||| gosto cada vez mais de dar aulas fora de portas. no tempo da minha aula. foi como nesta aula que se transformou uma visita ao teatro nacional de são joão. uma visita já feita pelos meus alunos. refazer uma visita é sempre um exercício único. voltar a onde já se foi. o comentário é sempre: já fomos. já vimos. já conhecemos. é assim que o professor tem que mostrar o seu lado mais importante. aquele que ensina a olhar. a ver. a descobrir. a pensar. voltar lá. onde já se esteve para rever. gosto tanto desta palavra. rever. diz tanto. tantos significados. do reencontro ao ver com atenção. com um desafio. e foi isso mesmo que fiz. dei-lhes um desafio. porque um professor tem que ser um dinamizador de oportunidades. e juntei uma actividade que tinha previsto para colegas professores com esta aula. o desafio. olhar para os espaços. sentir os espaços. pensar o movimento e os movimentos. a organização arquitectónica do espaço. a funcionalidade. a visão artística. a história. e assim eles e eu fomos ver um espaço que já conhecíamos como um novo lugar e um trabalho de criação nas mãos. rever. tão importante palavra, tão esquecida...é que afinal eles não conheciam tudo como pensavam... nem eu.
07/11/2013
06/11/2013
||| olá, boa tarde daqui fala a marta...
||| ... nesta fotografia há um objecto completamente inútil. chama-se livro de ponto. e ponto. e pronto. e apeteceu-me dizer isto. pronto. ponto. final. mas tudo isto para não começar logo por falar nesse objecto [para muitos vindo do inferno mais profundo] chamado telemóvel. pior. telemóvel e sala de aula. ui... o fim do mundo vem aí. não, não vem. na minha primeira aula a regra de ouro: telemóveis sempre em cima da mesa. como o meu. eu não uso relógio [nem eles] e por isso o telemóvel é o meu relógio. eu ando, feliz ou infelizmente, com o meu telemóvel para o todo o lado [como eles]. regra: sem som. regra: sem fotos ou vídeo se não tiverem autorização. de resto, lá está. como o estojo ou o caderno. e não incomoda. e não prejudica. e não é bicho de sete cabeças. e ajuda nas actividades que precisam de controlo de tempo. ou simplesmente para procurar um texto na internet. ou para escrever uma cábula [no bom e no sentido útil da coisa]. e por isso nunca percebi essa coisa estranha de ver num objecto todo o mal do mundo. a distracção não está no objecto. está no que não prende a atenção. ou em tudo o resto. um objecto é só mesmo isso. eu quanto era aluno [e até vim uma vez para a rua por isso] brincava com o estojo e desenhava nos cadernos para fugir das aulas que não me prendiam a atenção. não tinha telemóvel, não sou desse tempo, mas fugia na mesma. eram os objectos que tinha. nunca fui daqueles que defendem a proibição. defendo sim, a etiqueta [conjunto de normas e regras usadas em sociedade]. telétiqueta. também há a netetiqueta. isto é, saber usar. como usar. quando usar. gosto desta ideia absurda: telétiqueta para alunos e para professores... é estúpida. absurda. parva. gosto. uso e gosto. e pronto. ponto. final...
||| no começo era o verbo...
||| ... estou a pensar as aulas da próxima semana. ando sempre uma semana para a frente para pensar como ligar tudo. é que dar aulas não é entrar num comboio e parar de tempos a tempos num ritmo contínuo e continuado. é como ir ver o mar. para mim é exactamente isso. como se fossem ondas. cada aula. recordo as ondas de virgínia wolf e sei que é exactamente isso que penso. um determinado momento não conduz forçosamente a outro. a porta abre-se e o tigre salta. vocês não me viram entrar. fiz questão de passar por entre as cadeiras para evitar o horror do salto. tenho medo de todos vocês. tenho medo do choque provocado pelas sensações que sobre mim se abatem, pois não posso lidar com elas do mesmo modo que vocês - sou incapaz de fazer com que um momento se funda noutro. e sei que assim faz sentido. um sentido que é preciso que cada aluno construa para além daquele que eu quero dar. é disto que se fala quando se fala em autonomia. essa é uma das palavras tão apregoada e tão contrariada nos dias de hoje na escola. autonomia. queremos ter alunos autónomos mas fazemos fichas, controlados os exercícios, queremos que cumpram tudo o que programamos. são autónomos quando não são mas parecem. e esta falsa ilusão é das coisas mais perigosas que temos. fazemos um trabalho de grupo mas damos todas as regras, passos e formas. a autonomia exige liberdade. e para ser verdadeira exige coerência e conhecimento. e isso é preciso se criado como base e não dado como barreira. uma aluno autónomo não é aquele que vai daqui para ali sozinho porque eu lhe digo, enquanto professor, que tem que ir daqui para ali. é aquele que olhando o desafio cria o seu caminho, vai, volta e pergunta a razão daquele exercício. questiona-me e questiona-se. e isso não se ensina numa aula. ensina-se em muitas aulas, como ondas, umas atrás das outras, sempre imprevisíveis para que o aluno aprenda a gerir o seu espaço e o seu pensamento criando uma posição segura para enfrentar os desafios...
05/11/2013
||| silêncio que vale algodão que não engana...
||| ... ando angustiado. como professor. desde o início do ano lectivo. mestre almada relembra-me na invenção do dia claro que nós não somos do século d'inventar as palavras. as palavras já foram inventadas. nós somos do século d'inventar outra vez as palavras que já foram inventadas. mas mestre almada era mesmo um mestre. e eu sou só um professor. e ando angustiado a tentar criar uma aula para ensinar a importância do silêncio. não é da ausência do som. ou do espaço entre as palavras. é do silêncio enquanto espaço de tempo para a reflexão. a introspecção. ui... tantas palavras esquecidas ou a precisarem de nova invenção. porque até já tenho marcado para as minhas turmas um atelier fantástico em serralves chamado fábrica de sons. isso tudo, sim. até ir escutar a cidade e os seus sons com uma equipa única de um projecto único em curso na cidade. o problema não é o som. é o silêncio. aquele espaço de tempo para olhar para nós. aquele espaço de tempo para estar só. aquele espaço de tempo em que pensar é a única coisa para fazer. organizar ideias. e preciso de criar essa aula. ensinar cada um dos meus alunos, um aluno só, a estar sozinho consigo próprio. a todos eles. e ando a remoer ideias. a pensar como criar essa aula. esse momento. entre nós e as palavras. os emparedados, diria cesariny que vai ter a sua casa da liberdade. e era mesmo isso. o silêncio como a casa da liberdade do pensamento de cada um dos meus alunos. eles que vivem no tempo da permanente audição e visualização do mundo e dos outros, precisam mesmo, de saber qual o sabor, cor, cheiro e presença do silêncio. não os quero calar. quero ensinar-lhes que o silêncio é o cimento do pensamento. uma linha invisível que suspende e sustenta as ideias. talvez a minha sala de aula tenha que se transformar numa casa da liberdade suspensa em fios de ideias unidas em silêncio. talvez a poesia me ajude nesse caminho. mas a poesia são palavras. criar introspecção. criar silêncio[s] e o nó do meu pensamento não desata. e a aula não nasce... e ando assim há semanas, meses, dias... o silêncio. ensinar o silêncio...
||| romeu não morreu por amor. foi mesmo o veneno que o matou...
||| ... os meus alunos estão entre os dezasseis e os vinte anos. ainda morrem por amor. a sério. ou não será por isso que os filmes, livros e coisas que tais em que o amor tem a forma mais intensa de se revelar tem sempre como personagens uns jovens amantes. depois há os romances. mas os romances já não é este amor. é o amor complicado do mundo dos adultos a fingir que é simples. e que importa isso para um professor? se um aluno na nossa aula teve uma quebra nesse processo amoroso então tudo o que possamos querer dizer entra por um ouvido e sai por outro. o amor, esse sim, está primeiro. e claro que está. é óbvio que está. não é um romance. é o amor da vida inteira. e só porque se passou numa aula minha achei que devia abrir assim este bocadinho das minhas palavras inúteis. não desvalorizem o amor quando ele é tudo no universo dos nossos alunos. é que é mesmo para ser vivido estúpida e intensamente. senão, não vale a pena. e agora... retomando. sou, como todos nós professores, bombardeado com regras, leis, descrições e prescrições... e reuniões. eu não reúno. vou lá. estou lá. às vezes não estou. desligo. ou ligo-me a outras coisas. e o murmúrio de fundo oiço: porque no decreto-lei número um milhão e trinta e cinco alínea z, está escrito que não pode ser assim. e logo alguém diz mas no outro decreto-lei e no regulamento xpto está escrito o contrário. e o programa. sim, aquele que agora vai ou está a ser renovado que foi remodelado há dois anos e aprimorado à quinze dias também vai ser revisto ou está em discussão pública [imagino logo uma ágora com um homem no cimo das escadas de papiro na mão a mostrar ao povo que não sabe ler que ali está algo de importante em discussão]. e o murmúrio não cessa. fecho os olhos por uns instantes. lembro-me de ainda este sábado passado ter falado nisto. vivemos no tempo em que os alunos esperam aulas em metodologia james bond. sim, é isso mesmo. como nos filmes. ter uma cena de abertura fantástica, que os prenda. desenvolver como jeremy irons diz com aquela voz só dele num qualquer filme da saga die hard: here is where the plot thickens e depois fechar tudo com uma explosão de ideias [e não julguem o meu gosto cinéfilo pelos exemplos apresentados]. e a escola, o sistema escolar, parece mais uma cena saída do processo de kafka. e volto a fechar os olhos. aprendi com uma colega de profissão que muito estimo e respeito uma regra de ouro. quando te pedirem opinião sobre regras, regulamentos e coisas que tais dizes sempre: acho que devemos pedir um esclarecimento à tutela para que tudo fique bem claro, dizia ela e agora digo eu. o resultado é que ficas com um ar de sábio e prudente. mais do que isso, esclarecido. e tudo fica como estava até vir mais um regulamento, nota informativa ou coisa que tal. mas sou um funcionário cansado de funcionar. e chega a hora de dizer que já chega. que as palavras escritas num qualquer papel por mais timbrado que seja não me ajudam a lidar com a realidade da minha sala de aula. sou eu e eles [os meus colegas e os nossos alunos] que temos o poder de mudar tudo. de fazer. de refazer. de experimentar. de deixar de aplicar as regras que dizem que são boas e não funcionam e experimentar pensar e criar por nós. desafiar o futuro. desafiar o hoje. e deixar esses regulamentos no armário de kafka para que lá, longe daqui, possam ser felizes com tudo isso que nada diz aos meus alunos, agentes secretos de um futuro ao qual e para o qual os quero preparar... talvez seja isto o amor que desligou o meu aluno da minha aula como eu desliguei das regras, normas e afins que diz alguém que não me liga nenhuma...
||| uma aula pelo exemplo visual...
||| ... pedagogia: esta aula resulta como modelo de processo de aprendizagem para os alunos enquanto intervenção cívica e trabalho de aprendizagem de intervenção artística em comunidade. representa um momento de trabalho individual mas de impacto colectivo. é sempre pensado como elemento introdutório no contexto de desenvolvimento de trabalho criativo de intervenção e não para ser feito com o tempo total de uma aula. pode ser pensado para o espaço de tempo máximo de vinte a trinta minutos de uma aula de noventa minutos ou mais. a segunda parte da aula será sempre de trabalho em grupo de investigação ou criação.
||| ... metodologia: o professor leva consigo folhas de papel, fita cola (fraca) e tesouras. no início da aula pede aos alunos para colocarem a cabeça entre as pernas e fecharem os olhos. deixa correr o tempo de dois a três minutos até se fazer silêncio. depois pede aos alunos, ainda nessa posição, para pensarem em cinco frases que gostariam de ouvir logo ao acordar e que ajudassem a tornar o seu dia um pouco mais feliz. terminado este tempo que tem que ser relativamente curto o professor diz que os alunos terão trinta segundos para escrever as frases numa folha de papel. os alunos escrevem. escritas as frases o professor pede para trocarem as frases escritas com o aluno do lado direito. novamente o faz depois desta troca com o aluno da frente. findo terem trocado as folhas de papel o professor pede para os alunos escolherem uma das cinco frases que estão na sua posse. feito isto, devem reescrever a frase começando como: espero que o teu dia seja... após escolhida a frase o professor distribui aos alunos cinco a dez tiras de papel branco onde os mesmos devem replicar esta frase agora construída. feito todo este processo o professor indica aos seus alunos para irem colar pela escola as frases e regressarem à sala.
podem, após este desafio ir um pouco mais além pois neste caso não existe observação do comportamento humano face à alteração da rotina dos espaços. pode o professor distribuir três folhas de papel branco e pedir aos alunos para escreverem no centro: olá eu sou o/a. tenha um bom dia. ou derivações desta ideia. no final os alunos dobram a folha em quatro com a mensagem no seu interior. o professor acompanha os alunos à rua ou ao espaço da escola onde sem falarem terão que entregar essas folhas e observar o comportamento das pessoas. este exercício funciona muito melhor se for feito no espaço público da rua com pessoas em passagem ou desconhecidas. faz depois o professor uma leitura do comportamento social/cultura de relações de civilidade em comparação, por exemplo, com épocas históricas diferentes ou culturas de comportamento diferentes.
||| ... esta aula tem como tema: o comportamento social nos espaços. se a alteração do contexto visual leva a comportamentos diferenciados. permite colocar os alunos a questionarem o limite do impacto do seu próprio comportamento e interacção/consequência no espaço e nos outros.
||| pim pam pum, cada coisa no seu errado lugar...
||| ... lá ficaram eles. se na semana passada me tinham mostrado a ideia, hoje vieram mais. para eu gravar o filme. é tudo isto que mais gosto numa escola e na relação com os alunos. o meu tempo é deles. completamente. seja para tirar uma dúvida, responder a uma pergunta ou ficar meia hora ou mais a ver nascer uma ideia. tinha terminada uma aula cheia de ideias. onde cada grupo tinha criado projectos de trabalho e investigação verdadeiramente válidos e interessantes. uma aula com vida. até podem ouvir aqui o som desta aula. e no meio dos sons perdidos há uma voz que diz: eu tenho uma ideia. porque nem só no silêncio respeitoso se tem boas ideias. e às vezes, sabe bem pensar alto. e no fim, pediram. o professor grava? o que acha? é o tal anúncio para a compal. ou melhor, uma ideia de anúncio. trinta segundos com uma música que fica no ouvido e uma coreografia sonora que nasceu daqueles alunos. é um trabalho válido. bom. bem feito. e divertido. nasceu deles. e eu, gravei. estive a dar uma ou outra ideia. para a semana há mais. depois vou mover montanhas para que alguém da compal receba, oiça e veja. e vou dar-lhes todo o apoio nesse caminho. o que é que isso tem a ver com o que tenho para lhes ensinar? nada. o que é que isso importa? tudo. eles são meus alunos e confiaram em mim numa criação sua. serei ajudante no caminho que vão fazer. corra bem ou mal. mas é meu dever como professor nunca dizer a um aluno que não tem toda a minha atenção para o que quer que seja. não sou um funcionário. sou um professor!...
||| do lado certo da rua...
||| ... sou um professor que gosta muito de gostar dos seu alunos. eu gosto muito de gostar destes meus alunos. mais do que isso, respeito-os imensamente. como pessoas que são. como alunos. como seres humanos à descoberta de si e do mundo. e é para mim, sempre foi, uma honra ter cruzado o seu caminho. sei que tenho algumas coisas para lhes ensinar. pouco, talvez. mas para aprender com eles tenho uma coisa que me encanta. o seu envolvimento nos desafios de aprender. e hoje foi um dia como eu gosto. um dia bom. o primeiro dia em que a provocação superou o desafio. estava cansado de ninguém vir dizer à minha sala que os alunos não podiam fazer isto ou aquilo. foi hoje. curiosamente com uma das aulas mais altruístas que desenhei. uma aula pensada para os meus alunos tornarem os dias dos outros melhores. e tudo começa com eles, os próprios alunos: ó professor, pediu autorização para nós irmos colar isto pela escola? a minha resposta foi a óbvia: não, claro que não. mas podem ir. e foram. e passaram dez minutos e lá veio alguém dizer que não podiam andar a colar com fita cola fraquinha umas frases escritas em tiras brancas de papel. dezenas de frases. simples. alegres. que todos leram. que fizeram pessoas parar. sorrir. perguntar o que era aquilo. e o não é sempre o caminho mais fácil mesmo perante algo perfeitamente inofensivo. simples é a manutenção da ordem. não é colarem frases nas paredes dos corredores a desejar um dia feliz. a ordem. o normal. o correr igual dos dias e das horas. a alteração da rotina é uma ameaça à imobilidade. e ainda bem. é por isso que eu sou o professores deles e eles são os meus alunos que me perguntaram hoje dezenas de vezes: ó professor, e a seguir é para fazer o quê? e porque eu tenho nas mãos ser o professor que provoca/cção. é simples. é o meu dever. que seja eu o exemplo de quem quebra essa rotina castradora das ideias e rompe para além do simples correr dos dias. porque a escola precisa de ideias. de vida. de sorrisos e de pensamentos. de fazer parar os outros para ler. de fazer parar alguém para ver. e os meus alunos viram isso hoje. com um pedacinho de papel, fita cola e uma tesoura que cortou só uma coisa: a inutilidade da certeza das rotinas em que nos seguramos na falsa ilusão da certeza das coisas que nunca desejamos que mudem...
01/11/2013
||| falar mal a sorrir...
||| ... apetecia-me dizer que esta reflexão devia começar com o famoso título: falar a verdade a mentir. não sei a razão. mas são as palavras que me cercam neste momento. porque olho e oiço os meus alunos e pergunto-me onde estão as aulas de oratória e discurso. falar em público, falar bem, argumentar é uma arte esquecida neste tempo acelerado em que tudo passa na escola pela colocação da repetição como uma máquina em poema de fernando pessoa. um constante grrrgrgrgrggrrg que não pára e onde nos esquecemos destas coisas tão importantes. falar bem. discursar. argumentar. gerir as ideias, as palavras, as frases. saber dizer o que se quer e como se quer. partilhar ideias. defender uma causa ou posição intelectual. e se formos a ver poucos são os momentos de treino que os nossos alunos podem usufruir no espaço de aula para esse efeito. não estou a falar de ler em voz alta. ou ler, simplesmente. estou a falar de falar. de discursar. de argumentar. e nada há mais complexo e poderoso do que ensinar aos nossos alunos a antiga arte da oratória. nada há de mais rico do que ensinar a construir um argumento pensado, racional, inteligente. e como isso anda perdido no tempo (in)útil das nossas aulas...
||| do regular funcionamento das instituições ou o gato amarelo...
||| ... há uma grande diferença na escola nos tempos que correm. enquanto aluno senti que os meus professores pensavam adivinhar o futuro. tinham uma ideia. tinham uma concepção do tempo que viria e para o qual nos estavam a preparar. hoje, os meus alunos vão reformar-se em dois mil e setenta e tal. e eu consigo vislumbrar o futuro, tenho uma ideia do que será, mas não como os preparar para ele. o que vão precisar? o que vão ter que saber? tenho alguma clarividência que vem de ser um amante de ficção científica. ou simplesmente de não ter renegado júlio verne na adolescência. um dos livros que me acompanhou foi mesmo as vinte mil léguas submarinas. e o meu medo não é do que não ser capaz de pensar o futuro. é que futuro eu vejo. e digo-lhes sempre nas aulas. no futuro, como no passado, os letrados serão homens e mulheres de poder. a palavra é antiga. letrados. os que conhecem e dominam as letras. os livros. o saber. é que a maior arma de poder será, para mim que sou hoje professor deles, a mesma que tomou conta de toda a história. a dicotomia conhecimento/ignorância. e só os posso preparar para o futuro se pensar nisso. no que eles precisam para enfrentar algo que ambos desconhecemos. e é por isso que procuro ensinar um pouco acima das minhas possibilidades para que o futuro seja um lugar onde eles, meus alunos, encontrem o seu espaço e caminho...
31/10/2013
||| é que isto é uma brincadeira muito séria...
||| ... olha que estou a brincar contigo. dizemos sempre, e lembro-me de uma professora amiga que sempre me recorda esta expressão como definição do quão alterada está a noção de brincar por seremos adultos. se é a brincar tudo é permitido. mas não é. só os adultos brincam. é uma expressão fantástica. só os adultos brincam. então podemos brincar com o conhecimento. e podemos levar as regras [ou ausência delas] para a sala de aula. brincar não significa deixar de aprender. significa exactamente o contrário. aprender. aprender porque temos que construir o próprio processo para o fazer. se há expressão que me transtorna é mesmo aquela que parece ser muito querida a muita gente: aprender a aprender. estranho a paixão pelo conceito. e estranho o próprio conceito em si. e por isso gosto muito mais de colocar o conhecimento como motor para o desenvolvimento da brincadeira. isto é, de transformar o que sabemos em algo novo. mas partindo do conhecimento. do nada, nada nasce. e a criatividade sem conhecimento é idiotice [no sentido mais banal do conceito]. os meus alunos sabem por isso que podem brincar com o que sabem. podem até construir coisas novas com o que aprenderam. têm toda a liberdade criativa que a brincadeira permite. mas a base de tudo isso é mesmo a exploração inteligente das regras que podem e devem ser quebradas no acto de brincar com o que se sabe. por isso cada aula que penso é um desafio. sem regras. podendo cada aluno brincar com o conhecimento e criar algo que é uma nova forma de olhar a realidade e o que o próprio aluno já sabe. dar-lhes o poder de brincarem com o conhecimento é das coisas mais ricas que tenho vivido enquanto professor. mas no princípio... no princípio do mundo estava o conhecimento e isso é uma brincadeira muito séria...
||| a guerra dos mundos ou o exercício da surpresa...
||| ... não é que os meus alunos saibam mais do uso da tecnologia digital do que eu. é que esse é o seu tempo. este é o tempo de tudo isso e eles já nasceram com tudo isso acessível. eu não. eu sei utilizar um livro. ou uma folha em branco. e não vou correr atrás do prejuízo. de não ter nascido neste tempo. porque se assim fosse, seria eu o aluno. importa-me sim, estar no meu tempo e para além deste tempo. com um pé no futuro. ou melhor, com a ideia de saber o que se faz de melhor em cada domínio. das artes à ciência, da cidade ao espaço público. estar atento. olhar e procurar. saber dizer que existe isto e aquilo que podem ir ver, ler, ouvir, saber. estar atento ao que se passa perto e longe de mim. num aula passada desafiei os alunos a criarem uma peça de teatro com quinze minutos [na lógica do modelo do teatro rápido]. um dos grupos de alunos falou-me que queria abordar as questões da guerra/conflito israelita. fiquei na dúvida se saberiam de que se trata, de facto. e percebi que conhecem o conceito de guerra, de conflito, muito pelo poder da imagem. a história, essa, é um lugar distante, confuso. e por isso é preciso explicar. gosto muito da palavra explicar. saramago dizia que todas as coisas têm explicação. podem não ter justificação. mas explicação, sim. e concordo plenamente. podemos explicar. dar razão. enquadrar. tornar lógico. inteligível. e esse é um papel único que cabe ao professor ter sempre em conta. não tomar por adquirido que os alunos sabem as coisas mais simples. podem não saber. podem ter a memória, como diz marc augé, daquilo e dos lugares onde nunca estiveram e desconhecer por completo a sua explicação. é por isso que o professor, eu, mais do que ninguém tenho que estar atento. atento ao que é saber e atento ao que é memória construída sem explicação. é que o meu papel, único e simples, é dar um contexto, uma explicação, transferir o que sei para esse lugar de memória que hoje, mais do que nunca, a tecnologia digital permite criar. dar um contexto. ser professor...
30/10/2013
||| estou velho, doí-me o joelho...
||| ... motivação. este é o maior embuste que se vende e fala. professores motivados. professores do futuro. professores brilhantes. etc, etc, etc... e no meio de tudo a palavra motivação. estar motivado. predisposto e bem disposto. feliz, alegre e afins. ninguém está sempre motivado. ninguém está sempre feliz. por muito positivo que seja. por muito optimista que seja. há aulas que me apetece dar. outras que nem por isso. há dias em que estou bem disposto. outros, cansado. outros, focado numa ou noutra coisa que não aquele momento de aula que tenho para realizar. assim é com os alunos. assim é com os professores, os outros, os colegas. mas tal como queremos que todas as relações sejam o mais limpas e simples possíveis também neste campo o desejamos. todos motivados. todos felizes, todos predispostos para aprender. felizmente que a realidade não é assim. felizmente que temos todos, eu como professor, eles como alunos, que negociar a nossa motivação aula a aula, dia a a dia, hora a hora. e que a realidade nos dá, a todos, mostras da importância da nostalgia. ou do desligar da aula. ou simplesmente da inabilidade de um momento de menor inspiração. não, não tem tudo que correr bem. somos todos humanos, demasiados humanos e ainda bem. ainda bem que a realidade é multifacetada e não somos máquinas de motivação automática. porque esquecer é tão importante como lembrar. porque estar atento é tão importante como estar desatento. porque o que é belo nisto tudo é mesmo esse desafio de cada momento ser um desafio. não de motivação, mas de realidade. de ver, estar e perceber a realidade das coisas e dos momentos. e nada há mais rico do que uma aula nesse campo. da diversidade imensa destes momentos reais que precisam ser geridos instante a instante. e por isso não me vendam palavras, discursos, livros ou receitas. deixem que eu seja um professor na realidade do meu tempo e dos meus momentos vividos com os meus alunos. só isso, somente isso, tudo isso. o resto são receitas. e não sei usar receitas dos outros para uma realidade que é a minha. vejo, construo e negoceio a minha realidade e isso faz de mim professor. motivado ou não, não importa. que consiga todos os dias interpretar, viver e ensinar na minha realidade das coisas e dos momentos, isso sim, me importa. e afinal é tão simples não ter receitas para nada e viver só a realidade pura do tempo de uma aula...
||| lost in translation...
||| ... gosto particularmente desta fotografia que consegui registar de uma aula. diz tudo sobre o que penso sobre o processo de aprender. o professor não é um amigo. é um professor. um desafiador. um caminhante. e há uma necessária distância que vem do tempo. do que tenho a mais do que eles. tempo não, vida. um pouco mais de registos na memória. e quando o cansaço suspende a vontade de mudar, olho para imagens como esta que fazem parte do meu imaginário enquanto inventor de aulas. let's never come here again because it would never be as much fun. é mesmo isso. não repetir o que usei. um texto, um recurso. é muito fácil dizer que estou cansado e que aquilo que já usei sei que funciona. mas o pior que me podia a acontecer era mesmo ser eu a perder a imaginação para criar. nos tempos que correm a escola é para muitos o último reduto de liberdade e de acolhimento. para muitos alunos todo o mundo fora da escola é muito mais complicado do que ali. ali tudo é muito mais simples. as regras são muito mais claras. a vida corre mais perfeita. e estou cansado de ouvir que a escola espelha o todo social e mesmo é uma micro-representação da sociedade. sempre combati esta ideia. a escola não pode nem deve ser isso. deve ser o lugar onde tudo isso é alterado para melhor. onde se pode construir conhecimento. onde se pode desenhar o amanhã. onde se pode experimentar, criar, formar novos rumos para a sociedade de hoje. se não for assim, não estamos a falar de escola. estamos a falar de um local sem identidade, forma ou força. e se nada mais resta dessa escola que é o lugar de futuro então cabe a mim, a nós enquanto professores, fazer com que cada aula seja esse lugar... é nosso dever, nosso imperativo ou veremos a escola desaparecer para um espaço de vazio imaginário que os nossos alunos anseiam mais do que qualquer outra coisa...
29/10/2013
||| olha que se eu te apanho lá fora!...
||| ... ó pá, tu não me irrites!... e levantou-se. naquele gesto de confronto. uma aluna para a outra. eu observei. e o discurso subiu de tom. eu, observei. sou professor e aquele espaço, mesmo o corredor é a minha escola. porque isto, aquilo e... e era minha aluna. eram minhas alunas. fui lá. já me conhecem pela minha forma diferente de reagir às coisas. comecei a dizer nomes de peixes. sim, isso mesmo, peixes. e o tom baixou. e deviam pensar que eu estava a ficar um pouco mais louco. calaram-se. acalmou tudo. quando não sabemos como fazer ou o que fazer perante algo que nos é estranho paramos o que estamos a fazer para pensar como reagir. esta era a premissa que tinha a meu favor por ler uma ou duas coisas das neurociências. é simples. não é absurdo. é a natureza humana. elas, alunas, pararam perante o absurdo dos nomes dos peixes. depois riram. mas eu não achei graça nenhuma. sou professor e acima de tudo abomino qualquer tipo de violência ou comportamento violento. verbal, não verbal ou de qualquer outro tipo. e a escola é um espaço de cidadania. e já que não há espaço para isso há sempre tempo. mesmo que tudo tenha tido lugar no espaço que não foi o de aula pedi a uma das duas alunas para ficar comigo no fim da aula. o meu tempo é o deles. e o deles é o meu. naquele espaço que é nosso, a escola. e não é a fechar os olhos que eu sou professor. é agindo. falámos, no fim da aula. enquanto professor e como pessoa há uma coisa que abomino mais ou tanto como a violência. são os sermões morais. e por isso foi só uma conversa. dois a cinco minutos. ó professor porque ela... ui... não vás por ai. não vás mesmo. as razões não me dizem respeito. diz-me o comportamento. público. no espaço que é de todos. no exemplo. no atravessar o círculo da minha liberdade que não gosto de ver atravessado com gestos que não pertencem ao espaço da escola. a civilidade. foi disso que lhe falei. falei dos gregos e do cumprimentar. de onde vem a palavra cumprimentar. e de onde vem a palavra violência. e do que é o espaço público onde somos cidadãos. e estivemos a conversar. no final, a minha aula, disse desculpe. eu digo sempre a mesma coisa: não precisas de me pedir desculpa. precisas de ver a escola como o lugar onde mais gostas de estar. e se te lembrares nesse lugar não há espaço para desculpas nem para a violência de um gesto, de uma palavra ou de uma acção. pensa nisso... e lá foi ela, minha aluna, e eu seu professor. cada vez mais lidamos com estes e outros comportamentos. a questão não está no comportamento em si. está na nossa vontade de agir ou de fechar os olhos. e fechar os olhos é tudo menos ser o construtor do lugar que queremos, com eles, para eles, os nossos alunos...
||| já ninguém ensina o belo...
estou na pré-primária
e caí de cabeça no chão e de joelhos
era tudo uma confusão na minha cabeça
como se fosse invadido por algo que não faz parte de mim
um universo de ideias confusas e distorcidas
autoria: turma 2.t
||| ... tenho sempre comigo, como professor, a abertura do livro - a história do feio, de umberto eco. para as civilizações arcaicas e para os povos chamados primitivos, temos achados artísticos, mas não dispomos de textos teóricos que nos digam se aqueles se destinavam a provocar o deleite estético, o terror sagrado ou hilaridade. e hoje, nas nossas salas de aula esquecemos de nos ensinar a pensar a coisa mais simples. o belo e o feio. o sentido estético. as nossas salas são armazéns. não são espaços de beleza. são espaços preparados para a entrada e a saída. o estar implica o desfrute do espaço onde estamos. e o belo tem esse papel. então pode um professor que não é de artes usar a arte para ensinar, questionando a noção de perspectiva na construção do conhecimento utilizando a criação de um momento belo? porque não podem as aulas ser pensadas no seu sentido estético, também. foi isso que fiz. nesta aula. criar sentidos estéticos para a minha sala de aula de onde tenho uma das mais belas vistas sobre a cidade mas que é, ela mesmo, um espaço feio. frio. ausente de beleza e carregada de funcionalidade. mas eu sou um funcionário cansado de funcionar. e por isso preciso de estar perto do belo para poder levar aos meus alunos o desejo de aprender. e por isso a minha resposta foi esta. tornar a minha aula num exercício de olhar o conhecimento enquanto observação em estado de alma em alerta para o espaço e para a apropriação visual do conhecimento. foi só um momento. mas o dia e aula ficaram muito mais belos e os alunos diziam que se sentiam num museu de arte contemporânea a brincarem aos artistas. talvez assim a história da arte não seja somente o local onde se indica as coisas belas, feias ou hilariantes das quais nada ou muito pouco sabemos...
||| uma aula que é um exercício de ruptura...
||| ... pedagogia: esta é uma aula para quebrar um ciclo. ou simplesmente para questionar. ou pensada para ser totalmente prática e permitir criar novas leituras da realidade transformando o aluno num dos elementos da leitura de novas perspectivas através da performance artística como modelo de interacção social e cívica.
||| ... metodologia: esta aula é composta por três partes. parte um: o professor prepara a sala afastando todas as mesas e colocando as cadeiras em círculo onde os alunos se devem sentar. o professor terá, nesta aula, de delegar parte da dinâmica aos seus alunos. tendo como base e recurso um rolo de fio colorido o professor vai questionando os alunos que passam entre si o fio guardando uma ponta do mesmo nas suas mãos. as perguntas podem ir de conteúdos a questões abertas sobre o futuro. todos os alunos devem ficar com uma parte do fio e o professor deve criar as questões e orientar a dinâmica para que o maior número de cruzamentos no fio seja possível sendo que essa é uma dinâmica que muitas vezes os alunos optam por controlar entrelaçando eles mesmo o fio. terminado o novelo os alunos são convidados a prender a teia criada nas cadeiras e a sentarem-se no chão. parte dois: sentados no chão, tendo a teia de fios como tecto ou estando ao nível dos seus ombros o professor distribuiu uma folha em branco e uma caneta a cada aluno. os alunos devem agora desenhar o emaranhado de fios nessa folha. é essa a premissa deste desafio. uma leitura de perspectiva. ao fim de trinta segundos de os alunos estarem a desenhar o professor pede aos alunos para trocarem a sua folha com o colega à sua direita e continuarem o desenho. assim sucessivamente até todos terem passado a folha e chegar ao aluno que serve de ponto de referência. no final o professor pede aos alunos para colocarem no centro do círculo onde estão todos os desenhos realizados da teia que os cerca e envolve. distribui depois uma nova folha em branco. pede novamente aos alunos para refazerem o exercício mas desta vez escrevendo uma frase sobre que é estar naquela posição em observação daquela teia. e ao fim de trinta segundos mudam novamente para o colega até todos terem escrito. no final todos os alunos se devem levantar e ler todos ao mesmo tempo os textos elaborados. após esta leitura que não permite a percepção pede o professor a cada aluno para ler o texto que tem na sua posse. faz-se uma reflexão partilhada e comenta-se. terceira parte: o professor apresenta um desafio de leitura de obras de arte contemporânea. do movimento dada aos desafios da arte conceptual. a discussão é aberta e experimental.
||| ... esta aula tem como tema: o tema desta aula é - perspectivas. a sua essência é ser, em si mesma, um exercício de reflexão pela perfornance artística. baseada nas práticas naif e dada permite aos alunos perceberem que o conhecimento depende da perspectiva do observador/investigador. assim como, a construção do próprio conhecimento. é uma aula-arte ou um desafio de descontrolo do conhecimento em detrimento da forma de olhar a realidade. é uma aula de ruptura com a aprendizagem teórica e permite a construção de objectos visuais fortes.
||| do anúncio para a compal ou o tempo perdido...
||| sou professor. deles. destes quatro alunos aqui na fotografia. isto foi depois da aula terminar. e o mais importante do meu dia. e hoje não me apetece escrever sobre aulas e coisas dessas que ocupam o tempo antecedendo estes momentos. estava para sair para almoçar e duas alunos vieram falar comigo. tenho sempre tempo para eles. posso ter menos para mim. para eles, tenho todo. disse que, claro, as ouvia. ó professor, criámos um anúncio para o compal essencial. queremos a sua opinião. demorei a processar a informação. sentaram-se. falaram-me da moda do cup. é basicamente a versão moderna do se fazia nos recreios há uns bons anos com o bater das mãos criando uma sequência com ritmo. assisti. tinham letra e música e tudo. tentaram uma, duas e três vezes. pediram-me opinião. disse-lhes, melhor, ensinei-lhes as regras da publicidade. até a regras dos trinta segundos de um spot de televisão. ouviram-me atentamente. disse que para a semana gravaria o seu trabalho. que iríamos fazer um cd para enviar para compal pois podia ser uma boa ideia. ficaram contentes. o produto da sua ideia tinha valor. estava pensado. era bom. e eu ouvi. e só passada meia hora ou quase quarenta e cinco minutos de me terem pedido para os ouvir saí da sala. mas saí imensamente rico. saí com a sensação que ainda sou professor. que ainda tenho tempo para os meus alunos. para aquelas conversas onde se aprende tanto mas não estão escritas em nenhum guião. e com tempo. tempo para os ouvir, acompanhar e com eles pensar. tempo para nos ligarmos e crescermos em confiança. tempo para conversar com eles, os meus alunos que tinham tido uma ideia e queriam partilhar aquela descoberta comigo. foi bom. e fui um bocadinho mais professor, hoje...
||| de como tudo muda quando tudo precisa mudar...
||| ... sou sincero. nem sempre as coisas correm bem. não sou um romântico da educação ou um amante das teorias pedagógicas (sejam quais forem). para mim, o importante é o conhecimento. o resto é acessório. acessório, não. complementar. complementar, também não. envolvente. o que me interessa é a promoção e a valorização do conhecimento. a forma de o fazer é aquela que encontro em cada momento e para cada aula. não sou um professor de roteiros, fichas, grelhas e planificações. pensar é para mim o mais importante. e sentir. cada aula antes de a dar. e hoje ao chegar chovia. o dia estava cinzento. saí de casa com a certeza completa da aula que iria dar. cheguei depois da viagem até à escola com essa certeza. pensei a aula até nesse tempo de viagem que medeia um ponto ao outro. e ao sair da viagem mudei tudo. fui a correr à loja onde sou já cliente fiel e comprei três rolos de fio brutalmente coloridos. o dia estava cinzento e eu não. não me afastei do tema que tinha pensado. apenas mudei radicalmente de estratégias. e que importa isto? nada. deixo só registado o meu pavor e horror a planificações. ninguém podia prever o dia cinzento. ou a viagem. ou a súbita sensação de que tudo iria correr mal se eu mantivesse a aula que tinha pensado. ter perspectivas é isto. e isso era o que eu tinha para ensinar aos meus alunos. e foi isso a que nos dedicámos durante as aulas. a forma é só o complemento. o que importava era a visão a criar sobre o conhecimento a mobilizar. tudo seria tão mais fácil se tudo fosse tão mutável como a aula que se tinha pensado e se repensou por se saber que o céu cinzento não trazia bom augúrio...
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