||| ... há um tempo de pausa. sempre. de recuperação das forças. de ganhar formas de construir novos dias. um tempo para suspender o tempo. que este natal seja um tempo de paz. desejo. e que dois mil e quatorze traga novos dias, claros e limpos. boas festas...
19/12/2013
18/12/2013
||| dos lugares humanos do ser pessoa...
||| ... começa a reunião. tenho o privilégio de estar a falar de uma escola onde os professores não são funcionários e onde a arte e o conhecimento são presenças constantes. e fala-se dos alunos. e de projectos. tenho essa sorte. não deixo, no entanto, de pensar que estamos a ver cada vez menos pessoas onde estão os nossos alunos. as grelhas, as notas quantitativas, o desenho mental de um estereótipo e a dimensão técnica transformaram-se em materiais de afastamento do lado pessoal de cada aluno. quando chega, chega pela família. os retratos sociais. num tempo complexo, retratos sociais complexos. mas os alunos não são só alunos. nem são só peças de um quadro social que os condiciona mas não determina. cada vez menos vemos pessoas. cada vez mais vemos alunos. confundimos a função com a essência. dispersamos o futuro nas análises técnicas de presente. somos exigentes ou facilitadores. damos notas. classificamos. e dispensamos aquilo, a matéria de que todos somos feitos. pessoas. e os alunos são diferentes com cada um dos professores. é normal. são pessoas em contacto com uma outra pessoa que também é diferente de todas as outras. e falamos de comportamentos diferentes, caso a caso. os meus melhores alunos são, geralmente, os mais irrequietos dos outros. é normal. eu preciso dessa inquietação que os outros dispensam. o exercício de olhar para os alunos como pessoas, para além do hoje é cada vez mais difícil. é normal. em tudo somos cada vez menos pessoas. cada vez mais elementos integrados numa função. somos cidadãos, contribuintes, consumidores, pacientes, utentes, utilizadores, clientes, professores e alunos. funções. e ao fechar-se a porta de uma qualquer reunião trago sempre isso comigo. somos cada vez mais de tudo. e cada vez menos, cada um de nós, uma pessoa no seu tempo e com o seu futuro livre, limpo, sem função definida mas em construção. e penso nisso...
||| não há água que não molhe...
||| ... há na dignidade da profissão docente um registo importante. o registo que fica da presença. da imagem da presença. é um espólio de registo que não pode ser esbanjado. porque quando o professor está presente está presente o conhecimento, a serenidade e a seriedade da cultura e do saber em movimento e partilha. e nada há de mais grave do deixar que outros, pelo poder momentâneo ou pela leviandade de uma qualquer visão política e ideológica retirem esse património que pertence a cada professor. ao contrário de todas as profissões o valor de referência do professor não está só na actividade que exerce. está em si, como pessoa e como cidadão. no espaço da escola a presença é a construção de uma identidade de admiração. e o pior que podem retirar a cada professor é isso mesmo. hoje, ao ver tudo o não devia acontecer, reparo que o ganho está ai. em tudo, todos perdem. quem tem poder e o exerce erradamente. quem se indigna e ultrapassa a representação construída para além dos limites de auto-regulação que deviam ser balizas e limites para qualquer acção. nunca mais seremos os mesmo. é essa a vitória deste dia. deles. não nossa. infelizmente.
16/12/2013
||| a caixa escondida no sótão...
||| ... às vezes quando entro na escola, nesta altura sem alunos, oiço dizer: "que bom!..." eu penso: "que tristeza.". é ver aquele espaço sempre cheio de coisas a acontecerem sem nada. só cercada de funcionários sem forma de funcionarem para além das obrigações estranhas de uma burocracia completa. novamente aqui sou um privilegiado. tenho a papelada reduzida ao mínimo. também porque não uso quase papel. tenho um bloco de notas. daqueles que toda a gente tem. um caderninho. lá escrevo o que quero registar dos meus alunos. primeiro nome, turma e mais nada. depois nos tempos em que a escola passa a instituição eu passo a funcionário e isso cria em mim um desconforto completo. deixo de saber o que fazer. falta-me sempre preencher não sei o quê. chamam-me sempre a atenção do sumário deixado por escrever, do formulário deixado por preencher, das coisas e mais coisas que são precisas fazer. e desligo. cumpro para não dar chatice a quem depois as terá por eu não ter feito aquilo que dizem ser um dever de um bom funcionário. é que eu sou professor. e o meu olhar e pensamento nunca vê uma sala de aula como sala de reunião. estou sentado a pensar em aulas. às vezes em salas onde nunca estive. se eu desse aulas aqui faria isto e isto e isto... e chamam-me. olha colega [eu deles e eles meus, dizem] faltam umas cruzes aqui. cruzes canhoto. ó pá, não tenho caneta. não trouxe nada para a reunião. só o caderninho. é pá... e agora? agora peço ao colega do lado a caneta. é que a lápis não pode ser. e faço umas cruzes. tem que ser. cruzes. por anarquismo racional não faço cruzes. faço uma bolinha. apeteceu-me. apetece-me sempre fazer bolinhas em vez de cruzes. o sistema não suporta. não compreender bolinhas. só cruzes. corrector, alguém tem? não. ficam as bolinhas que deviam ser cruzes. vitória, penso! grande vitória. para a próxima faço um triângulo e o computador rebenta... e assim é o tempo em que a escola é uma máquina, uma instituição. voltará em breve, a ser escola, depois deste pequeno intervalo...
14/12/2013
||| o pensamento de liberdade reduzida...
||| ... no meu tempo [para parecer velho e sábio] havia espaço para estar só. e para estar desconectado [esta era daquelas palavras que não existiam]. hoje, nem eu, nem eles temos esse espaço se não o conquistarmos ou reclamarmos. já dizemos: vou estar off. como se tal fosse uma reclamação perante o mundo. eu faço isso com maior facilidade do que eles, os meus alunos. mas preciso, como eles, de o reclamar. é que há um paradoxo nisto tudo. para eu estar comigo preciso não estar com os outros. posso estar comigo e com os outros. mas há um grau de introspecção que só tem lugar nesse espaço de isolamento agora a ter que ser reclamado. mas como se ensina isso? é que o simples acto de eu reclamar momentos como estes está relacionado com o facto de os ter vivido já e de os compreender como úteis. e eles? os meus alunos que nasceram num espaço de tempo público e publicado. num tempo da partilha identificada e permante do estado de alma ou do simples acto de qualquer coisa ser feita. como podem eles reclamar essa acção se ela contém em si mesmo todo o desconhecimento do que, com esse tempo e esse espaço, fazer? e penso nisto porque quero que os meus alunos sejam pessoas para quem todos os tipos, formas e estados de alma sejam instrumentos de inteligência sobre o mundo. porque alguém tem que lhes falar disto. desse universo único e individual que cada um é neste matagal de outros que nos habitam neste tempo de agora...
||| parar é isso mesmo, suspender...
||| ... este tempo sem nada [ou com tanto] já teve muitos nomes. todas as coisas podem ter muitos nomes. esta é simples. acho que agora é interrupção lectiva. para não lhe chamarem férias que parece mal. no meu tempo eram mesmo as férias de natal. e não havia problema nenhum. agora há. as férias são o tempo do ócio. as aulas do negócio [a negação do ócio é o negócio] e por isso não podiam continuar a ser férias. passaram a interrupção que não é a mesma coisa. para as mentes iluminadas a interrupção coloca apenas em suspenso o negócio. para lhe dar continuidade na brevidade do tempo. pois eu, como professor, renego colocar-me e aos meus alunos em suspensão. ou em interrupção. férias sim. dar lugar ao ócio. ao espaço de estarem sós ou acompanhados a fazerem tudo menos a pensar na escola ou nas aulas. assim como eu. desligar. desligar pensamentos, ideias, coisas por fazer. desligar. falar disso como de uma viagem feita há uns bons anos em que a imaginação já é maior do que a realidade vivida. chama-se recriar. e depois ir mais longe. esquecer. ter tempo e espaço para esquecer. eu de algumas coisas que eles fizeram. eles, algumas coisas que lhes tentei ensinar ou que fomos experimentando juntos. tempo para recriar e esquecer. é esse o tempo que deve começar agora. para mim e para eles. nas férias. nestas férias...
13/12/2013
||| quem seremos depois de hoje...
||| ... às vezes, como professor, esqueço o meu lado para além disso. disso que, no fundo, é uma função, somente. talvez não seja esquecer. seja reservar. guardar. mas cada vez mais percebo que cada vez que o faço mais o revelo. e lancei um desafio aos meus alunos no início do primeiro período de tempo em conjunto. escolham uma pessoa que admiram. falem-me dela/e mas sem ser por escrito. é este o vosso trabalho para três meses. podem fazer tudo, de todas as formas, mas apresentem-me essa pessoa. e não disse mais nada. nem pedi para serem criativos. somente não lhes dei regras, limites ou linhas de rumo. dei-lhes liberdade. total. só limitada pela condicionante da palavra escrita. o resultado foi depositar toda a minha confiança neles. e assim foi. e esperei. o que nasceu? uma página de facebook inteiramente criada para falar de uma personagem, um puzzle em jeito de guia de vida, músicas cantadas pelos alunos, colagens de fotografias, um caderno com todos os cortes de cabelo durante a vida de um cantor, uma homenagem belíssima a uma pessoa da família, fotografias encenadas, fotografias modificadas para a semelhança com a pessoa escolhida... e tantas mais coisas. de qualidade. com dedicação. e vi, como professor e como pessoa, que o que dou em cada aula me era retribuído em cada trabalho. e nestes momentos acreditamos na escola. acreditamos nos alunos. acreditamos que tudo ainda é possível porque o que está errado é um sistema que não acredita, não confia e não coloca as pessoas em primeiro lugar. é que isto, sem humanismo, não tem piada nenhuma. e hoje sou mais pessoa do que professor. e foram eles, as pessoas que ocupam a minha sala de aula comigo que me gritaram bem alto tudo isso. obrigado a cada um deles por isso. obrigado, uma vez mais.
||| ainda há espaço para o improvável...
People are strange, when you're a stranger
Faces look ugly when you're alone
Women seem wicked, when you're unwanted
Streets are uneven, when you're down
jim. m.
||| ... os meus alunos são portugueses [quase todos]. no sentido do último dia de pagamento de uma obrigação. e eu gosto disso. é da nossa natureza e ainda bem que assim é. por isso, no último dia do prazo de entrega estou a receber todos os trabalhos de todas as turmas. e é aqui que me sinto um professor com muitos privilégios. eles são bons. ponto final. e eu tenho muita sorte por isso. uma sorte que vou provocando. mas sorte. não quer dizer que todos eles me surpreendam. mas isso é um exercício normal. porque a inspiração nem sempre surge em cima da hora. ou porque um trabalho se coaduna mais com um perfil de aluno do que com outro num determinado tipo de desafio. mas abro alguns trabalhos e lá está. aquele aluno de quem não esperava uma surpresa, arriscou. fez da excelência um desafio e chegou lá. lá, onde a surpresa acontece. lá onde a qualidade se alia ao conhecimento. lá. onde, sem ele ou ela verem, o professor que sou eu, deste lado, abre um sorriso e descansa. fica feliz. diz para si próprio que vale a pena ser professor com alunos assim. que é para eles que trabalha todos os dias vencendo o cansaço ou tantas outras coisas. e as regras do trabalho pouco importam. poucas havia. havia uma maior. a da liberdade criativa. essa, essa única regra foi superada. essa que é a mais difícil de todas as regras. e ser professor nesses momentos tem uma beleza inquantificável. é um lugar de espanto, delícia e supremacia sobre todas as outras coisas. é por isso que hoje só posso dizer obrigado aos meus alunos pelo sorriso que me fizeram nascer em cada trabalho criado. mesmo que em cima da hora. mesmo para além das regras definidas. obrigado por me fazerem querer ser melhor, por e para cada um de vocês...
12/12/2013
||| plutão já não é um planeta e eu também não...
||| ... ó professor, é que o passe dela só dá até à zona c2. depois viemos todos a pé. fogo... e esta imagem ficou-me na cabeça. um dia destes levo um mapa para a aula e peço a cada um dos meus alunos que desenhe o seu percurso habitual num dia. depois, ao fim de semana. e depois traço eu. e os restantes professores. uma teia. uma imagem visual do nosso universo de lugares. e nunca tinha pensado nisto até ouvir aquela frase. regressei a um livro. a dois, naquele momento. ao queijo e os vermes de gindzburg e ao mal visto, mal dito de beckett. mundividências, pensei. eu posso falar de lugares e coisas. de espaços e experiências. o meu mundo está para além da zona c2 ou z3 que vai até à casa da música e volta. o deles também. mas eu não conheço o universo planetário dos lugares deles. e eles não conhecem o meu. por isso é urgente que isso mude. que falemos de lugares em comum. a identificação social, histórica e local é urgente na reflexão sobre o conhecimento enquanto experiência. e nunca posso esquecer isso. por isso, gostava tanto de saber qual a teia dos espaços que eles ocupam, por onde circulam, o que os cerca visual e socialmente. e dar-lhes a conhecer a minha. os lugares por onde passo e o que lá vejo. talvez nem seja preciso um mapa [embora fosse muito curioso visualmente ter essa noção], talvez baste uma boa dose de conversa. estou a pensar nisto...
||| um homem parado no futuro...
||| ... li há uns dias o desafio de pensar a escola em dois mil e vinte e três. dez anos depois de agora. então é simples. aqui fica o meu relatório.
... em dois mil e vinte e três portugal está na segunda fase da mais inovadora reforma estrutural em educação feita na europa a trinta. cada escola é agora dirigida por um conselho de professores que se organizam em projectos educativos locais. cada escola tem o máximo de trezentos e cinquenta alunos e cada turma o máximo de quinze alunos. as escolas são espaços abertos à comunidade em diferentes momentos estruturados para a inclusão de todos os agentes educativos na melhora da escola em todas as suas vertentes. há um currículo nacional com programas adaptáveis quer no tempo quer no conteúdo e essa adaptação é feita pelos professores consoante as necessidades identificadas pelos mesmos numa lógica de autonomia de intervenção. cada escola cria ofertas disciplinares próprias o que dá uma identidade específica a cada uma, quer por área de intervenção, quer por tipologia temática para aprendizagens específicas. o ensino profissional pertence agora aos centros de formação e emprego e são organizados e pedagogicamente coordenados com equipas das empresas o que liberta a escola pública para um vocação mais geral e preparatória para o ensino científico. os professores fazem percursos de carreira de quatro em quatro anos em que está incluída a renovação de conhecimentos científicos e pedagógicos por via de formação organizada por cada escola em função dos seus objectivos gerais e específicos. deixou de haver avaliação quantitativa. os alunos são alvo de um acompanhamento pelos professores e equipas de apoio pedagógico e educativo que desenham um perfil de competências e conhecimentos que resultam numa certificação final com identificação das mesmas assim como de melhorias possíveis para o percurso futuro do aluno. esta avaliação torna vinculativa a forma de trabalho em função do percurso de cada aluno no sistema de ensino. portugal abandonou a avaliação do modelo existente a nível europeu e lidera uma reforma do sistema educativo em ruptura com os padrões da primeira década do século vinte e um...
... até dois mil e vinte e três é o que consigo pensar. não é utópico. é só um caminho. válido como qualquer outro. e sinceramente, apeteceu-me fazer este exercício...
||| o que vê um homem que desenha linhas...
||| ... estava a olhar para o jornal e a ver o rosto de nadir afonso. e lembro-me de uma entrevista feita para rtp há uns anos no meio de uma rua qualquer. dizia ele que era o tempo para olhar o mais importante. que via o que todos viam. mas com tempo para olhar. lembro-me ainda de me surpreender com uma obra em azulejo que está para os lados de cascais e ter referido logo que aquele lugar tinha a assinatura do mestre. lembrei-me ainda de manuel de oliveira nos seus cento e cinco anos. um dia para explicar o seu cinema disse que nos seus filmes as pessoas bebem o chá. há tempo para as personagens no tempo real fazerem e beberem o chá. não há truques para além do olhar em perspectiva. há tempo e disso é feita a magia do seu cinema. do tempo real irreal na forma do registo. tudo isto para falar de uma coisa que me assusta. a ausência da condição em suspenso. da espera. do não saber esperar. do querer e estar sempre no imediato. no agora. no ser tudo para agora. e isso é algo que os alunos, nos dias que correm, não sabem gerir. muitas vezes digo que vamos ter uma aula aqui ou ali, assim ou assado. que vamos juntos ao cinema [e vamos], que iremos visitar este ou aquele espaço. de aula para aula os meus alunos perguntam-me sempre: é hoje que vamos aqui ou ali. a minha resposta, não. e posso ter marcado o dia certo há algum tempo. saber exactamente quando vou fazer o que tenho pensado, programado ou agendado. mas ensinar a esperar é também o meu papel como professor. travar esse consumo excessivo do agora. adiar a experiência. porque isso é tão importante como ensinar a percepção sobre o que se aprende em cada momento. hoje não se sabe esperar. há sempre qualquer coisa para fazer agora. já nem é depois. é agora. e nós transportamos muitas vezes isso para a sala de aula inconscientemente. porque há pouco tempo para um programa tão grande. porque temos que aprender isto, aquilo e mais isto e aquilo. porque o professor tem reuniões naquele dia, nas horas em que devia estar a pensar aulas. porque os alunos terão mais mil coisas para fazer depois das aulas. anulámos o vazio e com isso anulámos a capacidade de esperar. e em contra-mão, sabendo que todas as aulas os meus alunos vão perguntar se vamos fazer hoje o que está pensado desde o início para ser amanhã, arrisco ser um professor que tudo o que faz para e com os seus alunos sirva para que, vivendo eles a experiência de ter que esperar, cada coisa tenha o seu tempo e lugar. ontem, hoje e amanhã...
11/12/2013
||| essa gente, esta gente...
O que é preciso é gente
gente com dente
gente que tenha dente
que mostre o dente
Poema aqui.
||| ... tens uma caneta azul? não uso, desculpa. tens uma caneta vermelha, tenho testes para ver a minha falhou. não uso, desculpa. tens qualquer coisa que escreva? tenho. uma lapiseira. então como é que corriges os testes? não corrijo. então? não faço testes escritos. não? não. então e os trabalhos? faço anotações a lápis. a lápis? e se os miúdos apagam? [por momentos parei de respirar] se apagam, apagam. então e se alteram? [parei novamente de respirar sob o imenso risco de não voltar a respirar novamente]. alteram. mas... e acho que não conseguiu perguntar mais nada. fui salvo por uma alma que entrou e que tinha uma caneta vermelha. nova. brilhante e bonita. lá fiquei a pensar em tudo aquilo. principalmente numa coisa. na confiança perdida. perdemos de tal forma a confiança nos nossos alunos que se fosse possível inventar uma caneta permanente de tinta eterna seria um negócio muito rentável. eu lá continuei na minha. lapiseira e anotações. confio neles. mesmo que venham a apagar tudo o que escrevi. mesmo que venham a alterar tudo o que anotei. não serei eu a não lhes ensinar que o mais nobre gesto [e também o mais fácil de quebrar] é o da confiança entre um aluno e um professor. e isso está nos mais pequenos gestos que fazemos...
||| quem está ao meu lado é mais alto do que eu...
||| ... sei três coisas sobre outro professor que trabalha no mesmo espaço do que eu. que é mais alto do que eu. que tem um casaco que gosto e que tem aulas no mesmo período de tempo do que eu, na porta ao lado. não sei mais nada. sei o primeiro nome. não sei o último. não sei do que gosta. o que fez. o que faz. a desumanização. lembro-me tão bem das fugas para almoço entre colegas quando comecei a dar aulas. ou dos petiscos ao fim do dia e da conversa sobre coisas inúteis que tive há uns anos. agora andamos todos de cá para lá, de lá para cá, desumanizados, como se a vida fosse esse correr sem razão para o cumprimento de todas as coisas que temos que fazer. tudo isto porque estava a dar uma aula e alguém bateu à porta e parou por uns segundos. bateu porque os meus alunos estavam em actividade e o burburinho era [muito] algum. uma aula é um lugar santo. não pode haver barulho. mas nem eu sou santo nem a aula é esse espaço e por isso eles estavam em processo artístico e a conversa era inevitável. ah... está aí professor. desculpe. gosto tanto quando isto acontece. por um lado é por eu ser baixo e no meio deles [os alunos] não me conseguirem ver. depois é porque há uma necessária desconstrução da ordem. um remexer nessa desumanização. porque a ordem nunca pode ser mais importante que a troca de ideias. querem que seja. mas não é. e naturalmente e de forma organizada podemos agitar só um pouco e tudo muda. em duas horas de aula tudo muda. é que na minha aula há tempo para tudo. para esse silêncio. como para o burburinho da conversa. como para o riso ou a reflexão. na minha aula somos seres em construção. e o barulho das máquinas do pensamento faz barulho real. que se ouve na sala ao lado. que pode ser controlado mas não silenciado. e no fim das duas horas fecho a porta. passo por portas fechadas. lá dentro, professores ensinam, alunos aprendem. ideias nascem. deles sei só que são colegas. se gostam de bolo de chocolate ou são vegetarianos, não sei. o corredor cheio de portas faz-me pensar como foi possível chegarmos aqui. e eu sou um professor privilegiado. a escola onde ensino [esta onde partilho estas reflexões] é um lugar mágico cheio de humanidade e arte. mas imagino isto em todas as escolas. corredores e corredores de portas. com gente dentro. sem se conhecer. fecho a porta do corredor que dá para as salas e sei que dentro da minha sala seremos sempre seres humanos. graças aos deuses e a quem bate à porta por causa do barulho que as ideias provocam.
||| nem eu sei onde aprendi tal coisa...
||| ... não sou um professor criativo. sou um professor cada vez mais pragmático. a única vez que tive uma ideia original e a implementei em contexto educativo, o orçamento não chegou, tive um processo disciplinar, pouco ou nenhum reconhecimento, perdi amigos e tudo porque consegui criar uma coisa que, para quem a viveu, foi para além do que alguma vez tinha sido feito e mobilizou quase quatrocentas pessoas num lugar longe de tudo. errar é sempre uma coisa que fica bem aos outros [a mim]. tentei. não errei, experimentei e acreditei. e isso não é permitido no sistema. experimentar. ou acreditar. por isso desisti das ideias originais. as que tenho guardo-as num bloco de notas que um dia será esquecido. tudo isto porque os alunos me perguntam: ó professor, onde é que vai buscar tanta ideia para as aulas? em jeito de brincadeira respondo o que me apetece na altura. a verdade é que cada ideia ou estratégia que utilizo em contexto de aula resulta de trabalho. não é trabalho no sentido de ter trabalho. é no sentido de ser trabalhado. foram coisas que vi, vivi, experimentei, pensei, ideias que troquei com outros, conversas tidas noutros contextos, reflexões de algum tempo passado num espaço, observações que fiz sobre o comportamento dos outros, pensamentos tidos dos minutos que, por vezes, passo sentado num lugar ou em viagem a observar os outros. e de conversas porque aprendi a rodear-me de gente que fala de coisas e não de não-coisas. gente bonita com ideias. e com tudo isso recrio actividades para ensinar qualquer coisa. o que para mim é importante como professor é que cada actividade tenha fundamento. tenha uma razão e uma lógica. por isso procuro sempre experimentar tudo o que de melhor se faz. de um museu a um lugar de ciência experimental. de um concerto a uma peça de teatro. e com isso consigo transferir para conteúdos de um programa que me indicam para cumprir estratégias que possam tornar o conhecimento um espaço de experimentação e reflexão. é por isso que depois de cada actividade realizada envio aos meus alunos num espaço on-line criado para o efeito a referência do criador da ideia cuja actividade experimentaram. é importante conhecer as fontes. quem criou, porque criou. eu, professor, sou assim só o provocador, o meio de transporte das ideias. e não é isso que é ser professor?
10/12/2013
||| be happy...
||| ... da motivação. do interesse. a disciplina de história não é interessante para uma geração de futuro. o tempo de atenção dos nossos alunos é pequeno. não se interessam por coisas que não sejam do seu universo. temos que fazer um caminho até eles. durante anos ouvi isto. oiço ainda. os meus alunos não se interessam por nada. oiço, constantemente. e do outro lado está sempre aquele imenso mito da motivação e do interesse. eles, com um botão de on e off no braço que eu controlava e ligava o interesse para participar e a motivação para aprender em cada momento. digo sempre que isso será no futuro em que deixaremos de ser pessoas. os meus alunos, como eu, ainda temos vontade própria. e ainda bem. ainda bem que não agrado a todos. ainda bem que as minhas aulas não são interessantes para todos. e ainda bem que muitos desligam durante um aula. são humanos. são pessoas. o mito da motivação é uma das mais perigosas coisas que encontro na educação. e tropeço nela vezes sem conta em textos, desejos e comentários. eu tenho uma regra de ouro que cumpro sempre. parto para cada aula sabendo que terei que fazer o esforço inicial de cativar quem está ali porque tem que estar. não os tomo nunca por desmotivados ou motivados. estão ali, como eu, para ver o que aquilo vai dar naquele dia em ligação com o dia seguinte e o dia depois do outro. nunca começo uma aula tendo em mente a garantia que os meus alunos estão sintonizados na minha aula. às vezes, nem eu estou. dou sempre uns minutos para o burburinho se instalar e depois passar. e parto para cada aula com o desejo único que aquele tempo seja bom para eles e para mim. eu estou a trabalhar. é a minha função. é o meu trabalho. mas é também o meu tempo como professor. e como pessoa. a minha aula também tem que me cativar. não é só a eles. e por isso muitas vezes arrisco mudar tudo o que tenho como certo. ou o que tinha pensado muda de um momento para o outro. eu construo esse tempo no tempo em que acontece. sou um professor que gosta das aulas que dá. gosto de as pensar. penso-as inteligentemente [com aquela dose que me deram desse produto] e penso-as sentimentalmente. penso-as para os meus alunos reais e nunca para alunos em abstracto. nem para turmas. para eles, aqueles. e penso-as para eu as atravessar também. ser também caminhante daquele tempo. sejam elas mais teóricas ou mais práticas. sejam elas desafios ou problemas. o mito da motivação é uma das maiores falácia do nosso tempo e tem um risco imenso. é que seja um tiro no pé. por isso esqueci isso. nem interesse nem motivação. participação e envolvimento. é com isso que jogo em cada aula. é isso que faz com que goste das minhas aulas e tente que os meus alunos gostem também. e mais do que isso, que eu e eles, no final de cada aula, sejamos mais ricos porque aprendemos mais um pouco. é extenuante. mas é melhor do que pensar qualquer ser humano como uma máquina de auto-motivação...
||| see what no one else sees. see what everyone chooses not to see...
||| ... estou a pensar que para a semana tenho uma coisa chamada "conselhos de turma". coisa. lembro-me da minha professora de filosofia do décimo segundo ano que me apresentou pela primeira vez a definição de coisa. chamava-se inês. curioso como passados tantos anos não me esqueci disso. da coisa. dizia ela que podíamos usar a expressão coisa na aula dela pois era uma definição filosófica. só não era permitido o etc... que era coisa de gente sem saber o que dizer. tenho reparado que o etc... tem desaparecido. é de todos termos tudo dito ou todas as certezas. eu não tenho. eu uso muito, etc... e tal. mas volto ao pensamento sobre os "conselhos de turma". acho que deviam mudar o nome para concílios. sim, porque na origem da palavra está a palavra união. e grupo de pessoas reunido. sinceramente até para os outros ficava mais bonito. vou ter um concílio de turma. e o coordenador ou director passava a ter um nome longo daqueles que enchem tanta gente de petulância. do género: coordenador de direcção do concílio de turma. isto num cartão ficava algo de soberbo. o que é que faz? sou professor e sou coordenador de direcção do concílio de turma. brutal. então é que ninguém os parava. qual director de escola qual carapuça. isso tem poucas palavras. bem... mas tudo isto para dizer que fui ao programa oficial que tenho que cumprir. sou professor de história a dar uma área transversal. e deparo-me com o próximo tema [ainda não encontrei um assunto no programa, só temas]. o sujeito bio-ecológico. que medo. quem é que escreve estes programas? o sujeito? mas está bem. gosto particularmente do bio-ecológico. então tudo junto dá uma coisa fantástica. quem é que inventa estas coisas? mas preciso de desenhar ideias, aulas, desafios. momentos. e o que eu gostava que fosse essa coisa chamada "conselho de turma" [que podia ser concílio de turma]? uma discussão de ideias. aberta. olhem, eu tenho que trabalhar este tema porque não me deixam trabalhar assuntos que é isto do sujeito bio-ecológico. e vocês? o que vão fazer. e trocavam-se ideias. articulava-se uma ou outra estratégia. mas acho que vou ficar pela ideia do que podia ser essa coisa que afinal é coisa nenhuma. mas não desisto. vou levar o meu problema [que é um assunto e não um tema] e vamos ver se alguém partilha comigo uma ideia. tentar não custa coisa nenhuma. e talvez um dia as coisas mudem e seja tudo isto uma coisa com lógica. haja esperança, força e futuro.
||| 1x2 quem ganha é o sistema...
||| ... sentei-me e em exactamente dezassete minutos e meio despachei grelhas de avaliação. achei, como acho sempre, um processo inútil. e mais, na última aula que dei a algumas turmas, não falei de avaliação. nem notas. nem nada. foi uma aula sobre o sorriso e o que queremos dizer aos outros [e como o fazemos por diferentes modos de comunicação e interacção social]. a comunicação é sempre um conteúdo fértil para aulas muito diferentes. e esta era a última de um período de tempo marcado pela descoberta. de que valeria estar a falar-lhes de notas. de números. sou sincero, isso fica para o futuro. deles. nesse tempo futuro os números serão algo que os define [espero que não]. mas hoje, comigo, professor deles, é assim. antigamente [não tão antigamente assim] perguntavam o nosso nome e nas fichas do sistema o nome vinha em primeiro lugar. agora é o número. desculpe, pode indica-me o número de onde está a ligar? pode dar-me o seu número de identificação? pode indicar-me o número para lhe poder dar uma resposta personalizada? isso é tudo o que não quero na minha sala de aula. ali eles são eles. os rostos, os nomes. e se querem concorrer entre si podem ser competitivos pela melhor ideia [se é que há melhor], pelo sorriso que deixam nos outros, pelo espanto ou por aprenderem, como ontem o fizemos, de como a arte contemporânea pode recorrer ao conhecimento do ser humano para trocar as voltas à nossa percepção sobre a realidade. as notas? este modelo artificial de classificação fica para aqueles que acreditam que valemos [só] um número. eu não. eu sou professor. importa-me o conhecimento. importa-me o desafio de os fazer pensar. importa-me o lugar da ciência e da descoberta. importa-me fazer deles pessoas curiosas. e isso não se mede. sente-se.
||| when was the last time you felt good about anything?...
||| a citação do título é do filme o resgate do soldado ryan. não gosto do filme. gosto do texto. tive, em tempos, por hábito ler os argumentos dos filmes. este foi um deles. a ideia presente em todas as palavras era sempre a mesma. a honra de não deixar nenhum homem esquecido em batalha. na semana que antecede reuniões e coisas que tais, em que entrar na escola será agora só um lugar para os adultos e a inutilidade do sistema no seu esplendor, faço sempre um balanço. por turma, por aluno, por período de tempo vivido em conjunto. faço-o geralmente em viagem. sem papeis, grelhas ou qualquer outra coisa. em pensamento. num pensamento livre. faço um balanço. recordo cada rosto [não sou bom com nomes] dos meus alunos. um a um. penso no que poderei ter deixado por fazer, dizer ou ensinar. penso no que tenho que fazer no próximo período de tempo em conjunto. e por um momento, nesse balanço detenho-me num aluno. a imagem que surge é clara em mim. como se eu quisesse ter uns braços mais longos para lá chegar e não conseguisse. falta-me aquele. ainda não cheguei lá. ainda não o consegui trazer para a sala de aula. para esse lugar que quero que seja onde se gosta e quer estar. falta-me esse. aquele aluno de rosto preso na indiferença sobre o que se faz na minha sala. não é indiferença. é outra coisa. é talvez uma certa dúvida, ainda. ou impertinência natural da adolescência. ou qualquer coisa. sou e sempre serei um pacifista. mais, sou e sempre serei um abolicionista de qualquer organização militar ou similar. sou um anarquista racional. mas há uma coisa em mim que reservo por ser professor. aquela ideia que ninguém pode ser esquecido. que um professor não pode, nunca, desistir de nenhum aluno. nunca. de nenhum. por mais difícil que seja a tarefa, por mais dura, cansativa, desgastante, por mais infrutífera que se possa revelar, nenhum professor pode desistir de nenhum aluno. porque fazer isso é desistir de outro ser humano. de outra pessoa. e nunca a escola e a sala de aula podem ser lugares onde isso acontece. infelizmente a vida tem lugar para isso. ali, aqui, neste espaço, há uma lição maior para ensinar. os meus alunos são todos pessoas como eu. eu não gostava que um dia desistissem de mim. e eu nunca desistirei de nenhum deles. é por isso que sou professor.
06/12/2013
||| da lei que alguns se libertam no tempo que habitamos...
||| ... não conheci alexandre, o grande. gostava de ter vivido o seu tempo. não sei a razão, mas gostava. assim como gandhi. também gostava de ter vivido o seu tempo. falo deles nas minhas aulas mas com a distância da palavra do homem que estudou história. mas falava de mandela com uma diferença. habitei o seu tempo. tive esse imenso privilégio. e sinto que com ele morreu uma parte da história e do correr do tempo da esperança. morreu uma forma de estar no mundo. morreu o século vinte e uma parte do sorriso que nos torna humanos. hoje ao pensar a aula que vou dar na próxima segunda-feira fui fazer uma ronda pela internet e pelas redes sociais [conceito que não entendo]. e o que vi foi o que eugénio de andrade tão bem descreveu: apetecia morar naquele sorriso. o de mandela. quase todas as fotografias reservaram esse legado. o do sorriso. de um homem bom. de um caminheiro que fez o seu caminho, com e sem erros. humano, como todos nós. e pensei logo nos que hoje usam barbaridades ditas ou escritas para aparecerem ou serem comentados. e apetecia-me levar-lhes aquele sorriso e dizer que ser humano é ser tudo aquilo. aquilo que aquele homem deixou para além da história. e levar isso para os meus alunos é mais do que uma tarefa. é uma obrigação. num tempo em que perdemos homens destes resta-me, como professor, dizer-lhes que é o sorriso e não a bestialidade das palavras que fazem o futuro. para que um dia, no século vinte e um em que vivo e habito, possam os homens ser mais livres e o mundo mais fraterno [uma palavra que está a morrer]. e que possamos todos ter a força que tem um sorriso justo, calmo e pleno de um ser humano...
||| o pai natal vem de bmw azul fechar a porta da minha aula...
||| ... há sempre uma última aula em cada tempo lectivo dividido pelas festividades naturais na contagem do passar do tempo. o mito do eterno retorno dá sentido à vida. naturalmente. as últimas aulas de um tempo que passa. como professor reservo sempre essas aulas para uma coisa muito importante. o dolce far niente. sim, nada. um exercício inicial e depois o nobre acto de conversar sobre o próximo tempo de aprendizagem. ideias para desafios, coisas por fazer, coisas por aprender. nunca guardei para últimas aulas nada de burocrático ou de avaliação. este é um tempo de importância demasiado grande para se reservar para as coisas inúteis. a sua importância está nesse mito do eterno retorno. é que isso não existe neste contexto. não voltaremos ali. eu e eles. não voltaremos a uma primeira aula, ao primeiro desafio superado em conjunto, à primeira surpresa, à primeira dúvida. esse tempo fecha ali. naquela última aula de um primeiro período. e por isso esta última aula do fecho deste tempo é composta como o iterlúdio para a abertura de um outro tempo: o da maturidade do conhecimento. porque o tempo que virá depois deste será mais denso, mais exigente, mais duplo em todos os sentidos. e é preciso fechar este e preparar a vinda do outro. porque o professor tem sempre essa tarefa. o de fechar ciclos e abrir outros. o de marcar o tempo da aprendizagem com esses espaços e lugares de memória que consolidem o conhecimento e permitam, ao mesmo tempo, dar uma lógica à caminha conjuta de que se faz no cumprimento de um ano lectivo. e a lógica do tempo construído em conjunto, entre mim e eles, não está na sequência dos conteúdos que muitas vezes não são apreendidos ou lhes falta, em si mesmo, essa lógica. é feito por mim, feito homem do leme, e eles feitos homem e mulheres de braços fortes para navegarmos entre tormentas e acalmias que desenhamos em conjunto numa viagem cuja rota traçada já teve o seu começo. é por isso que uma aula que fecha um tempo, um ciclo, uma etapa não pode, não deve ser só mais uma aula. deve dar significado a tudo o que foi trabalhado no tempo passado e deixar uma porta aberta para o tempo futuro que chegará muito em breve...
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