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10/06/2015

||| a escola que eu sonho...


||| ... das coisas que mais me custam é saber que desisti desta escola. não acredito em nada do que ela representa. resta só, ainda, ser um lugar onde estão todos. a escola que eu sonho não é esta. nunca foi. nunca será. e quem está mal, muda-se. assim o fiz. lutei anos e anos, perdi muito mais do que ganhei, por tudo aquilo que acreditei poder ser uma escola de liberdade, conhecimento e curiosidade. o sentido é o inverso. e tudo parece correr bem. queria uma escola sem muros. de portas abertas. de gente que sabe e que aprende. de partilhas. de leituras. de conversas. acredito que a escola pode ser tudo isso. nunca deixarei de acreditar. não há lugar para mim neste sistema. mesmo tendo tentado mais do que devia. é tempo de fechar as portas. é-se professor. é uma essência que nos define. não é uma profissão. mas há um tempo para tudo. para acreditar. e para ver que estamos a mais. que errámos demais. que falhámos, connosco e com os outros. mas acima de tudo, porque não conseguimos mudar nada. por isso, cada palavra que poderia vir a escrever aqui no futuro seria desligada da realidade. e nada há de mais triste do que isso. não deixarei de acreditar, nunca, noutra escola. nunca. mas isso agora será só um pensamento no silêncio dos deuses...

25/04/2015

||| a revolução que a escola espera...


||| ... se ainda houver esperança na escola é que haja uma profunda e imensa revolução. uma mudança efectiva. que a escola se transforme. que acolha o respeito, de novo, no seu interior e que o conhecimento seja a sua ferramenta de liberdade. que seja um espaço de futuro. que acolha e prepare. que seja útil e que promova a mudança social. que seja verdadeira fonte de transformação. que seja lugar de educação, saber e inclusão. que seja para todos. feita por todos. que seja lugar onde se lê, vê, cria e pensa. que seja um espaço onde se investiga. onde se pinta. brinca. e onde se deseje estar plenamente. que seja porto de abrigo. lugar seguro. que seja futuro antecipado. e presente elucidado. que vá buscar ao passado o que é preciso para perceber o hoje e o amanhã. e à ciência a certeza do que o dia seguinte pode trazer de novo. que cada pessoa seja um ideal. que cada ideia seja uma força imensa que tudo invada e tudo ilumine. que a escola seja o lugar do bem e do bom. se ainda houver lugar para a esperança numa revolução que seja a escola a sua casa e o seu lugar de partida. porque nada há de mais belo do que imaginar e fazer nascer um novo dia claro e limpo...

10/04/2015

||| a geração cega, na escola...


||| ... "o pior cego é aquele que não quer ver." não. o pior cego é aquele a quem nunca ensinaram a ver e por isso não consegue saber que podia ver. fixei a expressão: geração de viveiro. miúdos que entraram para a "creche" aos três meses e agora estão obrigados a doze anos de escola e que começam a chegar às "mãos" de todos os professores. miúdos que não conhecem nada para além do "sistema" e do que o "sistema" lhes dá ou retira. que, por "orientações" e "directrizes" não podem fazer uma visita de estudo porque a escola não tem dinheiro. que não sabem estar numa "palestra" porque nunca ouviram alguém falar sem ser para lhes dar ordens de comando simples. para quem pensar é um exercício desconhecido. são fruto de um sistema que inventámos para criar uma sociedade "melhor". ninguém pensa nisto. hoje dei por mim a pensar nisto. nesta geração. neles. que nunca saíram do sistema ou que não sabem viver sem ele. fiquei a pensar nisto. que nem na escola se livram da privação da liberdade que só o pensamento livre permite. porque lhes é negado o conhecimento. cheios de informação, sem conhecimento. estão em perfeita harmonia com o sistema. ligados pelo umbigo a tudo isso que os "gere". e a escola está transformada no maior instrumento de "ocupação" destes miúdos. na perfeita representação desse mundo que lhes [e nos] disseram ser "melhor". mas será? não. não é. infelizmente para todos...

26/03/2015

||| acabar com as disciplinas...


||| ... a notícia. a finlândia ou lá onde é, vai acabar com o ensino por disciplinas. não me incomoda, não me importa. não me interessa. ser ou não verdade. ser ou não na finlândia ou lá onde tiver que ser. como não me interessa o vídeo do outro que diz que a escola mata a criatividade. ou similares. ou aqueles que defendem uma "revolução" na educação. nada disso me importa. nem os movimentos da escola nova ou da escola velha. porque primeiro, mesmo antes de tudo isso, é preciso, por cá, refazer uma só palavra: escola. voltar a dar significado a isto de estar, frequentar, ser um elemento de uma comunidade numa escola. o estado de ruína da coisa é tal que estou mesmo inclinado para isto. a palavra, a identidade o significado. a razão de existir. a escola. tudo tem que começar por aí de tal forma deram cabo disto tudo. e pode parecer exagero. mas não é...

23/03/2015

||| a escola é feita de pessoas...


||| ... lia outro dia que para mudar a escola era preciso primeiro mudar a sociedade. sempre fui defensor que a escola deve ser um lugar pioneiro. também me lembro da lição que dei tantas vezes: os pioneiros morrer e os colonos prosperam. a história tem destas coisas. serve de pano de fundo ao pensamento, tantas vezes. na escola somos pessoas. seres humanos. e a escola não pode ser um lugar de vazio, ou simplesmente o local de reprodução da política em que se quer transformado tudo o que seja o pensamento divergente. não há confronto na escola. mas devia haver. entre o desejado e o real. faltam limites para serem quebrados. temos uma escola obediente. nada de pior pode existir. a desumanização instala-se muito facilmente quando isso acontece. tudo passa a ser relativo. e próprio de uma tecnocracia demente. doente. a escola padece agora de todos esses males. e parece que ninguém consegue ver isso...

12/03/2015

||| na beira do abismo na escola...


 ||| ... eu já desisti. da escola. do ensino. vejo-o de fora, agora. ou fizeram-me desistir. da educação, nunca. isso será mesmo muito difícil. está no meu sangue. a escola, o ensino, este, desisti. e fizeram-me abandonar este caminho. o sistema. descarta quem acredita que ensinar é mudar o mundo uma pessoa de cada vez. um aluno de cada vez. não por não deixar que o sistema permita gente assim. mas simplesmente porque se perde a forma de o poder fazer. e às vezes, é preciso parar antes de ser destruído por uma máquina avassaladora muito maior do que nós. ouvia de uma colega: estou no limite. depois de uma semana e meia de corrigir testes, exames feitos para serem lidos, estou exausta. o rosto fechado e cansado. porque as reuniões eram demais, porque o tempo era sempre de menos, porque já nem se lembrava de ter tido uma refeição decente nos últimos dias, porque era sempre tudo a correr, porque os miúdos não "estavam nem aí", porque ainda era preciso acolher os encarregados de educação com mais problemas ainda, porque tudo era demasiado e o limite era, como ela dizia, uma linha tão perto, cada vez mais perto. e não era a única. a escola está cheia de gente no limite. das forças, da vontade, do querer. que sejam só os que ainda acreditam que se pode mudar tudo, os últimos a desistir. ou a escola, essa conquista única de um lugar de liberdade, será transformada em tudo, menos naquilo que um dia foi... 

18/02/2015

||| dar cabo da escola...


||| ... resta pouco da escola. do que é uma escola. ao entrar num espaço de uma "mega" estrutura/organização escolar parece que estamos a entrar num centro comercial. painéis avisam de acontecimentos que ninguém já vê. outros são listas seguidas de contactos, horas para isto e para aquilo, "gabinetes" disto e daquilo. listas de "convocatórias" para reuniões e mais reuniões e mais reuniões. perdidas neste mar de folhas ficam "boas ideias". um clube de cinema. um projecto. os miúdos cruzam os corredores de "fónes" nos ouvidos. o som de tudo é ruidoso. mesmo do silêncio. há tudo em dimensão maior do que devia haver. e depois há o poder que agora parecer passar de mãos do "central" para o "local". por decreto. sem ninguém ser ouvido. dizendo que todos foram ouvidos. ouvir não é escutar e a democracia cada vez mais parece uma coisa que só dá uma trabalheira. tem que parecer que é cumprida. sem o ser. séria, sem já até parecer ser. a escola é agora este lugar. sem alma ou força. sem forma ou razão. e isto é um crime. foi um crime feito por estes que pensaram na escola como uma coisa. uma coisa que se pode gerir como uma outra coisa qualquer. onde as pessoas são valores. e os valores não são saber mas "metas" a atingir. a escola perdeu a linguagem limpa, clara, precisa. desapareceu o conhecimento. é tudo para "atingir". para "cumprir". e os corredores encheram-se de miúdos sem resposta. cheios de tudo o que os faz não parar nunca. nem que seja só andarem de um lado para o outro de mãos nos bolsos e de "gabinete em gabinete". a escola é um supermercado de coisas. de tempo em aula. a aprendizagem é um luxo reservado a poucos. os bons alunos já perderam o estatuto de estudantes e são aqueles que conseguem fazer cumprir as metas. tudo isto é um crime. e tudo isto terá um peso imenso numa geração futura que já é o presente. ver isto é ver o cansaço e o desinteresse de todos. ninguém escapa a esta escola onde já não se reconhece há tempo demais. e depois promulgam-se concursos, leis, transferências de poder. já não importa a ninguém. ninguém eleva a voz. ninguém diz não. estão quase todos vencidos. a morte da escola é uma realidade. e um crime. mas está aí. presente. neste tempo para estes miúdos. o pior, o pior mesmo, é que nunca tantos precisaram da escola como agora. e isso, é o maior crime de todos. negar tudo isso. por um negócio...

12/01/2015

||| da apatia ou do lugar dos tontos...


||| ... lembro-me da primeira vez que me chamaram idiota. foi uma professora. fiquei ofendido. fui falar com ela. levei um "trabalho para casa". ir à origem das palavras. este trabalho para casa mudou para sempre a minha forma de ver as coisas. apaixonei-me pelas palavras. pela sua razão. pela sua sombra. apatia é uma palavra dessas. de origem grega. das antigas, como lhes chamo. das que resistiram ao tempo. da negação da pathos. ou o seu inverso, ganhando sentido. uma inércia enferma. doente. estranha. e quase que podemos dizer que é este o espelho da realidade. os miúdos, apáticos. sobre a realidade, as coisas, o fazer, o tentar, as ideias. a realidade, simples. básica. cercados de casas dos segredos e coisas que tais habitam um universo "à dantas" no olhar de almada negreiros. um tempo de tragédias de faca e alguidar do qual poucos conseguem fugir. esta geração enlatada está habituada à escola como privilégio. como obrigação e como privilégio. dada, oferecida. não é preciso fugir ao trabalho. quer-se, muitas vezes, fugir da escola para o trabalho. a alguns não faz sentido a ideia de escolarização porque só essa realidade é conhecida. não pensamos nisto. poucas vezes pensamos nisto. do lado de cá. do professor. tomamos como adquirido que o sermão de que muitos não terão acesso ou tiveram acesso ao que agora existe serve para ilustrar uma realidade. ou que "eram precisos andar tempos sem fim a pé e ao frio para ir à escola". hoje, em muitos casos, essa história está tão longe como tudo o resto. está muito mais perto a miúda que toma banho na televisão fechada numa casa porque mais nada sabe fazer para gáudio de muitos do que essa realidade. a apatia vem daí. disto tudo. de nunca estes miúdos terem sido chamados a decidir nada, a dizer nada, a escolher nada, a serem responsáveis por nada. até as associações de estudantes lhes foram roubadas para serem agora agências de viagens para festas de "finalistas". compreender isto é perceber que esta apatia é tão perigosa como inquietante. porque é, de facto, desinteresse pela escola. já não é só simples não-vontade. é o resultado do que foi criado, nesta ideia do "pré-feito" que o sistema educativo actual abusa. usa e abusa. a autonomia é difícil. de ensinar e de aprender. assim como a tomada de responsabilidades pelos próprio. mas decidir é o contrário de estar apático. talvez seja este o ponto de partida para mudar. ensinar a decidir. as pequenas coisas primeiro: como dispor a sala para aquela aula, quando falar disto ou daquilo, quando ser avaliado. coisas simples que mudam o é a decisão feita para a decisão construída. porque urge pegar nesta apatia e mudar para reflexão. ou corremos o risco de alguém, no futuro, com uma visão distorcida, o fazer. e seria tão simples...



26/11/2014

||| e os outros? os que querem aprender?


||| ... é cada vez mais uma escola injusta. para os outros. os que ninguém olha. e de quem tudo se espera como adquirido. os "bons" alunos. os "bem" comportados. os "correctos". os resquícios do que era uma turma. em muitos casos, agora, todos juntos nas modernas "turmas de nível". mais. porque os outros são menos. e tudo isto está errado. do não se ver cada um desses miúdos por se esperar o comportamento adequado a turmas que são mais e menos ou definidas por siglas que definem tudo menos a razão da sua criação. e depois, nos momentos finais tudo muda. uma escola exclusiva vestida de inclusão. travesti, já. porque é impossível ser de outra forma ou ter outro nome. e eles, aqueles miúdos que estudam merecem mais. porque ser "bom" aluno nesta escola de hoje é ser estudante e mais nada. boas notas. mesmo que em guetos criados para os "salvar". e ninguém o diz porque há vergonha nisto. nisto, não. em tudo o resto. salvar estes miúdos é resguardar a turma. aninhar. cuidar deles. mesmo que isso seja um erro. porque quando o edifício inteiro se desmorona é preciso salvar alguns. e há tudo de errado nisto. no salvar. e no edíficio. e os outros? os que não são tudo isto? podem continuar a andar por lá, nas siglas que os definem também. são os "vocacionais" ou outras coisas que tais. não. são um erro, as siglas. como o mais. mas é preciso salvar cada um deles de formas diferentes. mas iguais. mais ou menos. e é por isso que cada dia que passa a escola é mais injusta. muito mais injusta. para todos. mais ou menos. 

24/09/2014

||| já não sei o que é a escola...


||| ... já não há escolas. há agrupamentos. é tão estranho isto. este conceito que não é nada. a palavra escola está a ter os dias contados. pode parecer estranho, mas é assim. e vamos, todos, dar lugar ao arrependimento de isto ser assim. por muito estranho que seja. e ontem, em discussão, contaram-me uma história. uma menina entrou para a escola para o seu primeiro ano de aula. escola, sim, ainda nesse tempo. a professora pediu: desenha uma flor. a menina desenhou uma flor grande. a professora observou o trabalho feito e afirmou: isto não é uma flor. uma flor é assim: tem pétalas, folhas, é colorida, etc... e desenhou na folha da menina uma flor. passaram uns tempos e no início do ano seguinte a menina tinha mudado de escola. era, outra vez, o primeiro dia de aulas. uma nova professora pediu a todos, na turma, para desenharem uma flor. todos desenharam, menos a menina. a professora, intrigada, perguntou: então, porque não desenhas uma flor como pedi? a resposta da menina foi simples: porque a professora não me disse como queria a flor. e dei por mim a debater com colegas a dualidade da visão: simples/complexo. por causa de uma maçã. de dar uma aula partindo de uma maçã.  e de que fazemos sempre o exercício contrário. simplificamos. é quase natural. tornar simples as coisas. que não o são. para entendimento. porque, julgamos, o complexo não é tão facilmente compreendido. vamos do complexo para a simplificação. eu tenho um problema. vou ao contrário. vou do simples para o complexo. é por isso que os meus alunos sempre me disseram que eu era complicado. porque não quero que eles vejam o óbvio explicado até ao limite da exaustão. tudo lhes é dado. simples. e não pode ser. não deve ser. explicado, sim, tornado objecto didáctico. mas simples, não. porque nada é simples. e muito menos o conhecimento. dei por mim, a pensar nisto, ontem. em conversa entre professores.

19/09/2014

||| fecha-se a primeira semana...


||| ... do convento só sabe quem lá vai dentro. nunca soube dizer este provérbio. também acho que não vou aprender agora. gosto de o dizer assim. está errado mas gosto do som da coisa que se enrola na língua como algo antigo. um erro antigo. e terminada a primeira semana de aulas, de escola, na escola, o que me assusta é o estado em que está tudo. não foi só a chuva que percorreu estes dias e tornou tudo cinzento. foi o estado das coisas. o estado de alma, da e na escola. não há encanto. não há calma. não há paz. não há ordem. há a palavra cumprir que tenho dito tanto aqui, por todo o lado. há já um cansaço maior do que em qualquer arranque de ano lectivo anterior. mas há esperança. que isto "rebente". que isto "mude". há. silenciosa. mas há. e há professores que seguram tudo com as mãos. que seguram a escola com as mãos. e com o sorriso. ainda. ainda há. e isso é a maior conquista que temos. e há gente que se ajuda. e gente que quer fazer melhor. e tenta-se que isso não chegue aos miúdos mas nunca um ministério esteve tão dentro da sala de aula como este. é quase impossível fechar-lhe a porta de tanto regulamento, despacho, ordem e nota informativa em jeito de "façam assim". mas ainda é possível. ainda, na minha sala de aula, estou só eu e eles. os miúdos. graças aos deuses que ajudam. e a mim que tento afastar cada um deles, dos miúdos, disto. e se for preciso mando pintar folhas em branco de várias cores para colar nas janelas para dar cores ao espaço que se acinzenta. já o fiz uma vez. não seria algo de novo. fechada esta semana, venha a esperança. maior. porque tarda. porque é tarde. antes que seja, verdadeiramente, tarde...

16/09/2014

||| a escola não é uma banda...


"é na limitação que se revela o mestre."
goethe

||| ... quando vejo partilhada a afirmação de josé gil, pensador por quem tenho imensa estima, penso muito. eu não gosto de ter no ministério que me "tutela" o pior ministro de sempre. queria o contrário. ter o melhor ministro de sempre. isso sim, partilharia. isso sim, seria motivo de conversa. e quando, ontem, ouvi as palavras de quem se julga maestro numa orquestra que não é sua, assustei-me.não mais do que já ando. fiquei foi no estado de susto. de suspensão. revi toda a filosofia e linha de rumo deste momento. tudo numa frase só. uma visão do que é a escola. do que querem que seja a escola, agora. a frase era limpa. sem qualquer preconceito ou desvio. uma harmoniosa descrição lógica do que se pensa. os alunos estão nas aulas a aprender. os professores estão nas aulas a ensinar. os alunos estão entregues e os pais vão lá visitar. e está feito. aqui, nesta frase, reside toda a política. toda a pedagogia. toda a linha de rumo. toda a ideia de escola. toda a normalidade. e não, a escola não é uma orquestra. é só mesmo isto. a visão mais limpa e mais pura que podia ser dada. para que todos entendam. não pode ser mais do que isto. é só isto, mesmo. e pode parecer simples. mas não é. é a ausência de tudo no mais puro e simples dos raciocínios lógicos. sem visão nenhuma. sem beleza nenhuma. sem nada. sem pessoas. sem espaços. sem projectos. sem apoios. sem inovação. sem arte, sem nada. uns ensinam, outros aprenderem e outros vão lá visitar. e mais claro não podia ser. é o resumo perfeito. para quem acha que tudo são erros e lapsos desta política ou que não tem linha de rumo, eis que aqui está. mesmo ao som da música da orquestra que diz o mesmo de forma mais eloquente tudo se resume a isto. a uma visão nula da escola. porque uma escola não é uma orquestra. nem uma banda. nem uma equipa. nem nada disso. nem é só o lugar onde se colocam uns para aprender e outros para ensinar e uns que lá vão visitar. não é só isso. é tudo isso e muito mais. e em cada palavra dita reside um profundo desrespeito pelo trabalho diário de todos. não só dos professores. mas de todos. mas ao menos fica claro. limpo. perfeitamente descrito. é isto que querem que a escola seja. só isto. nada mais. tudo o resto é dispensável. desadequado. inquietante. porque tudo é normal quando é assim. só isto. nada mais do que isto. nada para além disto. e é tão simples que ofende...

15/09/2014

||| hoje é o primeiro dia do resto...


||| ... é assim. num ápice. última conversa antes de sair da sala de professores de chave na mão e livro de ponto. antes de verificar a turma para cumprir os primeiros rituais que se vão manter por um ano lectivo. olha-se para os rostos na lista. diz-se: lá vamos nós. e vamos. percorremos os corredores de olhar suspenso. vemos tudo. os miúdos que dizem olá. aqueles que reconhecemos. aqueles que são novos. há os sons, novamente. as primeiras advertências dos funcionários. as mochilas ainda novas guardadas. o movimento do primeiro caminhar para as salas. aqueles que não sabem onde são as salas. os mais pequenos que sorriem. os maiores que conversam. os encontros. os reencontros. os pais que vão deixar os miúdos ao portão. ou os avós. e o movimento adensa-se. torna-se visceral. vivo. intenso. a campainha marca a hora. ou a hora chega. abra-se a porta. pousa-se o livro de ponto e a pasta. ouve-se o arrastar das cadeiras e o burburinho que é preciso fazer assentar. respiramos fundo uma última vez. estamos ali. é a nossa primeira aula. é o nosso primeiro dia. do resto. de tudo o resto que está para vir. abrimos um sorriso. dizemos: olá, eu sou o vosso professor de... estamos de regresso. há nisto, toda a magia do mundo. e das coisas. há nisto, algo de tão imenso, de tão grande, de tão belo que só por isto vale a pena ser-se professor. bom regresso às aulas. bom regresso à escola. para todos/as.

09/09/2014

||| não é esta a escola que eu quero...


"quando a luz se apaga nas janelas 
perde a estrela d'alva o seu fulgor"
canção de embalar, josé afonso

||| ... não quero esta escola. não quero mais esta escola. clamo por prometeu, para vir devolver o fogo roubado aos deuses. e que de pandora, aberta a caixa, ainda fique a última virtude: a esperança. que seja ela a força que falta agora. não quero mais esta escola. e se ninguém diz, digo eu, não gosto desta escola. não gosto de ser professor nesta escola. gosto de ser professor. mas esta escola não é a minha. já nem escola é. é um agrupamento. um ajuntamento. não. isto não é uma escola. é um sistema. é outra coisa qualquer. uma escola não é o lugar onde se ouve mais a palavra: cumprir. é onde se ouve mais a palavra: aprender. e é preciso dizer não. alguém que diga que não. não é esta escola que tem que existir. nesta escola estamos a perder o fulgor. nesta escola estamos a perder a força. nesta escola estamos a fazer resvalar para o inútil o conhecimento e o saber. estamos a cumprir, funcionários que fazem cumprir e por cumprir. metas, resultados, objectivos. cumprir. obedecer. estamos a trabalhar para uma tabela. devíamos trabalhar para uma única coisa. para o saber dos nossos miúdos. fazer deles estudantes. fazer deles pessoas. não como esta gente que quer continuar com esta escola. essa gente não. gente. com alma e com saber para enfrentar o futuro. não quero esta escola. quero uma escola onde o "aprender" esmaga o "cumprir". onde o "estar" esmaga o "andar". onde os professores recuperam o brilho. a força. o tempo. roubado o tempo, roubam-nos agora o fogo. o fulgor. passamos todos a andar de cá para lá com papéis na mão o dia todo e as nossas salas de aula são lugares sem espaço ao desvio do pensamento porque tudo é para cumprir. basta. chega desta escola. eu não a quero. posso ser só eu. deve ser de mim que estou mal programado. devo ter mais esse defeito. mas não aceito. não me resigno. não me calo. e não quero. não aceito. é simples. para que fique bem claro. não quero esta escola. e sei que escola quero. agora, digam o que disserem, este é o meu manifesto. por isso, chamo por ti, prometeu. vem trazer, de volta, o fogo aos homens. estamos a precisar. muito. 

08/09/2014

||| ainda temos escola?...


||| ... a pergunta apareceu sem mais nem menos. hoje que estou a regressar à escola. ainda temos escola? sim, escola, de lazer. é estranho ir à origem das palavras. é que o lazer é o tempo permitido. lícito. e será lícito então dizer que ainda temos escola? ou teremos outra coisa. houve o tempo do "sistema escolar". agora é tudo coisas com siglas que já nem permitem adivinhar o que quer que seja. os nomes das coisas sempre me importaram muito. restam poucas escola com o nome de um escritor, poeta ou figura insigne. isto tudo porque tive que colocar no google maps o nome da escola. ainda estava a designação antiga. gostei disso. escola secundária poeta tal. é bonito. mas logo a rectificação apareceu. agrupamento de escolas da terra tal. é estranho isto. a terra ter um agrupamento. não é estranho o agrupamento porque já nada disso parece estranho mesmo sempre. é estranho o nome do poeta não estar lá. fui à procura da poesia, por causa do poeta. lá o encontrei. mas disso já não resta nada no nome da escola. curiosamente os mais velhos, sentados nos bancos de jardim, quando se pergunta pela escola, não sabem. é o liceu. o liceu é ali ao fundo, virar à direita e dá com ele. se eu perguntar pelo agrupamento, como uma vez já me aconteceu, mandaram-me para o quartel dos bombeiros. é curioso isto da escola que já não existe. que já não temos. nem liceu, nem escola, nem poeta, nem agrupamento. passei [sim, porque não uso, a maioria das vezes o gps] a perguntar pelo espaço escolar da terra. respondem-me sempre em jeito de pergunta: dos mais pequenos ou dos outros. é do outros. ah... é virar à esquerda ali ao fundo. dificil de perceber isto. de tão moderna que se quer a coisa que a escola já nem tem nome. curioso isto. hoje que estou em viagem, penso mais nisto. talvez dê com a escola de destino. ou então posso sempre dizer que é ao pé do centro comercial, a coisa, lá perto...

29/07/2014

||| repito tantas vezes que já me esqueci...


||| ... é preciso pensar. é simples. basta ir espreitar as listas de escolas a concurso para as "necessidades residuais" do sistema e ver. em frente ao nome: com contrato de autonomia. ou: teip. cada vez mais. dizem que era para "fugir" aos mega-agrupamentos. dizem. sei que tenho dito várias vezes em vários contextos que este é o tempo de se pensar em tudo. em tudo isto. não no agora. agora é para analisar. aceitar ou refutar. para o futuro. porque ninguém é eterno e os lugares são mutantes na forma e no conteúdo. e que escola queremos depois desta? depois deste tempo. desta lógica. desta coisa. e chega o tempo do não pensar. vamos parar um pouco. um pouco tão preciso. mas não será assim para todos. nem para alguns. é preciso criar uma ideia do que queremos. lutar por isso. dizer que é isso. como é, como se faz. porque foi por não se saber o que se queria que fomos atirados para isto. em parte o mando vem daí. ser mandado. porque não há outra ideia mais forte que diga bem alto não é por aí mas é por aqui. assim. feito assim. de a para b. de b para c. e mesmo em tempo de paragem, o pensamento é necessário. tanto como a luta. urgente. urgente saber que escola queremos depois desta. urgente.

07/07/2014

||| fechar a escola, já...


||| ... um sistema obsoleto é sempre muito caro. insuportável para quem o tem que manter. é caro porque perde tudo por todos os lados. tempo, recursos e resultados. sempre a perder. geralmente chama-se um gestor para gerir o impossível. e o que faz o gestor: corta onde pode. mascara o resto. e quando tudo está polido como um carro em segunda mão com quilómetros a mais, vende ou trepassa a coisa e sai com sucesso. se isto não fosse uma anedota até podíamos rir um pouco com o que se está a passar com o fecho de mais trezentas e onze escolas [que se sabem]. ou com a ideia de municipalização de muitas. o trepasse é sempre uma boa política para uma coisa que está em falência de valores, ideias e recursos. a escola é essa coisa, neste momento. por ter sido arrastada para aqui. e sim, propositadamente arrastada para aqui. há uma lógica "liberal" nisto tudo. a palavra está gasta mas a lógica tornou-se quase numa imperceptível caminhada silenciosa onde todos estão a ver para onde tudo vai mas todos acham que não há força possível que trave a máquina em andamento. mas há. há e o pior é que é evidente que há. a mesma que impele a que tudo nos pareça claro quando vemos o todo para além das partes. o sistema está obsoleto. e é caro. é caro por isso. não por ser a sua natureza. é determinação à posteriori. com os remendos. em parte, são os remendos que tornam a coisa insustentável. não a sua lógica. por isso, o que seria preciso era o simples acto de despir o sistema de tudo isso e voltar a refazer tudo. despir é ainda muito mal visto numa sociedade clássica e com pudor pelas coisas erradas. ninguém teria essa força. ou teríamos que ter todos. todos nós que somos professores e sabemos o que a escola precisa para ser "sustentável". nós sabemos. e todos os dias vemos como podia ser feito. mas somos só peças na máquina obsoleta e insustentável, não é?...

04/07/2014

||| da beleza da escola...


||| ... sentei-me, por uns minutos, no degrau da entrada de uma escola. pensei. das poucas coisas que me restam do que gosto de fazer esta é a que gosto mais. pensar. olhei para tudo aquilo. há uma beleza na escola que não há em mais lado nenhum. a certeza que ali habitam pessoas. que uma escola é feita sempre e só de pessoas. o resto é uma construção de cimento que podia ser outra coisa qualquer. e depois os que entram e os que vão saindo. todos os anos vão saindo centenas. o futuro pertence a quem o desafiar, penso sempre. uns serão pensadores. outros fazedores. outros vão ganhar forma de ser gente fora da escola. a nenhum consigo adivinhar o futuro. talvez a um ou a outro. um palpite, apenas. já muitos me saíram completamente furados. talvez um dia algum venha ter comigo e diga que se lembra de mim, que fui seu professor, um dia. e da escola. a escola será sempre a nossa escola. a deles. estudei aqui quando era pequeno, vão dizer um dia ao passar. e vão dizer a alguém. a outro alguém que tem outra escola como sua. poucos espaços conservam em si esta beleza maior. de serem nossos. a escola será sempre a nossa escola. uma pertença. inesquecível. e nisso reside toda a beleza do mundo. desse mundo inteiro que é só o local onde aprendemos a ser gente...

13/03/2014

||| das coisas breves em que tudo importa...

 
||| ... ao passar os portões da escola observo o que se passa à minha volta. gente a mais. tempo a menos. o tempo dos deuses terminou. o tempo dos justos, também. santo agostinho iria ter dificuldade em compreender isto. kant, também. ou talvez mesmo eu tenha agora dificuldade em perceber que aquilo que aparece em frente aos meus olhos ainda tem o nome de escola. não tem. já nem isso tem. agrupamento. sede de agrupamento. e eu que sou muito dado à importância das palavras reparo nisso. ainda há na boca dos professores " a minha escola". fui à minha escola levar isto ou aquilo. no entanto esse nome, essa coisa simples de chamar as coisas pelos nomes, muda a forma como comunicamos. a reunião é na sede do agrupamento. agrupamento. lembra aqueles batalhões preparados em acampamento antes de uma batalha na idade média. um agrupamento de gente não é uma escola. é mesmo só um agrupamento. gente junta. coisas juntas. escolas juntas numa coisa que nem nome tem. é só um grupo. um agrupar. e tudo na palavra importa. até ao ponto de se ver claramente a falta de estratégia ou visão. agrupar é juntar sem ordem. estar contido é diferente. ser similar. a escola é palavra em desuso. de cima para baixo. é. guardemos nós, guardiões dos deuses, as palavras como tesouros. como resistência e luta. vou-me embora. vou para a escola...

06/03/2014

||| este homem que apenas nasceu...


||| ... da visão das coisas. não gosto de usar este espaço para falar de política [ou ausência dela] no que diz respeito à escola e ao sistema público de ensino. não gosto porque não me interessa como professor mais de metade das coisas que se vão esgrimindo entre leis, decretos e regulamentos. interessa-me sempre a luta pelos direitos sociais e profissionais porque são, tão meus, como de todos. mas hoje parei para ver o todo. aquele todo em forma de modelo que desejam para a escola. dos concursos às autonomias. das palavras aos pedaços. e o que surge aos meus olhos, enquanto elemento desse gigante sistema que a todos absorve é mesmo que estão a despedaçar a escola. ao mesmo tempo que atiram para dentro da comunidade escolar tudo o que outros deviam conseguir resolver, estão também a despedaçar a escola. explico. como se cada coisa fosse uma peça isolada. a direcção é uma peça [manobrável e dominante], os professores [são peças movíveis], os alunos [são milhares de peças separadas umas das outras e vistas como um todo uniforme e disforme] e tudo o resto é cenário. peças. não pessoas. peças. peças que podem ser vendidas. trocadas. cujas regras de encaixe podem ser transformadas de um dia para o outro sem apropriação por todos dos novos caminhos. lembra-me aquelas empresas vendidas aos pedaços como se fossem coisas que ninguém sabe muito bem o que são. e por isso a escola é hoje isso mesmo. um lugar onde pedaços do que um dia foi uma comunidade co-habitam. muitas vezes já sem os restos de qualquer tido de identidade ou forma. como se fossem uma caixa esquecida de peças por arrumar. e se a política é a gestão do [im]possível urge chamar alguém que retome o que é importante. dar significado. dar uma política de razão. dar uma forma ao que hoje está despedaçado. ou corremos o risco da escola nunca mais ganhar, novamente, a forma que precisa para enfrentar os desafios para o qual foi criada...