03/02/2014

||| o professor nunca esquece..


||| ... há na profissão de professor uma marca que é mais forte do que todas as outras. um professor nunca esquece os seus alunos. por mais que tente. porque mais que queira. por mais que passe tempo ou venham outros alunos. nunca esquece. há um tempo de vida que se cruza. que se entrelaça. e tudo pela simples razão que o professor não tem mais nada para dar do que o que sabe e o que é. e isso é o que de mais humano existe em todos nós. dar o que se sabe. muito ou pouco. o que se aprendeu. um acto de partilha, dia após dia, sem cessar. durante um ano que são nove meses. mas é um ano. é um tempo. cruzado com cada aluno. que fica. fica preso no tempo, no nosso tempo como professores e no deles como pessoas em construção. um dia vão lembrar-se de uma coisa que lhes ensinámos. ou que fizemos. ou como fomos em determinada situação. nem vão saber ou recordar que fomos nós, professores, que lhes transmitimos isso. mas ficou lá. no meio de um esquecimento silencioso, sem valor ou mérito que possa ser reconhecido. às vezes essa é toda a nossa esperança quando todos os dias vamos dar aulas. que fique lá, daquele lado, qualquer coisa. mesmo que seja esquecida e útil um dia mais tarde. é por isso que o professor, eu como professor, nunca esqueço os meus alunos. todos. centenas. milhares. cruzei as suas vidas. deixei-lhes coisas. eles deixaram coisas em mim. mas que eu seja neles aquele conhecimento que é esquecimento silencioso mas que um dia os salve, ajude ou apoie se precisarem...

31/01/2014

||| eles fazem assim, nós também...


||| ... temos a capacidade de fazer melhor. de criar. de pensar estratégias únicas para os nossos alunos. mas copiamos, colamos, recortamos. usamos parte. coisas criadas por outros que funcionam com os alunos deles e muitas vezes esses alunos nada são parecidos com os nossos. perdemos [ganhamos] tempo a traduzir material, guias, recursos. uma folha em branco é um desafio maior. ver o que outros fazem não é copiar. é ver para tirar ideias e recriar. adaptar é preciso. sempre. o que é bom para uns pode não ser bom para outros. e uma estratégia é boa se os alunos estiverem sossegados? ou se aprenderem, de facto, algo novo? adoptar um projecto não é o mesmo do que copiar estratégias sem integrar o projecto. isso tem outro nome. perdemos tempo demais nestas coisas quando temos em nós e nos nossos alunos tudo o que precisamos para lhes dar uma resposta concreta e interessante para os seus desafios de aprendizagem. o problema é só um. estamos mais divididos do que juntos. não falamos. e assim não vamos lá. assim vamos só achar que o que os outros fazem porque falam e estão unidos num projecto é melhor do que tempo. e calei-me. e ficaram todos os colegas a olhar para mim...

||| chegou ao meu email uma coisa...


||| ... professor, o que acha disto? pode convidar para virem cá? os meus alunos, de vez em quando, fazem isto. enviam-me um email com uma pessoa ou um projecto que gostavam de conhecer. e eu faço o trabalho depois. envio emails, faço contactos, peço ou convido para darem um salto até à minha aula. a uma aula. desta vez o convite era sobre a curiosidade sobre o erro. o título não me apela a mover-me. escola do erro ou parecido. abraçar o erro. isso não gostei. a escola, para mim, é o lugar da ciência. o erro é um dos momentos do processo de aprendizagem e também do conhecimento. valorizar o erro não me parece ser o melhor caminho. incorporar como algo relevante no processo é também valorizar todas as outras etapas. mas fiquei curioso pela razão que levou os meus alunos a fazerem este pedido. por isso respondi que sim. que vou fazer tudo para levar lá alguém para falar sobre o erro. mas não nesta perspectiva. na perspectiva integrada no processo criativo. gosto desta relação que os meus alunos fazem de que o professor é um agitador do correr dos dias. que me façam desafios. que me peçam o que querem ouvir para além de mim que digo quase sempre a mesma coisa. é que antes de tudo a escola é uma universidade. uma universalidade do pensamento e do desejo de aprender. se assim não for estamos num supermercado...

30/01/2014

||| tem tudo que ser simples...


||| ... irrita-me esta coisa de tudo ter que ser simples. simplificado. descodificado. simples. que hoje já não podemos dizer uma frase mais complexa que alguém diz logo que isso é muito complicado. até me deu um nó na cabeça é a expressão. tudo simples. tudo pronto a comer. tudo pronto a entender. esta preguiça mental tem nos alunos um perigo imenso. é que qualquer desafio, pergunta ou problema tem que ser mastigado para depois ser consumido mais facilmente. estamos a caminhar pelas ruas onde tudo tem que ser fácil. e não digo isto no grau de exigência. digo isto na origem da palavra fácil. do latim facĭlis. da atenção. do tomar a razão como ferramenta para entender o mundo para além da informação imediata. e isso fica em mim para além do susto. é irritante. se "puxo" pelos meus alunos dizem que sou muito exigente. se facilito ou descodifico sigo no rumo da coisa em comum. ler um livro é coisa impossível. um texto, um trabalho de hércules. mais do que dois parágrafos já é uma trabalheira que precisa de uma semana de férias. isto é uma representação dos tempos. mas não vou por ai. direi sempre palavras "difíceis", trabalharei ideias complexas. não desisto disso. não desisto deles. os meus alunos precisam disso. nem que seja para poder pensar...

||| da complexidade da mudança...


||| ... hoje tudo se resume a uma frase: já todos percebemos que o sistema de ensino assim não funciona. então porque não mudamos o sistema em vez de o remendar?

29/01/2014

||| isto serve para pintar paredes...


||| ... acho sempre curioso quando digo a um colega que comprei uma lata de tinta de água azul para ir dar uma aula sobre o renascimento. ou numa reunião. ou que vou usar esparguete. ficam a olhar para mim com aquele ar de espanto/dúvida/curiosidade/loucura. e quase nunca ou sempre a medo me perguntam: mas o que é que vais fazer com isso? e eu explico. digo. vou fazer isto e isto e isto para ensinar isto e isto e isto. e farei assim, assim e assim. e em dez minutos explico como irei dar a minha aula. e falta tanto isto na escola hoje. para que as coisas não sejam estranhas. para que haja lugar ao experimental mais do que ao experimentado. para que ainda se possa criar coisas diferentes para ensinar. falta cada vez mais isto. por medo, preguiça, cansaço ou desânimo. mas falta. e por isso é que é estranho eu usar coisas do dia a dia para ensinar coisas de outros tempos. não devia ser. mas é.

||| preocupados com a coisa errada...


||| ... escrevi aqui uma vez sobre isto. retomo. porque anda tudo a atirar palavras sobre a praxe e a violência e os rituais e o nazismo e salazar e tudo e mais alguma coisa mas ainda não vi ninguém falar do mais grave. da base. de onde tudo isso vem e como mudar o comportamento social [que é disso que se trata] quando falamos em integração numa comunidade escolar. tenho pensado nisto. e dito várias vezes que o que me preocupa é o grau de violência que existe na escola. eu sei que não são todas. eu sei que há casos e casos e graças aos deuses ainda há escolas que são verdadeiras comunidades auto-reguladas. a questão está na violência enquanto representação e comunicação em sociedade. e na escola ela tem aumentado. nas escolas básicas e secundárias. nas escolas profissionais e depois no ensino [dito] superior. é que o que eram brincadeiras passaram a movimentos e actos de violência. não falo só de violência física. falo de violência de poder, de identificação, de comunicação. e por isso nada é estranho que o grau de permissividade entre alunos leve a que essa violência seja integrada na vivência ou nos rituais como algo natural. o que está mal não é a existência ou não dos rituais numa comunidade [embora longe de ser a favor da praxe - antes pelo contrário] mas o que me assusta não é a sua existência de per si. é mesmo a linha comum que começa na escola e se está a alastrar como algo vulgar, uma forma de resolver "as coisas" ou simplesmente como forma de comunicação entre pessoas. o problema, de facto, é maior do que um acontecimento ou outro que já não são pontuais. está no grau de permissividade que nós, professores, temos para com a violência entre alunos neste momento. e se tal não for pensado a sério, podem fechar-se todos os rituais que a violência ganhará lugar, noutros momentos, para se mostrar. penso nisto quando agora se fala do que vejo todos os dias em frente aos meus olhos...

28/01/2014

||| foi o tempo que nos roubaram...


||| ... falamos logo. é pá, agora não dá mas liga-me ao fim do dia. já nem um café consigo beber descansado. olha, que achas disto? posso levar para ver com calma, aqui não consigo. e assim sucessivamente. numa escola imensa [porque as escolas agora são lugares onde tudo é imenso] estas frases são uma realidade. quase um presente. um aqui e um agora. e como professor podem retirar-me o dinheiro como a todos os outros. mas não me retirem o principal que preciso para ser um bom professor [ou tentar ser melhor do que sou]. o tempo. não me tirem mais tempo. tempo para pensar. tempo para preparar uma aula. tempo para falar [conversar já é proibido] com um colega sobre uma matéria que podemos dar em comum. não me façam correr de cá para lá e de lá para cá. não me roubem mais tempo para os meus alunos. para estar com eles. para os ver. para os ouvir. para os acompanhar. não me roubem mais tempo para eu estudar e poder ensinar mais e melhor. podem roubar-me tudo, fazendo de mim outra coisa qualquer, mas então deixam de me ter como professor. serei tudo menos um professor. porque um professor sem tempo é um vazio. é um funcionário. funciona. às vezes já nem isso. faz o sistema parecer que funciona. restaurem a dignidade do tempo e terão em mim um homem livre para ensinar. roubem-me tudo, mas não me tirem nem mais um minuto para que eu não deixe de funcionar...

||| no centro do universo está o que não sabemos...


||| ... ao terminar uma aula olhei para os meus alunos e pensei que não os sei preparar para o futuro com aquilo que me pedem para lhes ensinar. é algo estranho. sou professor de uma disciplina estranha. quase esquecida. a história tem hoje um peso turístico. vamos até lá para ver como foram os outros que afinal somos nós mas não somos porque somos hoje muito mais do que fomos. será? mas essa discussão não é para agora. para agora e aqui é mesmo só o registo dessa sensação. do que me dizem ser oficialmente válido para um jovem estar preparado para o futuro eu sentir que não é. uma parte, de facto, não me parece ser. e depois eu pensar. é perigoso quando um professor não se limita a reproduzir o que oficialmente lhe indicam como obrigação a cumprir. quando um professor pensa. e pensa se o que ensina ainda é válido. é actual. porque o ensino deve preparar uma pessoa em construção para o futuro mesmo quando não sabemos muito bem como esse mesmo futuro será. e penso um pouco mais nessa sensação estranha. do pensar que sei o que podia ensinar e não estou a ensinar porque as horas são poucas, os dias são poucos, o programa é imenso. então mudo. foco-me no que tenho. o que tenho neste momento é sempre o melhor que podia ter. faço desta uma premissa relevante. não é desculpa. não arranjo desculpas. então se não posso [e posso] mudar o que ensinar mudo a forma. nisso, na minha sala de aula, não entram as regras oficiais. estou lá eu e eles. e ninguém me pode proibir de ensinar pelas formas mais absurdas ou reais que me apetecer. a minha forma. e pela forma também se ensina muita coisa. o como é tão importante como o quê e o porquê. e por vezes fica mais dessa coisa que se vê do que aquilo que outros julgam útil. e penso nisto, nestes tempos que correm tão estranhos...

27/01/2014

||| o conhecimento é grátis...


||| ... a césar o que é de césar. ao homem o que é dos homens. aos deuses o que é dos deuses. e ao esquecimento todas as outras coisas que ficam pelo meio de tudo isto. tirei esta fotografia para ilustrar este pensamento. que o conhecimento é um lugar, uma coisa, gratuita. o que eu sei qualquer um pode saber. não é o que vivi ou o que a experiência me ensinou. isso guardo-o comigo como saber dos deuses. é o conhecimento. o que sei. basta pegar nos mesmos livros do que eu. ouvir as mesmas pessoas. entender as mesmas coisas. visitar os mesmos lugares. será? será assim tão fácil ou tão difícil? penso nisto sempre que vou dar uma aula a uma escola que não é a minha. a alunos que não são os meus. quando me pedem. sempre achei que o conhecimento é gratuito. não é que não tenha um custo. ou um valor. tem. mas não se traduz. não é possível traduzir-se esse valor. o valor de ensinar é medido em tempo e na forma de o fazer. nos recursos. agora o conhecimento não. é mesmo isso. é gratuito porque está acessível. basta ver. basta viver. basta procurar. basta ouvir. basta pensar. e por isso quando me dizem que há um valor em saber mais do que os outros ou ser reconhecido por esse conhecimento assusto-me sempre. desumanizamos até o simples acto de conhecer e partilhar o conhecimento. e passamos a cobrar pelo conhecimento. não estou a falar do acto/trabalho de ensinar. esse sim deve ser pago no seu valor que é o tempo e labor. estou a falar do conhecimento em si. da sua natureza tão simples que até se torna estranho pensar no seu valor num tempo em que tudo é economia. e olhei para o navegador uma vez mais. saberá ele tudo isto? terá ele pensado que o mundo que iria dar a conhecer um dia seria fechado pelo custo de procurar saber um pouco mais? e fechei os olhos. lembrei-me que era professor. uma senhora inglesa que visitava o mesmo espaço perguntou-me quem era aquele ali no cimo. e estive meia hora a conversar, porque afinal, eu só sabia uma coisa que ela queria saber...

||| o tiago mandou-me um email...


||| ... o que é que podemos realmente fazer para que os alunos "pensem" durante uma semana? era a pergunta que vinha no email que o tiago me enviou. o tiago é presidente da associação de estudantes de uma escola secundária onde recentemente fui orientar um momento sobre leitura de imagens para uns simpáticos setenta e tal alunos. no final chegou ao pé de mim e disse quem era e ao que vinha. queria pedir-me ajuda. tinha gostado do que havia ouvido nos noventa minutos de exploração de ideias que tinham acabado com algumas actividades pelo meio que faço sempre porque ninguém [nem eu] aguenta já ouvir outro alguém falar durante noventa minutos. gostou. no final eu disse-lhe que me podia enviar um email a explicar o que queria de mim. e assim foi. recebi o email. respondi: vou desenhar umas ideias e para a semana envio-te para avançar. foi o que me ocorreu. é pouco, eu sei. mas foi o que me ocorreu. gostei tanto do desafio que me apetece fazer tudo para que o tiago tenha a sua semana para colocar os seus colegas a "pensar". e eu nem sou professor do tiago. e não serei. não terei essa oportunidade. logo ele me respondeu: muito obrigado por responder. vou lançar o projecto também no nosso grupo da associação de estudantes para termos uma boa equipa a trabalhar para isto. acho curioso isso. ele talvez fosse pensando que eu não iria responder a este repto. geralmente é assim. dizemos que ajudamos e depois fica tudo por ali. mas não. quero mesmo ajudar o tiago, que nunca será meu aluno, a ter a sua semana de pensadores. acho nobre a ideia. não me pediu coisas. pediu-me uma ideia. o tiago é uma pessoa em construção que gostei de ver com esta força presidencial de querer mudar as coisas. nem que seja por uma semana. só por isso já valeu a pena ter aceite, no meio de uma semana interminável, o desafio de uma colega para ir à sua escola dar esta aula. e agora resta-me o meu bloco e o procurar ideias. para o tiago. para pensar...

||| aula em que não se brinca com a comida...



||| ... pedagogia: pela construção de formas em altura os alunos são desafiados a conhecerem a visão espiritual e/ou mundana da relação entre o homem e a representação arquitectónica da religião vista enquanto modelo social e de expressão simbólica da representação divina nos espaços de culto ao logo da história.

||| ... metodologia: para a aula são necessários alguns recursos - um pacote de esparguete [fora de circulação/consumo], uma barra da plasticina e imagens de igrejas/espaços religiosos de diferentes épocas/estilos arquitectónicos. a sala precisa de preparação prévia. em mesas em estilo de ilhas são colocados os materiais e as imagens. são ainda impressos em folhas brancas palavras/conceitos como: contraforte, verticalidade, etc... os alunos são convidados, com o esparguete e a plasticina a construírem uma estrutura em três desafios: primeiro - uma estrutura em comprimento extenso. segundo - uma estrutura em altura. terceiro - uma estrutura que conjugue as duas componentes - altura e comprimento.  ao longo do desafio os alunos vão perceber que diferentes estruturas implicam diferentes estilos e tipos de construção. são sempre trabalhados pelo professor os conceitos. o conceito mais facilmente introduzido é o de contraforte. assim como, são facilmente explorados os conceitos de arco, ogiva, pilar, suporte, etc... a aula termina quando todos os grupos tiverem conseguido criar uma estrutura válida e analisado a evolução histórica da representação social e cultural da arquitectura em relação directa com o poder espiritual no contexto histórico.

 ||| ... esta aula tem como tema: a arquitectura/estilos arquitectónicos e a representação social e cultural do poder espiritual/religiões na construção de espaços de culto em diferentes épocas históricas.

22/01/2014

||| da beleza roubada ao discurso do rei...


||| ... peço muitas vezes aos meus alunos para fazerem apresentações orais dos trabalhos, temas ou projectos que desenvolvem. o discurso. a nitidez, clareza e beleza do discurso. peço, também. eu sei, sou um professor exigente. é por isso que não gostam de mim aqueles que querem coisas simples. o discurso é tão importante como o conteúdo. porque a ideia é tão importante como o argumento. solidifica-o. torna-o visível. e os meus alunos são pessoas com ideias. por vezes, estas perdem-se pelo caminho pela desconstrução do discurso que não chega a ter forma de mostrar a ideia. faltam aulas de oratória. ou tempo para ensinar a forma simples de apresentar um projecto. já nem digo oratória. como professores damos cada vez mais valor ao escrito. e menos ao dito. e depois quando pedimos para serem apresentadas ideias em forma de discurso ficamos surpreendidos com a dificuldade e grau de não-beleza do mesmo. nem sempre é assim. e ainda bem. deixar os meus alunos falar é uma regra de ouro que tenho. procurar o equilíbrio entre o dito e o escrito. porque o futuro será sempre da palavra. e esse é o nosso quinto império. mas é preciso cuidar dele ou morrerá um dia esquecido na tecnocracia das coisas que se querem evidentes...

||| cansa abrir um livro para ler...


||| ... estudar. estudo deriva do latim studĭum que entre outras coisas revela trabalho, cuidado, zelo; vontade e desejo de aprender. estudar implica sempre trabalho. e autonomia. e concentração. ou atenção. ou interesse. mas, acima de tudo, preciso de tempo. e hoje na escola o estudo é um lugar estranho. dizemos tantas vezes para os alunos estudarem. eu desisti de começar por aí. digo sempre: arranjem tempo para estudar e depois experimentem ler. depois, ao ler, coloquem anotações no que vão lendo. mas comecem por arranjar tempo. tempo para estarem sozinhos. sem telemóvel ou computador. e peguem num livro. comecem por ler. depois, quando tiverem dúvidas de uma palavra, ideia ou conceito liguem o computador e procurem. ou liguem-me. ou mandem um sms. ou email. e perguntem. eu indicarei outro livro, uma página na internet ou qualquer outra coisa para vos ajudar. mas não comecem por estudar. comecem pelo tempo. reclamem tempo. a vocês mesmos. porque estudar precisa de tempo. não é uma coisa que se compre feita. ou que tenha uma fórmula mágica. há cada vez mais livros com fórmulas mágicas para decorar. mas nada disso se torna útil ou verdadeiro se não for reclamado um tempo. porque saber e aprender requer tempo. e numa sociedade em que tudo se gere ao minuto são precisos muitos minutos para se aprender. e para se estudar. vejo cada vez mais a escola longe disto. e os alunos também. o resultado é um conceito imediato. e o saber não o é. é uma construção. precisa, como o estudo, de tempo reclamado. de observação, reflexão e edificação. talvez seja eu que estou errado. nunca lhes falei em estudar. falei em tempo. devo ser eu que não sei como estudar...

21/01/2014

||| do outro lado do muro fica a floresta...


||| ... às vezes pergunto-me que lugar tem o professor na escola neste tempo. que lugar tenho eu. e pergunto-me insistentemente. não acho que chegará o dia em que o professor não será preciso. pelo contrário. acho que ser professor é hoje e será no futuro uma das profissões mais necessárias. também não penso que o professor é hoje um agente ou funcionário que reproduz e produz alunos capazes apenas de cumprir as orientações do estado. mais do que nunca o professor é uma pessoa precisa no contexto social de um momento histórico único. e mais do que nunca o papel do professor passa por tudo menos por aquilo que esse mesmo estado pensa que deve ser o seu papel. vivemos num tempo de solidão. não daquela de estar só. da das ideias. da raiz das ideias. dessa solidão. quem cria, precisa hoje de trabalhar mais para sustentar cada casa. quem não trabalha dilacera os dias nesse lugar onde o medo existe e a procura de solução é uma necessidade constante. quem, por mérito ou herança recebeu um presente dourado vive muitas vezes num mundo desligado do real. numa reprodução social de um capitalismo desumano. temos de tudo dentro da escola. e temos de tudo no país. de escolas centrais onde a realidade social dignifica o conhecimento como ferramenta para o mercado a escolas escondidas no meio de uma aldeia, junto a uma igreja e perto do largo central onde as crianças não acedem a ofertas culturais tão ricas como outros mas vivem o espírito comunitário como já em muitas cidades não acontece. o que me prende na minha resposta à minha insistente pergunta é este tempo de solidão das ideias. das vidas não pensadas. e nunca como hoje a escola e o professor é para muitos alunos [ou devia/podia ser] um baluarte de esperança. qual é o maior problema de todos? é que não somos. tantas vezes somos também portadores dessa ausência de tempo, de conversa, de gestos, de segurança, de presença que os nossos alunos [que são pessoas em crescimento] apenas encontram, em quase tudo, ausência. e a minha resposta, insistente, é sempre essa. que eu seja professor e pessoa. que não seja em mim que eles encontram solidão. que os acolha em cada aula, em cada pedaço de tempo que tenho que construir para lhes dar. não serei eu, na escola que deve ser o lugar máximo da presença e pertença, a dar-lhes o que o mundo contemporâneo lhes nega e nos nega a todos nós. que eu, professor, seja em cada aula, em cada dia de trabalho, um porto seguro. um lugar de conhecimento onde beber o futuro. e com isso serem eles mais pessoas. mais ricos. mais alunos e mais amanhã sem solidão de ideias. e pergunto-me e respondo-me insistentemente sobre a razão de ainda ser professor. as ideias. juntas. fazem a escola. é sempre a minha resposta. as pessoas, juntas, fazem e farão sempre a escola. tudo o resto é ilusão...

||| o segredo está na experiência de quem amassa...


||| ... já referi aqui que vou, muitas vezes, consultar o programa oficial para me guiar. e não só o que dizem que tenho que cumprir. o dos outros. e recentemente li as alterações propostas para várias disciplinas. e também recentemente me desafiaram para orientar um momento de formação sobre metas curriculares de história. começo pela primeira coisa que me desorienta. alterar um programa não é actualizar. sempre achei necessário que os programas sejam actualizados. isto implica adequação, revisão e pertinência ponderada. alterar é outra coisa. e isto que está a ser feito nem alteração é. é não ter a mínima noção do que deve e pode ser um programa de uma disciplina [seja ela qual for] nos tempos que correm. não que o presente determine o programa, nem o interesse. falo da lógica. a lógica é o que dá razão a todo um percurso de aprendizagem. e é isso que é destruído com estas enxertias [não tenho outro nome] que estão a fazer. e depois, as metas. não sou pedagogo nem especialista em coisas que tais. sou um mero professor. que inventem tudo e mais alguma coisa, que mudem o nome das coisas, que achem que é válido chamar a uma coisa qualquer o nome de outra qualquer, acho tudo muito bem pois vende livros, dá para uns papers [como agora lhe chamam pois artigos já não serve] e pronto. mas é ver as metas [e este conceito não é destituído de visão político/educativa] para história e perceber o absurdo de tal coisa. não concordo, não compreendo, não aceito. e tal como o fiz com a avaliação, por muito que os tempos sejam complexos, não faz sentido orientar um momento de formação sobre uma coisa que não aceito como válida. ser professor não é nada disto. nem metas, nem enxertia de programas, nem descontinuidade. quem é professor sabe isso melhor do que ninguém. ser um professor actual num mundo de hoje não passa por aqui. passa até longe deste caminho. e é isso que me assusta. cada vez mais...

20/01/2014

||| não digam mais o nome daquela coisa...


||| ... as escolas são, dos espaços da administração pública os que concentram mais licenciados, mestrados e doutorados por metro quadrado. curioso. são, no entanto, os que menos resultados em termos científicos partilham no seu interior ou mesmo para fora do espaço da comunidade escolar. salvo algumas (crescentes, e ainda bem) excepções isto assusta-me. raramente se sabe o que se faz numa escola. de tempos a tempos uma notícia na comunicação social prova que há mais vida para além dos exames, testes e afins. mas uma visão estruturada da escola enquanto espaço de ciência, experimentação e conhecimento ainda está longe de se ver. a razão é simples. chama-se inutilidade. cercados pela inutilidade de procedimentos burocráticos cada vez mais temos vontade, tempo ou recursos para construir e partilhar a ciência que (obviamente) habita o espaço escolar. e isto empobrece a escola. empobrece os alunos. empobrece os professores. empobrece o futuro. e quando falo em ciência o que poderia dizer da arte e da cultura. tanto mais. contrariar isto é sempre um risco. porque partilhar experiências e conhecimento é também partilhar as falhas, o processo e o crescimento das ideias que podem gerar saberes novos. e para isso ainda não estamos verdadeiramente preparados. talvez o futuro nos traga essa necessidade em forma de qualquer coisa claramente definida. tornar a escola num lugar de conhecimento e aprendizagem partilhada para fora e dentro da comunidade escolar tende a tornar-se urgente sob o risco da escola deixar de o ser e passar simplesmente a ser uma instituição de reprodução do que outros dizem ser a realidade que deve ser conhecida. e já estivemos nesse lugar. lembrar isso é preciso. urgente, mesmo. para que a escola seja escola e não outra coisa qualquer em que se está a tornar...

||| das largas coisas que pequenas parecem...


||| ... recentemente numa visita a serralves a exposição de cildo meireles reparei numa pequena instalação de um boneco de papel articulado por dois fios de pesca transparente que simbolizava um vendedor de alfinetes. alfinetes. o desejo do artista era ter mil bonecos daqueles que venderiam cada um mil alfinetes. um milhão. no total. era o desejo. alfinetes. um milhão de alfinetes. não ocupa muito espaço. mas é um milhão. e isto tudo porque uma pauta é um objecto cada vez mais perigoso. fazer subir resultados. é esta hoje a função desejada pelas escolas e pedida quase em modelo de regra obrigatória para se ser bom professor. subir, crescer, aumentar. nem que seja com força. sem forma. sem brilho. sem valor. mas aumentar o resultado. um ponto percentual. um ponto, dois pontos, numa pauta. no ranking final. disso depende qualquer coisa. deve ser dinheiro. reconhecimento não é. numa lista a escola pode subir um ponto. e andamos nisto. nos pontos. nos valores. na pressão constante de resultados. em grelhas. em folhas para colocar cruzes. em relatórios. em testes e testes e testes e testes e testes e testes e testes. e recordo uma lição recebida de estatística. num estudo recente cinquenta por cento dos doentes de uma ala de hospital psiquiátrico tinha tido alta devido a um medicamento inovador. foram ver quantos doentes estavam na ala do hospital devido ao imenso sucesso do medicamento. eram dois. um tinha melhorado efectivamente. o que me assusta enquanto professor é mesmo a construção do edifício do conhecimento baseado neste exercício de aprofundamento da dimensão numérica do saber. o saber a ser medido. aposto que se segue a cultura. ainda teremos no final de uma peça de teatro alguém com um medidor qualquer para aferir o grau de satisfação e apreensão cultural. e estamos a transformar a escola nisto. mais uma vez, deixamos. vamos com a corrente. afinal o que somos nós, professores, do que números numa pauta, também...

17/01/2014

||| às vezes apetece fechar as janelas...


||| ... observo os meus alunos. passo muito tempo nisto. gosto de perceber que sociedade temos. e ali, entre eles, há uma representação total do que será o mundo daqui a uns anos. muito mais do que numa sala de professores onde estamos todos presos no presente e no passado e somos, na maioria, personagens de outra coisa qualquer. eles. em conversa. eles em trabalho. eles em movimento. e o que vejo ainda me assusta. a mim, anarquista racional. ainda há, em muitos comportamentos restos da história de um povo que esteve preso a razões que já no século dezanove se referiam como a causa da decadência dos povos peninsulares. restos de um ideal de sociedade ainda conservadora. patriarcal no sentido mais velho do comportamento associado à palavra. onde os outros são os outros e não parte da nossa representação no mundo. há, no entanto, uma abertura maior. à diferença. mas assumindo essa diferença como tal e não como registo pessoal de identidade. e há mais do que havia uma infinita individualidade para salvação das almas. se ainda se pudesse comprar um pedaço do céu certamente muitos se queriam salvar deixando muitos outros para a perdição. observo-os e vejo que quarenta anos depois do vinte cinco de abril a noção de democracia ainda é uma criança a dar os primeiros passos. oiço, às vezes, que não funciona. que alguém tem que tomar a iniciativa e controlar a coisa. sempre houve líderes presentes e ausentes nas comunidades escolares. mas a sua emergência com base na urgência de uma identidade explicativa nunca foi tão grande. há menos comunicação. mas mais formas de partilha. a utilidade substitui a pertinência. gosto de observar tudo isto. faz-me pensar no quando uma aula pode ser importante. porque pode, em noventa minutos [mais ou menos] haver lugares onde tudo o que se vive hoje pode ser repensado. e isso é tão urgente como tudo o resto.

||| e entretanto o tempo fez cinza da brasa...


||| ... ando a pensar numa aula sobre o tempo. sim, só sobre isso. o tempo como tema. explicar o tempo. explicar a sucessão das coisas. cada vez mais os meus alunos pensam que vivem no presente. tudo é agora. ou a antecipação de uma coisa nova. da última coisa nova. como se pode explicar a uma pessoa que tem cinco ou dez anos de memória activa que somos frutos de milénios de história. e que podemos antecipar o futuro pela percepção da construção do tempo. antecipar não é planear. é pensar antecipadamente. assusta-me cada vez mais quando falo com alunos e muitas vezes me dizem que ainda não sabem o que querem ser. não me assustam que não saibam. assusta-me que não pensem nisso. que será o que tiver que ser. ou o desenrascar para sobreviver. e pergunto-me se isso não será a noção do tempo que hoje não há. esse antes e esse depois que deixámos de pensar em conjunto. e uma aula pode ser isso. esse espaço de pensar. assusta-me cada vez mais ver uma geração presa no presente. como eu, professor. mas eu consigo pensar o presente, o passado e o futuro. e arrisco a correr o risco de lhes dizer isso. acho mesmo urgente ensinar o tempo. exista ele ou não. mas explicar. pensar. é urgente.