar tudo. mas é preciso mudar tanto. para que haja tempo, espaço e alegria no caminho de tantos miúdos e de tanta gente que ainda olha e está na escola enquanto lugar de paz...

17/03/2015

||| arte [im]perfeita...

 cutileiro

||| desistir de alguns alunos...


||| ... estou a pensar no que será feito do eduardo. já faz uns bons anos. era um miúdo do nono ano. de calças caídas quando isso era moda. mãos nos bolsos do casaco. uma vez encontrei-o encostado a uma parede. de olhos colocados no chão. então, eduardo, não vais às aulas? ó professor, já desisti disto. quero é ir trabalhar. parei. sentei-me no chão com ele. estivemos à conversa uma boa hora e tal. no final, disse-lhe que no dia em que na escola um professor desistir de um aluno é no dia em que a escola morreu. ele sorriu. ainda bem que não desistiu de mim professor. gostei da conversa. combinámos fazer aquilo mais vezes. nesse ano, foi mesmo assim. eram umas conversas sobre tudo e sobre nada. serviam de escape para uma vida e dias duros que ele tinha. para mim era a forma de lhe dizer que havia alguém que se importava. infelizmente, com a escola como hoje temos, este tempo quase não existe. temos tempo para respostas memorizadas, secas, repetidas sem alma. ou para "encaminhar" os miúdos para as "respostas" disponíveis. e é isto. e com isto estamos a desistir deles. ou a deixar que eles desistam a escola. ainda mais. todos de olhos fechados. como se tal coisa fosse "normal". não é...

||| leituras [im]perfeitas...


||| música [im]perfeita...

||| a escola é um lugar estranho...


||| ... tenho recordado vezes demais o poema em linha recta. "nunca conheci quem tivesse levado porrada". fernando pessoa sabia como ninguém usar as palavras. eduardo sá foi buscar uma frase deliciosa: os professores são estranhos. nem sempre, nem com tudo concordei com ele. mas esta é uma frase deliciosa. e basta espreitar as redes sociais e ver que a escola está a precisar de uma profunda revolução. eduardo sá não trazia nada de novo. o que trouxe algo de novo foi ver que muitos comentaram, de forma destrutiva, ofensiva, desequilibrada, estranha, só o título. não ouviram. não leram mais nada. foi só o título. e choveram ofensas. damas das camélias. gente de punhos em riste. gente de fachos atados e carrascos e preparação. a escola precisa de uma mudança. quando quem ensina se limita ao óbvio, a ver só os títulos, a não ler, a não procurar saber as razões, a não ter curiosidade de saber mais, a não dialogar, então o espírito do que deve ser a escola está a morrer. e podia ter sido outro qualquer. foi eduardo sá. mas podia ser qualquer outro com o título que "vende". vivemos tempos líquidos, dizia o pensador. nada dura. a escola está afogada nisto. quando, verdadeiramente, devia ser o lugar do contrário disto. mas isso sou só eu que leio ainda as coisas até ao fim. nem que seja o poema de pessoa. "todos foram sempre campeões em tudo". deve tudo ser erro imperfeito meu. mais um a somar a tantos...

12/03/2015

||| arte [im]perfeita...

almada negreiros

||| na beira do abismo na escola...


 ||| ... eu já desisti. da escola. do ensino. vejo-o de fora, agora. ou fizeram-me desistir. da educação, nunca. isso será mesmo muito difícil. está no meu sangue. a escola, o ensino, este, desisti. e fizeram-me abandonar este caminho. o sistema. descarta quem acredita que ensinar é mudar o mundo uma pessoa de cada vez. um aluno de cada vez. não por não deixar que o sistema permita gente assim. mas simplesmente porque se perde a forma de o poder fazer. e às vezes, é preciso parar antes de ser destruído por uma máquina avassaladora muito maior do que nós. ouvia de uma colega: estou no limite. depois de uma semana e meia de corrigir testes, exames feitos para serem lidos, estou exausta. o rosto fechado e cansado. porque as reuniões eram demais, porque o tempo era sempre de menos, porque já nem se lembrava de ter tido uma refeição decente nos últimos dias, porque era sempre tudo a correr, porque os miúdos não "estavam nem aí", porque ainda era preciso acolher os encarregados de educação com mais problemas ainda, porque tudo era demasiado e o limite era, como ela dizia, uma linha tão perto, cada vez mais perto. e não era a única. a escola está cheia de gente no limite. das forças, da vontade, do querer. que sejam só os que ainda acreditam que se pode mudar tudo, os últimos a desistir. ou a escola, essa conquista única de um lugar de liberdade, será transformada em tudo, menos naquilo que um dia foi... 

||| leituras [im]perfeitas...


||| música [im]perfeita...

||| do saber e do seu valor na escola...


... sempre defendi que o mais importante na escola é o conhecimento. aprendido, criado, partilhado. o que quiserem. mas o saber. o conhecimento é o centro de tudo. sem isso, tudo o resto é de um imenso vazio. podemos encher as paredes de cartazes sobre a felicidade, a roda dos alimentos, os astros e mais mil e uma coisas. mas se, quem olha para isso, olha sem saber, sem ter conhecimento prévio, sem ter bases para entender, então tudo não passa de decoração temporária. a verdade é que a escola está a afastar-se disto. desta centralidade mais do que necessária. urgente. e começa com os professores. acaba com os alunos. vai-se estendendo a todos como uma "doença" estranha. poucas são as escolas onde a biblioteca é um espaço de trabalho. de professores a alunos, a fonte primeira de informação é a "net". nada de mal nisso se o sentido crítico e a capacidade de selecção seja proporcional à imensidão das fontes que são necessário cruzar antes de retirar, do que se procurou, algo de "analisado". junta-se uma porção imensa de "pseudo-ciência" em vários domínios e temos a morte anunciada do conhecimento científico, válido, rico, experimental e curioso fundamental na criação da identidade e essência da escola. deve ser o meu lado de velho do restelo. esse livro escrito por um tal de camões, seja ele quem for...

11/03/2015

||| arte [im]perfeita...

kandinsky

||| nova disciplina: proposta...


||| ... lembro-me de como nasceu a disciplina de educação para a cidadania. e lembro-me de achar que fazia sentido. colocando lá a civilidade. depois lembro-me de ver esta disciplina ser relegada para lado nenhum. agora acho que seria tempo de criar uma disciplina de introdução ao respeito. e não, não é dos alunos para com os professores. é de todos, com todos, na escola. sim, dos professores para com os alunos, dos alunos para com os professores e dos alunos entre si. respeito. a educação, seja ela qual for [boa ou má] emerge da noção de poder e convivência. o respeito é o elemento de equilíbrio. e é isto que falta, imensamente na escola nos dias que correm. e podemos ensinar isto, sem ser numa disciplina. pode começar com gestos simples de etiqueta [dar os bons dias], como pode ir mais longe. introduzir códigos de conduta comuns. talvez seja mesmo necessário criar uma disciplina. porque o exemplo, esse mestre de todas as cosias, precisa da serenidade para se impor. e do tempo para ser apropriado por todos, novamente. quando percebo o que escrevo percebo também o absurdo completo a que chegou a escola...

||| música [im]perfeita...

||| leituras [im]perfeitas...


||| já não se admite o sonho...


||| ... estava a pensar no título de sebastião da gama. pelo sonho é que vamos. e dos movimentos da nova escola. e das visões holísticas sobre a educação [como modernamente chamam ao humanismo]. fico, sinceramente, perdido. porque o sonho é coisa que foi arreada da escola. depois há sempre os moralistas. e os realistas. e os destruídos pelo sistema que acham que o que todos os outros dizem é só um blá, blá, blá constante. há os que deixaram de acreditar. e há aqueles que queriam outro tempo sem saberem já bem que tempo era esse e que escola era essa que queriam. estava a pensar que tudo o que não sejam fórmulas e soluções já não são bem-vindas na escola. indisciplina, uma fórmula para resolver com técnicas passo a passo, de preferência. bons resultados, um método eficaz de colocar os miúdos todos a responder bem a dezenas de perguntas. tudo o resto é considerado só um blá, blá, blá constante. não se debate uma ideia. nem se aceita quem pense ou diga o que acha que não há ao encontro ao que já está escrito no regulamento. é por isso que os livros que se escrevem sobre a escola, hoje, são sempre envolvidos de segredos e/ou receitas. infelizmente é isto que temos. quando não é isto que precisamos. mas é que temos. é que o resto, a opção b, a outra porta, o outro caminho implica falar, dizer, pensar, desenhar novas [certas e erradas] soluções. e isso dá muito trabalho. é melhor ser mandado. sebastião da gama colocou um título, hoje, impossível para a escola. fica a memória. já não é mau...

10/03/2015

||| arte [im]perfeita...

malhoa

||| já era tempo de respeitarem quem ensina...


||| ... e voltam os concursos. e os programas que mudam. e os manuais que é preciso escolher. e os exames com mais mil instruções. e mais um regulamento novo. e mais uma orientação e mais qualquer coisa para a qual já nem sabem que nome vão, definitivamente, inventar. já era tempo de haver respeito por quem ensina. nem que seja, em colocar as coisas no tempo certo. ou não afogar quem quer preparar outros, para o futuro, em milhares de coisas sem a mínima utilidade. ou fazer parecer que tudo está bem numa escola cujo sistema onde esta assenta está a rebentar por todos os lados. já não é só o desencanto da coisa. é o desalento. são palavras antigas, estas. são. porque as novas, inventadas em tempos de tudo ser inovação, já não servem. nem os códigos que são escolas de tamanho imenso, nem as declarações que são precisas enviar todos os anos, nem as coisas que, de tão repetidas já estão mais do que gastas. estão inúteis. haja respeito por quem ensina. nem que seja só por um breve instante de lucidez...

||| música [im]perfeita...

||| leituras [im]perfeitas...


||| nisto tudo perdemos os miúdos...


||| ... houve um tempo que a escola era um lugar para se ser miúdo. ainda há escolas assim. mas há um mundo que mudou. ensinamos os miúdos, cedo demais, a ignorarem certas coisas. a defenderem-se de outras. a serem responsáveis. a tudo e mais alguma coisa. enchemos os miúdos de tudo e mais alguma coisa. tudo menos a capacidade de pensar. porque pensar exige atenção. concentração. silêncio. reflexão. conhecimento. tudo menos isso. porque implica perguntar. e responder. e desafiar a lógica das coisas certas que se podem ensinar por repetição. depois, dizemos que não escutam. que não fazem, que não são capazes de estar quietos. ensinar a pensar não é um exercício utópico ou metafórico. é um processo que leva o ser humano a construir o que sabe, quer saber e como o fazer de modo contínuo. e não é nesta escola, nem nestas salas de aulas, cheias de tudo e mais alguma coisa que isso pode acontecer... infelizmente...

07/03/2015

||| arte [im]perfeita...

maluda

||| coisas e mais coisas na escola...


||| ... ó colega, nunca o vejo com nada nas mãos. como é que dá aulas? sempre foi assim. raramente usava papel [só para os "testes, que evitava a todo o custo terem mais do que uma folha] e o resto era o que havia. muitas vezes levei só a chave do carro numa mão junto com a chave da sala e o telemóvel. nada mais. a escola e as salas de aula estão cheias de ruído. e de coisas. são sistemas para isto, fichas para aquilo e mais isto. programas de computador didácticos para mais não sei o quê. manuais, powerpoints e mais mil e uma coisas. jogos, que dizem ser "pedagógicos". tudo e mais alguma coisa para "tornar as aulas mais interessantes". o interesse, sempre disse aos miúdos não está nunca na aula. mas fora dela. o conhecimento é que pode começar a nascer ali para despertar e ilustrar o interesse futuro. a descoberta. e a curiosidade. respondi sempre a quem me dizia que não levava nada nas mãos para as aulas que levava tudo na cabeça e que só precisava de estar com eles, os miúdos, que depois logo se via o que ia acontecer e do que se ia falar. a verdade é que sempre preparei muito bem cada aula que dei. estudando. sem recursos didácticos de ponta. somente a imaginação, bons livros e uma dose bem regada de loucura. mas isso sou eu... que de educação não percebo nada...

||| leituras [im]perfeitas...


||| música [im]perfeita...

||| esta coisa final dos exames...


... e pronto. datas de exames. para todos os gostos e feitios. às carradas. e o sempre brilhante "manual de apoio". e ainda falta aquela coisa das instruções para serem lidas pelos professores nas salas para parecer que tudo é justo e igual. e para transformar os professores em "vigilantes". em funcionários mais ainda do que em qualquer altura. e numa escola que "serve" esta máquina de "testar", ninguém escapa. uns, obrigados a corrigir coisas feitas no "estrangeiro" para avaliar as competências numa língua que não é a nossa. outros, convocados para o "serviço". as palavras vão sempre ter o peso que nelas colocamos quando as usamos sem pensar. e depois são as "formações", as "reuniões" e a pressão. é que, não são só os alunos que estão a ser avaliados. para os rankings valem estas notas. também. a escola está toda inclinada para este lado. num plano perfeito para dizer que a exigência e o rigor são fundamentais na escola. encher a escola de "testes" é esse o modelo que vigora. a tudo e a todos. para imperar o cumprir. o cumprimento dos objectivos. o cumprimento das regras. o cumprimento de uma falsa igualdade que depois, jogando com tudo o resto, os "rankings" colocam a descoberto. há igualdade quando há mudança social. pelo conhecimento. e não pela avaliação. mas isso é ser, hoje na escola, comunista ou louco. venham os exames para todos ficarem felizes. afinal, tudo se resume a isso na escola, hoje em dia...

05/03/2015

||| arte [im]perfeita...

júlio pomar

||| o sistema educativo é um poço...


||| ... ó colega, mas para si está sempre tudo mal neste sistema. não, não está tudo mal. este sistema para mim é um poço. podemos atirar tudo lá para dentro que, ao chegar ao fundo, ninguém consegue fazer nada ou apanhar nada que seja útil. e é isso que temos estado a fazer nos últimos anos. a atirar trabalho, ideias, projectos, coisas e mais coisas, para dentro de um poço. a prova é que o resultado é só termos mais trabalho a somar ao anterior e mais inutilidade a somar à anterior. e repetição. contínua disto tudo. nem nós estamos melhores. nem a escola, nem os miúdos. nada. é um poço. daqueles antigos. sem tampa de segurança, sequer. porque continuamos com medo de espreitar lá para baixo e ver que tudo o que fomos fazendo não serviu para nada. não serve para ninguém. e os poucos que vão atirando o balde para tentar tirar água são tão poucos que já nem conseguem ver o fundo. vão só tirando o que lhes resta de esperança para continuar. ó colega, nunca tinha pensado nisso assim. pois, devo ser eu que sou um pessimista praticante...

||| música [im]perfeita...

||| leituras [im]perfeitas...


||| não há humor na escola...


||| ... assusta-me a ironia na escola. morto, ou quase morto, o humor, só a ironia impera. seja a carregada de "moral", seja a que esconde o desejo de dar regras de comportamento ou actuação. o humor, alimentado pela inteligência é coisa rara. muito pior quando o humor requer actualidade ou ainda quando requer conhecimento prévio. é quase ficar a pregar no deserto. a escola devia viver com humor. e muito pouco com a ironia. o suporte de pensamento de que o humor se alimenta é fruto de uma reflexão comum, de uma linguagem comum. ficarem a olhar para nós, professores e alunos, quando usamos o humor como elemento de comunicação é estranho. pior, é preocupante. porque a ausência de humor, com sentido, é também a ausência da auto-reflexão, com significado. e isso sim, assusta...

04/03/2015

||| arte [im]perfeita...

pedro cabrita reis

||| já não sei como ensinar...


||| ... o desabafo foi honesto. já não sei como ensinar. nada serve. nada interessa. e eu pensei que já muitas vezes pensei no erro da pedagogia como espectáculo de entretenimento. e da curiosidade, que devia ter sido o motor usado. que nunca foi, verdadeiramente. o que fazia já não serve. sei bem o que é este sentimento de incapacidade. tantas vezes o senti. antecipando o que hoje são inúmeras aulas. lugares de desinteresse. de todos. dos professores e dos alunos. reconhecer isto é o primeiro passo para começar a recuperar a segurança perdida. o que servia, já não serve. então o que serve? pensamos sempre no que não queremos ter como modelo de aula. não queremos indisciplina, tal como não queremos outras coisas óbvias. mas que sala de aula queremos? que lições queremos? que aulas querem eles? que escola querem eles? se muitos não querem, sequer a escola, alguns ainda resistem e fazem da escola o pilar do seu futuro. é preciso parar. por momentos. perceber que o tempo do ensinar para dotar de competências os alunos está a ser ultrapassado pela necessidade de criar. sim, criar. talvez seja essa uma das portas por abrir. a escola que cria, que dá à comunidade coisas novas. que faz com que os alunos sejam reconhecidos por isso. se envolvam nessa co-construção do seu espaço e do seu campo de actuação futura. quase um percurso. onde a escola é um degrau. como todos os outros. nem mais, nem menos. mas que permita identificação. e utilidade. criar. talvez...

||| leituras [im]perfeitas...


||| música [im]perfeita...

||| a linguagem de professores e alunos...


||| ... tem que haver uma forma de fazer isto. de dar "palavras" aos miúdos. o mundo não pode ser só explicado por coisas tipo cenas e tal. assusta-me sempre que os miúdos não conseguem explicar o mundo. o seu e o nosso. e nós, de altivez no discurso, falamos de regulamentos, decisões, de cultura geral. falta, imensamente, cultura geral, na escola. e não é só aos alunos. a cultura colocada em geral. em comum. porque só assim é possível a comunicação e a identificação. quer pelas palavras que se usam, quer pelos universos que de deseja que sejam conhecidos. nada há de pior, para um professor, do que ver o constante arrastar da explicação de uma coisa simples por falta de vocabulário por parte de um aluno e com frases que terminam inevitavelmente em: está a ver, não está? quando retiramos aos alunos a capacidade de explicar o mundo, porque é difícil ensinar "palavras" novas estamos a destruir todo o futuro e toda a capacidade de perceber e pensar. é tão simples quanto isto. e é avassalador, o que neste momento, temos como realidade na escola...

03/03/2015

||| arte [im]perfeita...

vieira da silva

||| direito a ser criança no tempo de escola...


||| ... o colega está sempre a dizer que eles são miúdos. a justificar o mau comportamento por tudo e por nada com essa expressão. não, não foi isso que eu disse. o que eu disse é que eles não são miúdos. e que não gosto de uma escola onde só a responsabilidade, o bom comportamento e a expectativa que eles, que deviam ter o direito a serem miúdos, seja a moeda de troca ou o único elemento de avaliação do que é um aluno regular, se tal coisa existe. não gosto de uma escola onde os miúdos tenham que cumprir os objectivos dos adultos sem o direito à rebeldia. a serem miúdos nisso também. há um tempo maravilhoso que lhes está a ser roubado por terem que se comportar como adultos. ou cumprindo o que desejamos que eles façam sem direito ao disparate. na minha sala, os meus alunos, terão sempre direito ao disparate. nem que seja só por uma vez. para aprenderem. para viverem o tempo de serem miúdos. a isso e ao sorriso. porque esse é o seu tempo. o tempo de poderem rir e sorrir de coisas que "julgamos" parvas. parvos somos nós que deixámos de saber sorrir pelas mesmas razões. o que eu quero dizer é que na escola tem que haver tempo para os miúdos serem miúdos e não adultos antes de tempo. só isso. porque isso é tudo aquilo que, em casa, nos outros, pelos outros, não conseguem ser. que não seja por nós também que isso lhes é negado. só isso...

||| música [im]perfeita...

||| leituras [im]perfeitas...



||| mil pensamentos [im]perfeitos...


||| ... escrevi aqui, mil textos. os números trazem estas coisas. mil. já foram mil. pode parecer estranho. contar o que se escreve. tenho tido menos tempo para aqui escrever. e para aqui estar. talvez porque a [im]perfeição de ser professor se esteja a desligar de mim, por o não ser, agora. nunca me conseguirei desligar da educação. muito menos, do pensamento. e menos ainda, da indignação. ou do direito a pensar e a dizer. o direito da palavra. é isso que este espaço é. o uso do direito da palavra e do pensamento. sem qualquer desejo ou valor. só isso mesmo. quase em estado puro. por isso gosto de aqui voltar, mesmo sem tempo. nem que seja para escrever o que vejo, sinto, quero dizer. mesmo que ninguém leia. ou quem vai lendo veja isto como devaneios de um louco e [im]perfeito professor. foram já mil. não sei quando vai acabar. mas estes mil já cá estão...

02/03/2015

||| arte [im]perfeita...

cargaleiro

||| ensinar o que está obsoleto...


||| ... tive um mestre que um dia me disse que um professor deve ser alguém capaz de olhar para além do futuro. mandou-me ler orwell. comecei com os animais, acabei por ler tudo. perceber o que me queria dizer. hoje a escola está cheia de passado. de coisas obsoletas. de ciência antiga e de sabedoria congelada. descobrir o futuro é coisa que não vem no programa. não obriga ninguém a saber mais. basta aquilo. aquilo que está em pontos. de a para b, de b para c. numa tabela qualquer. mais do que isso não é preciso. nem estar actualizado. se muda o programa vem logo acompanhado de uma "acção de formação" para "actualização". como se fosse um software qualquer a instalar na cabeça dos professores para ser, somente, replicado. pensar para além do futuro, como o mestre me dizia, parece utopia ou coisa de tontos. olhar para além disto, ainda mais. obedecer é um principio. a cumprir. a estupidez de todas as coisas nasce disto. e mais do que isso, já nem o saber é "livresco". às vezes é de uma pseudo-ciência que agora parece invadir tudo. a pressa, a ausência de tempo, o tempo roubado para "saber" faz o resto. os dados são "copiados". faltam as fontes. não se lê. é tudo citado. de parte incerta. o presente é uma manta de retalhos que alguém diz que tem que ser ensinado assim. do ponto a ao ponto b. o meu mestre deve ter fugido. o futuro que um dia conseguiu ver era este. cumprido agora em demasia. infelizmente. mas resta-me olhar para além do futuro que ele viu. e regressar a orwell e ao seu mundo. talvez esse, um dia, seja presente...

||| música [im]perfeita...

||| leituras [im]perfeitas...


||| aqueles que não sabem ensinar...


||| ... é tudo uma questão de perfil. faço esta nota prévia. ao longo dos anos que tive como professor sempre percebi isso. é preciso ter perfil para alguns desafios. é tão difícil ser professor numa turma de bons alunos como de maus alunos. sinceramente, sempre fui um professor com um perfil para desafios complexos. os bons alunos não são o meu forte. nem é terreno onde me sinta verdadeiramente bem. acho que cada um de nós, que entra numa sala de aula, deve ter isso em mente. que somos melhores num contexto do que noutro. com um tipo de desafios do que com outros. isso não nos faz melhores ou piores professores. faz só como que, cada um de nós, tenha um lugar onde se sente bem. o pior, o erro, está na troca desses lugares. quando me colocaram numa turma de excelentes alunos não consegui mais do que os manter como tal. sabia que qualquer outro com perfil para ali estar teria feito muito melhor do que eu. não me acho um mau professor. mas fui. porque podiam, aqueles miúdos, ter tido melhor. é talvez por isso que achamos que há "maus" professores. porque estão no lugar errado e não na profissão errada. isto não é tido em conta num sistema que só vê números. mas isto, isto sim, podia fazer toda a diferença na escola que temos e na que desejamos. um perfil, um professor, uma turma, um desafio. talvez seja por aqui que algo pode mudar. é que há, algumas pessoas, alguns professores que estão, definitivamente, no lugar errado...

01/03/2015

||| arte [im]perfeita...

turner

||| conhece-te a ti mesmo ou a escola do saber...


||| ... a radicalização do discurso é sempre um perigo. sou e serei sempre contra uma educação "espectáculo" como sou e serei sempre contra uma educação "determinista". acho que a sala de aula precisa de quatro coisas fundamentais: encanto, espanto, trabalho e conhecimento. em doses iguais. com estes elementos juntos, criamos curiosidade. e com ela, a alegria. e com isto o futuro. detesto a ideia de uma visão deturpada de uma maieutica utilizada ao favor de argumentos de auto-conhecimento e "desenvolvimento pessoal" que surge como panaceia para todos os males da escola. nem sócrates [o filósofo] tinha turmas de trinta alunos num sistema cerrado pela fileira de uma normalização e avaliação final, nem as palavras ou o pensamento usado pode ser adequado aos tempos que vivemos sem o cuidado extremo de que o pensamento filosófico tem que ser um exercício de rigor racional. há, um poder, nas mãos dos professores que lhes foi roubado. o poder da palavra. de serem ouvidos e da sua palavra ser determinante. para além deste, o poder mais fabuloso de todos. o de dar "ferramentas" [como modernamente se chama agora] para pensar o futuro. essas "ferramentas" são fruto de uma coisa só. do conhecimento. só o conhecimento liberta. só o conhecimento fundamenta. só o conhecimento permite mudança. só essa pedra de base permite a cada aluno encontrar o seu caminho. tudo o resto é, sem dúvida, acessório. penso eu...