09/01/2014

||| no meio da floresta existe uma árvore de costas...


||| ... de tempos a tempos vou navegar. navegar é preciso. dizia o poeta. e bem. vou procurar. gosto da palavra pesquisar que usamos com uma modernidade envelhecida. eu vou pesquisar. os meus alunos vão à net. como quem vai ali a um lugar. eu vou pesquisar. sou de outro tempo. do tempo das fichas em papel nas bibliotecas. ordenadas por nomes e alfabeticamente. por isso ainda penso que a informação estará assim. organizada. mas agora não é assim. é pelas minhas preferências, explica-me a política de utilização do google. eles sabem o que eu prefiro, dizem. o pior é que não sou uma pessoa coerente. nem consistente, diz o relatório de utilizador. não sei se é bom, se mau. eu não vou à net. vou pesquisar. e lá vou eu. primeiro em português. e surgem milhares de atalhos. não falo de ligações. falo de atalhos. caminhos curtos. coisas preparadas. como a comida pré-feita. mas aulas. recursos. coisas que fazem isto e aquilo. ou um ou outro "powerpoint" feito por um colega que partilhou num momento qualquer para o mundo. depois faço-o em inglês. e recursos há menos. mais artigos. mais reflexões. mais análises de resultados. guias de implementação passo a passo. é curioso. e faço uma última tentativa em francês. e lá vem uma ideia gira. um desafio feito. um projecto. é curioso. mesmo muito curioso. a língua determina a cultura de abordagem ao que se faz em sala de aula. partilhamos mais, sem dúvida. mas talvez partilhemos mais atalhos do que qualquer outra coisa. o nosso problema é de tempo. falta dele. procuramos coisas feitas. encontramos coisas feitas. noutras paragens encontramos caminhos. mas isso implica construir as estradas. e não temos tempo. foi-nos roubado esse tempo. daí os atalhos. mas o tempo que passo a ver atalhos, penso sempre, permite-me criar eu a solução. o recurso. a aula. deixo a pesquisa. não estou lá, como os meus alunos. vou lá. só. espreitar. pesquisar. obsoleto, eu, professor, pesquiso. e depois desligo. navegar é preciso. saio de casa. vou até ao pé do mar. ando um pouco. ali navega-se. ali, sim, os barcos navegam. e lá está, no horizonte a ideia para uma aula. aquela linha que vemos curva com o olhar. seria tão simples dizer que o mundo acabava ali. ainda é. e vamos de galileu até ao renascimento. e é tão simples. é só preciso navegar.



08/01/2014

||| em tempo de guerra não...


||| ... há violência a mais na escola. não é uma reflexão. é um facto. e queria ter tempo para poder parar e lidar com isso. como professor, de todas as coisas que actualmente se passam na escola hoje, esta é a que mais me perturba. mas de que violência estou a falar é importante clarificar. a violência física, de corpo a corpo, também quando eu era aluno existia. muitas vezes controlada entre pares geria as regras entre comportamentos. sempre fui e serei, como pessoa, contra qualquer tipo de violência. condeno-a. abomino. essa demonstração do factor violência, embora cada vez mais raro no ambiente da escola é determinado por factores de momento. imediatos. um boom que leva a isso. controlar isso é controlar a essência da violência e determinar o que é permitido ou não. mas estou a falar de outro tipo de violência. da linguagem. do comportamento. dos gestos. do ambiente. estamos todos mais violentos uns com os outros. a compreensão, a comunicação, a relação está a perder-se para gestos bruscos ou cansados. e o que me assusta é ver isso traduzido em comportamentos entre os alunos. basta passar um pouco de tempo a olhar pela janela da sala de aula e ver os encontrões, as palmadas e ouvir as palavras. a forma como são ditas. as que são ditas. sim, sempre houve tal representação da violência na escola. essas brincadeiras. a diferença é que não eram uma forma de expressão. de comunicação. e agora são. talvez porque nós deixámos de ter tempo para ver estas coisas. estamos sempre em andamento. de sala para sala. de dentro para fora da escola. daqui para ali. de reunião em discussão. deixámos de ter tempo para ver. de ter tempo para falar. deixámos correr as coisas para essa natureza primitiva das relações no espaço da escola. e ficamos surpreendidos quando isso se vivifica no interior de uma sala de aula. trata-se de um prolongamento do que deixámos de ver. e vemos, nesse momento. e não sabemos com agir ou reagir. perdemos a lógica do todo para ver só aquela parte. aquele momento sobre o qual actuamos. devia ser tempo de pensar nisso. como se tal fosse possível. porque a escola tem que voltar a ser um lugar da palavra. e só assim podemos voltar a ter escola.

||| todos laboram em trabalhos úteis...


||| ... assusta-me sempre que tenho que pedir aos meus alunos para escrever. faço-o com alguma regularidade. folha branca e caneta. sem tema, assunto ou ponto de partida. escrevam. depois das invariáveis perguntas: sobre o quê? uma página inteira? a folha toda? letra grande? posso escrever sobre isto ou aquilo? depois disso, surge o verdadeiro desafio. escrever. qualquer coisa. com princípio, meio e fim. e o que parece um desafio de dificuldade reduzida transforma-se num desafio complexo. é hoje, para os nossos alunos, difícil escrever mais do que cento e quarenta caracteres. e isto não está relacionado com as tecnologias. está relacionado com as ideias. se o tema pedido for, simplesmente, descrevam uma ideia vossa, então é o caos. se as primeiras frases ainda podem sair, desenvolver o pensamento transforma-se num trabalho de hércules. é que o desenvolvimento de um texto, da construção de uma argumentação exige uma articulação baseada no tempo e na forma como podemos passar para o papel [esse monstro imenso e branco] aquilo que queremos dizer. a ideia até pode existir. a expressão e explicação da mesma é que se resume sempre a uma frase. a uma definição simples. a não ter desenvolvimento possível porque se explica em si mesma. e tenho pensado nisso sempre que faço este desafio simples com os meus alunos. repito que o faço regularmente. folha branca. escrevam. penso muito no facto de, em parte, a nossa "descomplicação" e "descodificação" de tudo, das perguntas aos problemas, leva cada vez mais aos alunos dependerem mais dessa explicação com que contam já do que da sua própria capacidade de reflexão sobre um problema. quantas vezes não ouvi: mas é para fazer o quê aqui? nunca respondo. está lá escrito. o esforço de perceber é também um processo de aprendizagem. só no caso de a complexidade do desafio não estar clara tendo a ajudar. mas no desafio difícil de uma folha em branco e uma caneta com a instrução: escrevam [uma ideia ou qualquer outra coisa] nada há a explicar. a não ser o próprio pensamento. mas isso não está na instrução. está em cada um deles, alunos em construção.

07/01/2014

||| do pedaço de papel de rascunho deitado fora...


«...o professor ensinou-nos a viver, a encarar a vida de várias perspectivas. ensinou-nos o que estava a fazer muita falta: trabalhar/cooperar em equipa. e por isso, agradeço-lhe. por me ter dado uma turma que se apoia, que trabalha junta.»

||| ... duas vezes, na minha vida como professor fui temporário. acho que é assim que se designa quem substitui outra pessoa. trabalhei, se bem me recordo, um período e meio de tempo do professor da disciplina. eu era substituto. esta definição é quase tão estranha como o ainda absurdo completo da relação entre professores de carreira e professores contratados. nisto sempre me inclui num lugar estranho. quando me perguntam digo que sou professor em viagem. ficam todos na dúvida e lá ganho o primeiro passo para ser apelidado de louco. nunca percebi nem posso perceber estas artificialidades do sistema que não sejam só uma razão de vã glória e vã cobiça. mas isso nada importa. a césar o que é de césar... importa o momento em que um professor é obrigado a quebrar uma relação com os seus alunos por um qualquer motivo. e falo dessas experiências de substituição como de qualquer outra, mesmo no fim de um ano lectivo, em que tudo isso se quebra. nunca os alunos saberão que os professores ficam com eles em presença durante muito tempo. mesmo não estando. pensam em como estarão. pensam se sentirão a falta que também o professor sente sempre que a relação entre todos cessa. porque estamos a falar de relações humanas. de confiança, partilha e dedicação. e quando por alguma razão isso tudo cessa não se termina uma função. termina-se um contacto humano que se cruzou num tempo único e definitivo. é por isso que todo o sistema [e este conceito de sistema cada vez é mais errado] está a levar a essa ideia [e pior, à prática] de que não importam as pessoas que fazem o trabalho. importa o trabalho e continuar a fazer. continuar tudo a funcionar. e com isto as pessoas são esquecidas. colocadas num plano de coisas. coisas que exercem funções. logo, qualquer coisa serve desde que a função seja completada. vejo isso nos concursos para colocações, nas escolas e na relação entre o ordem do sistema e cada um dos professores. e isso assusta-me. imenso. mais do que assustar, transtorna-me. há de chegar o dia em que vamos perceber [talvez à custa de nos faltar quem mais precisamos] que as pessoas estão primeiro do que as funções. que importa tanto que as coisas continuem como que a escola seja o exemplo social do humanismo que falta a uma sociedade que só sabe continuar sem olhar para quem acompanha o caminho. e a escola não pode ser esse lugar de funções e tarefas. não pode porque é o último refúgio do que queremos para uma sociedade de futuro. mas hoje estamos tão longe disso como nunca. e vamos ficar ainda mais longe nos próximos tempos. longe desse lugar onde as pessoas estão primeiro do que as coisas e as funcionalidades do sistema. estamos a caminhar para esse lugar de anonimato profundo da substituição das pessoas. os anónimos [e é já uma linguagem cada vez mais presente em toda a comunicação se estiverem atentos] fazem tudo funcionar. até um ponto. até ao ponto em que se lembram que são pessoas e tudo se transtorna. a escola neste campo devia ser o grito necessário. urgente. mas não é. nem será. por isso resta ao professor que entra e sai, entrar e sair deixando lembrança. é a sua arma maior contra este lugar de vazio em que o sistema o coloca. ser lembrança. porque nada alimenta mais este sistema do que o esquecimento. e por isso, professor é aquele que ensina. e pode ensinar ao correr dos dias que nada há de mais poderoso do que a memória e lembrança de se ser humano e recordado, recordando. esses dias chegarão. julgo eu, professor, que sim. desejo, eu, pessoa, que sim. mesmo que venham depois de mim...

||| do uso devido das palavras...


||| ... do brio. muitas vezes me pergunto, como professor, para onde foram tantas palavras. quiçá, para um lugar longe acompanhadas pelos comportamentos. tive a sorte de ver nos meus alunos um resto desse mesmo comportamento, quase sempre, presente. qualquer coisa nos serve, agora, pela falta de tempo. ou não serve mas fechamos os olhos. não arriscamos o conflito. o confronto. um trabalho escrito em cima do joelho leva uma nota qualquer mesmo que tenha sido feito em cima do joelho. não devia ser aceite. raramente os aceito. só por uma justificação extraordinária. baixámos as expectativas e com elas arrastámos os comportamentos. e com os comportamentos as palavras. como exigir brio num trabalho proposto se os nossos alunos não conhecem essa palavra e por lógica a sua referência transformada em acção? é simples. nós próprios perdemos essas palavras. deixámos de vestir o papel de professor para vestirmos o papel de funcionário. operários em desconstrução. servidores de um modelo acéfalo e desconfortante. onde esse lugar do resultado como exigência do processo deixou-se ficar vencido pelos números e tempos a cumprir. e se desafio os meus alunos, sempre, com um grau de exigência criativa elevado é por isso mesmo. porque não aceito os mínimos. nunca. voltam para serem recomeçados. refeitos. não me importam os prazos. importa-me o resultado. nem que seja um só trabalho feito num ano inteiro. mas que seja bem feito. justamente feito. não estou a ensinar só o conteúdo e conhecimento que emana do trabalho realizado. estou a ensinar a arte de fazer bem. da dedicação. e do brio. não é simples, nem é o caminho actual. mas é o meu. simplesmente.

06/01/2014

||| da ilusão de que os pássaros voam...


||| ... ó professor, arranja-me isto. isto eram vinte e tal bonecos para um projecto. ó professor, o que acha disto. isto era um quadro pintado com a fúria da idade das coisas sem proibição. há muitos momentos assim. em que os alunos perguntam por algo que não está relacionado com a matéria. ou simplesmente fazem aquela pergunta inesperada. ó professor, porque é que os bispos não usam calcas brancas e só usam aqueles mantos esquisitos? e o tempo é nosso inimigo. e dizemos que isso não é para aqui chamado. ou então para irem ver e voltarem mais tarde. ainda me lembro de uma aluna me ter perguntado porque é que na música grândola, vila morena, a terra era da fraternidade e não da igualdade. e parei a aula. e fomos pensar em conjunto. havia tanta matéria em atraso. tanta coisa para dar [conceito estranho de matéria para dar]. e durante uma aula falou-se só dessas ideias. quando voltei a falar nisso mais tarde eram conceitos simples, claros. de onde vinha a ideia de igualdade. ou de privacidade. porque nem sempre houve lugar à propriedade privada. se os senhores medievais podiam usar toda a terra como sua a privacidade era um lugar distante. o mesmo que hoje questiona o universo virtual por não ter esses limites. e essas aulas, esses momentos, essas "perdas de tempo útil" tornam-se estranhos, cada vez mais. cada vez mais longe de serem reais. eles são muitos. o tempo é contado em minutos. eu tenho que gastar vinte e tal minutos de cinquenta a tal minutos para explicar o conceito de igualdade vs fraternidade. e isso não é tempo útil para o sistema. é tempo gasto. perdido. e já nem há tempo para eles me pedirem isto ou aquilo. há tempo para ser útil. a inutilidade está no pensamento. logo, fora do tempo. fora desse tempo controlado. e assim, todo o tempo útil se torna inútil. e ninguém dá por isso. só eu, professor, que sinto falta que os meus alunos façam aquelas perguntas para as quais não tenho resposta...

||| quanto tempo somos alguém...


||| ... no retomar dos dias de aulas penso sempre em quanto tempo serei professor para os meus alunos. do facto de não haver uma cultura do professor enquanto figura tutorial. o professor dá aulas. ponto. final. não há espaço para receber os alunos. para conversar sobre as ideias que vão tento para o seu futuro ou para um futuro trabalho, projecto ou estudo. o tempo do professor hoje é roubado para reuniões, papeis e coisas que tais. esse tempo, esse espaço é roubado para a clausura da sala de professores onde os alunos não podem aceder. quando, a medo, pedem para falar com um professor é algo feito à porta ou num corredor. lembro-me que nos intervalos sempre ocupei o espaço público da escola. ou a biblioteca. os alunos podiam sempre encontrar-me lá. sempre num espaço público porque a minha reserva de tempo de trabalho era mesmo tempo de trabalho. e essa era uma função que não descartava. o de estar ali. ó professor, está aqui? sim, estou. e o que está aqui a fazer? ver testes? não. estou só a estar. por acaso, estou a ler. mas agora estou a conversar contigo. e em cinco, dez, ou quinze minutos lá vinham uns ou outros. ao fim de algum tempo sabiam sempre onde me encontrar. às vezes na véspera de um teste. outras depois do teste para saber notas. ou sentado no sofá da entrada onde me perguntavam: o que vamos fazer hoje? e dessa pergunta nasciam conversas. sobre os dias, os projectos, o presente e o futuro. o professor não é só uma pessoa. é e devia ser um lugar onde se volta. mesmo depois de deixar a escola. tenho pena de não poder voltar a falar com alguns dos meus antigos professores e perguntar-lhes coisas que me podiam, hoje, ajudar muito. essa cultura do professor como lugar de referência está longe de ser uma realidade. e tenho pena nisso. ao menos, enquanto estou pela escola os meus alunos sabem que sou um lugar onde podem sempre voltar para conversar...

03/01/2014

||| onde é que fica o fim do mundo...


||| ... passei estes dias com um pensamento na mente. vinha na forma de uma frase. o sebastião [nome que me apeteceu usar e não existe] não vai seguir isto. e pensei. tenho pensado. que me recordo aquelas frases ditas por alguns professores meus no tempo em que estava eu do lado de lá e eles do lado de cá. tu não vais ser ninguém na vida assim... e fui. pouco, mas fui. e até já tive professores meus como meus aprendizes em cursos que fui dando por ai. e apeteceu-me dizer que afinal, mesmo sem futuro, lá o consegui construir. bem ou mal, assim foi. e vejo que depois de todos estes anos ainda achamos que sabemos o futuro deles só porque são bons a matemática ou em história. o sebastião só pode ir para ciências. dará um bom médico. e no entanto o sebastião o que gosta é de teatro e de escrever. e vim a encontrar o sebastião anos mais tarde. era actor depois de ter tirado um curso de bioquímica com esforço e falta de dedicação que o levou a cumprir os mínimos. depois saiu do país. voltou com um curso profissional de teatro. e é actor. ganha menos. mas é actor. e eu nunca pensei que assim fosse. eu talvez tivesse essa esperança. mas nós, no conjunto da sapiência das reuniões dizíamos que ele só podia ser cientista. e foi. por breves momentos. esse é o privilégio de se ser professor e dos nossos antigos alunos virem contar quem são agora. e eu fechar por momentos os olhos e saber que afinal, naquela reunião há tantos anos, eu até pensei que ele podia ser o que é agora. ou o contrário. aconteceu-me um dia. um aluno que tinha todo o mundo pela frente. era um miúdo cheio de arte em si. hoje trabalha como técnico num metro de uma grande cidade europeia depois de muito se ter perdido em tentativas frustradas de procurar sempre o impossível. e nós, no alto da nossa sabedoria ainda pensamos que podemos adivinhar o futuro. e não é um futuro qualquer. é o deles. e perdemos o melhor que lhes podemos dar. a mão. as mãos. dizer que somos professores por um ano, um período de tempo, mas estaremos sempre ali, naquele local que é a escola, sempre que precisarem. venham a ser cientistas, actores ou técnicos. que não é nosso dever adivinhar o seu futuro. é nosso dever estar lá, para o que for preciso, para ensinar ou simplesmente para trocar umas ideias. e isso faz de um professor um ser humano aberto ao futuro. não vidente. mas porto de abrigo para a incerteza da vida que um dia cruzaram com outro ser humano. nada há de mais simples. nada há de mais perfeito neste desafio de ser professor.

||| de quem nos esquecemos que fomos...


||| ... às vezes penso que sou profissionalmente privilegiado. há quem lide com a morte, com a violência, com a fome ou mesmo com a solidão. há quem lide com as férias dos outros, com o dinheiro dos outros, com o tempo dos outros, com os pensamentos dos outros. eu, professor, lido com a esperança. nunca tinha pensado nisso. mas hoje ao ver umas fotos de uns alunos no seu primeiro dia de aulas algures num tempo em que não os conheci, com a mediação de uma rede social, percebi isso. que todos os dias lido com a esperança. porque o meu mundo de adulto não é o deles, ainda em construção. ideia que também não gosto muito porque se construir significa perder aos poucos aquele brilho no olhar então mais vale não construir nada partindo daquele momento. a ciência e o saber tira e dá brilho ao olhar. mas não este. este em que, também nós, professores ditos adultos vivemos um dia. em que os amigos eram amigos. em que cada momento era um momento. em que uma descoberta era partilhada. e regresso à esperança. eu, que nunca tinha pensado nisso, penso que nada há de mais perfeito neste desafio de ensinar. a esperança que todos temos que eles sejam muito melhores do que nós. a esperança do futuro que será deles. mas mais importante a esperança que há neles. que reside escondida na idade da inocência. e isso mais ninguém tem. e eu, sou mesmo privilegiado. por habitar esse espaço todos os dias. com eles. um lugar e tempo de esperança. 

02/01/2014

||| de que lado está a janela que dá para o mundo...


||| ... um bom ano para todos/as. devia começar por lhes explicar o que é o calendário gregoriano. ou dizer que sou daqueles que pensa que o tempo não existe. talvez como santo agostinho. se ninguém me perguntar eu sei, porém, se quiser explicar a quem me perguntar, já não sei. assusta-me muitas vezes este lado de mim que não desliga. o que quer ensinar. o de tentar ensinar. o de explicar que as coisas nem sempre foram assim. que o tempo já foi outro. já foi medido de outra forma. assim como tudo o resto. que por cá as casas não estão nomeadas mas as ruas sim e no oriente é ao contrário. que a pintura e a escultura nem sempre foram públicas. e assusta-me que cada vez mais nos esquecemos de ensinar. replicamos. reproduzimos. "damos matéria". "cumprimos programa". e este acto de explicar se perde cada vez mais. que cada vez mais ensinamos o presente. o que está aqui e agora. o que é assim. como se tivesse sempre sido assim. ou então o empreendedorismo como se isso fosse mudar o que aqui e agora já está obsoleto. ainda recentemente fui dar uma aula convidado para ensinar a ler imagens a alunos. peguei no símbolo da nike. a percepção que nada de novo existe é assustadora quando olhamos atempadamente para uma coisa. as asas da deusa grega, lógica de vitória. as mesmas das asas de asterix. e as mesmas asas prometidas por uma bebida energética ou símbolo de uma companhia aérea. e nós já perdemos esse tempo para ensinar que nada disso está desligado. porque o programa e a matéria não permitem tais devaneios. porque deixamos cada vez mais de pensar. tudo se revela novo e óbvio. e somos enganados. deixamos que nos enganem. vamos com a ideia que nos vendem. a nós que devíamos ensinar. a nós que sabemos a razão das coisas. a história das coisas. e geramos alunos de agora. para agora. para consumo. para o momento imediato. reproduzimos quando devíamos ensinar. e depois esperamos por uma [r]evolução. alguém tem que mudar isto. mas nós não. nós reproduzimos para eles reproduzirem. e esperamos deles aquilo que já não fazemos. que rompam com a lógica. que criem uma nova ordem. nós não. nós temos que cumprir. reproduzir. ensinar é um acto perdido no meio de tudo isto. estamos envolvidos nesse, neste, naquele sistema. no sistema educativo. somos mais matéria do que saber. e ensinar precisa de saber mais do que matéria. saber pensar. saber ver. saber. e agora que o tempo corre sempre igual, ensinemos isso aos nossos alunos. talvez só isso. que eles vivem hoje num tempo que nunca foi contado assim. houve um tempo em que era o céu que ditava as regras. o tempo contado pelo nascer e morrer do sol em cada dia. sem horas. sem reproduções de matéria em minutos contados por um tempo que não existe. e hoje, porque tenho tempo, apeteceu-me pensar nisto...

||| nem sempre há algo de novo no tempo que corre...


||| ... neste tempo de pausa há sempre um estranho lugar habitados por mim, como professor e pelos meus alunos, enquanto pessoas. sempre pensei na importância deste tempo. é o lugar do desencontro. o lugar de regresso. eles às famílias, amigos, tempos e vivências fora da escola. ao seu lugar de guarda. de reserva. de desconhecimento para mim que sou só o seu professor e tenho só essa função. mas penso nisso. porque deste lado o mesmo acontece. habito conversas diferentes. não falo de aulas, nem de aprendizagens, nem de nada disso. um desligar lento. de tempos a tempos falo deles. em conversas de amigos ou família. daquele aluno que canta, daquela actividade que fizeram juntos, daquela aluna que quer ser grande antes de tempo ou que o tempo de hoje já é pequeno demais para ela. falo deles mas não habitamos esse espaço comum que a tudo dá sentido. é essa a importância da escola. o nosso lugar comum. o nosso espaço de sentido. de significado. e o regresso está para breve. renovo o pensamento que não serei o mesmo. nem eles. isso é muito bom. não poderemos recomeçar onde deixámos tudo. teremos que começar de novo. agarrar o que já é comum mas recomeçar. e recomeçar é mesmo começar outra vez. nenhum professor deve nunca dar como adquirido que tudo o que viveu num determinado tempo com os seus alunos está lá. pode não estar. pode ter sido perdido. ter sido transformado. ter sido esquecido ou relembrado. contado e recontado. é esse o poder do tempo. e dos lugares que somos...

19/12/2013

||| que o tempo seja de paz...


||| ... há um tempo de pausa. sempre. de recuperação das forças. de ganhar formas de construir novos dias. um tempo para suspender o tempo. que este natal seja um tempo de paz. desejo. e que dois mil e quatorze traga novos dias, claros e limpos. boas festas...

18/12/2013

||| dos lugares humanos do ser pessoa...


||| ... começa a reunião. tenho o privilégio de estar a falar de uma escola onde os professores não são funcionários e onde a arte e o conhecimento são presenças constantes. e fala-se dos alunos. e de projectos. tenho essa sorte. não deixo, no entanto, de pensar que estamos a ver cada vez menos pessoas onde estão os nossos alunos. as grelhas, as notas quantitativas, o desenho mental de um estereótipo e a dimensão técnica transformaram-se em materiais de afastamento do lado pessoal de cada aluno. quando chega, chega pela família. os retratos sociais. num tempo complexo, retratos sociais complexos. mas os alunos não são só alunos. nem são só peças de um quadro social que os condiciona mas não determina. cada vez menos vemos pessoas. cada vez mais vemos alunos. confundimos a função com a essência. dispersamos o futuro nas análises técnicas de presente. somos exigentes ou facilitadores. damos notas. classificamos. e dispensamos aquilo, a matéria de que todos somos feitos. pessoas. e os alunos são diferentes com cada um dos professores. é normal. são pessoas em contacto com uma outra pessoa que também é diferente de todas as outras. e falamos de comportamentos diferentes, caso a caso. os meus melhores alunos são, geralmente, os mais irrequietos dos outros. é normal. eu preciso dessa inquietação que os outros dispensam. o exercício de olhar para os alunos como pessoas, para além do hoje é cada vez mais difícil. é normal. em tudo somos cada vez menos pessoas. cada vez mais elementos integrados numa função. somos cidadãos, contribuintes, consumidores, pacientes, utentes, utilizadores, clientes, professores e alunos. funções. e ao fechar-se a porta de uma qualquer reunião trago sempre isso comigo. somos cada vez mais de tudo. e cada vez menos, cada um de nós, uma pessoa no seu tempo e com o seu futuro livre, limpo, sem função definida mas em construção. e penso nisso... 

||| não há água que não molhe...


||| ... há na dignidade da profissão docente um registo importante. o registo que fica da presença. da imagem da presença. é um espólio de registo que não pode ser esbanjado. porque quando o professor está presente está presente o conhecimento, a serenidade e a seriedade da cultura e do saber em movimento e partilha. e nada há de mais grave do deixar que outros, pelo poder momentâneo ou pela leviandade de uma qualquer visão política e ideológica retirem esse património que pertence a cada professor. ao contrário de todas as profissões o valor de referência do professor não está só na actividade que exerce. está em si, como pessoa e como cidadão. no espaço da escola a presença é a construção de uma identidade de admiração. e o pior que podem retirar a cada professor é isso mesmo. hoje, ao ver tudo o não devia acontecer, reparo que o ganho está ai. em tudo, todos perdem. quem tem poder e o exerce erradamente. quem se indigna e ultrapassa a representação construída para além dos limites de auto-regulação que deviam ser balizas e limites para qualquer acção. nunca mais seremos os mesmo. é essa a vitória deste dia. deles. não nossa. infelizmente.

16/12/2013

||| a caixa escondida no sótão...


||| ... às vezes quando entro na escola, nesta altura sem alunos, oiço dizer: "que bom!..." eu penso: "que tristeza.". é ver aquele espaço sempre cheio de coisas a acontecerem sem nada. só cercada de funcionários sem forma de funcionarem para além das obrigações estranhas de uma burocracia completa. novamente aqui sou um privilegiado. tenho a papelada reduzida ao mínimo. também porque não uso quase papel. tenho um bloco de notas. daqueles que toda a gente tem. um caderninho. lá escrevo o que quero registar dos meus alunos. primeiro nome, turma e mais nada. depois nos tempos em que a escola passa a instituição eu passo a funcionário e isso cria em mim um desconforto completo. deixo de saber o que fazer. falta-me sempre preencher não sei o quê. chamam-me sempre a atenção do sumário deixado por escrever, do formulário deixado por preencher, das coisas e mais coisas que são precisas fazer. e desligo. cumpro para não dar chatice a quem depois as terá por eu não ter feito aquilo que dizem ser um dever de um bom funcionário. é que eu sou professor. e o meu olhar e pensamento nunca vê uma sala de aula como sala de reunião. estou sentado a pensar em aulas. às vezes em salas onde nunca estive. se eu desse aulas aqui faria isto e isto e isto... e chamam-me. olha colega [eu deles e eles meus, dizem] faltam umas cruzes aqui. cruzes canhoto. ó pá, não tenho caneta. não trouxe nada para a reunião. só o caderninho. é pá... e agora? agora peço ao colega do lado a caneta. é que a lápis não pode ser. e faço umas cruzes. tem que ser. cruzes. por anarquismo racional não faço cruzes. faço uma bolinha. apeteceu-me. apetece-me sempre fazer bolinhas em vez de cruzes. o sistema não suporta. não compreender bolinhas. só cruzes. corrector, alguém tem? não. ficam as bolinhas que deviam ser cruzes. vitória, penso! grande vitória. para a próxima faço um triângulo e o computador rebenta... e assim é o tempo em que a escola é uma máquina, uma instituição. voltará em breve, a ser escola, depois deste pequeno intervalo...

14/12/2013

||| o pensamento de liberdade reduzida...


||| ... no meu tempo [para parecer velho e sábio] havia espaço para estar só. e para estar desconectado [esta era daquelas palavras que não existiam]. hoje, nem eu, nem eles temos esse espaço se não o conquistarmos ou reclamarmos. já dizemos: vou estar off. como se tal fosse uma reclamação perante o mundo. eu faço isso com maior facilidade do que eles, os meus alunos. mas preciso, como eles, de o reclamar. é que há um paradoxo nisto tudo. para eu estar comigo preciso não estar com os outros. posso estar comigo e com os outros. mas há um grau de introspecção que só tem lugar nesse espaço de isolamento agora a ter que ser reclamado. mas como se ensina isso? é que o simples acto de eu reclamar momentos como estes está relacionado com o facto de os ter vivido já e de os compreender como úteis. e eles? os meus alunos que nasceram num espaço de tempo público e publicado. num tempo da partilha identificada e permante do estado de alma ou do simples acto de qualquer coisa ser feita. como podem eles reclamar essa acção se ela contém em si mesmo todo o desconhecimento do que, com esse tempo e esse espaço, fazer? e penso nisto porque quero que os meus alunos sejam pessoas para quem todos os tipos, formas e estados de alma sejam instrumentos de inteligência sobre o mundo. porque alguém tem que lhes falar disto. desse universo único e individual que cada um é neste matagal de outros que nos habitam neste tempo de agora...

||| parar é isso mesmo, suspender...


||| ... este tempo sem nada [ou com tanto] já teve muitos nomes. todas as coisas podem ter muitos nomes. esta é simples. acho que agora é interrupção lectiva. para não lhe chamarem férias que parece mal. no meu tempo eram mesmo as férias de natal. e não havia problema nenhum. agora há. as férias são o tempo do ócio. as aulas do negócio [a negação do ócio é o negócio] e por isso não podiam continuar a ser férias. passaram a interrupção que não é a mesma coisa. para as mentes iluminadas a interrupção coloca apenas em suspenso o negócio. para lhe dar continuidade na brevidade do tempo. pois eu, como professor, renego colocar-me e aos meus alunos em suspensão. ou em interrupção. férias sim. dar lugar ao ócio. ao espaço de estarem sós ou acompanhados a fazerem tudo menos a pensar na escola ou nas aulas. assim como eu. desligar. desligar pensamentos, ideias, coisas por fazer. desligar. falar disso como de uma viagem feita há uns bons anos em que a imaginação já é maior do que a realidade vivida. chama-se recriar. e depois ir mais longe. esquecer. ter tempo e espaço para esquecer. eu de algumas coisas que eles fizeram. eles, algumas coisas que lhes tentei ensinar ou que fomos experimentando juntos. tempo para recriar e esquecer. é esse o tempo que deve começar agora. para mim e para eles. nas férias. nestas férias...

13/12/2013

||| quem seremos depois de hoje...


||| ... às vezes, como professor, esqueço o meu lado para além disso. disso que, no fundo, é uma função, somente. talvez não seja esquecer. seja reservar. guardar. mas cada vez mais percebo que cada vez que o faço mais o revelo. e lancei um desafio aos meus alunos no início do primeiro período de tempo em conjunto. escolham uma pessoa que admiram. falem-me dela/e mas sem ser por escrito. é este o vosso trabalho para três meses. podem fazer tudo, de todas as formas, mas apresentem-me essa pessoa. e não disse mais nada. nem pedi para serem criativos. somente não lhes dei regras, limites ou linhas de rumo. dei-lhes liberdade. total. só limitada pela condicionante da palavra escrita. o resultado foi depositar toda a minha confiança neles. e assim foi. e esperei. o que nasceu? uma página de facebook inteiramente criada para falar de uma personagem, um puzzle em jeito de guia de vida, músicas cantadas pelos alunos, colagens de fotografias, um caderno com todos os cortes de cabelo durante a vida de um cantor, uma homenagem belíssima a uma pessoa da família, fotografias encenadas, fotografias modificadas para a semelhança com a pessoa escolhida... e tantas mais coisas. de qualidade. com dedicação. e vi, como professor e como pessoa, que o que dou em cada aula me era retribuído em cada trabalho. e nestes momentos acreditamos na escola. acreditamos nos alunos. acreditamos que tudo ainda é possível porque o que está errado é um sistema que não acredita, não confia e não coloca as pessoas em primeiro lugar. é que isto, sem humanismo, não tem piada nenhuma. e hoje sou mais pessoa do que professor. e foram eles, as pessoas que ocupam a minha sala de aula comigo que me gritaram bem alto tudo isso. obrigado a cada um deles por isso. obrigado, uma vez mais.

||| ainda há espaço para o improvável...


People are strange, when you're a stranger
Faces look ugly when you're alone
Women seem wicked, when you're unwanted
Streets are uneven, when you're down
jim. m.

||| ... os meus alunos são portugueses [quase todos]. no sentido do último dia de pagamento de uma obrigação. e eu gosto disso. é da nossa natureza e ainda bem que assim é. por isso, no último dia do prazo de entrega estou a receber todos os trabalhos de todas as turmas. e é aqui que me sinto um professor com muitos privilégios. eles são bons. ponto final. e eu tenho muita sorte por isso. uma sorte que vou provocando. mas sorte. não quer dizer que todos eles me surpreendam. mas isso é um exercício normal. porque a inspiração nem sempre surge em cima da hora. ou porque um trabalho se coaduna mais com um perfil de aluno do que com outro num determinado tipo de desafio. mas abro alguns trabalhos e lá está. aquele aluno de quem não esperava uma surpresa, arriscou. fez da excelência um desafio e chegou lá. lá, onde a surpresa acontece. lá onde a qualidade se alia ao conhecimento. lá. onde, sem ele ou ela verem, o professor que sou eu, deste lado, abre um sorriso e descansa. fica feliz. diz para si próprio que vale a pena ser professor com alunos assim. que é para eles que trabalha todos os dias vencendo o cansaço ou tantas outras coisas. e as regras do trabalho pouco importam. poucas havia. havia uma maior. a da liberdade criativa. essa, essa única regra foi superada. essa que é a mais difícil de todas as regras. e ser professor nesses momentos tem uma beleza inquantificável. é um lugar de espanto, delícia e supremacia sobre todas as outras coisas. é por isso que hoje só posso dizer obrigado aos meus alunos pelo sorriso que me fizeram nascer em cada trabalho criado. mesmo que em cima da hora. mesmo para além das regras definidas. obrigado por me fazerem querer ser melhor, por e para cada um de vocês...

12/12/2013

||| plutão já não é um planeta e eu também não...


||| ... ó professor, é que o passe dela só dá até à zona c2. depois viemos todos a pé. fogo... e esta imagem ficou-me na cabeça. um dia destes levo um mapa para a aula e peço a cada um dos meus alunos que desenhe o seu percurso habitual num dia. depois, ao fim de semana. e depois traço eu. e os restantes professores. uma teia. uma imagem visual do nosso universo de lugares. e nunca tinha pensado nisto até ouvir aquela frase. regressei a um livro. a dois, naquele momento. ao queijo e os vermes de gindzburg e ao mal visto, mal dito de beckett. mundividências, pensei. eu posso falar de lugares e coisas. de espaços e experiências. o meu mundo está para além da zona c2 ou z3 que vai até à casa da música e volta. o deles também. mas eu não conheço o universo planetário dos lugares deles. e eles não conhecem o meu. por isso é urgente que isso mude. que falemos de lugares em comum. a identificação social, histórica e local é urgente na reflexão sobre o conhecimento enquanto experiência. e nunca posso esquecer isso. por isso, gostava tanto de saber qual a teia dos espaços que eles ocupam, por onde circulam, o que os cerca visual e socialmente. e dar-lhes a conhecer a minha. os lugares por onde passo e o que lá vejo. talvez nem seja preciso um mapa [embora fosse muito curioso visualmente ter essa noção], talvez baste uma boa dose de conversa. estou a pensar nisto...



||| um homem parado no futuro...


||| ... li há uns dias o desafio de pensar a escola em dois mil e vinte e três. dez anos depois de agora. então é simples. aqui fica o meu relatório.
... em dois mil e vinte e três portugal está na segunda fase da mais inovadora reforma estrutural em educação feita na europa a trinta. cada escola é agora dirigida por um conselho de professores que se organizam em projectos educativos locais. cada escola tem o máximo de trezentos e cinquenta alunos e cada turma o máximo de quinze alunos. as escolas são espaços abertos à comunidade em diferentes momentos estruturados para a inclusão de todos os agentes educativos na melhora da escola em todas as suas vertentes. há um currículo nacional com programas adaptáveis quer no tempo quer no conteúdo e essa adaptação é feita pelos professores consoante as necessidades identificadas pelos mesmos numa lógica de autonomia de intervenção. cada escola cria ofertas disciplinares próprias o que dá uma identidade específica a cada uma, quer por área de intervenção, quer por tipologia temática para aprendizagens específicas. o ensino profissional pertence agora aos centros de formação e emprego e são organizados e pedagogicamente coordenados com equipas das empresas o que liberta a escola pública para um vocação mais geral e preparatória para o ensino científico. os professores fazem percursos de carreira de quatro em quatro anos em que está incluída a renovação de conhecimentos científicos e pedagógicos por via de formação organizada por cada escola em função dos seus objectivos gerais e específicos. deixou de haver avaliação quantitativa. os alunos são alvo de um acompanhamento pelos professores e equipas de apoio pedagógico e educativo que desenham um perfil de competências e conhecimentos que resultam numa certificação final com identificação das mesmas assim como de melhorias possíveis para o percurso futuro do aluno. esta avaliação torna vinculativa a forma de trabalho em função do percurso de cada aluno no sistema de ensino. portugal abandonou a avaliação do modelo existente a nível europeu e lidera uma reforma do sistema educativo em ruptura com os padrões da primeira década do século vinte e um...
... até dois mil e vinte e três é o que consigo pensar. não é utópico. é só um caminho. válido como qualquer outro. e sinceramente, apeteceu-me fazer este exercício...

||| o que vê um homem que desenha linhas...


||| ... estava a olhar para o jornal e a ver o rosto de nadir afonso. e lembro-me de uma entrevista feita para rtp há uns anos no meio de uma rua qualquer. dizia ele que era o tempo para olhar o mais importante. que via o que todos viam. mas com tempo para olhar. lembro-me ainda de me surpreender com uma obra em azulejo que está para os lados de cascais e ter referido logo que aquele lugar tinha a assinatura do mestre. lembrei-me ainda de manuel de oliveira nos seus cento e cinco anos. um dia para explicar o seu cinema disse que nos seus filmes as pessoas bebem o chá. há tempo para as personagens no tempo real fazerem e beberem o chá. não há truques para além do olhar em perspectiva. há tempo e disso é feita a magia do seu cinema. do tempo real irreal na forma do registo. tudo isto para falar de uma coisa que me assusta. a ausência da condição em suspenso. da espera. do não saber esperar. do querer e estar sempre no imediato. no agora. no ser tudo para agora. e isso é algo que os alunos, nos dias que correm, não sabem gerir. muitas vezes digo que vamos ter uma aula aqui ou ali, assim ou assado. que vamos juntos ao cinema [e vamos], que iremos visitar este ou aquele espaço. de aula para aula os meus alunos perguntam-me sempre: é hoje que vamos aqui ou ali. a minha resposta, não. e posso ter marcado o dia certo há algum tempo. saber exactamente quando vou fazer o que tenho pensado, programado ou agendado. mas ensinar a esperar é também o meu papel como professor. travar esse consumo excessivo do agora. adiar a experiência. porque isso é tão importante como ensinar a percepção sobre o que se aprende em cada momento. hoje não se sabe esperar. há sempre qualquer coisa para fazer agora. já nem é depois. é agora. e nós transportamos muitas vezes isso para a sala de aula inconscientemente. porque há pouco tempo para um programa tão grande. porque temos que aprender isto, aquilo e mais isto e aquilo. porque o professor tem reuniões naquele dia, nas horas em que devia estar a pensar aulas. porque os alunos terão mais mil coisas para fazer depois das aulas. anulámos o vazio e com isso anulámos a capacidade de esperar. e em contra-mão, sabendo que todas as aulas os meus alunos vão perguntar se vamos fazer hoje o que está pensado desde o início para ser amanhã, arrisco ser um professor que tudo o que faz para e com os seus alunos sirva para que, vivendo eles a experiência de ter que esperar, cada coisa tenha o seu tempo e lugar. ontem, hoje e amanhã...

11/12/2013

||| essa gente, esta gente...


O que é preciso é gente
 gente com dente
 gente que tenha dente
 que mostre o dente
Poema aqui.

||| ... tens uma caneta azul? não uso, desculpa. tens uma caneta vermelha, tenho testes para ver a minha falhou. não uso, desculpa. tens qualquer coisa que escreva? tenho. uma lapiseira. então como é que corriges os testes? não corrijo. então? não faço testes escritos. não? não. então e os trabalhos? faço anotações a lápis. a lápis? e se os miúdos apagam? [por momentos parei de respirar] se apagam, apagam. então e se alteram? [parei novamente de respirar sob o imenso risco de não voltar a respirar novamente]. alteram. mas... e acho que não conseguiu perguntar mais nada. fui salvo por uma alma que entrou e que tinha uma caneta vermelha. nova. brilhante e bonita. lá fiquei a pensar em tudo aquilo. principalmente numa coisa. na confiança perdida. perdemos de tal forma a confiança nos nossos alunos que se fosse possível inventar uma caneta permanente de tinta eterna seria um negócio muito rentável. eu lá continuei na minha. lapiseira e anotações. confio neles. mesmo que venham a apagar tudo o que escrevi. mesmo que venham a alterar tudo o que anotei. não serei eu a não lhes ensinar que o mais nobre gesto [e também o mais fácil de quebrar] é o da confiança entre um aluno e um professor. e isso está nos mais pequenos gestos que fazemos...

||| quem está ao meu lado é mais alto do que eu...


||| ... sei três coisas sobre outro professor que trabalha no mesmo espaço do que eu. que é mais alto do que eu. que tem um casaco que gosto e que tem aulas no mesmo período de tempo do que eu, na porta ao lado. não sei mais nada. sei o primeiro nome. não sei o último. não sei do que gosta. o que fez. o que faz. a desumanização. lembro-me tão bem das fugas para almoço entre colegas quando comecei a dar aulas. ou dos petiscos ao fim do dia e da conversa sobre coisas inúteis que tive há uns anos. agora andamos todos de cá para lá, de lá para cá, desumanizados, como se a vida fosse esse correr sem razão para o cumprimento de todas as coisas que temos que fazer. tudo isto porque estava a dar uma aula e alguém bateu à porta e parou por uns segundos. bateu porque os meus alunos estavam em actividade e o burburinho era [muito] algum. uma aula é um lugar santo. não pode haver barulho. mas nem eu sou santo nem a aula é esse espaço e por isso eles estavam em processo artístico e a conversa era inevitável. ah... está aí professor. desculpe. gosto tanto quando isto acontece. por um lado é por eu ser baixo e no meio deles [os alunos] não me conseguirem ver. depois é porque há uma necessária desconstrução da ordem. um remexer nessa desumanização. porque a ordem nunca pode ser mais importante que a troca de ideias. querem que seja. mas não é. e naturalmente e de forma organizada podemos agitar só um pouco e tudo muda. em duas horas de aula tudo muda. é que na minha aula há tempo para tudo. para esse silêncio. como para o burburinho da conversa. como para o riso ou a reflexão. na minha aula somos seres em construção. e o barulho das máquinas do pensamento faz barulho real. que se ouve na sala ao lado. que pode ser controlado mas não silenciado. e no fim das duas horas fecho a porta. passo por portas fechadas. lá dentro, professores ensinam, alunos aprendem. ideias nascem. deles sei só que são colegas. se gostam de bolo de chocolate ou são vegetarianos, não sei. o corredor cheio de portas faz-me pensar como foi possível chegarmos aqui. e eu sou um professor privilegiado. a escola onde ensino [esta onde partilho estas reflexões] é um lugar mágico cheio de humanidade e arte. mas imagino isto em todas  as escolas. corredores e corredores de portas. com gente dentro. sem se conhecer. fecho a porta do corredor que dá para as salas e sei que dentro da minha sala seremos sempre seres humanos. graças aos deuses e a quem bate à porta por causa do barulho que as ideias provocam.

||| nem eu sei onde aprendi tal coisa...


||| ... não sou um professor criativo. sou um professor cada vez mais pragmático. a única vez que tive uma ideia original e a implementei em contexto educativo, o orçamento não chegou, tive um processo disciplinar, pouco ou nenhum reconhecimento, perdi amigos e tudo porque consegui criar uma coisa que, para quem a viveu, foi para além do que alguma vez tinha sido feito e mobilizou quase quatrocentas pessoas num lugar longe de tudo. errar é sempre uma coisa que fica bem aos outros [a mim]. tentei. não errei, experimentei e acreditei. e isso não é permitido no sistema. experimentar. ou acreditar. por isso desisti das ideias originais. as que tenho guardo-as num bloco de notas que um dia será esquecido. tudo isto porque os alunos me perguntam: ó professor, onde é que vai buscar tanta ideia para as aulas? em jeito de brincadeira respondo o que me apetece na altura. a verdade é que cada ideia ou estratégia que utilizo em contexto de aula resulta de trabalho. não é trabalho no sentido de ter trabalho. é no sentido de ser trabalhado. foram coisas que vi, vivi, experimentei, pensei, ideias que troquei com outros, conversas tidas noutros contextos, reflexões de algum tempo passado num espaço, observações que fiz sobre o comportamento dos outros, pensamentos tidos dos minutos que, por vezes, passo sentado num lugar ou em viagem a observar os outros. e de conversas porque aprendi a rodear-me de gente que fala de coisas e não de não-coisas. gente bonita com ideias. e com tudo isso recrio actividades para ensinar qualquer coisa. o que para mim é importante como professor é que cada actividade tenha fundamento. tenha uma razão e uma lógica. por isso procuro sempre experimentar tudo o que de melhor se faz. de um museu a um lugar de ciência experimental. de um concerto a uma peça de teatro. e com isso consigo transferir para conteúdos de um programa que me indicam para cumprir estratégias que possam tornar o conhecimento um espaço de experimentação e reflexão. é por isso que depois de cada actividade realizada envio aos meus alunos num espaço on-line criado para o efeito a referência do criador da ideia cuja actividade experimentaram. é importante conhecer as fontes. quem criou, porque criou. eu, professor, sou assim só o provocador, o meio de transporte das ideias. e não é isso que é ser professor?

10/12/2013

||| be happy...


||| ... da motivação. do interesse. a disciplina de história não é interessante para uma geração de futuro. o tempo de atenção dos nossos alunos é pequeno. não se interessam por coisas que não sejam do seu universo. temos que fazer um caminho até eles. durante anos ouvi isto. oiço ainda. os meus alunos não se interessam por nada. oiço, constantemente. e do outro lado está sempre aquele imenso mito da motivação e do interesse. eles, com um botão de on e off no braço que eu controlava e ligava o interesse para participar e a motivação para aprender em cada momento. digo sempre que isso será no futuro em que deixaremos de ser pessoas. os meus alunos, como eu, ainda temos vontade própria. e ainda bem. ainda bem que não agrado a todos. ainda bem que as minhas aulas não são interessantes para todos. e ainda bem que muitos desligam durante um aula. são humanos. são pessoas. o mito da motivação é uma das mais perigosas coisas que encontro na educação. e tropeço nela vezes sem conta em textos, desejos e comentários. eu tenho uma regra de ouro que cumpro sempre. parto para cada aula sabendo que terei que fazer o esforço inicial de cativar quem está ali porque tem que estar. não os tomo nunca por desmotivados ou motivados. estão ali, como eu, para ver o que aquilo vai dar naquele dia em ligação com o dia seguinte e o dia depois do outro. nunca começo uma aula tendo em mente a garantia que os meus alunos estão sintonizados na minha aula. às vezes, nem eu estou. dou sempre uns minutos para o burburinho se instalar e depois passar. e parto para cada aula com o desejo único que aquele tempo seja bom para eles e para mim. eu estou a trabalhar. é a minha função. é o meu trabalho. mas é também o meu tempo como professor. e como pessoa. a minha aula também tem que me cativar. não é só a eles. e por isso muitas vezes arrisco mudar tudo o que tenho como certo. ou o que tinha pensado muda de um momento para o outro. eu construo esse tempo no tempo em que acontece. sou um professor que gosta das aulas que dá. gosto de as pensar. penso-as inteligentemente [com aquela dose que me deram desse produto] e penso-as sentimentalmente. penso-as para os meus alunos reais e nunca para alunos em abstracto. nem para turmas. para eles, aqueles. e penso-as para eu as atravessar também. ser também caminhante daquele tempo. sejam elas mais teóricas ou mais práticas. sejam elas desafios ou problemas. o mito da motivação é uma das maiores falácia do nosso tempo e tem um risco imenso. é que seja um tiro no pé. por isso esqueci isso. nem interesse nem motivação. participação e envolvimento. é com isso que jogo em cada aula. é isso que faz com que goste das minhas aulas e tente que os meus alunos gostem também. e mais do que isso, que eu e eles, no final de cada aula, sejamos mais ricos porque aprendemos mais um pouco. é extenuante. mas é melhor do que pensar qualquer ser humano como uma máquina de auto-motivação...

||| see what no one else sees. see what everyone chooses not to see...


||| ... estou a pensar que para a semana tenho uma coisa chamada "conselhos de turma". coisa. lembro-me da minha professora de filosofia do décimo segundo ano que me apresentou pela primeira vez a definição de coisa. chamava-se inês. curioso como passados tantos anos não me esqueci disso. da coisa. dizia ela que podíamos usar a expressão coisa na aula dela pois era uma definição filosófica. só não era permitido o etc... que era coisa de gente sem saber o que dizer. tenho reparado que o etc... tem desaparecido. é de todos termos tudo dito ou todas as certezas. eu não tenho. eu uso muito, etc... e tal. mas volto ao pensamento sobre os "conselhos de turma". acho que deviam mudar o nome para concílios. sim, porque na origem da palavra está a palavra união. e grupo de pessoas reunido. sinceramente até para os outros ficava mais bonito. vou ter um concílio de turma. e o coordenador ou director passava a ter um nome longo daqueles que enchem tanta gente de petulância. do género: coordenador de direcção do concílio de turma. isto num cartão ficava algo de soberbo. o que é que faz? sou professor e sou coordenador de direcção do concílio de turma. brutal. então é que ninguém os parava. qual director de escola qual carapuça. isso tem poucas palavras. bem... mas tudo isto para dizer que fui ao programa oficial que tenho que cumprir. sou professor de história a dar uma área transversal. e deparo-me com o próximo tema [ainda não encontrei um assunto no programa, só temas]. o sujeito bio-ecológico. que medo. quem é que escreve estes programas? o sujeito? mas está bem. gosto particularmente do bio-ecológico. então tudo junto dá uma coisa fantástica. quem é que inventa estas coisas? mas preciso de desenhar ideias, aulas, desafios. momentos. e o que eu gostava que fosse essa coisa chamada "conselho de turma" [que podia ser concílio de turma]? uma discussão de ideias. aberta. olhem, eu tenho que trabalhar este tema porque não me deixam trabalhar assuntos que é isto do sujeito bio-ecológico. e vocês? o que vão fazer. e trocavam-se ideias. articulava-se uma ou outra estratégia. mas acho que vou ficar pela ideia do que podia ser essa coisa que afinal é coisa nenhuma. mas não desisto. vou levar o meu problema [que é um assunto e não um tema] e vamos ver se alguém partilha comigo uma ideia. tentar não custa coisa nenhuma. e talvez um dia as coisas mudem e seja tudo isto uma coisa com lógica. haja esperança, força e futuro.

||| 1x2 quem ganha é o sistema...


||| ... sentei-me e em exactamente dezassete minutos e meio despachei grelhas de avaliação. achei, como acho sempre, um processo inútil. e mais, na última aula que dei a algumas turmas, não falei de avaliação. nem notas. nem nada. foi uma aula sobre o sorriso e o que queremos dizer aos outros [e como o fazemos por diferentes modos de comunicação e interacção social]. a comunicação é sempre um conteúdo fértil para aulas muito diferentes. e esta era a última de um período de tempo marcado pela descoberta. de que valeria estar a falar-lhes de notas. de números. sou sincero, isso fica para o futuro. deles. nesse tempo futuro os números serão algo que os define [espero que não]. mas hoje, comigo, professor deles, é assim. antigamente [não tão antigamente assim] perguntavam o nosso nome e nas fichas do sistema o nome vinha em primeiro lugar. agora é o número. desculpe, pode indica-me o número de onde está a ligar? pode dar-me o seu número de identificação? pode indicar-me o número para lhe poder dar uma resposta personalizada? isso é tudo o que não quero na minha sala de aula. ali eles são eles. os rostos, os nomes. e se querem concorrer entre si podem ser competitivos pela melhor ideia [se é que há melhor], pelo sorriso que deixam nos outros, pelo espanto ou por aprenderem, como ontem o fizemos, de como a arte contemporânea pode recorrer ao conhecimento do ser humano para trocar as voltas à nossa percepção sobre a realidade. as notas? este modelo artificial de classificação fica para aqueles que acreditam que valemos [só] um número. eu não. eu sou professor. importa-me o conhecimento. importa-me o desafio de os fazer pensar. importa-me o lugar da ciência e da descoberta. importa-me fazer deles pessoas curiosas. e isso não se mede. sente-se.

||| when was the last time you felt good about anything?...


||| a citação do título é do filme o resgate do soldado ryan. não gosto do filme. gosto do texto. tive, em tempos, por hábito ler os argumentos dos filmes. este foi um deles. a ideia presente em todas as palavras era sempre a mesma. a honra de não deixar nenhum homem esquecido em batalha. na semana que antecede reuniões e coisas que tais, em que entrar na escola será agora só um lugar para os adultos e a inutilidade do sistema no seu esplendor, faço sempre um balanço. por turma, por aluno, por período de tempo vivido em conjunto. faço-o geralmente em viagem. sem papeis, grelhas ou qualquer outra coisa. em pensamento. num pensamento livre. faço um balanço. recordo cada rosto [não sou bom com nomes] dos meus alunos. um a um. penso no que poderei ter deixado por fazer, dizer ou ensinar. penso no que tenho que fazer no próximo período de tempo em conjunto. e por um momento, nesse balanço detenho-me num aluno. a imagem que surge é clara em mim. como se eu quisesse ter uns braços mais longos para lá chegar e não conseguisse. falta-me aquele. ainda não cheguei lá. ainda não o consegui trazer para a sala de aula. para esse lugar que quero que seja onde se gosta e quer estar. falta-me esse. aquele aluno de rosto preso na indiferença sobre o que se faz na minha sala. não é indiferença. é outra coisa. é talvez uma certa dúvida, ainda. ou impertinência natural da adolescência. ou qualquer coisa. sou e sempre serei um pacifista. mais, sou e sempre serei um abolicionista de qualquer organização militar ou similar. sou um anarquista racional. mas há uma coisa em mim que reservo por ser professor. aquela ideia que ninguém pode ser esquecido. que um professor não pode, nunca, desistir de nenhum aluno. nunca. de nenhum. por mais difícil que seja a tarefa, por mais dura, cansativa, desgastante, por mais infrutífera que se possa revelar, nenhum professor pode desistir de nenhum aluno. porque fazer isso é desistir de outro ser humano. de outra pessoa. e nunca a escola e a sala de aula podem ser lugares onde isso acontece. infelizmente a vida tem lugar para isso. ali, aqui, neste espaço, há uma lição maior para ensinar. os meus alunos são todos pessoas como eu. eu não gostava que um dia desistissem de mim. e eu nunca desistirei de nenhum deles. é por isso que sou professor.


06/12/2013

||| da lei que alguns se libertam no tempo que habitamos...


||| ... não conheci alexandre, o grande. gostava de ter vivido o seu tempo. não sei a razão, mas gostava. assim como gandhi. também gostava de ter vivido o seu tempo. falo deles nas minhas aulas mas com a distância da palavra do homem que estudou história. mas falava de mandela com uma diferença. habitei o seu tempo. tive esse imenso privilégio. e sinto que com ele morreu uma parte da história e do correr do tempo da esperança. morreu uma forma de estar no mundo. morreu o século vinte e uma parte do sorriso que nos torna humanos. hoje ao pensar a aula que vou dar na próxima segunda-feira fui fazer uma ronda pela internet e pelas redes sociais [conceito que não entendo]. e o que vi foi o que eugénio de andrade tão bem descreveu: apetecia morar naquele sorriso. o de mandela. quase todas as fotografias reservaram esse legado. o do sorriso. de um homem bom. de um caminheiro que fez o seu caminho, com e sem erros. humano, como todos nós. e pensei logo nos que hoje usam barbaridades ditas ou escritas para aparecerem ou serem comentados. e apetecia-me levar-lhes aquele sorriso e dizer que ser humano é ser tudo aquilo. aquilo que aquele homem deixou para além da história. e levar isso para os meus alunos é mais do que uma tarefa. é uma obrigação. num tempo em que perdemos homens destes resta-me, como professor, dizer-lhes que é o sorriso e não a bestialidade das palavras que fazem o futuro. para que um dia, no século vinte e um em que vivo e habito, possam os homens ser mais livres e o mundo mais fraterno [uma palavra que está a morrer]. e que possamos todos ter a força que tem um sorriso justo, calmo e pleno de um ser humano...

||| o pai natal vem de bmw azul fechar a porta da minha aula...


||| ... há sempre uma última aula em cada tempo lectivo dividido pelas festividades naturais na contagem do passar do tempo. o mito do eterno retorno dá sentido à vida. naturalmente. as últimas aulas de um tempo que passa. como professor reservo sempre essas aulas para uma coisa muito importante. o dolce far niente. sim, nada. um exercício inicial e depois o nobre acto de conversar sobre o próximo tempo de aprendizagem. ideias para desafios, coisas por fazer, coisas por aprender. nunca guardei para últimas aulas nada de burocrático ou de avaliação. este é um tempo de importância demasiado grande para se reservar para as coisas inúteis. a sua importância está nesse mito do eterno retorno. é que isso não existe neste contexto. não voltaremos ali. eu e eles. não voltaremos a uma primeira aula, ao primeiro desafio superado em conjunto, à primeira surpresa, à primeira dúvida. esse tempo fecha ali. naquela última aula de um primeiro período. e por isso esta última aula do fecho deste tempo é composta como o iterlúdio para a abertura de um outro tempo: o da maturidade do conhecimento. porque o tempo que virá depois deste será mais denso, mais exigente, mais duplo em todos os sentidos. e é preciso fechar este e preparar a vinda do outro. porque o professor tem sempre essa tarefa. o de fechar ciclos e abrir outros. o de marcar o tempo da aprendizagem com esses espaços e lugares de memória que consolidem o conhecimento e permitam, ao mesmo tempo, dar uma lógica à caminha conjuta de que se faz no cumprimento de um ano lectivo. e a lógica do tempo construído em conjunto, entre mim e eles, não está na sequência dos conteúdos que muitas vezes não são apreendidos ou lhes falta, em si mesmo, essa lógica. é feito por mim, feito homem do leme, e eles feitos homem e mulheres de braços fortes para navegarmos entre tormentas e acalmias que desenhamos em conjunto numa viagem cuja rota traçada já teve o seu começo. é por isso que uma aula que fecha um tempo, um ciclo, uma etapa não pode, não deve ser só mais uma aula. deve dar significado a tudo o que foi trabalhado no tempo passado e deixar uma porta aberta para o tempo futuro que chegará muito em breve...

05/12/2013

||| o adamastor não tem barba e veste roupa de marca...


||| ... teorias pedagógicas. modelos pedagógicos. estratégias de sucesso para a aprendizagem. dez passos para ser um professor de sucesso. professor karamba e uma "teatro-terapia" em vinte sessões para ser melhor professor. fórmulas, questionários, kit's. livros de ajuda, auto-ajuda, entre-ajuda, inter-ajuda, super-ajuda. positivistas, construtivistas, psicanalistas. não, não, que eu tenho 137 anos de experiência e o melhor é mesmo isto [piiiiii]. e um gúru vestido de azul que fala de cima de uma mesa sobre mil formas de fazer uma apresentação de powerpoint de sucesso para leigos. e um polvo que adivinha os alunos que vão chumbar antes de começar o ano lectivo. e um homem que vende memórias e sonhos numa máquina de fazer castanhas assadas. sou professor. eu. bem ou mal. acho-me arrogantemente e estúpidamente, professor. o pior é que detesto fórmulas, receitas e gúrus. o pior é que não aceito a experiência como garante de conhecimento. eduardo lourenço, imensamente maior do que eu, diz com razão que a experiência é a arma mais perigosa dos pouco inquietos. a reflexão ponderada sobre a experiência já me deixa um pouco mais descansado mas são poucos os que a fazem. não quero escrever um livro. nem tenho certezas. nenhumas. pelo contrário, tenho e posso vender a minha solução em dois milhões trezentos e vinte e um passos para ter sempre e constantemente mais dúvidas. para quem queira dúvidar de tudo o que faz e como o faz. mas isso ninguém quer... e tenho medo de pessoas com certezas em fórmulas absolutas no campo da educação. brinco muitas vezes que um dia ainda vou ver numa estante um livro, tipo livro de cozinha, para professores. junta-se três alunos morenos, um baixo e um alto, uma pitada de giz, paciência qb e temos uma aula. a verdade é que me sinto cansado de ver isso tudo. ler e ver sempre tanta gente perfeita com tantas certezas. recordo a frase de um poema: e eu tantas vezes vil. eu, professor sem 137 anos de experiência que só tenho este quadradinho virtual para descarregar memórias, partilhar aulas que se calhar só funcionam uma vez ou dizer disparates para além do razoável só consigo pensar na felicidade que será um dia eu ser um desses nobres pensadores que conseguem mudar o mundo e serem professores de sucesso em sete passos. eu que já errei tanto. que paguei e não paguei por isso. eu que feri pessoas sem o desejar. eu que saí ferido, sem o querer. eu, cada vez mais um professor imperfeito declarado. por isso, limito-me à minha vil insignificância de ser na minha aula, com os meus alunos, que partilho as minhas dúvidas e curiosidades. o resto fica para todos aqueles que sabem muito mais do que eu... sou um professor cheio de dúvidas, eu, somente isso... e somente isso tenho para partilhar...

||| da dúvida sobre as coisas simples...


||| ... cada vez mais me confronto com a dificuldade dos meus alunos em trabalharem num registo simples. um desafio simples. uma proposta de trabalho simples. um projecto simples. uma resposta simples. e tenho pensado muito nisto. a verdade é que as imagens que [n]os cercam não lhes tentam dizer alguma coisa. tentam vender-lhes alguma coisa. seja uma experiência, uma promessa ou uma tentação. a somar a isto um mundo virtual que lhes oferece imagens construídas para além da realidade. como se o real não fosse suficiente. não falo directamente dos meus alunos porque tenho a sorte de ter nas minhas salas de aula pessoas inteiras para quem a vivência ainda é maior do que o registo da mesma sob qualquer forma que não seja a real. mas observo. na rua, nas escolas, nos espaços públicos, o universo real visto quase sempre pela forma de um quadradinho digital ou simplesmente "melhorado". ao ponto da inovação ser a realidade aumentada ou melhorada. e como acho que a escola e um professor deve ser sempre um homem no seu tempo com um pé no futuro, acompanho, observo, penso. acho isso fundamental num professor. ser um pensador para além do agora. só assim pode orientar e desenhar soluções úteis em contexto de processo de ensino que tenham alguma validade e utilidade para os seus alunos. estar atento e pensar o caminho de uma civilização, dos modelos sociais, dos ritmos e enquadramentos do trabalho é um papel que cabe, sem dúvida alguma, a quem se intitula professor. a razão é simples: estamos a ensinar para o futuro e não para o passado. este acto de estar atento é tão fundamental para o trabalho de um professor como todos os outros. os alunos esperam isso de nós. que tenhamos uma visão do que pode ser o futuro para os ajudarmos. e se ter essa visão é tão importante, não o é menos a forma que tem a nossa utopia pessoal. o que gostávamos que o futuro fosse. essa partilha, do nosso desejo, da nossa forma de ver e de querer o universo social de futuro é o nosso legado para eles. da diversidade de todas as visões de todos os seus professores será possível a cada um deles criar uma utopia própria. lutar por ela. desistir [ou não] dela. mas ter. uma ideia, um modelo, um desenho de futuro, seu. é por isso que ser professor não é fácil nem é para qualquer um. a escola devia ser uma oficina de futuros. e os professores os seus arquitectos. só assim, por ordem de razão das coisas, poderemos ter um futuro que não seja só o reflexo do presente. tudo isso começa todos os dias, todos os momentos em que se [abre] fecha uma porta de uma sala de aula e se começa a pensar em conjunto...

04/12/2013

||| ai que me esqueci das chaves...


||| ... reparei recentemente que passo grande parte do meu tempo enquanto professor a relembrar os meus alunos de trabalhos que devem entregar, coisas que devem ler, etc. este ano decidi que não o faço. o resultado? os meus alunos lembraram-se a quatro ou cinco dias da data de fim de período que havia trabalhos que foram indicados no princípio da nossa convivência em comum que estavam por fazer. e ó senhor de matosinhos dai-nos uma ajuda que o tempo passou. conclusão para mim: lembraram-se. fiquei feliz. o resto é ter costela portuguesa e tudo ser feito em cima da hora. uma regra de outro para a criatividade e uma regra de ouro para a imperfeição da solução encontrada. mas lembraram-se e fiquei feliz. a preocupação com o que vão entregar é relativa. e eu decidi que o meu papel como professor não é ser aviso constante de responsabilização. se quero mesmo ensinar a autonomia essa implica responsabilidade. e como apresentei o trabalho final de período: simples. pensem em alguém que admirem imenso. para além da admiração lógica. e digam-me tudo o que sabem sobre ele ou ela. a questão fundamental? o trabalho não pode ser escrito. pode ter qualquer outra forma. não pode ser escrito. parece simples. não é. nada mesmo. é um desafio que permite analisar o que apreenderam em todas as aulas deste o começo do ano. e como o ministério que me tutela também alarga prazos e coisas que tais, dei o exemplo e em vez de me entregarem na aula podem entregar até ao final da semana. a vida real nem sempre é assim mas pronto, é natal. e eu espero mesmo que aquele pânico de última hora dê num resultado criativo como só eu sei que eles são capazes de fazer... veremos se estou certo ou errado. agora já sei que não sou um professor post-it [note] e isso deixa-me imensamente feliz porque fico com tempo para tantas outras coisas muito mais úteis. porque ser professor é também esperar mais dos nossos alunos. esperar que eles se organizem ao ponto de se lembrarem. na vida, na vida fora da escola, é assim. ninguém se lembra por nós. ninguém nos lembra do que temos que fazer. e eu sou professor. e posso, simplesmente, ensinar tudo isso. isso tudo. só isso. e esperar...

||| saber não é viver, é saber...


||| ... so if i asked you about art, you'd probably give me the skinny on every art book ever written. Michelangelo, you know a lot about him. life's work, political aspirations, him and the pope, sexual orientations, the whole works, right? but i'll bet you can't tell me what it smells like in the sistine chapel. you've never actually stood there and looked up at that beautiful ceiling; seen that. este é um excerto de uma conversa entre sean e will do filme o bom rebelde. e é parte da forma como penso as minhas aulas. se julgo fundamental e estruturante o saber teórico, acho igualmente o saber pela experiência. o conhecimento das coisas dos outros. das experiências dos outros. dos lugares dos outros. como posso ensinar aos meus alunos um poema e falar-lhes do sons das máquinas ou de um avião de eles nunca o ouviram? posso. ensinar posso. e saber eles também podem. mas sabem. não apreendem. não vivem. não sabem completamente. por isso é tão importante criar momentos. momentos simples como ir andar numa rua e olhar as pessoas até momentos em que se visita um aeroporto e se entra num avião. como posso ensinar a revolução industrial se nenhum dos meus alunos alguma vez esteve dentro de uma fábrica e sentiu todo o ambiente, os sons, os ritmos, olhou os rostos de quem lá está. é claro que isto não é possível para tudo. mas é possível para tanta coisa simples que eu, como professor, posso dar-lhes. não custa nada. literalmente. ou como uma metáfora. o que custa é ter vontade de criar esses momentos para além do programa que fala de tantas coisas que eles não conhecem. o património, a cidade, os espaços, os trabalhos, as funções, as cores, os movimentos, os cheiros não estão só nos livros. precisam de ser vividos. entendidos com o corpo todo. com todos os sentidos. tudo é tão mais simples. e agora que nos roubam esse tempo nas escolas teremos em breve um grave problema. homens e mulheres que acham que tudo o que existe lhes tem que ser explicado. a quem o encanto da descoberta, do espanto e da dúvida é um eco da realidade. e isso assusta-me imensamente. dar vida a viver é o trabalho primeiro de um professor. depois pode pedir poesia, palavras, ciência ou conhecimento. inteiro. não longínquo ou incompleto. e eu, como professor, tento a cada aula construir esse pedaço de experiência que torne cada um dos meus alunos num ser em construção em descoberta do mundo. não custa nada. só um gesto e uma vontade nossa. para eles. para nós. por eles e por nós... 

03/12/2013

||| ó professor, como é que nos vai dar as notas...


||| ... zero a vinte. zero a cinco. zero a cem. escalas. nomes numa folha de excel. nomes numa pauta [e só consigo associar o termo a pauta de música]. uma lista [pior] e ainda a procura de os nivelar [conceito assustador]. dar um nível. julgar. avaliar. está quase a chegar esse momento em que terei que colocar um número em frente a um nome. uma forma invisível de ver os alunos. por números. num número. problema. não fiz testes. ó professor, não faz testes como é que nos avalia? a resposta é simples. cada aula é um teste. um desafio. e faço o registo no final da aula. mental ou menos no meu caderno de anotações. escrevo: a evoluir nisto e nisto. ou atingiu isto e isto falta isto e aquilo. o nome, o primeiro só. sem escala. só uma reflexão. um pensamento de estádio de evolução. de onde estão e para onde vão. e onde estão nesse caminho e o que eu tenho que fazer para os acompanhar. sem números. e gostava de ter uma aula só de avaliação. avaliação, não. reflexão. de poder falar com eles, um a um e dizer: conseguiste atingir isto. evoluíste aqui, aqui e aqui. falta-te trabalhar isto, isto e aquilo. é isso que vamos fazer no próximo período. tens que investir o estudo e treino aqui, aqui e ali. mas não. estamos reduzidos a tabelas e não a conversas. e a uma coisa aberrante chamada [síntese descritiva] onde se coloca tantas vezes: estás no bom caminho, deves continuar a estudar. num copy paste sem identidade. trocava tudo isso porque cada professor pudesse ter uma só aula para reflexão com os alunos. um a um. uma conversa. sem números ou comparação. porque a avaliação se faz tantas vezes por comparação e não por evolução. não posso dar dezasseis a este se o outro tem quinze. e que importa. não estou ali para comparar. estou para analisar a evolução. a construção do aluno num caminho que está a fazer. trocava todas as tabelas, pautas e afins de inutilidade visível [mas muito úteis para o modelo social que hoje temos] por essa conversa aberta. essa reflexão sobre a caminhada. esse desafio dito e visto em conjunto. esse tempo de construção que tanto falta. é tão mais simples dar um número que vale só um número do que conversar sobre o que se aprendeu e o que falta aprender. porque ser professor não é dar números. não é trabalhar com números. é trabalhar com o conhecimento e a aprendizagem. e o momento de avaliação devia ser mais um passo nesse caminho e não uma medição comparada. por isso, uma das minhas aulas será feita assim. vou conversar um a um com os meus alunos. olhando para o meu caderno de anotações. dizer-lhes onde estão no seu caminho e no meu caminho. se estamos a caminhar juntos ou separados. se estamos próximos de aprender mais ou não. que se lixe a tabela. os números não são pessoas. e um dia isso será mais do que óbvio.

||| o que conseguimos imaginar conseguimos fazer...


||| ... sempre defendi que uma visita de estudo não é um passeio. pode ser, mas então é um passeio. por isso defendo, como professor, que sempre que penso numa aula fora de portas o penso, efectivamente como uma aula. tem que ser um desafio. tem que enriquecer. tem que provocar. e acima de tudo tem que fazer pensar para além do que se faz em contexto de sala de aula. assim o fiz nesta aventura de levar os alunos a serralves para um desafio de imaginação e som. o resultado? podem ouvir clicando aqui. nove máquinas inventadas. num atelier [dos mais antigos do serviço educativo de serralves] os alunos são desafiados a criar máquinas imaginadas. a criarem o seu som. a descreverem o seu funcionamento. a perceberem a lógica industrial da construção de uma máquina. a ouvirem. a trabalharem os sentidos mas, acima de tudo, a imaginarem. e num tempo em que se fala tanto de criatividade e da ausência de tempo para esse processo, eu dediquei uma aula inteira à imaginação. se esse processo fosse uma escada a imaginação estaria um degrau acima da criatividade. porque de apenas umas poucas referências nasceram, efectivamente máquinas. mais ou menos conceptuais. mais ou menos completas. mas máquinas. que produziam sons. que se transformaram em movimento do corpo e do pensar. do criar. e hoje, num tempo que se treina os alunos para reproduzir nada há de mais perfeito do que fazer o sentido contrário. reproduzir é de uma inutilidade tremenda se não for acompanhado pelo criar. e o futuro precisa de imaginação. para que não seja esta reprodução do presente de que nos queremos livrar. e isso, isso é uma aula dada em partilha. em lugares e com coisas que não existem. e assim se faz nascer um pouco mais de futuro. e assim se brinca um pouco mais com o que já se aprendeu. e assim se vê o caminho de quem quer aprender a desafiar o futuro. e tudo isto foi feito de formas diferentes. primeiro formalmente. depois, a equipa fantástica que orientou virou tudo ao contrário para o segundo grupo. começámos pelo fim e acabámos no princípio da oficina. talvez seja isto que todos precisamos. olhar a sala de aula de outra perspectiva. há muitas formas de ver o que não está lá... ainda.

02/12/2013

||| não me venham pedir contas, não venham impor-me regras...


||| ... umas alunas ofereceram-me esta flor. começou assim o meu dia. as aulas. e reparei hoje numa coisa que já sabia. cada um dos meus alunos é verdadeiramente diferente. e que é um desrespeito tratar todos por igual. e isso faz-me precisar de os observar. de os respeitar, olhando para ver como cada um deles é. de que é feito. do que é capaz. e de puxar por eles, um a um, de forma diferente. pode ser só uma palavra. uma forma de falar com eles, um a um, por serem eles, seres humanos individuais. e estava a ver os resultados dos trabalhos feitos em modo de atelier no dia de hoje. os resultados. e cada um era um espelho. deles. como uma assinatura. como se fosse possível simplesmente identificar pelo traço do lápis de carvão a autoria. ou dos sons criados. das paisagens sonoras criadas. sim, a aula de hoje foi ensurdecedora. sons. uma fábrica da sons. e cada som criado, cada desafio superado tinha a assinatura de cada um deles. foi impressionante ver isto quando muitas vezes pensamos em estratégias de turma ou grupo. um dado simples, este. eles, turma. nós, professores. mas eles são eles. feitos de eus. cada um. quase seria possível traçar um perfil. um desenho de cada um. desde aquele que acha que aquilo não é para ele até ao que acha que foi pouco e podia ter sido muito mais. e isso é tão fácil de ser esquecido por nós cheios de coisas e mais coisas e mais coisas para tratar, fazer, preencher que nos esquecemos deles. não eles. eus. muitos eus. e isso hoje deixou-me a pensar...

||| vocês fizeram os dias assim...


||| ... há, na vida de um professor, momentos raros. momentos em que somos professores para além do que criamos em cada aula. somos transformados em momentos. e esta aula que foi tudo e uma aula também: surge como se a vida inteira fosse confluir naquele momento. um amigo construído num sim dado a um convite feito há alguns anos. um espaço que considero de referência. uma amizade recente e tão bela que nos visitou ao fim da tarde de um dia passado em serralves. e o que era para ser um aula, foi um momento. e quase não disse nada durante o dia. nada tinha para ensinar ali. ali todos sabiam mais do que eu. os meus alunos, ele e ela que orientaram o dia e quem visitou. todos sabiam mais do que eu. e é curioso. é nesse momento em que todos sabem mais do que o professor  é que ele se sente realizado. eles foram mais além. e isso é algo de indescritível. todos, sem excepção, superaram-se. foram os melhores. foram melhor. muito melhor do que um só professor que só os juntou. e há nesse momento todo o brilho e todo o encanto desta profissão. agora, passado o momento, resta preparar outros. criar outros. e voltar a ser professor em cada aula. porque hoje, neste momento, fui só o mais orgulhoso de todos os seres humanos que apenas observou a vida à sua volta.