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07/11/2013

||| ó tempo volta para ali e esconde-te...


||| um ano. cento e tal aulas. semana após semana. dia após dia. dois anos que são cortados a meio pelo tempo. ou que importa tudo isso. são números. o tempo, já nos ensinou stephen hawking não existe. e não existe mesmo. existe uma sucessão de momentos que teimamos em ordenar. o pensamento, a lógica, o raciocínio faz isso. e vejo todas as aulas como uma só. cinco, dez, setenta, cem. uma só. que começou há uns momentos atrás e acabará num momento no futuro. o que importa é mesmo cada um desses momentos. a lógica de tudo isso. pensar aula a aula é mesmo voltar a hawking: it’s like asking directions to the edge of the earth; the earth is a sphere; it doesn’t have an edge; so looking for it is a futile exercise. tudo isto para falar da gestão dos momentos. já uma vez referi aqui esta questão. da diversidade do que é considerado automaticamente uma turma. um dos exercícios que mais faço é olhar para os meus alunos. para o seu movimento ao chegar. ao estar na aula. ao formar os grupos de trabalho. ao sair. ao estar no corredor. ao sair para almoçar. ao passar na sala de convívio. ao falarem uns com os outros. eu preciso, não integrar, mas perceber esses movimentos. compreender como eles estão naquele momento. como eu estou para aquela aula. que esperam. o que procuram. como estão as relações entre eles. nós não vamos estar juntos um dia ou uma hora. vamos partilhar muitos, muitos momentos juntos. e mais do que qualquer outra coisa eu tenho o dever de perceber o ambiente e a forma de cada um desses momentos antes de os pensar e criar. é um desafio complexo. exige uma atenção permanente. o descuido é problemático. por isso, a atenção é uma das ferramentas mais importantes de um professor. e nunca, mas nunca, ter como garantido que eles estão disponíveis para aprender e eu disponível para ensinar. não somos espelhos. não estamos ali para replicar. estamos ali para reflectir. somos espelhos de duas faces. e isso é algo que determina a forma como tudo tem o seu tempo e o seu espaço na construção de uma aula para além do tempo...

05/11/2013

||| uma aula pelo exemplo visual...


||| ... pedagogia: esta aula resulta como modelo de processo de aprendizagem para os alunos enquanto intervenção cívica e trabalho de aprendizagem de intervenção artística em comunidade. representa um momento de trabalho individual mas de impacto colectivo. é sempre pensado como elemento introdutório no contexto de desenvolvimento de trabalho criativo de intervenção e não para ser feito com o tempo total de uma aula. pode ser pensado para o espaço de tempo máximo de vinte a trinta minutos de uma aula de noventa minutos ou mais. a segunda parte da aula será sempre de trabalho em grupo de investigação ou criação.


||| ... metodologia: o professor leva consigo folhas de papel, fita cola (fraca) e tesouras. no início da aula pede aos alunos para colocarem a cabeça entre as pernas e fecharem os olhos. deixa correr o tempo de dois a três minutos até se fazer silêncio. depois pede aos alunos, ainda nessa posição, para pensarem em cinco frases que gostariam de ouvir logo ao acordar e que ajudassem a tornar o seu dia um pouco mais feliz. terminado este tempo que tem que ser relativamente curto o professor diz que os alunos terão trinta segundos para escrever as frases numa folha de papel. os alunos escrevem. escritas as frases o professor pede para trocarem as frases escritas com o aluno do lado direito. novamente o faz depois desta troca com o aluno da frente. findo terem trocado as folhas de papel o professor pede para os alunos escolherem uma das cinco frases que estão na sua posse. feito isto, devem reescrever a frase começando como: espero que o teu dia seja... após escolhida a frase o professor distribui aos alunos cinco a dez tiras de papel branco onde os mesmos devem replicar esta frase agora construída. feito todo este processo o professor indica aos seus alunos para irem colar pela escola as frases e regressarem à sala. 
podem, após este desafio ir um pouco mais além pois neste caso não existe observação do comportamento humano face à alteração da rotina dos espaços. pode o professor distribuir três folhas de papel branco e pedir aos alunos para escreverem no centro: olá eu sou o/a. tenha um bom dia. ou derivações desta ideia. no final os alunos dobram a folha em quatro com a mensagem no seu interior. o professor acompanha os alunos à rua ou ao espaço da escola onde sem falarem terão que entregar essas folhas e observar o comportamento das pessoas. este exercício funciona muito melhor se for feito no espaço público da rua com pessoas em passagem ou desconhecidas. faz depois o professor uma leitura do comportamento social/cultura de relações de civilidade em comparação, por exemplo, com épocas históricas diferentes ou culturas de comportamento diferentes.

||| ... esta aula tem como tema: o comportamento social nos espaços. se a alteração do contexto visual leva a comportamentos diferenciados. permite colocar os alunos a questionarem o limite do impacto do seu próprio comportamento e interacção/consequência no espaço e nos outros.

29/10/2013

||| uma aula como um exercício estético para a aprendizagem...



||| uma aula que é um exercício de ruptura...



||| ... pedagogia: esta é uma aula para quebrar um ciclo. ou simplesmente para questionar. ou pensada para ser totalmente prática e permitir criar novas leituras da realidade transformando o aluno num dos elementos da leitura de novas perspectivas através da performance artística como modelo de interacção social e cívica. 


||| ... metodologia: esta aula é composta por três partes. parte um: o professor prepara a sala afastando todas as mesas e colocando as cadeiras em círculo onde os alunos se devem sentar. o professor terá, nesta aula, de delegar parte da dinâmica aos seus alunos. tendo como base e recurso um rolo de fio colorido o professor vai questionando os alunos que passam entre si o fio guardando uma ponta do mesmo nas suas mãos. as perguntas podem ir de conteúdos a questões abertas sobre o futuro. todos os alunos devem ficar com uma parte do fio e o professor deve criar as questões e orientar a dinâmica para que o maior número de cruzamentos no fio seja possível sendo que essa é uma dinâmica que muitas vezes os alunos optam por controlar entrelaçando eles mesmo o fio. terminado o novelo os alunos são convidados a prender a teia criada nas cadeiras e a sentarem-se no chão. parte dois: sentados no chão, tendo a teia de fios como tecto ou estando ao nível dos seus ombros o professor distribuiu uma folha em branco e uma caneta a cada aluno. os alunos devem agora desenhar o emaranhado de fios nessa folha. é essa a premissa deste desafio. uma leitura de perspectiva. ao fim de trinta segundos de os alunos estarem a desenhar o professor pede aos alunos para trocarem a sua folha com o colega à sua direita e continuarem o desenho. assim sucessivamente até todos terem passado a folha e chegar ao aluno que serve de ponto de referência. no final o professor pede aos alunos para colocarem no centro do círculo onde estão todos os desenhos realizados da teia que os cerca e envolve. distribui depois uma nova folha em branco. pede novamente aos alunos para refazerem o exercício mas desta vez escrevendo uma frase sobre que é estar naquela posição em observação daquela teia. e ao fim de trinta segundos mudam novamente para o colega até todos terem escrito. no final todos os alunos se devem levantar e ler todos ao mesmo tempo os textos elaborados. após esta leitura que não permite a percepção pede o professor a cada aluno para ler o texto que tem na sua posse. faz-se uma reflexão partilhada e comenta-se. terceira parte: o professor apresenta um desafio de leitura de obras de arte contemporânea. do movimento dada aos desafios da arte conceptual. a discussão é aberta e experimental.

||| ... esta aula tem como tema: o tema desta aula é - perspectivas. a sua essência é ser, em si mesma, um exercício de reflexão pela perfornance artística. baseada nas práticas naif e dada permite aos alunos perceberem que o conhecimento depende da perspectiva do observador/investigador. assim como, a construção do próprio conhecimento. é uma aula-arte ou um desafio de descontrolo do conhecimento em detrimento da forma de olhar a realidade. é uma aula de ruptura com a aprendizagem teórica e permite a construção de objectos visuais fortes.

24/10/2013

||| perspectiva e metamorfose ou os outros na sala...


||| ... eu tenho bem a consciência que não me exprimo com exactidão. as senhoras e os cavalheiros têm um tal domínio da palavra que podem sempre dizer o que querem, mas um homem vulgar como eu não o sabe fazer. as palavras não acodem naturalmente. têm mais pensamentos que palavras e as palavras quando vêm não dizem com os pensamentos. esta frase é do livro o altruísta de b. shaw. e estou a pensar as minhas aulas partindo dele. todas pensadas, quase todas, até ao final deste tempo antes do natal. sentei-me. telefonei. pedi. falei de não haver dinheiro. de ter que conter custos. liguei para amigos e conhecidos. e até desconhecidos. quero levar os meus alunos aí. fazer isto e aquilo. quero, tão somente, que vá lá à minha aula. gente conhecida que não tinha o email ou telefone e que não parei até os conseguir. e liguei e disseram-me que não. e disseram-me que sim. aos que disseram não, agradeci. percebi que o tempo é complexo e as razões ainda mais. aos que disseram que sim, agradecerei depois um pouco mais. e desenhei a próxima aula. dei-lhe um nome. faz parte da triologia de aulas para preparar o acesso e gosto pelo conhecimento. comecei com o silêncio, passei para os outros e agora, para terminar: perspectivas. a ideia também não é minha. é roubada deste livro. não tenho nem a arte nem o domínio da técnica para conceber algo tão bom. algo que explique como podemos olhar para as coisas e saber o seu sabor, cor, compostos e componentes e mesmo assim não saber o que é. de como ao mudar de perspectiva tudo muda. a pergunta de abertura da aula será simples. porque é que nas escolas o nosso mapa mundo tem a europa ao centro? sabem?... 

22/10/2013

||| de como fechar isto ou da utilidade do saber...


||| ... professor, isto não fecha! a aula era simples. lembro-me até, de enquanto aluno, ter feito um desafio muito similar há muitos anos. é uma técnica de projecção do eu para o lugar do outro já antiga. por isso o desafio de escrever uma carta para si próprio, projectando-se num futuro onde os objectivos se transformam em realidade até nem representava um grande desafio de inovação. o que quero ser? como quero ser? o que quero e tenho que aprender para ser o que quero? simples. o curioso foi depois. depois da carta escrita, de colocada dentro do envelope. a pergunta elevada às dezenas de almas: professor, isto não fecha! como é que se fecha? não percebi. por uns segundos não percebi. era demasiado óbvio para mim. como se fecha um envelope. é uma tecnologia do meu tempo, não deles. aquela de ter que lamber a cola para fechar a carta. é a sério professor? e os risos, sorrisos e afins. era mesmo, sério [metódico. importante, grave. sincero, verdadeiro. real.]. era tão sério que estive o resto do dia a pensar nisso. no que transformámos tudo isto. no que nos esquecemos de ensinar por pensar que é óbvio. do falar de um envelope e ser um objecto curioso. e pensar que há envelopes com tirar que só é preciso retirar para não ser pouco higiénico. de que tenho que levar selos. de que escrever uma carta, colocar num envelope e enviar por correio é algo de inovador no tempo do email e afins. e de como, por querermos tudo tão limpo nos esquecemos do abraço. porque está tudo ligado. a que não tocamos nos outros. no óbvio. no simples. no claro. é melhor o que deslumbra e cria distância do outro. e esta foi a aula em que aprendi. eu professor ia para ensinar e aprendi. que estamos cada vez mais longe do que nos torna humanos porque estamos mais longe das coisas simples. fechar um envelope é só um pequeno mundo desta distância que nos coloca como outros em nós mesmo... e isto não é uma escola. é outro lugar qualquer. a escola tem que ser um lugar de proximidade. de acolhimento. de humanismo. e tudo isto já não cabe num envelope...

21/10/2013

||| do pensar uma aula para depois de amanhã...


||| ... pedagogia: esta é uma aula para ser trabalhada em duas fases. a primeiro é composta por esta aula e a segunda pela próxima aula cujo conteúdo partilharemos para a semana. é uma aula de confrontos. de reflexão. de construção de um mote para uma conversa em jeito de aprendizagens pela dúvida.


||| ... metodologia: o professor começa por pedir aos alunos, no momento inicial da aula, que se coloquem numa posição confortável ou de escuta atenta. assim que as condições de silêncio e concentração reunidas lê uma carta. pode ser qualquer carta. mas tem que ter a forma e o conteúdo de uma carta escrita de alguém para outro alguém. de preferência um autor consagrado. dá-se como exemplo as cartas de amor de fernando pessoa a ofélia queiroz. depois de terminada a leitura lança imediatamente o desafio entregando uma folha em branco a cada aluno. escrevam uma carta a vocês próprios mas pensado que estão daqui a cinco anos. o tempo é relativo e podem ser encontradas outras soluções, como por exemplo, indicar o fim de ciclo ou fim de ano lectivo. depois de escrita a carta o professor entrega o envelope. os alunos preenchem. pode ser a morada da escola e o seu nome ou a morada pessoal. esta é uma opção do professor. por experiência e reserva de privacidade o contacto da escola é uma boa opção, para impacto de mudança e surpresa a morada pessoal é melhor. escrita a carta, sem o professor ou qualquer outra pessoa lerem, os alunos colocam a carta dentro do envelope e fecham. entregam no final ao professor que as coloca no correio para envio em correio normal. na segunda parte da aula o professor pede aos alunos, organizados em grupos de dois ou três elementos, para criarem um questionário com cinco perguntas. sobre o que querem saber no âmbito dos conteúdos e/ou assuntos curriculares. essas cinco questões devem incidir sobre elementos muito concretos e respostas muitos simples e breves. o objectivo seguinte é o que cada grupo ir colocar essas questões a dez a vinte pessoas e registar as respostas. a aula termina quando os alunos tiverem conseguido, fora da sala de aula [acompanhados ou não/depende do nível etário] reunir o número de respostas pedido. na próxima aula, cuja organização partilharemos aqui em breve, os alunos serão os comentadores dos resultados obtidos.

||| ... esta aula tem como tema: os outros. a primeira actividade potencia a reflexão em torno do eu como outro. o eu que define os objectivos e se projecta no futuro. um outro que sou eu e que ajuda na construção da identidade. a segunda actividade visa os outros como massa crítica de gente que olha para nós. e que tem um conjunto de conhecimentos. que conhecimentos são esses, apreendidos na escola ou por outra via formal ou informal é o objectivo deste exercício. deverá ser desconstruído pelo professor na aula cujo conteúdo revelarei em breve. permite ver e dar a conhecer aos alunos aquilo que os outros julgam como conhecimento em função do conhecimento científico actual e actualizado. permite analisar e diferenciar o que é o senso-comum, o mito ou a inverdade em confronto com o conhecimento teórico e científico.

16/10/2013

||| do ser, criar e confundir... da razão à lógica...


||| ao pensar a próxima aula faço sempre, como professor, três exercícios. o primeiro é pensar que estava à mesa do banquete. sim, aquele escrito por Kierkegaard. recordo a frase perdida no meio de uma das conversas: concebe-se a coisa, mas dela não se pode dar razão. recordo sempre este livro pela razão que tem cada um dos personagens como se fossem parte de mim, como professor, na criação de um percurso. nunca penso numa aula. muito menos, apenas numa. penso num ciclo, num percurso. quase como um jogador de xadrez. penso no momento em si e nos três seguintes. para que haja uma lógica. uma harmonia. uma ligação. faço-o pelos nomes que dou às aulas. títulos, motes, legendas. como se cada fosse um desenho ou uma fotografia ou um frame de um filme que tem que ter um antes e um depois. porque por muito criativa que seja uma aula se não assentar no conhecimento não passa de um exercício idiota que se perderá no tempo. e se os meus alunos procuram tenho que ser eu, como professor, a dar-lhes significados e coerência. mesmo que o mundo inteiro, lá fora, seja completamente surreal. o segundo exercício de reflexão que faço é o da perspectiva. se eu estivesse sentado do lado dos meus alunos faria sentido a leitura que desejo dar à sequência de aprendizagens vividas que estou a pensar? o outro. os outros. eles que sou eu. eu que tenho que ser eles por um breve instante de sobreposição de personagens para entender o todo. ou esconder a surpresa. ou preparar o momento de agitação em jogo com o de acalmia. o de antecipar e prever dúvidas. faço-o e geralmente repenso a aula, as aulas, o percurso em função de cada turma. ligeiras cambiantes permitem uma mesma estratégia para alunos diferentes em turmas diferentes e ciclos de aprendizagem diferentes. por isso tenho que os pensar. sentar-me no meio deles imaginariamente e dizer: isto faz sentido. em último lugar, desenho as soluções. [re]centro o conhecimento que quero que apreendam. coloco-o o saber e os saberes a mobilizar no centro da estratégia. e penso em desafios. caminhos, actividades. algumas que uso com frequência. outras, pensadas no momentos. mas ao levar a chave à porta da sala nunca sei qual vou usar. sei só que as levo pensadas comigo para um fim. e a próxima aula será para serem eles a pensar os outros. porque a história e a construção social é feita de outros. muitas vezes antes de nós. partilharei, como sempre, a metodologia na próxima semana. mas só com o colocar da chave na fechadura da porta da sala saberei, ao certo, o que vou fazer...

15/10/2013

||| de como uma aula pode ter três partes e meia...


||| ... pedagogia: uma aula pensada para não ser um contínuo processo de trabalho mas a gestão dos momentos de aprendizagem partilhada em diversidade de actividades. trabalhar o conceito de informação, história local, comunidade e investigação. dar continuidade e razão/significado ao trabalho realizado na aula [não] preparada já explicada aqui. é assim uma aula em três momentos...

||| ... metodologia: trabalho prévio do professor | seleccionar 20 fotografias das enviadas misturando registos de diferentes turmas e temas. criar uma apresentação (ver aqui - as fotografias apresentadas são todas da autoria dos alunos). primeiro momento: a aula requer um foco completo dos alunos nos noventa minutos de trabalho e um ritmo de concentração elevado. é preciso um momento inicial com a duração máxima de cinco minutos em que os alunos, em silêncio [e preferencialmente de olhos fechados] ouvem uma música ou um poema de um autor português que esteja ligado historicamente ao local ou seja relevante/fonte de inspiração para o trabalho a realizar no momento seguinte da aula. após este primeiro momento o professor explica, em dez a quinze minutos, os conceitos que quer associar. pode ser qualquer temática ou conteúdo programático. este é o momento de enquadramento teórico do desafio seguinte. no segundo momento da aula o professor desafia os alunos a sentarem-se em grupos de 3 ou 4 elementos. entrega a cada grupo uma folha de jornal do dia (recomenda-se jornais com algum conteúdo e texto...). cada grupo deverá ficar com uma página do jornal que o professor entrega com a indicação que só podem escolher um dos lados da página entregue. dá, então, o professor a indicação à turma que vão ter que usar exclusivamente e unicamente palavras que encontram naquelas páginas para criar um texto crítico sobre o conteúdo/conceito a desenvolver. o desafio que coloquei foi o de criar a letra de uma música partindo de uma das fotografias que foi colocada visivelmente para a turma observar em torno do conceito de património imaterial. mas este desafio pode ser alargado a qualquer tema, assunto ou conteúdo. a criação obriga os alunos a lerem, assim como, a escolherem palavras e a questionarem, muitas vezes, significados de palavras que desconhecem. devem então sublinhar as palavras escolhidas e riscar todas as outras. numa folha à parte escrevem o texto que entregam no final do tempo. esta actividade deve ter cerca de sessenta minutos para realização.  terminada esta parte da aula o professor inicia o terceiro momento. este momento deve ter entre 5 a 10 minutos. pedindo aos alunos para preparar a sala, afastando as cadeiras e mesas e criando um círculo os alunos deverão construir uma ideia de turma enquanto grupo para um objectivo. várias modalidades de o fazer são possíveis. a opção tomada foi o de ter várias bolas pequenas que são passadas entre os alunos que devem, sem falar, articular a comunicação entre si para não as deixarem cair. pode ainda existir a variação de tal experiência ser feita com balões. esta última actividade pode parecer desligada das antecedentes mas será o mote para uma dinâmica para a criação de uma actividade de construção colaborativa do conhecimento em torno de uma temática concreta numa aula futura...

||| ... a relação entre aulas é tão importante como não pensar que uma aula tem que ter um movimento contínuo e continuado. pode não ter. pode ser um conjunto em forma de manta de retalhos com diferentes momentos pensados para diferentes fins. importa que o professor tenha sempre a visão global e a orientação e controlo desses momentos como uma estratégia pensada para que faça sentido a si e aos seus alunos. esse é o desafio.

14/10/2013

||| ensinar os lugares da imaginação ou da inutilidade das coisas...


||| ... sim, isto foi o fim da minha primeira aula da manhã. os meus alunos haviam acabado de trabalhar quase sessenta minutos em criação de textos partindo do património e do jornal do dia [em breve apresentarei a metodologia de aula que comecei num post anterior]. todos temos memórias que não são nossas. mesmos os nossos alunos que podem ter, no máximo, um terço da nossa vida, das nossas experiências, do que vivemos. esta é daquelas memórias que temos, não a tendo. uma sala cheia de balões. para o desafio colectivo de não os deixar tocar o chão. e fazê-lo em conjunto. todos. um desafio que obriga todos a envolverem-se. só podiam sair da sala quando tivessem passados cinco minutos neste lugar de imaginação. sim. cinco minutos sem um balão tocar no chão. sim, cinco minutos de uma aula de uma hora e meia. não foi nenhum crime de lesa-pátria. e o que somos nós, professores, senão aqueles que, de candeia na mão podemos, em cinco minutos, iluminar o caminho duas vezes porque vamos à frente? porque transportamos connosco os sonhos que eles querem viver. e porque temos os dever de lhes dar as memórias que poucos o podem fazer por não saberem como, nem ter os cinco minutos que temos, mesmo ali à mão, para gastar... é o nosso dever. o nosso imperativo e isso é muito mais do que ensinar...

11/10/2013

||| do que não sei e gostava de saber...


||| ... pensar uma aula. preparar, não. planificar, muito menos. pensar. uma aula é um exercício vivo e livre. as barreiras são os limites do conhecimento. pensar. primeiro o conceito. o ponto de partida. muito bem definido. quero ensinar isto. este conceito. este facto. estas coisas. depois o como. vinte e cinco pessoas (alunos, não. pessoas). e o canivete suíço de estratégias. não uma. no mínimo quatro. pensadas. quatro formas de ensinar aqueles conceitos, factos, aquelas coisas. meter tudo no saco para levar. acordar de manhã cedo. estado de espírito, check. tempo: chove, faz sol, check. chegar à escola. respirar fundo. sentido os sons, o ambiente do dia. ouvir os bons-dias. as primeiras perguntas. algumas dúvidas. olhar para o saco com quatro ideias. entrar na sala. olhar para aquelas vinte e cinco pessoas. sentir o que procuram naquele dia. naquela hora. perguntar: por onde querem começar hoje: ó professor, estamos cansados. ó professor gostou das fotos? ó professor, o que é que vamos fazer hoje? tudo indicações para a escolha. tomar a decisão. fechar a porta. encher o peito de ar para acompanhar a procura de um sossego inicial. começar... a escolha feita é agora um desafio para noventa minutos. começa a aula...

08/10/2013

||| todos os meus alunos sabem onde está a beleza...


||| ... eu também já fiz isto. ir espreitar para ver a cidade lá de cima. agora sou professor destes alunos e fica mal fazer tal coisa. dizem. mas faço. isto não porque me ficavam a doer os joelhos. mas coisas parecidas em outros locais. sim. isto é uma aula. sim. aquela ali é minha aluna. sim, está a uma boa centena de metros de altura na torre dos clérigos. e sim, está a ver a vista e a tirar fotografias. melhor. está a tirar fotografias enquanto eu e outra colega dela lhe tiramos a ela. sim, somos humanos e às vezes apetece-nos ser curiosos. o meu papel como professor é sempre o de avaliar o perigo, claro. mas avaliando o perigo e este sendo mesmo reduzido que fazer à curiosidade? deixar fluir. o que está detrás daquela porta? e desta janela vejo mesmo o mundo? o rio da minha aldeia é maior do que o tejo? do tejo vai-se para o mundo. daquela janela da torre dos clérigos aquela aluna viu um mundo que nunca tinha visto. "é lindo isto visto daqui". sorriu. eu sorri também. depois disse com ar grave e sério, eu, feito mostrengo do fim do mar: vá, ainda te faltam cento e tal degraus até lá cima. "ó professor, eu tenho medo de alturas." [pensei e disse: então estás no local errado]. "mas vou lá acima, quero ver. isto é lindo visto daqui." e uma questão surgiu-me como clara. estes alunos são daquela cidade. não conhecem a sua cidade. os seus espaços. de que vale falar de património ou de vivências sociais de coisas onde nunca estiveram? como os posso fazer ver tudo isso sem os colocar nos locais para os sentirem? e estava um dia bom, com um sol limpo. e eu podia, somente, ensinar-lhes uma coisa. eu que vinha com um discurso pensado sobre a arquitectura como ideal de fruição das pessoas. eu que lhes ia explicar a história daquela torre. dos 250 anos daquela torre. não lhes disse nada. nem uma só explicação. deixei-os estar. subir, sorrir, rir, dizer um ou outro disparate e observei-os, de longe, eu que já subi aquela torre várias vezes. olhei-os com aquele espanto que todos temos ao observar uma coisa bela. e por instantes aqueles miúdos que são os mais conversadores do mundo, fizeram silêncio. a beleza tem esse poder. o espanto também. e cidade que agora era mais um bocadinho deles disse-lhes tudo o que eu nunca poderia dizer. guardei a história da torre para outra aula. que importa? ensinei-lhe algo mais importante naquela meia hora de visita: a beleza das coisas que alguém criou para nós... a arquitectura do belo e do simples... imemorial, intemporal, perfeita.

||| uma aula [não] preparada...


||| ... pedagogia: ensinar o conceito - património. ensinar o conceito - espaço social. ensinar o conceito - cultura local/regional. de como podemos numa aula de noventa minutos ensinar isto tudo sem definir teoricamente um conjunto de conceitos que são para ser vividos mais do que entendidos. 

||| ... metodologia: numa aula anterior pedir aos alunos para trazerem máquina fotográfica. [telemóvel também serve mas lembrar de o carregar e ter espaço na memória]. definir um percurso que passe por dois a três espaços de referência patrimonial na cidade/local. esse percurso deve ser feito pelo professor antecipadamente e não deve ter a duração, feito a pé, de mais de trinta minutos. os alunos em trabalho demoram mais vinte a vinte cinco minutos com pausas, explicações e outras situações e este exercício precisa de tempo para contemplação dos espaços/situações. definir três a quatro momentos de paragem em locais históricos ou patrimonialmente interessantes. sair com os alunos da sala tendo este conhecimento das regras: o trabalho é feito a pares. podem tirar o número de fotografias que quiserem. dessas, no final terão que escolher duas. dessas duas, o professor irá escolher uma [sem os alunos saberem qual é] para o próximo trabalho em sala de aula. até ao primeiro momento de paragem o desafio dos alunos é tirar fotografias a espaços abandonados, vazios ou sem pessoas. na primeira paragem mudam as regras. novo desafio. tirar fotografias a pessoas apaixonadas ou que expressem solidão. é importante falar e registar com os alunos o património dos afectos e sentimentos. terceira paragem programada, mudam novamente as regras. os alunos devem fotografar somente portas e janelas de casas sem qualquer referência histórica. e por fim, última paragem antes do regresso à sala de aula, mudam pela última vez as regras. devem fotografar-se a si próprios nos espaços da cidade/local. os alunos devem enviar ao professor, por email, as duas fotografias escolhidas de todas as que tiraram independentemente do tema/assunto/desafio excluindo as que tiram a si próprios.

||| ... este é um exercício em duas partes. a parte seguinte será descrita na próxima semana. é um exercício em sala de aula com as imagens produzidas. importa salientar que os alunos podem e devem falar com as pessoas. pedir autorização para fotografar. o professor tem aqui um terreno fértil para inserir conceitos como a privacidade. os direitos individuais e o património individual/história de vida. e depois, deixar fluir as conversas... deixar o tempo passar... deixar todos contemplarem os espaços e os outros... é simples...

04/10/2013

||| apreender o património sem sair à rua...


||| ... "ó professor, que seca, vamos para um museu?". não, não vamos. vamos falar de património. "então vamos onde?". para a rua, as ruas, ver e falar com as pessoas.  "a sério?". sim. antes de irem para um museu ou um monumento vamos conhecer o património que as pessoas habitam. esta cidade está cheia de "estórias" e lugares com história. passam por eles todos os dias. nos museus estão as coisas que alguém acha importante e que precisam de ser descodificadas. os pintores, escritores, artistas, inventores também se inspiram no real. nas ruas, está o património social. aquele que é preciso "ir ao encontro" para o "encontrar". vamos de máquina fotográfica na mão falar de património pelas ruas. "ó professor é para fazer o quê?". ouvir, ver e pensar. o resto é na aula daqui a quinze dias. e assim preparei as duas aulas seguintes... com as dúvidas dos meus alunos e a certeza que os lugares, o contacto com o real e a sala de aula a céu aberto são caminhos únicos para o entendimento da palavra património...

02/10/2013

||| sobre o horror dos conceitos dos outros...


||| ... enquanto professor sempre achei muito curiosas certas palavras. interdisciplinaridade é uma delas. curiosa, extensa, estranha. vou ler o programa oficial e deparo com o conceito que alguém pensou para eu ensinar aos meus alunos: a construção do social. acho, por instantes, bonito. depois, observo com atenção que o do está ali a estragar tudo. porque não podem manter as coisas simples? mas assim seja. a construção do social. e é preciso dar a volta para encaixar o sujeito histórico-social. mais conceitos. gosto do traço no meio. como se fosse possível tal divisão. como se o braço e a perna não fizessem parte do meu corpo em igual forma e utilidade. mas está bem. sou professor e dizem-me que tem que ser assim. não os oiço, aos que escreveram o programa oficial e se os ouvisse não ouviria e falaria de tirar um do que está a mais e aí seriam eles que não ouviriam nada. então que fazer? sou um professor da área das ciências sociais, não devia saber nada de ciências ditas exactas ou de artes, ou mesmo de qualquer outra coisa que não fossem essas mesmas ciências sociais. mas sei. e por isso vou começar pela mais óbvia de todas as coisas. ler os programas das disciplinas dos meus colegas. encontrar pontos em comum. criar desafios de imaginação, pensar a tal coisa chamada interdisciplinaridade... e preparar uma aula para a semana...

||| na escola há tantos sons...

||| ... para mim que tenho uma noção muito complexa do tempo e da sua gestão não foi uma surpresa. sempre achei que a responsabilidade é mais importante que o reflexo condicionado. porque o tempo não existe, diria stephen hawking, e apenas a sucessão dos acontecimentos traduzidos em imagens que registamos dão o sentido de continuidade no correr de um dia. tudo isto porque no espaço da escola não há uma campainha. não há aquele som, que sempre detestei, a marcar o tempo que afinal não passa desse compasso de espera entre imagens. não há aquele lugar onde o conhecimento habita transformado numa fábrica onde os trabalhadores mudam de turnos ao som de um triiiiimmmmmm que marca o passo e o compasso de cada hora. ali, naqueles corredores, naqueles espaços, o tempo é de cada um e a responsabilidade de o gerir também. e com isto se ensina o valor do tempo, do silêncio e da presença. e todos estão na hora certa nos lugares onde devem estar. é talvez essa a mais bela de todas as coisas. como se fosse um encontro programado para uma conversa feita aula...

01/10/2013

||| e a aula seguinte...


||| ... levei para a segunda aula uma frase que ouvi num dos encontros com professores que organizei recentemente: todos os alunos devem ter o direito a renascer. e nós, professores, também. a frase foi dita no contexto de um ano lectivo para o outro. eu, vou mais longe. de uma aula para a outra. o direito a renascer. a poder ser outro. a mudar. a transformar um mau momento num novo começo numa aula seguinte. diferentes na forma e na expressão as duas turmas que conheci neste dia eram, de facto, muito diferentes. estes, muito mais criativos na expressão. os outros, mais relacionais nas ideias. todos, pequenas grandes caixas de vontades e forças de serem originais. e no entanto, a palavra que guardei destas duas aulas foi: posso? posso levantar-me? posso mudar esta cadeira? posso escrever a azul? posso usar isto ou aquilo. a minha resposta é sempre que as regras são tijolos sobre os quais se constrói a autonomia e a confiança. tijolos. ao longo do tempo pouco serão os que se lembram dos tijolos da base quando olham para as paredes construídas. podemos por isso esquecer esses por uns instantes. e a minha resposta é sempre: podem. porque nas minhas aulas há só uma regra, o tecto, o pilar de cada aula: o respeito por mim e entre alunos. assim foi. e a porta da sala esteve sempre aberta ao dia de amanhã...

||| isto não é uma aula...


||| ...isto não é uma aula. mas era a primeira. há, mesmo com muitos anos de experiência, sempre aquela coisa estranha de ter medo do que nos espera. não é medo, é um estranho espaço que vive entre alguns segundos de espera. depois, olhar para os vinte e cinco rostos que nos olham. o primeiro desviar do olhar. as mãos que seguram a caneta para a agitar no ar já vestido do papel de professor. e repetir: isto não é uma aula. a aula, para os gregos clássicos era o espaço da casa onde se podia e/ou gostava de estar. aquela será a nossa aula quando isso acontecer. depois, os primeiros desafios. o estranhar que alguém possa colocar o acto de criar nas mãos daqueles que são agora os "nossos" alunos. um desafio com trinta minutos. pedaços de papel amarelo. nada mais. e nasceu uma porta e muitas vezes foi dita a palavra: porquê?...