29/05/2015

||| arte [im]perfeita...

pollock

||| aprender a ensinar...


||| ... ó colega, desculpe. já tentou ensinar estes miúdos? eu?!!! nada! eles não querem saber de nada!!! ora bem, quantas estratégias já tentou? todas! tudo e mais alguma coisa! só me falta fazer o pino! e ensinar? já tentou? ó pá, colega, mas eles não querem saber disso! será? eu consigo ensinar qualquer coisa a estes miúdos. porque quero ensinar-lhes qualquer coisa. como um dia me ensinaram a mim. porque a terra é redonda. porque escrevemos letras. porque é que os animais dormem. comece pelo mais óbvio e surpreendente para eles. sabe, quando peguei na turma a primeira coisa que me disseram é que eram impossível. que era só manter a rapaziada sentada e sossegada. que era esse o sucesso esperado. cheguei à primeira aula e disse-lhes que no fim do primeiro período todos teriam que ter lido um livro. nenhum acreditou. hoje, como sabe, aquela turma é a que mais vai requisitar e ler livros. porque não começaram com a odisseia. comecei com o tio patinhas. mas ensinar é isso. é ensinar a ler. depois e compreender. depois a pensar. e depois a criar. nós é que já nem nos lembramos disto. e calou-se. e lá foi, sem me dar resposta...

||| leituras [im]perfeitas...


||| coisas [im]perfeitas...


||| música [im]perfeita...

||| ensinar o simplismo...


||| ...de tanto queremos descodificar as coisas, simplificar, tornámos os miúdos dependentes disso. é como um reflexo condicionado. o que é para fazer aqui? como se fosse preciso uma legenda sonora para cada pergunta. a incapacidade de reflexão é de tal modo aguda que assusta. a incapacidade de compreensão é de tal modo forte que é devastador para um professor desafiar os alunos para o que quer que seja. o esforço que precisa gastar até se fazer entender é brutal. é imenso. quando, todos, percebem, acabou o tempo necessário para o desafio. estamos no grau máximo da estupidificação do sistema que vive disto. de testar isto interminavelmente. e continuamos como se tal fosse coisa correcta. ler é coisa de poucos. entender é coisa de privilegiados. estudar não está na moda. é só mesmo, talvez, a ignorância. a moda. infelizmente, é-o, no local mais improvável: a escola...

26/05/2015

||| arte [im]perfeita...

magritte

||| falar do espanto não é espantar...


||| ... durante muito tempo me perguntaram porque falava em espanto. em redescobrir o espanto. em dar aos miúdos coisas de espantar. respondi sempre que era esse o primeiro passo para a curiosidade. algo que nos absorve a observação e nos coloca a dúvida. o que está ali? aqui? como funciona? a escola sofreu de um mal maior. foi pensar que a pergunta que levava os miúdos a gostarem de aprender seria o porquê. o segredo está que os miúdos querem saber é o como. com o como chegamos ao porquê e não ao contrário. ao contrário temos o modelo que agora temos. o lugar do espanto está reservado à primeira das perguntas que fazemos sempre. como? é natural queremos saber isso. se esse for o mote da nossa aula, do nosso trabalho, despertar esse espanto para a pergunta, sabemos que abrimos caminhos a muitas outros que se seguem. perguntar é preciso. e urgente. mas a pergunta que nasça do espanto. antes da razão explicar o que quer que seja. a escola ganharia muito se alguém fosse capaz de colocar tudo noutra ordem...

||| coisas [im]perfeitas...


||| leituras [im]perfeitas...


||| música [im]perfeita...

||| a cultura é a única forma de dar liberdade...


||| ... que seja sempre livre o seu pensamento professor. aprendi o mundo consigo. no passado dia vinte e cinco, jubilou. foi meu professor de teoria da história. chama-se fernando catroga. jubilou. a ele devo o pensamento livre. pensar o fim do fim da história. as aulas onde o som das suas palavras eram mais do que simples correr de frases. era o movimento do pensamento. inventem-se sempre novas palavras. a meio do discurso infinito saltava uma nova. cosmogonia. que entendam os deuses e os homens de boa vontade. pedi-lhe um dia ajuda para estudar os movimentos anarquistas em portugal. disse-me: leia padre antónio vieira. estranhei. depois percebi. disse-me a frase que guardo em mim como certeza absoluta do que sou e do que sei. a cultura é a única forma de dar, verdadeiramente, liberdade a alguém. é iluminação. não volta ao estado de onde partiu. que as suas palavras e a sua visão da história sejam ensinadas. obrigado, deste seu eterno aluno, pelo caminhos que me deu para explorar...

23/05/2015

||| arte [im]perfeita...

júlio pomar

||| a cultura do exame...


||| ... os horários dos professores, por estes dias, são ocupados por "vigilâncias". horas e horas de andar de pé de cá para lá a vigiar quem faz exame. e ainda são só os primeiros. a escola chega a esta altura cercada pela ideia de que é preciso ser bom no exame para ser bom aluno. tudo, este ano, desembocou aqui. se não são os exames são as carradas de testes para ver. rever. classificar. ouvir os miúdos dizerem que precisam de uma boa nota para "arranjar emprego". aos doze ou menos anos. pressionados pelo universo de falta dos pais. ou de quem está com eles. era preciso explicar que tudo é relativo, nesse momento. não o valorizar mas integrar no percurso. testar não faz mal. tudo ser um teste é que sim. e cada miúdo ser uma nota ainda é pior. esta "cultura" de exames é imposta por nós, principalmente. porque o temor é maior do que a razão. e o cansaço é maior do que a oportunidade necessária de dizer não. que estudar não pode ser só "fazer um exame". ou "ter uma nota". que o conhecimento não é isto. nem é para ser usado só nisto. nem para transformar todos em "réplicas" uns dos outros como se todos, num portugal cada vez mais desigual, fossem, de facto, iguais. rever prioridades é preciso...

||| música [im]perfeita...

||| coisas [im]perfeitas...


||| leituras [im]perfeitas...


||| aproximar a escola...


||| ... trocava, recentemente, umas ideias sobre esta coisa das mega escola e dos centros escolares. da escola estar perto do local onde as pessoas vivem ou nos centros onde há mais "oportunidades". se sou defensor dessa igualdade de oportunidades para todos os miúdos o mesmo não se passa com este desenraizamento que é feito e no que se está a transformar tudo isto. mal comparado, parecem um aviário as escolas de tamanho imenso. basta entrar numa. sem identidade que não seja a própria da escola que pode ser forte ou fraca consoante o seu projecto educativo, a verdade é que turmas com trinta miúdos, dos pequenos aos jovens, tornaram-se em lugares de vazio de razão e sentido. as oportunidade não surgem por haver uma biblioteca toda equipada ou uma sala com projector que não havia na escola pequena e de centro de aldeia ou terra. surge pela razão que se dá à escolarização. o seu sentido. para o que é pensada para servir. a proximidade com aqueles que acarinham a escola não tem preço. basta ver uma qualquer criança numa qualquer escola ainda por extinguir e ouvir: esta é a minha escola. coisa que raramente se ouve nos grandes espaços. "ando ali"... é mais isso...

18/05/2015

||| arte [im]perfeita...

orson welles

||| falhámos todos...


||| ... vi, a cena do polícia que bateu no pai e no avô. vi o rosto do filho mais novo. pensei imediatamente: falhámos todos. salvou-se quem tentou olhar pelo rapaz. assustou-me que ninguém tivesse segurado o polícia que cegamente batia. a autoridade não é dada. é merecida. a roupa é só roupa. o que importa é que tudo é um acto humano. falhámos todos. porque todos os personagens desta cena vivem em sociedade. na mesma em que eu vivo. porque, certamente, passaram pela escola. porque era só um momento desportivo. não importa a razão ou a troca de razões. importa a violência, imposta como linguagem principal antes de todas as outras. seja entre jovens, seja entre adultos, seja com ou sem autoridade. é a imposição da selvajaria. sobre a razão. as pessoas estão piores. e o país também. falhámos todos. só espero que aquele miúdo não esqueça o que viveu. e seja um dia um homem com imenso poder neste país. e nos guie no caminho que o unia ao seu pai. por quem chorou em desespero. que ele seja bom. e mude o mundo. resta essa esperança no dia em que falhámos todos...

||| leituras [im]perfeitas...


||| música [im]perfeita...

||| coisas [im]perfeitas...






||| do tempo das coisas certas na escola...


||| ... pensar nesta geração. houve quem tivesse entrado para a "escola" com meses. meses de vida. colocados no sistema. à sua guarda. porque os pais, esses, tinham trabalho para cumprir. não por opção. tantas vezes, sem opção, é esse o caminho. e depois tudo corre com a sorte ou não. desses meses ao décimo segundo ano. e diria mais: para alguns, até ao fim do ensino superior. frutos de um sistema que os deseja quietos e responsáveis. tudo ou quase tudo feito fora do seu tempo. a escolarização do pré-escolar é o maior atentado ao direito de ser criança que existe. do lado oposto, um ensino superior repetitivo e castrado no livre arbítrio e livre pensamento faz técnicos. produz, técnicos. no meio, a escola tornou-se uma prisão. um lugar onde se está como se podia estar em qualquer outro lugar. a educação passou a ser um luxo de quem pode ter outras regras de vida que não sejam aquelas dos horários para cumprir e dos sistemas que se acumulam uns sobre os outros. um luxo. de tempos a tempos surge uma notícia de uma escola inovadora. recentemente uma onde não havia computadores. achamos inovador tudo o que não seja ordinário. sistemático. cinzento. em modelo de "aviário". é um cenário estranho este. que fingimos não ver. mas vivemos, nas escolas...

17/05/2015

||| palavras [im]perfeitas...

saramago

||| não se ensina a falar na escola...


||| ... estava a ver a "entrevista" do jovem agredido na figueira da foz. para além de tudo o que me custou mais foi ouvir aquele rapaz a falar. sim, o acto em si. a expressão de uma emoção, a descrição de uma acto, o que quer que seja limita-se a um "foi tipo assim" que qualquer professor está habituado a ouvir nos corredores da escola. é verdadeiramente assustador o limite imposto pela falta de vocabulário que hoje há nesta geração de miúdos. o rapaz, até se conseguiu explicar. mas há aqueles que não o conseguem já. já ninguém pára para dizer: diz-se assim. isto tem a designação de. passou tudo a ser "tipo isto ou tipo aquilo". o próprio som das palavras é adulterado pela forma de expressão. sempre não justificada e atrapalhada. passámos do bué para outras coisas que não se compreendem. porque não são compostas. porque não explicam. porque são a ausência de significado em si mesmas. porque ninguém fala com eles, para eles, explicando. traduzindo a realidade. as coisas são só coisas e não possuem um nome. são coisas. como todas as outras coisas que existem. tipo. de um tipo. uma geração que não sabe falar não sabe pensar. não conhece o mundo. nem a si mesma. todo o limite da educação está aqui. no seu princípio e no seu fim. se não for, tudo isto, ultrapassado, o mundo perderá sentido. como se vê, pelos actos. ensinar a falar, ensinar as palavras, ensinar o sentido das coisas é preciso. é, mesmo, urgente...

||| leituras [im]perfeitas...


||| coisas [im]perfeitas...


||| música [im]perfeita...

||| deste tempo vazio na escola...


||| ... com o fecho do ano lectivo a chegar chegam as conclusões. as escolas vão parar para exames. os professores estão no limite. a avaliação externa e interna recomenda menos de tudo. depois de anos e anos a dizerem que era preciso mais de tudo para tudo ser melhor do que era. este ainda não é o tempo para balanço. é só um tempo que tem que passar. provará o que tiver que provar. porque os números e as estatísticas são lidas como e quando se quiser. o que importa são eles. os miúdos. e nós que só queremos ensinar. se falta cultura na escola, transborda esta de tempo vazio. tempo para cumprir todas as coisas. nada para ser mais do que feito. realizado. espera-se muito pouco além de uma nota. e no entanto, escondidos no meio de tudo há casos de sucesso. ou de resistência. e ainda bem. o que assusta é tudo o resto. a ideia que isto vai continuar. mesmo que todos consigam ver claramente a necessidade de uma transformação profunda. esta geração de miúdos terá o futuro que nunca pertenceu à escola mas dela deriva. estão habituados a cumprir. regras simples e com o máximo de uma linha em linguagem prática. o que quererá dizer isto no futuro, só esse tempo vazio que agora habita na escola poderá dizer...

14/05/2015

||| arte [im]perfeita...

giacometi

||| sentimento de mudança na escola...


||| ... às vezes, era só preciso fechar a porta da sala de aula depois dos miúdos saírem e sentar-me um pouco. às vezes era só preciso, sentar-me um pouco e colocar o olhar quieto por uns segundo, no quadro. às vezes, era só preciso lembrar-me, sentado e quieto, que sou professor. às vezes, era preciso só lembrar-me que sou professor e que o meu trabalho pode mudar o mundo deles. nem que seja porque sempre tentei ensinar a que pudessem ver o mundo mais claro. às vezes era só preciso isso...

||| coisas [im]perfeitas...


||| leituras [im]perfeitas...

 

||| música [im]perfeita...

||| poesia na sala de aula...


||| ... hoje apetecia-me dar uma aula. estar numa sala de aula. colocar uma folha em branco em cada lugar dos alunos. escrever no quadro o poema. esperar pelos miúdos entrarem. deixar ler o poema. apagar. escrever: e que mais é preciso? e mais nada...

É preciso casar João,
é preciso suportar Antônio,
é preciso odiar Melquíades
é preciso substituir nós todos.

É preciso salvar o país,
é preciso crer em Deus,
é preciso pagar as dívidas,
é preciso comprar um rádio,
é preciso esquecer fulana

É preciso estudar volapuque,
é preciso estar sempre bêbado,
é preciso ler Baudelaire,
é preciso colher as flores
de que rezam velhos autores.

É preciso viver com os homens
é preciso não assassiná-los,
é preciso ter mãos pálidas
e anunciar O FIM DO MUNDO.


Carlos Drummond de Andrade

13/05/2015

||| arte [im]perfeita...

vieira da silva

||| sim, sobre o vídeos dos miúdos...


||| ... a primeira coisa que ouvi foi de vão existir averiguações. de tudo e de todos. depois os pais. depois os comentários [sempre muito e cada vez mais menos moderados]. chegam os "especialistas". e depois as culpas. destes, daqueles, nossas, da escola, da sociedade, de todos e de nenhum. depois o remate quase como provérbio: no nosso tempo também havia pancadaria. e mais umas pérolas assim. segue-se sempre o "fenómeno das redes sociais". e ser um vídeo. depois passa uma semana ou duas e lá foi. desaparece tudo do mapa. vão ficar os miúdos que bateram e o que levou pancada envoltos em processos e castigos. a revolta dará lugar ao silêncio e ao arrastar de tudo. tenho só uma coisa a dizer por mais bestial que possa parecer. o que se passou com estes miúdos é uma selvajaria. a culpa é nossa. pior é saber que ainda há pior. não há vídeos, mas há. pior. e os casos de violência na escola aumentam. quem disser o contrário não consegue olhar de frente a realidade. não sei o que pensar, principalmente para quem, como eu, que acha sempre qualquer acto de violência física ou psicológica de um ser humano sobre outro como um acto de barbárie. a escola tem nisto uma culpa ainda maior. perdeu o seu lugar de ser referência e exemplo. não se justifica um acto destes. é selvagem. simplesmente...

||| coisas [im]perfeitas...


||| leituras [im]perfeitas...


||| música [im]perfeita...

||| em desacordo...


||| ... este espaço, apesar de hoje passar a ser obrigatório o uso do acordo ortográfico com alterações previstas e imprevistas, continuará a estar em desacordo com o uso do acordo e demais alterações. a razão é só uma. o seu autor aprendeu de outra forma e morrerá a escrever que pode parar para pensar com acentos e sons que usa ao falar. é só por preguiça. não há nenhum motivo válido para além deste. preguiça para aderir a mais uma estupidez. talvez um dia o estado mude. por enquanto, fica assim. e podem multar pelo não uso, se quiserem. ou colocar um pórtico em cada texto para pagamento de portagem pelo acto em desobediência. a liberdade, essa, é uma filha rebelde. felizmente...

12/05/2015

||| arte [im]perfeita...

monet

||| o mundo às partes...


||| ... a primeira coisa que mudava, se pudesse, era fazer regressar uma organização disciplinar que pudesse dar aos alunos uma noção de todo. eu percebo que é inconveniente. quando se ensina a ver o cenário todo tudo fica mais claro. pior do que isso, pode ensinar-se a ver e prever. por isso é melhor partir tudo em partes. dá mais trabalho e é mais difícil ver tudo quando assim se ensina. quando até, sem os velhos livros de ponto, não dá para saber em que "matéria" vai o colega que deu aulas nas horas antes. transformou-se tudo em serviços. as aulas são serviços. a cumprir. estanques. que nascem e morrem dentro da sua área de conhecimento como se nada tivessem de ligação com as outras. perdemos a noção humanista de conhecimento. perdemos a noção global da ciência. e eles, os miúdos, acham que as coisas da matemática nunca foram historicamente válidas ou inválidas. ou que as correntes literárias nada estão ligadas a noções científicas de leitura do mundo. esta cegueira terá um preço. tem já um preço. por muito que nos custe a ver a todos...

||| leituras [im]perfeitas...


||| coisas [im]perfeitas...


||| música [im]perfeita...

||| ensinar a bestialidade...


||| ... quando um primeiro-ministro diz: ""o nosso objetivo é vencer a doença, não é perguntar se as pessoas têm dor"" sabemos que estamos perante uma brutalidade. uma bestialidade nas palavras. na escola, os ecos chegam. as palavras cruzam-se. se retiramos da escola a bondade retiramos toda e qualquer defesa que os miúdos possam ter contra coisas ditas desta forma sempre, de cima para baixo, sem a mínima noção do que pode ser o sofrimento de quem, nada tendo, ainda perdeu. é por isso que é preciso levar a bondade a ser o centro da escola e na escola. para que palavras deste tipo, ditas desta forma, não passem de absurdos a esquecer em toda a sua extensão e significado. que a escola tenha esse imenso poder. sempre!...

11/05/2015

||| arte [im]perfeita...

van gogh

||| professores feitos de cansaço...


||| ... é ver que os dias parecem não ter fim. e as coisas por fazer vão-se acumulando. porque já não há mais forças. porque o corpo já não dá mais. porque são muitas e muitas horas acumuladas. a ver testes. a ver fichas. a preencher coisas. a rever outras tantas coisas. a pensar. o tempo que resta é quase uma maratona cuja meta parece distante demais. já só se houve: já só falta um mês e tal. ou: ainda falta um mês e tal mas depois acalma. ou não. ou o corpo já não consegue refazer-se de tanto que lhe é pedido. soma-se o sentimento de faltar fazer tanta coisa. às vezes de ter mais dois ou três braços para chegar aos miúdos que precisam de ajuda mas para os quais não temos nem mais um minuto. e acumula-se ao cansaço aquela frustração de não conseguir mais uns minutos. para eles. ou para os abanar para saírem de uma apatia que temos combatido desde o primeiro dia. é o cansaço, estúpido. que não deixa pensar. só saber que amanhã é outro dia igual. e é preciso, também amanhã, ser professor...

||| leituras [im]perfeitas...


||| coisas [im]perfeitas...



||| música [im]perfeita...

||| a escola que ensina o desenrasca-te...


||| ... às vezes sentava-me só a olhar. a escola que devia proteger e ensinar a cooperar era o lugar ideal para os espertos. dizia eduardo marçal grilo que na escola havia os sabidos, os sabichões e os sábios [estes em menos número]. o que percebi é que a escola transformou-se num lugar para as "espertezas". e são de todas as formas. e de todas as leis. muitos de nós fechamos os olhos. há até quem premeie essa coisa estranha por não lhe conhecer a forma. ou fingir que não a conhece. inundamos a escola destas coisas. às vezes chamamos a tudo isso qualquer coisa como "competitividade". fomentamos os atalhos mesmo sem querer. às vezes, só às vezes, sentava-me a ver tudo isso. e via...

10/05/2015

||| arte [im]perfeita...


sakir gökçebağ

||| a sala de aula como lugar seguro...


||| ... ainda me lembro como se fosse hoje. era jovem e pensei a aula a dar de uma ponta a outra. era sobre o período de "encantamento" do nazismo na alemanha pós primeira guerra mundial. daqueles momentos das paradas. do apoio popular. uma aula na faculdade de letras da universidade de coimbra. um colega levantou-se enfurecido. está a fazer a apologia do nazismo! não, não estava. estava a explicar que houve, de facto, um apoio popular. das pessoas normais, comuns, que no seu dia a dia votaram, apoiaram e queriam aquela política. porque quanto se tira vontade e razão de futuro, quando se retira a segurança nos dias que correm, é fácil mandar e dizer que o caminho é aquele. não era apologia. era uma leitura assustadora sobre a irracionalidade do comando. repeti essa aula mais tarde. sem ninguém questionar. hoje, ao ver a escola como está teria medo de repetir essa aula. teria medo porque a pior coisa que pode existir para um miúdo é a sensação de não-segurança ou de inutilidade da escola como um todo. se somarmos a isso a incapacidade de reflectir sobre o passado, o presente e o futuro, então temos o cenário montado para que uma aula assim fosse mesmo um elogio acrítico sobre uma realidade horrenda. assusta-me pensar nisto. mas é a realidade que temos. mandar numa geração assim é tão simples que assusta... 

||| coisas [im]perfeitas...


||| leituras [im]perfeitas...


||| música [im]perfeita...

||| paixão e coisas que tais na educação...


||| ... de tempos a tempos regressa a ideia de renovar a educação. dessa coisa da paixão. ou o seu contrário. da exigência. e coisas que tais. deixem a educação em paz, se faz favor, porque não é isso que é preciso. o que é preciso é renovação e coerência. consistência. há nisto um princípio apolítico. porque a politica tem que perceber que a educação, como outros campos, não é um lugar de lutas pelo voto. de nenhum dos lados. a educação é a base social. a estrutura. onde podemos ir buscar alicerces. não é feita em ciclo de quatro anos. é feita por gerações. e por identidade. perceber isto está ainda longe desta irracionalidade que cerca a vontade ganhar paixão com um discurso radical. seja ele de apoio/renovação, seja ele de continuidade do que temos hoje. o que falta não é paixão. é coerência no caminho e consistência na identidade social para a qual a escola serve o propósito basilar de educar para o futuro. é simples...