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28/02/2014

||| ninguém gosta daquilo que tem...


||| ... ontem fui a escola alheia conversar sobre literatura e revolução. acho que não falei nem de uma, nem de outra coisa. não me lembro. recordo apenas três trocas de ideias no final da conversa. uma professora. uma aluna. um pai. o pai, empresário em terras de gente empreendedora dizia que acolhia jovens para estágios que não sabiam escrever. a quem tinha que corrigir os erros. a quem faltava a preparação para além da componente técnica que era boa. a aluna ia-se sentindo operadora. pedia menos memorização. menos ser aluno para exame. menos exames. queria criar. queria que apostassem nela para além da reprodução a que era obrigada. a professora queria fazer mais. melhor. as condições de um programa e das obrigações para cumprir não lhe permitem fazer o que é preciso. quer. não consegue. e aquela escola, espaço, projecto até me pareceu daqueles que aposta para além do que lhe é obrigatório cumprir. eram vinte e três horas e no dia seguinte as aulas começavam às oito e meia. mas estavam ali. na conversa. e isso importa para a maria e a débora que perante o desafio de (re)arranjarem músicas de tempos da revolução de abril cantaram nesta noite para explicar que a escola pode ir além do que é. e saí com a sensação que me acompanha como professor, nestes tempos de agora, que nenhum de nós tem a escola que quer. que deseja. que gosta. nenhum de nós se revê nesta coisa de tudo ser examinado. tudo se feito para ser estanque, igual, reproduzido. e como disse por lá, naquele momento, não está nas mãos de mais ninguém mudar o que temos sem ser nas nossas. só nos podem causar danos de espera, ouvi cantar. e pensei que esses são os danos que estamos a fazer à escola neste tempo presente que tem que cessar. porque ninguém gosta disto. ninguém se identifica com isto. e tem que nascer outra escola porque esta, como está, não serve ninguém.

13/02/2014

||| um homem suspenso no poder...


||| ... dizem que um dia viram alexandre, o grande, sentado no trono a pensar. dizem que apenas disse uma frase. o poder absoluto é o exercício máximo da solidão. acho que ninguém o viu a pensar sozinho e não disse isto. mas fica bem este exercício de imaginação. serve esta ideia somente para ilustrar uma das questões contra as quais mais me tenho batido. eu sei que ninguém liga a isto. mas eu ligo. a mim incomoda-me. a mim importa. sou do tempo da escola ser um espaço de democracia. não sou velho mas lembro-me disso. quando entrava numa escola nova para dar aulas [pois sempre fui professor em regime jurídico de trabalho de contratação] lá ia eu ser apresentado a três ou quatro professores como eu. era o conselho executivo. vamos lá desconstruir isto. eram três ou quatro. um deles era o presidente do conselho executivo e os outros eram delegados. a quem o presidente delegava competências. as decisões eram tomadas em conselho. e voltamos às palavras: conselho é a primeira. do latim consilĭum. do encontro de pessoas para a discussão/opinião. segunda palavra: executivo: do latim exsequi. realização ou cumprimento de algo. e fazia todo o sentido. um grupo de professores de uma escola que a coordenavam juntando esforços para a realização da escola como um todo. claro que nem sempre funcionava. as coisas da democracia são assim. tirando todos os outros modelos fica este imperfeito. mas agora isso já é passado. temos um/a director/a. alguém que traça um rumo ou administra. fui e sou dos que acha que esta foi a mudança mais substancial dos últimos anos. o que mudou não foi um nome porque a função é similar. foi a lógica de poder. a individualização e o rumo. a gestão para administração. e que importa isto no meio de tanta coisa? é que acho imensamente curioso que a escola tenha sido dos primeiros organismos do estado a "optar" por este modelo. se a escola é reflexo ou antecipação do todo social temos então a resposta ao caminho que temos pela frente. e é isso que me assusta. o modelo. o que fica em cada um de nós. que é mais fácil ter alguém no comando do rumo do que definir democraticamente o caminho. é uma representação. a dependência da sorte de ter uma pessoa com certas características para uma função com este peso é uma realidade. tive sorte ao longo destes últimos anos. mas não importa eu como professor. importa o modelo que a escola apresente como representação social de futuro. e isso sim é uma realidade visivelmente estranha passados quarenta anos de um vinte e cinco de abril ainda por cumprir e com uma europa a mostrar que já se começa a esquecer da história dos últimos cinquenta anos. um dia para explicar a uma turma do décimo segundo ano o que tinha sido a comuna de paris fiz com os alunos uma ocupação de um conselho executivo. barricámos o espaço e lá ficámos durante uma manhã a tomar conta da escola. foi há uns bons anos. se o fizesse hoje certamente apareceria na tvi com direito a corpo de intervenção e muito mais do que isso...

04/02/2014

||| não conseguimos olhar para o sol muito tempo...


||| ... sempre que pensamos em avaliação a palavra, conceito e mecanismo dos testes surge como imediato. agora, exames. palavra antiga e poderosa que mostra que tudo o que se sabe cabe num conjunto de exercícios teoricamente explanados numa folha de papel a resolver em tempo condicionado. lembro-me de há uns tempos ir assistir a uma conferência onde uma especialista [cada vez mais gosto deste conceito] dizia que testar era preparar para a vida. e por isso examina-se. como se o professor tivesse uma máquina para examinar o seu aluno. ver por dentro o que sabe. se sabe responder ao que lhe é pedido, por si ou por outros. a reprodução é evidente. se eu, professor, disser azul, o aluno fizer um exame e ler a pergunta: de que cor é? e responder azul, tem vinte. simples. e lá sai ele de mais um teste [desculpem, exame] mais preparado para a vida. o céu é azul. a vida será muito mais fácil assim. e se o professor seguinte não fizer testes? como eu. e mostrar a esse mesmo aluno esta fotografia. e lhe disser que é o sol. e o azul é o céu. ele, aluno examinado, vai dizer que está correcto. então o professor proscrito que não faz testes dirá que não é o céu, nem o sol. é uma fotografia alterada com um filtro de uma lâmpada tirada numa sala em trinta segundos. para o manipular. para provar que nem tudo o que está numa folha de papel pode ser examinado e que a vida não é só preto e branco e azul. talvez então ele, aluno, perceba que pensar é mais importante do que reproduzir. e que um exame não pode ser o centro do processo de aprender. pode e deve existir. só não pode ser a razão de tudo...


29/01/2014

||| preocupados com a coisa errada...


||| ... escrevi aqui uma vez sobre isto. retomo. porque anda tudo a atirar palavras sobre a praxe e a violência e os rituais e o nazismo e salazar e tudo e mais alguma coisa mas ainda não vi ninguém falar do mais grave. da base. de onde tudo isso vem e como mudar o comportamento social [que é disso que se trata] quando falamos em integração numa comunidade escolar. tenho pensado nisto. e dito várias vezes que o que me preocupa é o grau de violência que existe na escola. eu sei que não são todas. eu sei que há casos e casos e graças aos deuses ainda há escolas que são verdadeiras comunidades auto-reguladas. a questão está na violência enquanto representação e comunicação em sociedade. e na escola ela tem aumentado. nas escolas básicas e secundárias. nas escolas profissionais e depois no ensino [dito] superior. é que o que eram brincadeiras passaram a movimentos e actos de violência. não falo só de violência física. falo de violência de poder, de identificação, de comunicação. e por isso nada é estranho que o grau de permissividade entre alunos leve a que essa violência seja integrada na vivência ou nos rituais como algo natural. o que está mal não é a existência ou não dos rituais numa comunidade [embora longe de ser a favor da praxe - antes pelo contrário] mas o que me assusta não é a sua existência de per si. é mesmo a linha comum que começa na escola e se está a alastrar como algo vulgar, uma forma de resolver "as coisas" ou simplesmente como forma de comunicação entre pessoas. o problema, de facto, é maior do que um acontecimento ou outro que já não são pontuais. está no grau de permissividade que nós, professores, temos para com a violência entre alunos neste momento. e se tal não for pensado a sério, podem fechar-se todos os rituais que a violência ganhará lugar, noutros momentos, para se mostrar. penso nisto quando agora se fala do que vejo todos os dias em frente aos meus olhos...

27/01/2014

||| o tiago mandou-me um email...


||| ... o que é que podemos realmente fazer para que os alunos "pensem" durante uma semana? era a pergunta que vinha no email que o tiago me enviou. o tiago é presidente da associação de estudantes de uma escola secundária onde recentemente fui orientar um momento sobre leitura de imagens para uns simpáticos setenta e tal alunos. no final chegou ao pé de mim e disse quem era e ao que vinha. queria pedir-me ajuda. tinha gostado do que havia ouvido nos noventa minutos de exploração de ideias que tinham acabado com algumas actividades pelo meio que faço sempre porque ninguém [nem eu] aguenta já ouvir outro alguém falar durante noventa minutos. gostou. no final eu disse-lhe que me podia enviar um email a explicar o que queria de mim. e assim foi. recebi o email. respondi: vou desenhar umas ideias e para a semana envio-te para avançar. foi o que me ocorreu. é pouco, eu sei. mas foi o que me ocorreu. gostei tanto do desafio que me apetece fazer tudo para que o tiago tenha a sua semana para colocar os seus colegas a "pensar". e eu nem sou professor do tiago. e não serei. não terei essa oportunidade. logo ele me respondeu: muito obrigado por responder. vou lançar o projecto também no nosso grupo da associação de estudantes para termos uma boa equipa a trabalhar para isto. acho curioso isso. ele talvez fosse pensando que eu não iria responder a este repto. geralmente é assim. dizemos que ajudamos e depois fica tudo por ali. mas não. quero mesmo ajudar o tiago, que nunca será meu aluno, a ter a sua semana de pensadores. acho nobre a ideia. não me pediu coisas. pediu-me uma ideia. o tiago é uma pessoa em construção que gostei de ver com esta força presidencial de querer mudar as coisas. nem que seja por uma semana. só por isso já valeu a pena ter aceite, no meio de uma semana interminável, o desafio de uma colega para ir à sua escola dar esta aula. e agora resta-me o meu bloco e o procurar ideias. para o tiago. para pensar...

21/01/2014

||| do outro lado do muro fica a floresta...


||| ... às vezes pergunto-me que lugar tem o professor na escola neste tempo. que lugar tenho eu. e pergunto-me insistentemente. não acho que chegará o dia em que o professor não será preciso. pelo contrário. acho que ser professor é hoje e será no futuro uma das profissões mais necessárias. também não penso que o professor é hoje um agente ou funcionário que reproduz e produz alunos capazes apenas de cumprir as orientações do estado. mais do que nunca o professor é uma pessoa precisa no contexto social de um momento histórico único. e mais do que nunca o papel do professor passa por tudo menos por aquilo que esse mesmo estado pensa que deve ser o seu papel. vivemos num tempo de solidão. não daquela de estar só. da das ideias. da raiz das ideias. dessa solidão. quem cria, precisa hoje de trabalhar mais para sustentar cada casa. quem não trabalha dilacera os dias nesse lugar onde o medo existe e a procura de solução é uma necessidade constante. quem, por mérito ou herança recebeu um presente dourado vive muitas vezes num mundo desligado do real. numa reprodução social de um capitalismo desumano. temos de tudo dentro da escola. e temos de tudo no país. de escolas centrais onde a realidade social dignifica o conhecimento como ferramenta para o mercado a escolas escondidas no meio de uma aldeia, junto a uma igreja e perto do largo central onde as crianças não acedem a ofertas culturais tão ricas como outros mas vivem o espírito comunitário como já em muitas cidades não acontece. o que me prende na minha resposta à minha insistente pergunta é este tempo de solidão das ideias. das vidas não pensadas. e nunca como hoje a escola e o professor é para muitos alunos [ou devia/podia ser] um baluarte de esperança. qual é o maior problema de todos? é que não somos. tantas vezes somos também portadores dessa ausência de tempo, de conversa, de gestos, de segurança, de presença que os nossos alunos [que são pessoas em crescimento] apenas encontram, em quase tudo, ausência. e a minha resposta, insistente, é sempre essa. que eu seja professor e pessoa. que não seja em mim que eles encontram solidão. que os acolha em cada aula, em cada pedaço de tempo que tenho que construir para lhes dar. não serei eu, na escola que deve ser o lugar máximo da presença e pertença, a dar-lhes o que o mundo contemporâneo lhes nega e nos nega a todos nós. que eu, professor, seja em cada aula, em cada dia de trabalho, um porto seguro. um lugar de conhecimento onde beber o futuro. e com isso serem eles mais pessoas. mais ricos. mais alunos e mais amanhã sem solidão de ideias. e pergunto-me e respondo-me insistentemente sobre a razão de ainda ser professor. as ideias. juntas. fazem a escola. é sempre a minha resposta. as pessoas, juntas, fazem e farão sempre a escola. tudo o resto é ilusão...

20/01/2014

||| não digam mais o nome daquela coisa...


||| ... as escolas são, dos espaços da administração pública os que concentram mais licenciados, mestrados e doutorados por metro quadrado. curioso. são, no entanto, os que menos resultados em termos científicos partilham no seu interior ou mesmo para fora do espaço da comunidade escolar. salvo algumas (crescentes, e ainda bem) excepções isto assusta-me. raramente se sabe o que se faz numa escola. de tempos a tempos uma notícia na comunicação social prova que há mais vida para além dos exames, testes e afins. mas uma visão estruturada da escola enquanto espaço de ciência, experimentação e conhecimento ainda está longe de se ver. a razão é simples. chama-se inutilidade. cercados pela inutilidade de procedimentos burocráticos cada vez mais temos vontade, tempo ou recursos para construir e partilhar a ciência que (obviamente) habita o espaço escolar. e isto empobrece a escola. empobrece os alunos. empobrece os professores. empobrece o futuro. e quando falo em ciência o que poderia dizer da arte e da cultura. tanto mais. contrariar isto é sempre um risco. porque partilhar experiências e conhecimento é também partilhar as falhas, o processo e o crescimento das ideias que podem gerar saberes novos. e para isso ainda não estamos verdadeiramente preparados. talvez o futuro nos traga essa necessidade em forma de qualquer coisa claramente definida. tornar a escola num lugar de conhecimento e aprendizagem partilhada para fora e dentro da comunidade escolar tende a tornar-se urgente sob o risco da escola deixar de o ser e passar simplesmente a ser uma instituição de reprodução do que outros dizem ser a realidade que deve ser conhecida. e já estivemos nesse lugar. lembrar isso é preciso. urgente, mesmo. para que a escola seja escola e não outra coisa qualquer em que se está a tornar...

08/01/2014

||| em tempo de guerra não...


||| ... há violência a mais na escola. não é uma reflexão. é um facto. e queria ter tempo para poder parar e lidar com isso. como professor, de todas as coisas que actualmente se passam na escola hoje, esta é a que mais me perturba. mas de que violência estou a falar é importante clarificar. a violência física, de corpo a corpo, também quando eu era aluno existia. muitas vezes controlada entre pares geria as regras entre comportamentos. sempre fui e serei, como pessoa, contra qualquer tipo de violência. condeno-a. abomino. essa demonstração do factor violência, embora cada vez mais raro no ambiente da escola é determinado por factores de momento. imediatos. um boom que leva a isso. controlar isso é controlar a essência da violência e determinar o que é permitido ou não. mas estou a falar de outro tipo de violência. da linguagem. do comportamento. dos gestos. do ambiente. estamos todos mais violentos uns com os outros. a compreensão, a comunicação, a relação está a perder-se para gestos bruscos ou cansados. e o que me assusta é ver isso traduzido em comportamentos entre os alunos. basta passar um pouco de tempo a olhar pela janela da sala de aula e ver os encontrões, as palmadas e ouvir as palavras. a forma como são ditas. as que são ditas. sim, sempre houve tal representação da violência na escola. essas brincadeiras. a diferença é que não eram uma forma de expressão. de comunicação. e agora são. talvez porque nós deixámos de ter tempo para ver estas coisas. estamos sempre em andamento. de sala para sala. de dentro para fora da escola. daqui para ali. de reunião em discussão. deixámos de ter tempo para ver. de ter tempo para falar. deixámos correr as coisas para essa natureza primitiva das relações no espaço da escola. e ficamos surpreendidos quando isso se vivifica no interior de uma sala de aula. trata-se de um prolongamento do que deixámos de ver. e vemos, nesse momento. e não sabemos com agir ou reagir. perdemos a lógica do todo para ver só aquela parte. aquele momento sobre o qual actuamos. devia ser tempo de pensar nisso. como se tal fosse possível. porque a escola tem que voltar a ser um lugar da palavra. e só assim podemos voltar a ter escola.

03/01/2014

||| onde é que fica o fim do mundo...


||| ... passei estes dias com um pensamento na mente. vinha na forma de uma frase. o sebastião [nome que me apeteceu usar e não existe] não vai seguir isto. e pensei. tenho pensado. que me recordo aquelas frases ditas por alguns professores meus no tempo em que estava eu do lado de lá e eles do lado de cá. tu não vais ser ninguém na vida assim... e fui. pouco, mas fui. e até já tive professores meus como meus aprendizes em cursos que fui dando por ai. e apeteceu-me dizer que afinal, mesmo sem futuro, lá o consegui construir. bem ou mal, assim foi. e vejo que depois de todos estes anos ainda achamos que sabemos o futuro deles só porque são bons a matemática ou em história. o sebastião só pode ir para ciências. dará um bom médico. e no entanto o sebastião o que gosta é de teatro e de escrever. e vim a encontrar o sebastião anos mais tarde. era actor depois de ter tirado um curso de bioquímica com esforço e falta de dedicação que o levou a cumprir os mínimos. depois saiu do país. voltou com um curso profissional de teatro. e é actor. ganha menos. mas é actor. e eu nunca pensei que assim fosse. eu talvez tivesse essa esperança. mas nós, no conjunto da sapiência das reuniões dizíamos que ele só podia ser cientista. e foi. por breves momentos. esse é o privilégio de se ser professor e dos nossos antigos alunos virem contar quem são agora. e eu fechar por momentos os olhos e saber que afinal, naquela reunião há tantos anos, eu até pensei que ele podia ser o que é agora. ou o contrário. aconteceu-me um dia. um aluno que tinha todo o mundo pela frente. era um miúdo cheio de arte em si. hoje trabalha como técnico num metro de uma grande cidade europeia depois de muito se ter perdido em tentativas frustradas de procurar sempre o impossível. e nós, no alto da nossa sabedoria ainda pensamos que podemos adivinhar o futuro. e não é um futuro qualquer. é o deles. e perdemos o melhor que lhes podemos dar. a mão. as mãos. dizer que somos professores por um ano, um período de tempo, mas estaremos sempre ali, naquele local que é a escola, sempre que precisarem. venham a ser cientistas, actores ou técnicos. que não é nosso dever adivinhar o seu futuro. é nosso dever estar lá, para o que for preciso, para ensinar ou simplesmente para trocar umas ideias. e isso faz de um professor um ser humano aberto ao futuro. não vidente. mas porto de abrigo para a incerteza da vida que um dia cruzaram com outro ser humano. nada há de mais simples. nada há de mais perfeito neste desafio de ser professor.

16/12/2013

||| a caixa escondida no sótão...


||| ... às vezes quando entro na escola, nesta altura sem alunos, oiço dizer: "que bom!..." eu penso: "que tristeza.". é ver aquele espaço sempre cheio de coisas a acontecerem sem nada. só cercada de funcionários sem forma de funcionarem para além das obrigações estranhas de uma burocracia completa. novamente aqui sou um privilegiado. tenho a papelada reduzida ao mínimo. também porque não uso quase papel. tenho um bloco de notas. daqueles que toda a gente tem. um caderninho. lá escrevo o que quero registar dos meus alunos. primeiro nome, turma e mais nada. depois nos tempos em que a escola passa a instituição eu passo a funcionário e isso cria em mim um desconforto completo. deixo de saber o que fazer. falta-me sempre preencher não sei o quê. chamam-me sempre a atenção do sumário deixado por escrever, do formulário deixado por preencher, das coisas e mais coisas que são precisas fazer. e desligo. cumpro para não dar chatice a quem depois as terá por eu não ter feito aquilo que dizem ser um dever de um bom funcionário. é que eu sou professor. e o meu olhar e pensamento nunca vê uma sala de aula como sala de reunião. estou sentado a pensar em aulas. às vezes em salas onde nunca estive. se eu desse aulas aqui faria isto e isto e isto... e chamam-me. olha colega [eu deles e eles meus, dizem] faltam umas cruzes aqui. cruzes canhoto. ó pá, não tenho caneta. não trouxe nada para a reunião. só o caderninho. é pá... e agora? agora peço ao colega do lado a caneta. é que a lápis não pode ser. e faço umas cruzes. tem que ser. cruzes. por anarquismo racional não faço cruzes. faço uma bolinha. apeteceu-me. apetece-me sempre fazer bolinhas em vez de cruzes. o sistema não suporta. não compreender bolinhas. só cruzes. corrector, alguém tem? não. ficam as bolinhas que deviam ser cruzes. vitória, penso! grande vitória. para a próxima faço um triângulo e o computador rebenta... e assim é o tempo em que a escola é uma máquina, uma instituição. voltará em breve, a ser escola, depois deste pequeno intervalo...

12/12/2013

||| um homem parado no futuro...


||| ... li há uns dias o desafio de pensar a escola em dois mil e vinte e três. dez anos depois de agora. então é simples. aqui fica o meu relatório.
... em dois mil e vinte e três portugal está na segunda fase da mais inovadora reforma estrutural em educação feita na europa a trinta. cada escola é agora dirigida por um conselho de professores que se organizam em projectos educativos locais. cada escola tem o máximo de trezentos e cinquenta alunos e cada turma o máximo de quinze alunos. as escolas são espaços abertos à comunidade em diferentes momentos estruturados para a inclusão de todos os agentes educativos na melhora da escola em todas as suas vertentes. há um currículo nacional com programas adaptáveis quer no tempo quer no conteúdo e essa adaptação é feita pelos professores consoante as necessidades identificadas pelos mesmos numa lógica de autonomia de intervenção. cada escola cria ofertas disciplinares próprias o que dá uma identidade específica a cada uma, quer por área de intervenção, quer por tipologia temática para aprendizagens específicas. o ensino profissional pertence agora aos centros de formação e emprego e são organizados e pedagogicamente coordenados com equipas das empresas o que liberta a escola pública para um vocação mais geral e preparatória para o ensino científico. os professores fazem percursos de carreira de quatro em quatro anos em que está incluída a renovação de conhecimentos científicos e pedagógicos por via de formação organizada por cada escola em função dos seus objectivos gerais e específicos. deixou de haver avaliação quantitativa. os alunos são alvo de um acompanhamento pelos professores e equipas de apoio pedagógico e educativo que desenham um perfil de competências e conhecimentos que resultam numa certificação final com identificação das mesmas assim como de melhorias possíveis para o percurso futuro do aluno. esta avaliação torna vinculativa a forma de trabalho em função do percurso de cada aluno no sistema de ensino. portugal abandonou a avaliação do modelo existente a nível europeu e lidera uma reforma do sistema educativo em ruptura com os padrões da primeira década do século vinte e um...
... até dois mil e vinte e três é o que consigo pensar. não é utópico. é só um caminho. válido como qualquer outro. e sinceramente, apeteceu-me fazer este exercício...

28/11/2013

||| o super-homem que nasceu num livro...


||| ... sempre fui e sou professor a noventa por cento. sim, faltam dez por cento. noventa por cento porque o resto sou eu. eu, pessoa. eu, gente. eu que faço outras coisas para além de dar [e gosto desta expressão - dar/doar/partilhar] aulas. nunca me foi possível ver a sala de aula como um palco. ou como outra coisa qualquer que não seja uma sala de aula. ou a escola como um lugar onde gosto de estar. os alunos dizem sempre: tenho que ir à escola. este ter assusta-me. gosto quando dizem que vão à escola. estão na escola. e penso nisso quando penso uma aula. e agora que um primeiro período de tempo escolar termina [expressão que não gosto porque me lembra ainda as paragens nas fábricas para reposição de stocks], que vem aí o natal [gosto mais] penso nas aulas que já dei e nas que quero dar. e vou aos dez por cento de mim buscar o que os noventa por cento de mim professor precisam. isto é, vou falar com pessoas que conheço, pedir um favor, dizer que não tenho dinheiro e a escola não tem dinheiro e os alunos também não. que se puderem fazer por amizade agradeço. se não puderem, ficaremos amigos na mesma e quando eu [ou eles, ou nós] tiver[mos] dinheiro lá irei[mos]. e muitas vezes vejo que isto falta no espaço escola. sei de professores que são músicos, poetas, pintores, desenhadores ou dedicam-se a coleccionar coisas fantásticas de que nunca falam ou levam para a escola. imaginem por um breve instante que todos esses professores levavam os seus dez por cento para a escola. esses dez por cento de si. esses dez por cento de um talento e de uma vontade imensa de fazer melhor, diferente, ou de provocar mudança. e eu, com os meus dez por cento que já pedi [mesmo sem dinheiro] vou conseguindo algumas coisas para eles. eles, os meus alunos. e para mim. para mim para que a escola seja o lugar onde todos estamos. onde ninguém vai lá de passagem mas para estar, viver e aprender. se custa, custa. se pedir não é fácil. não é. mas são dez minutos, um telefonema ou um email. o não é certo. o sim, também. e podemos, com dez por cento de nós, fazer da escola aquilo que somos. humanos. seres imensos. maiores do que uma função. maiores. nós e eles. nós. na escola...

30/10/2013

||| lost in translation...


||| ... gosto particularmente desta fotografia que consegui registar de uma aula. diz tudo sobre o que penso sobre o processo de aprender. o professor não é um amigo. é um professor. um desafiador. um caminhante. e há uma necessária distância que vem do tempo. do que tenho a mais do que eles. tempo não, vida. um pouco mais de registos na memória. e quando o cansaço suspende a vontade de mudar, olho para imagens como esta que fazem parte do meu imaginário enquanto inventor de aulas. let's never come here again because it would never be as much fun. é mesmo isso. não repetir o que usei. um texto, um recurso. é muito fácil dizer que estou cansado e que aquilo que já usei sei que funciona. mas o pior que me podia a acontecer era mesmo ser eu a perder a imaginação para criar. nos tempos que correm a escola é para muitos o último reduto de liberdade e de acolhimento. para muitos alunos todo o mundo fora da escola é muito mais complicado do que ali. ali tudo é muito mais simples. as regras são muito mais claras. a vida corre mais perfeita. e estou cansado de ouvir que a escola espelha o todo social e mesmo é uma micro-representação da sociedade. sempre combati esta ideia. a escola não pode nem deve ser isso. deve ser o lugar onde tudo isso é alterado para melhor. onde se pode construir conhecimento. onde se pode desenhar o amanhã. onde se pode experimentar, criar, formar novos rumos para a sociedade de hoje. se não for assim, não estamos a falar de escola. estamos a falar de um local sem identidade, forma ou força. e se nada mais resta dessa escola que é o lugar de futuro então cabe a mim, a nós enquanto professores, fazer com que cada aula seja esse lugar... é nosso dever, nosso imperativo ou veremos a escola desaparecer para um espaço de vazio imaginário que os nossos alunos anseiam mais do que qualquer outra coisa...

08/10/2013

||| terá sido bom ou estrategicamente bom...


||| ... hoje, terminadas as aulas da manhã, fui-me sentar no sofá laranja colocado no lugar oposto ao que está nesta fotografia. aliás, este é o meu pé. aqueles passos não sei de quem são. sento-me ali para descansar. gosto daquele lugar. oiço dizer: bom-dia. oiço o barulho da escola. e para recordar: a palavra escola deriva do grego σχολή (scholē), originalmente significa "lazer". oiço os gestos e as correrias. e fico ali. terminou uma aula, outra começará em breve. faço uma avaliação. digo para o meu ego: correu bem esta aula. o meu ego, responde. correu muito bem. sem ninguém perceber a razão do meu sorriso ele lá está. sou um bom professor. a aula correu bem. o meu ego incomoda-me por uns instantes mais e vem acompanhado da consciência. oiço-os a falar. um som mais alto emerge como se fosse a mais clara das perguntas: correu muito bem a aula... mas para ti ou para os teus alunos? a aula pode ter-te parecido correr excelentemente. e a eles? uma das minhas alunas passa a correr. perdi a coragem de lhe falar da loucura que vai na minha cabeça. faço um comentário qualquer sobre qualquer coisa e oiço uma gargalhada... a dúvida fica presa em mim... para quem teria corrido bem aquela aula...?...

01/10/2013

||| os detalhes dos espaços imaginados...


||| ... é um local de passagem. na escola. logo à entrada. dois sofás. aquele onde estive sentado e de onde tirei esta fotografia e outro. do lado oposto. este, nesta imagem, capturado para uma eternidade que não pertence a um sofá. por instantes observei. alunos sentaram-se. outros, sentaram-se. aquele lugar foi em breves instantes, um lugar de conversa. de palavras trocadas. de ideias que tinham que partir para outro lugar. uma sala de aula, ao vivo. cercada dos sons. sou muito atento aos sons. e ouviam-se sorrisos. e nomes. e gente. e vida. tudo isso, naquele lugar que acolhe quem entra para preparar o universo das coisas partilhadas que nascem noutros lugares...