10/10/2013

||| da minha janela vejo mundos...


||| ... da minha janela vejo os mundos. esta é a vista da janela de uma das minhas salas de aula. para além de ser uma vista fantástica é também um cenário. um mundo para a observação de mundos. eu, se fosse aluno, estava sempre sentado à janela. só para ver estes mundos. mas aquele espaço, lá dentro, é uma sala de aula. típica. mesas e cadeiras em linha. quadro à frente. secretária do professor. e sempre que entro na sala penso que gostava de ter outra sala de aula. que ao chegar, fossem os meus alunos e eu a dispor a sala em função do trabalho que temos pensado para aquele dia ou aquela aula. porque quase sempre que entro na sala penso que não é assim que queria que estivesse a sala. preferia ter as cadeiras guardadas num qualquer lugar. e mesas com rodas para as mover em função do trabalho. porque uma aula não é estática. porque não queremos sempre a mesma coisa nos dias pensados como aulas. se eu e eles fossemos construtores do espaço que vamos ocupar em noventa minutos tudo seria mais vivido, mais simples, mais acolhedor dos desafios. mas que tempo seria esse em que tal coisa seria possível... 

09/10/2013

||| da autonomia e da curiosidade... do medo de ser adamastor...


||| ... dentro da minha sala de aula só estou eu. nem política, nem políticas. nem regras, regulamentos ou leis. estou eu. e eles. nós. nós, um grupo só. nem um coro ou uma orquestra. ou uma equipa. farto-me de ler coisas destas. não, nada disso. nós. eu e eles. eles e eu. um grupo, não. pessoas. nós. individualmente e em união. mas nós. e nós somos uma identidade muito maior do que a política de um momento. somos vinte e cinco, vinte e sete, trinta. mas somos nós. e quando eles forem eu, isto é, adultos, eu serei outra coisa qualquer cheio de memórias deles e de um tempo que já não é o meu. e eles, os meus alunos agora, já não serão eu. serão eles. num tempo diferente, com políticas diferentes. o que importa tudo isto? é que tenho três aulas pensadas para lhes ensinar a autonomia da liberdade e a responsabilidade das escolhas. porque tenho três aulas pensadas que reservo à curiosidade. somente. nada mais. autonomia e curiosidade. o programa, essa coisa imunda e grossa, pode esperar. a liberdade não. o amanhã, não. e eles serão do tempo em que estes que ditam a política hoje já estarão como eu. arrumados no futuro. o problema, grave, esse que hoje tenho em mãos como professor para eles e eu, para nós, é dizer: sei para onde vou. cada um deles dizer isso. e nenhum dizer: vou para onde me levarem. se o fizerem é porque não sabem pensar o futuro. o seu, o nosso, o deles, o meu. quero ensinar-lhes isso antes de lhes ensinar as coisas que o programa me diz para dizer e que digo como e quando quero para quando eles querem e podem. é mais urgente a liberdade e a responsabilidade do que qualquer outra coisa. e é tempo de a ensinar antes de qualquer outra coisa... o programa, cumpra-se no tempo que ficar, depois, para nós...

||| do conhecimento ou a virtude do escopro e cinzel...


||| ... este é o corredor da escola. pouca gente deve ter reparado naquela linha marcada no chão pelo tempo e pela quebra dos materiais que forma todo aquele espaço. gosto da ideia de esperar sentado. de ver os meus alunos ali, à espera. em conversas. agora que penso no que fazer numa próxima aula relembro a lição do escultor que achava que a obra estava escondida na pedra, era só preciso partir o que está a mais para encontrar o belo. se fosse assim com o conhecimento seria fácil. mas não é. para se saber é preciso tempo e trabalho. mais do que tudo isso é preciso pensar. e hoje, em que o tempo tem a velocidade que tem [que é a mesma que sempre teve] o conhecimento torna-se na mais importante virtude possível. o que nos separa do desconhecido não é o medo. é a ausência de conhecer. e olho para os meus alunos com essa certeza. que a única coisa que lhes posso deixar para o futuro é o conhecimento. o que tenho em mim. e eu sou professor. o que aprendi há quase duas décadas já está errado. aprendi, como eles, sentado num banco de sala de aula. e hoje, o que me ensinaram está errado ou obsoleto. ou simplesmente representa um mundo que já não existe. a única coisa que me deram foi uma licença. uma licença e um escopro e cinzel para eu poder, como o faço, todos os dias aprender. e só assim me posso dizer ou intitular professor. porque sei mais do que ontem. porque hoje fui aprender um pouco mais sobre hoje para lhes deixar o conhecimento que eles não sabem que precisam, amanhã. o professor, um professor, eu como professor deve ser alguém no seu tempo a olhar para o futuro. e mais do que ninguém deve saber que o conhecimento é tão efémero como o tempo. por isso, todos os dias, é preciso ir a correr à sua procura...

08/10/2013

||| todos os meus alunos sabem onde está a beleza...


||| ... eu também já fiz isto. ir espreitar para ver a cidade lá de cima. agora sou professor destes alunos e fica mal fazer tal coisa. dizem. mas faço. isto não porque me ficavam a doer os joelhos. mas coisas parecidas em outros locais. sim. isto é uma aula. sim. aquela ali é minha aluna. sim, está a uma boa centena de metros de altura na torre dos clérigos. e sim, está a ver a vista e a tirar fotografias. melhor. está a tirar fotografias enquanto eu e outra colega dela lhe tiramos a ela. sim, somos humanos e às vezes apetece-nos ser curiosos. o meu papel como professor é sempre o de avaliar o perigo, claro. mas avaliando o perigo e este sendo mesmo reduzido que fazer à curiosidade? deixar fluir. o que está detrás daquela porta? e desta janela vejo mesmo o mundo? o rio da minha aldeia é maior do que o tejo? do tejo vai-se para o mundo. daquela janela da torre dos clérigos aquela aluna viu um mundo que nunca tinha visto. "é lindo isto visto daqui". sorriu. eu sorri também. depois disse com ar grave e sério, eu, feito mostrengo do fim do mar: vá, ainda te faltam cento e tal degraus até lá cima. "ó professor, eu tenho medo de alturas." [pensei e disse: então estás no local errado]. "mas vou lá acima, quero ver. isto é lindo visto daqui." e uma questão surgiu-me como clara. estes alunos são daquela cidade. não conhecem a sua cidade. os seus espaços. de que vale falar de património ou de vivências sociais de coisas onde nunca estiveram? como os posso fazer ver tudo isso sem os colocar nos locais para os sentirem? e estava um dia bom, com um sol limpo. e eu podia, somente, ensinar-lhes uma coisa. eu que vinha com um discurso pensado sobre a arquitectura como ideal de fruição das pessoas. eu que lhes ia explicar a história daquela torre. dos 250 anos daquela torre. não lhes disse nada. nem uma só explicação. deixei-os estar. subir, sorrir, rir, dizer um ou outro disparate e observei-os, de longe, eu que já subi aquela torre várias vezes. olhei-os com aquele espanto que todos temos ao observar uma coisa bela. e por instantes aqueles miúdos que são os mais conversadores do mundo, fizeram silêncio. a beleza tem esse poder. o espanto também. e cidade que agora era mais um bocadinho deles disse-lhes tudo o que eu nunca poderia dizer. guardei a história da torre para outra aula. que importa? ensinei-lhe algo mais importante naquela meia hora de visita: a beleza das coisas que alguém criou para nós... a arquitectura do belo e do simples... imemorial, intemporal, perfeita.

||| uma aula [não] preparada...


||| ... pedagogia: ensinar o conceito - património. ensinar o conceito - espaço social. ensinar o conceito - cultura local/regional. de como podemos numa aula de noventa minutos ensinar isto tudo sem definir teoricamente um conjunto de conceitos que são para ser vividos mais do que entendidos. 

||| ... metodologia: numa aula anterior pedir aos alunos para trazerem máquina fotográfica. [telemóvel também serve mas lembrar de o carregar e ter espaço na memória]. definir um percurso que passe por dois a três espaços de referência patrimonial na cidade/local. esse percurso deve ser feito pelo professor antecipadamente e não deve ter a duração, feito a pé, de mais de trinta minutos. os alunos em trabalho demoram mais vinte a vinte cinco minutos com pausas, explicações e outras situações e este exercício precisa de tempo para contemplação dos espaços/situações. definir três a quatro momentos de paragem em locais históricos ou patrimonialmente interessantes. sair com os alunos da sala tendo este conhecimento das regras: o trabalho é feito a pares. podem tirar o número de fotografias que quiserem. dessas, no final terão que escolher duas. dessas duas, o professor irá escolher uma [sem os alunos saberem qual é] para o próximo trabalho em sala de aula. até ao primeiro momento de paragem o desafio dos alunos é tirar fotografias a espaços abandonados, vazios ou sem pessoas. na primeira paragem mudam as regras. novo desafio. tirar fotografias a pessoas apaixonadas ou que expressem solidão. é importante falar e registar com os alunos o património dos afectos e sentimentos. terceira paragem programada, mudam novamente as regras. os alunos devem fotografar somente portas e janelas de casas sem qualquer referência histórica. e por fim, última paragem antes do regresso à sala de aula, mudam pela última vez as regras. devem fotografar-se a si próprios nos espaços da cidade/local. os alunos devem enviar ao professor, por email, as duas fotografias escolhidas de todas as que tiraram independentemente do tema/assunto/desafio excluindo as que tiram a si próprios.

||| ... este é um exercício em duas partes. a parte seguinte será descrita na próxima semana. é um exercício em sala de aula com as imagens produzidas. importa salientar que os alunos podem e devem falar com as pessoas. pedir autorização para fotografar. o professor tem aqui um terreno fértil para inserir conceitos como a privacidade. os direitos individuais e o património individual/história de vida. e depois, deixar fluir as conversas... deixar o tempo passar... deixar todos contemplarem os espaços e os outros... é simples...

||| de como estou velho ou do correr atrás do prejuízo...


||| ... powerpoint. um edifício escuro e estranho projectado numa sala de aula. o mesmo edifício que fica a cinco/dez minutos a pé da minha sala de aula. por isso, tudo para a rua. nenhum powerpoint, por muito bonito [estranho conceito de beleza] que seja tem o poder de uma caminhada em conversa até ao espaço e regresso em conversa à sala de aula. e assim foi. deixem tudo, levem só a máquina fotográfica que vos pedi na aula anterior. primeiro momento em que me senti velho. "ó professor, não trouxe máquina, o telemóvel tem câmara, serve?"é claro que serve. a aula não é de técnicas de fotografia. é sobre a história da cidade e da construção social dos espaços. a máquina fotográfica é para os meus alunos que nasceram quase todos depois de mil novecentos e noventa e cinco um objecto de museu ou de referência de empréstimo dos seus pais/educadores. curioso, pensei. já estou desactualizado. e eu que achava que estava a acompanhar o ritmo do mundo. depois, lá fomos. e nada há mais rico do que uma caminhada numa manhã de sol. as conversas fluem. as perguntas também. fomos pelas ruas com uma missão. fotografar espaços e pessoas. o património material e imaterial. as coisas, as vidas, as memórias e o futuro. e o amor e a solidão. primeira paragem. o tal edifício. o espaço que alberga agora o centro português de fotografia. era uma ironia que eles perceberam. eles, fotógrafos da cidade e das pessoas por umas horas olhavam para o centro onde essas memórias são guardadas. e lá estava. a estátua. pergunta minha: "sabem que está ali abraçado apaixonadamente a uma rapariga semi-nua?". era ver os olhares a procurar como se fosse possível tal acontecer no meio da cidade. sim, era camilo castelo branco. e lá ficámos uns bons minutos a conversar sobre o escritor, o amor, a ana plácido, a prisão, as memórias do cárcere e o amor de perdição. ficaram curiosos para ler o livro. gostei disso. mas antes de lhes dizer qual era a obra de referência de camilo castelo branco voltei a sentir-me velho. tentei o exercício de os deixar na dúvida. aquela coisa estranha agora de dizer: "vá, na próxima aula quero que me digam qual o livro de referência da obra de camilo castelo branco". qual próxima aula... uma das minhas aulas pegou no telemóvel e quatro ou cinco segundo depois respondeu: "amor de perdição". "mas ó professor, o homem fartou-se de escrever. tem aqui bué livros deles". e eu, velho. aqui era na internet. sim que a cidade tem wi-fi. eu uso e não me lembrei que eles também. eu, velho. e percebi que aquelas receitas velhas já não faziam sentido. o caminho faz-se caminhando e fomos seguindo. falámos da história da cidade. do espaço público e do espaço privado. de como a privacidade é uma coisa moderna. de como eram aquelas ruas antes de serem como são. chegados ao rio falámos dos desastres históricos e da história das coisas. das pontes, do vinho, do turismo. e numa zona sem wi-fi voltei a sentir-me da idade dos dias que correm. uma aluna baptizou a outra dizendo que ela parecia uma patapon. sim, que eu sou do tempo da cultura francesa ter mais valor do que a americana. e eu sorri. "ó professor, gosta da palavra que eu inventei: patapon?". por instantes pensei que era brincadeira. não era. tive que lhe desconstruir o sonho de ser inventora de palavras e expliquei: (tout) doucement. quand les blés seront poussés, alors la pluie se mettra à tomber tout à petit patapon, sans discontinuer, sans plus savoir sur quoi elle tombe que si c'était sur la mer [proust]. mas para não me sentir velho outra vez fui um pouco mais longe, ao meu dicionário de coisas urbanas: Patapons are black and white creatures with a large single eye.. "fogo, o professor sabe bué..." e eu sorri. já não era velho. e respondi... queres que te explique de onde vem a expressão "...fogo" antes de tudo que disseste? e sem dar por isso estava de regresso à sala de aula com uma aula feita de espantos, descobertas e coisas belas...

||| terá sido bom ou estrategicamente bom...


||| ... hoje, terminadas as aulas da manhã, fui-me sentar no sofá laranja colocado no lugar oposto ao que está nesta fotografia. aliás, este é o meu pé. aqueles passos não sei de quem são. sento-me ali para descansar. gosto daquele lugar. oiço dizer: bom-dia. oiço o barulho da escola. e para recordar: a palavra escola deriva do grego σχολή (scholē), originalmente significa "lazer". oiço os gestos e as correrias. e fico ali. terminou uma aula, outra começará em breve. faço uma avaliação. digo para o meu ego: correu bem esta aula. o meu ego, responde. correu muito bem. sem ninguém perceber a razão do meu sorriso ele lá está. sou um bom professor. a aula correu bem. o meu ego incomoda-me por uns instantes mais e vem acompanhado da consciência. oiço-os a falar. um som mais alto emerge como se fosse a mais clara das perguntas: correu muito bem a aula... mas para ti ou para os teus alunos? a aula pode ter-te parecido correr excelentemente. e a eles? uma das minhas alunas passa a correr. perdi a coragem de lhe falar da loucura que vai na minha cabeça. faço um comentário qualquer sobre qualquer coisa e oiço uma gargalhada... a dúvida fica presa em mim... para quem teria corrido bem aquela aula...?...

||| nada é igual para todos...


||| ... são uns breves segundos até chegar à porta da minha sala de aula. os segundos de carregar no botão e as portas fecharem-se. venho sempre com três ou quatro ideias na cabeça. nunca: "uma aula preparada". nunca, mesmo. nunca entrei numa sala de aula para dar uma aula preparada. trago é comigo três ou quatro ideias do que quero fazer para ensinar isto ou aquilo. assim foi hoje novamente. e naqueles segundos pensei em mais uma hipótese. é o tempo em que dispo a roupa do que trago para vestir a roupa do que sou. professor. e sei que sou um exemplo do momento em que entro ao último adeus no final do dia. os meus alunos, como todos os alunos, olham ainda para nós, professores, como uma referência. boa ou má. uma referência. depois, vou buscar a chave da sala e entro. das três ou quatro ideias que tinha na cabeça uma torna-se clara. olho para os meus alunos em todas as aulas como se fosse a primeira. eles não são os mesmos de dia para dia. eu não sou o mesmo. eu conheci-os. eles, conheceram-me. fomos todos para casa no final do último dia. passou a vida por nós. rimos, chorámos, sorrimos, namorámos, fechámos os olhos para descansar. eu li um livro que não tinha lido. eles ouviram uma música nova ou trocaram ideias sobre outras aulas que me contaram. olhei-os. é nessa fracção de segundo, nesse acto de os ver, que decido o que será a minha aula. e começo. e por breves instantes lembro-me do pantagruel. sim, o livro de receitas de cozinha. não há receitas em educação. nem para a sala de aula. há o conhecimento como ferramenta e a velha e simples regra de que cada um é como cada qual e cada momento não se repete, como um rio. por isso nenhuma aula pode ser igual. nenhum instante repetido. não há receitas. há pessoas que nos olham à espera de serem vistos, ouvidos, entendidos. e há o conhecimento que os torna mais livres e que eu tenho nas mãos para lhes dar... aos meus alunos. que nunca são os mesmo e ainda bem!...

04/10/2013

||| apreender o património sem sair à rua...


||| ... "ó professor, que seca, vamos para um museu?". não, não vamos. vamos falar de património. "então vamos onde?". para a rua, as ruas, ver e falar com as pessoas.  "a sério?". sim. antes de irem para um museu ou um monumento vamos conhecer o património que as pessoas habitam. esta cidade está cheia de "estórias" e lugares com história. passam por eles todos os dias. nos museus estão as coisas que alguém acha importante e que precisam de ser descodificadas. os pintores, escritores, artistas, inventores também se inspiram no real. nas ruas, está o património social. aquele que é preciso "ir ao encontro" para o "encontrar". vamos de máquina fotográfica na mão falar de património pelas ruas. "ó professor é para fazer o quê?". ouvir, ver e pensar. o resto é na aula daqui a quinze dias. e assim preparei as duas aulas seguintes... com as dúvidas dos meus alunos e a certeza que os lugares, o contacto com o real e a sala de aula a céu aberto são caminhos únicos para o entendimento da palavra património...

||| sobre o sorriso ou a questão dos dentes...


||| ... lembro-me perfeitamente de quando ouvi essa expressão ter ficado estranhamente inquieto. como se fosse uma regra de ouro. algo de imensamente precioso. "tens que ser duro na primeira aula. não lhes mostres os dentes". tenho, feliz ou infelizmente, uma cultura que me faz bem, mas às vezes, mal. uma cultura familiar que me ensinou que mostrar os dentes é uma coisa que fazem os cavalos. e assim se pode ver a idade e o estado de saúde do animal. como foi há uns bons anos ainda não levei a peito que me estivessem a chamar de tal coisa. ouvi só o absurdo da expressão. passados tantos anos ainda parece ser uma regra imposta como dogma essencial para o sucesso de tudo. e no entanto faço sempre o contrário. as minhas primeiras aulas são sempre as mais divertidas. as mais abertas. as mais conversadas. até coloco o humor no centro da relação que tem que nascer, que tem que criar laços e raízes, que tem que ganhar confiança. há, nas minhas primeiras aulas a noção de liberdade. e a única regra: o respeito mútuo. mais nenhuma. tenho o dever de dar aos meus alunos o benefício do exercício da liberdade plena. só assim eles podem aprender o que é a responsabilidade do sorriso aberto com que os acolho sempre. se eu perder o sorriso eles sabem que a liberdade se tornou libertinagem e as regras mudam. o importante é o sorriso. e o riso. e a gargalhada. e o brincar a sério que constrói todas as pontes para a verdadeira essência da relação entre mim e eles. entre eles e o seu professor. e o sorriso que é a porta de tudo isso... 

03/10/2013

||| admiração ou a antiga arte de esperar algo de alguém...


||| investigação. como levar os meus alunos a investigar alguma coisa. melhor, como lhes despertar a curiosidade para saberem mais facultando depois as ferramentas para o fazer. abro livros e leio que o gosto pelo conhecimento é intrínseco à natureza humana. concordo. nasce em mim outra dúvida desta premissa que tomo por certa. que conhecimento? sobre o quê? os meus interesses podem não ser os dos meus alunos. certamente que não o são. eu gosto de jazz e rupturas artísticas contemporâneas. eles, de música. principalmente de música. e cinema, curiosamente. gostei de ouvir os meus alunos dizerem que gostavam de cinema. de saber mais sobre cinema. então como colocar a curiosidade e a investigação (o processos e as ferramentas) ao serviço desta nobre causa de saber mais? o desafio foi para o período de dois meses. vão escolher uma personagem. alguém. uma pessoa. viva ou morta. alguém de admiram acima de todas as outras. e devem saber tudo. tudo sobre ele ou ela. no fundo, investigar. utilizando todo o tipo de ferramentas possíveis e técnicas que lhes vou facultando em conversas, muitas vezes no corredor, ou simplesmente em perguntas simples. mas compliquei o desafio. o trabalho final não pode ser escrito. sim. pode ter todas as outras formas de expressão mas não pode ser escrito. este é o elemento de curiosidade e dificuldade. o obstáculo. todos nós precisamos de obstáculos para sentir que capacidades temos para os superar. bem ao mal, neste trabalho, os meus alunos vão testar essas capacidades. e vamos esperar pelos resultados... por email já chegam as primeiras perguntas... e isso é bom sinal...

02/10/2013

||| sobre o horror dos conceitos dos outros...


||| ... enquanto professor sempre achei muito curiosas certas palavras. interdisciplinaridade é uma delas. curiosa, extensa, estranha. vou ler o programa oficial e deparo com o conceito que alguém pensou para eu ensinar aos meus alunos: a construção do social. acho, por instantes, bonito. depois, observo com atenção que o do está ali a estragar tudo. porque não podem manter as coisas simples? mas assim seja. a construção do social. e é preciso dar a volta para encaixar o sujeito histórico-social. mais conceitos. gosto do traço no meio. como se fosse possível tal divisão. como se o braço e a perna não fizessem parte do meu corpo em igual forma e utilidade. mas está bem. sou professor e dizem-me que tem que ser assim. não os oiço, aos que escreveram o programa oficial e se os ouvisse não ouviria e falaria de tirar um do que está a mais e aí seriam eles que não ouviriam nada. então que fazer? sou um professor da área das ciências sociais, não devia saber nada de ciências ditas exactas ou de artes, ou mesmo de qualquer outra coisa que não fossem essas mesmas ciências sociais. mas sei. e por isso vou começar pela mais óbvia de todas as coisas. ler os programas das disciplinas dos meus colegas. encontrar pontos em comum. criar desafios de imaginação, pensar a tal coisa chamada interdisciplinaridade... e preparar uma aula para a semana...

||| livro: bastardos do sol...


||| ... se a leitura é um elemento fundamental para a aprendizagem, também o é o esquecimento. ter a capacidade de esquecer. e ao esquecer, recordar, relembrar, refazer o que um dia se leu, ouviu ou encontrou no meio de papeis. como professor, em contexto de sala de aula, esqueço-me sempre de dizer de onde surgem as ideias ou as frases ou mesmo o conhecimento que partilho. e muitas vezes os meus alunos me perguntam: como é que o professor sabe isso? eu devia ter, na ponta da língua, a resposta: porque li este livro, porque vi neste filme, porque me ensinou esta pessoa. seria tão mais simples para os meus alunos saber qual a fonte onde bebi o que sei. assim foi com uma pergunta que me fizeram. como é que o professor sabe isso, perguntou um aluno. a resposta foi: porque li o livro bastardos do sol de urbano tavares rodrigues quando tinha pouco mais do que a tua idade. e reforcei com um pouco de verdade. estava na estante da casa dos meus pais. fui lá, li algumas partes. nunca o li todo. mas o que li ficou guardado em mim como conhecimento. este mesmo que agora serve para te responder... e ele percebeu. e eu lembrei-me da importância do esquecimento para ensinar...

||| é preciso ler para saber...


||| ... antónio lobo antunes, disse numa entrevista sobre o "gosto" pela leitura que tinha aprendido a gostar de ler pelas aventuras em quadradinhos do mandrake e flashgordon. que não fazia sentido a primeira abordagem ser uma "eneida" ou os "lusíadas". quando era novo lembro-me bem dos meus primeiros livros de quadradinhos, a banda desenhada. disney estava na moda e o tio patinhas era o meu favorito. principalmente por causa da maga patalógica que eu achava que tinha mesmo poderes mágicos. e hoje? hoje os livros de quadradinhos quase desapareceram das mãos dos meus alunos. é por isso mesmo que numa próxima aula vou levar a obra obrigatória para este primeiro período. vão mesmo ter que a ler. vão ter que ler, de uma ponta à outra, uma aventura de um livro de quadradinhos à sua escolha. levarei um saco deles para a aula e cada um poderá escolher um. vou começar por aqui. lembro-me bem de começar assim numa escola onde dei aulas e terminar o ano com os alunos a lerem pedaços do elogio da loucura... tentar não custa. veremos...

||| na escola há tantos sons...

||| ... para mim que tenho uma noção muito complexa do tempo e da sua gestão não foi uma surpresa. sempre achei que a responsabilidade é mais importante que o reflexo condicionado. porque o tempo não existe, diria stephen hawking, e apenas a sucessão dos acontecimentos traduzidos em imagens que registamos dão o sentido de continuidade no correr de um dia. tudo isto porque no espaço da escola não há uma campainha. não há aquele som, que sempre detestei, a marcar o tempo que afinal não passa desse compasso de espera entre imagens. não há aquele lugar onde o conhecimento habita transformado numa fábrica onde os trabalhadores mudam de turnos ao som de um triiiiimmmmmm que marca o passo e o compasso de cada hora. ali, naqueles corredores, naqueles espaços, o tempo é de cada um e a responsabilidade de o gerir também. e com isto se ensina o valor do tempo, do silêncio e da presença. e todos estão na hora certa nos lugares onde devem estar. é talvez essa a mais bela de todas as coisas. como se fosse um encontro programado para uma conversa feita aula...

01/10/2013

||| o que é que querem aprender...


[Conforme digo sempre aos mais novos
e por não ter quem me aconselhasse aprendi à minha custa
a gente nasce inocentes e à pala da inocência leva cada bofetada da vida que até andamos de lado]
boa tarde ás coisas aqui em baixo | antónio lobo antunes

||| ... a minha primeira pergunta para os meus alunos sempre foi: então digam lá o que querem aprender... e faço uma ronda perguntando o nome e esta pergunta mágica. invariavelmente a resposta é quase sempre a mesma. composta por uma mistura de três. tudo o que tiver para me ensinar. qualquer coisa. ou simplesmente: tudo. de quando em vez alguém diz: gostava de aprender como se fazem os gelados. um dia, inesperadamente, um aluno queria saber como se faziam os berlindes. agora é mais como se fazem os filmes ou as séries. ou então como funciona qualquer coisa. mas sinceramente é muito, muito, muito raro quando algum aluno diz que quer aprender uma coisa em concreto. esta é a minha oportunidade para uma primeira lição [do latim lectio, relacionado a legere, “ler”]. a minha primeira lição é sempre sobre o poder da liberdade. a liberdade como exercício de responsabilidade ou de fuga. porque se um aluno não me diz, enquanto professor, o que gostava de aprender eu vou sempre ensinar-lhe aquilo que eu julgo que ele quer aprender ou simplesmente o que tenho que ensinar. o não compromisso do aluno em fazer a sua escolha ao dizer: quero aprender isto ou aquilo leva sempre ao atravessar da linha da liberdade pelo professor que tem que ensinar qualquer coisa que leva consigo não tendo como norte ou caminho esse lugar decisivo de felicidade e encontro que é o conhecimento desejado pelo outro em curiosidade. e as respostas repetem-se sempre. quero aprender o que o professor tiver para me ensinar. e com isto sabemos que os nossos alunos mataram a arma mais poderosa que podem ter nos tempos que correm: a sua própria curiosidade de conhecer novos mundos, coisas e o próprio futuro...

||| um (teste) [dia]gnóstico...


||| ... pedagogia: o primeiro desafio, para mim como professor, é sempre saber no final da primeira aula quase tudo o que posso saber. explicando: diagnosticar. observar. poder prever/antecipar. preparar-me. conhecer. o quê? cada aluno e a turma como um todo. por isso faço, quase sempre, esta abordagem para o efeito desejado: conhecer os meus alunos e os desafios que me esperam...

||| ... metodologia: tendo os storycubes pedir para se formarem grupos de quatro ou cinco elementos. deixar que os grupos se formem livremente. permite assim a observação sobre a organização natural da turma e as ligações entre alunos já existente revelam-se. dar tempo para tudo acalmar. dizer a regra simples: vou lançar os dados e vão escolher três das nove imagens dos dados. cada grupo tem o tempo de trinta segundos para, como grupo, fazer essa escolha. após todos os grupos terem escolhido as três imagens entregar a cada grupo um bloco de post-it's. dizer a regra simples: terão que, com os três símbolos escolhidos e com os post-it's criar uma apresentação sobre algo criado originalmente pelo grupo. dar trinta a quarenta e cinco minutos para realização. no final cada grupo apresenta a ideia concebida sem haver comentários finais...

||| ... digo sempre aos meus alunos que se aprende tanto com os fracassos como com os sucessos. não pelo que nos dizem mas pelo que experimentamos, sentimos, pensamos durante e após uma experiência. este exercício permite exactamente isso. desmistificar que o erro ou o bloqueio são coisas a evitar. experimentar. criar. e acima de tudo, enquanto professor, permite-me ver como age, pensa e sente cada aluno e a turma toda enquanto organismo vivo que é. por outro lado, nos vários anos que tenho desta abordagens nunca vi soluções iguais para o problema inicial que é sempre o mesmo. digo sempre no fim que levo, deste teste diagnóstico todas as ideias que eles, os meus alunos, me ensinaram naquele pedacinho de tempo que roubámos ao futuro...

||| e a aula seguinte...


||| ... levei para a segunda aula uma frase que ouvi num dos encontros com professores que organizei recentemente: todos os alunos devem ter o direito a renascer. e nós, professores, também. a frase foi dita no contexto de um ano lectivo para o outro. eu, vou mais longe. de uma aula para a outra. o direito a renascer. a poder ser outro. a mudar. a transformar um mau momento num novo começo numa aula seguinte. diferentes na forma e na expressão as duas turmas que conheci neste dia eram, de facto, muito diferentes. estes, muito mais criativos na expressão. os outros, mais relacionais nas ideias. todos, pequenas grandes caixas de vontades e forças de serem originais. e no entanto, a palavra que guardei destas duas aulas foi: posso? posso levantar-me? posso mudar esta cadeira? posso escrever a azul? posso usar isto ou aquilo. a minha resposta é sempre que as regras são tijolos sobre os quais se constrói a autonomia e a confiança. tijolos. ao longo do tempo pouco serão os que se lembram dos tijolos da base quando olham para as paredes construídas. podemos por isso esquecer esses por uns instantes. e a minha resposta é sempre: podem. porque nas minhas aulas há só uma regra, o tecto, o pilar de cada aula: o respeito por mim e entre alunos. assim foi. e a porta da sala esteve sempre aberta ao dia de amanhã...

||| isto não é uma aula...


||| ...isto não é uma aula. mas era a primeira. há, mesmo com muitos anos de experiência, sempre aquela coisa estranha de ter medo do que nos espera. não é medo, é um estranho espaço que vive entre alguns segundos de espera. depois, olhar para os vinte e cinco rostos que nos olham. o primeiro desviar do olhar. as mãos que seguram a caneta para a agitar no ar já vestido do papel de professor. e repetir: isto não é uma aula. a aula, para os gregos clássicos era o espaço da casa onde se podia e/ou gostava de estar. aquela será a nossa aula quando isso acontecer. depois, os primeiros desafios. o estranhar que alguém possa colocar o acto de criar nas mãos daqueles que são agora os "nossos" alunos. um desafio com trinta minutos. pedaços de papel amarelo. nada mais. e nasceu uma porta e muitas vezes foi dita a palavra: porquê?...

||| os detalhes dos espaços imaginados...


||| ... é um local de passagem. na escola. logo à entrada. dois sofás. aquele onde estive sentado e de onde tirei esta fotografia e outro. do lado oposto. este, nesta imagem, capturado para uma eternidade que não pertence a um sofá. por instantes observei. alunos sentaram-se. outros, sentaram-se. aquele lugar foi em breves instantes, um lugar de conversa. de palavras trocadas. de ideias que tinham que partir para outro lugar. uma sala de aula, ao vivo. cercada dos sons. sou muito atento aos sons. e ouviam-se sorrisos. e nomes. e gente. e vida. tudo isso, naquele lugar que acolhe quem entra para preparar o universo das coisas partilhadas que nascem noutros lugares...