||| ... eu gosto muito da palavra disciplina. e de adestrar. quando discuto sobre as aulas e os exames falo sempre esta língua. é preciso disciplina. tornar destros estes miúdos que são uns selvagens. repetir. memorizar. em que ano nasceu d. afonso henriques. dito cem vezes. em voz alta. todos em fila. todos de pé. pai fundador da nação. todos devem saber isto. no futuro será muito útil. mil cento e nove. talvez. talvez? sim, mas não importa. onde? coimbra, viseu ou guimarães ou lá para os lados de... não importa. repetir. disciplinarmente. repetir. mil cento e nove. e no teste a pergunta. em que ano nasceu do primeiro rei de portugal. ui... não está lá o nome. está a função do homem. ui... ó professor o que é para escrever aqui? não responder. eles devem ter autonomia. adestramento capaz de os tornar capazes de responder. não digo. d. afonso henriques não precisa de ser apresentado. toma lá um erro. mil cento e dez. e se não estiver mal? não importa. importa o que eu disse e eles devem repetir. para colocar no exame no final do ano. e nos intermédios. e nos meus testes. e findo a ironia por aqui. estou cansado. de ver isto quase ser uma realidade. talvez em algumas salas já o seja. e recordo um dos meus mestres. ninguém nasce ensinado. dizia. e por isso, se queres ganhar estudantes em vez de alunos tens que os ensinar primeiro a serem estudantes. começa por três coisas simples que serão as tuas regras mais preciosas: atenção, curiosidade, conhecimento. ensinar a estar atento. ensinar a ser curioso. ensinar o valor de saber. ao longo do tempo em que sou professor são sempre estes os meus passos. ensinar a estar atento. a ganhar atenção. sem isso nada se ganha, ensina ou aprende. não vale a pena começar pelo conhecimento se não se começar por ganhar atenção. depois a curiosidade. da atenção ganha nascem perguntas. dúvidas. razões por explicar. e no fim, o conhecimento. não para repetir numa folha de papel. o conhecimento como valor. aquela coisa simples de saber explicar porque uma coisa acontece ou por é assim. aquela ligação dos pontos que até aí eram só informação dispersa. ao longo desta semana vou deixar aqui estratégias e actividades que uso com os meus alunos para trabalhar estas três coisas. a sorte é que ninguém lê isto...
10/03/2014
||| há que dizer-se das coisas...
||| ... uns óculos. dez euros cada um. para ajudar. e o miúdo lá teve os óculos. dizia-me alguém no final de uma conversa que isto se tinha passado numa escola. que se passa na escola, isto, quase todos os dias. cada vez mais. já uma vez escrevi aqui que, para muitos, a escola é a última reserva de identificação com o estado social [providência]. mas o que importa não é isso. é mesmo a ideia que a escola representa e espelha o todo social no seu tempo. eu sempre defendi que a escola devia ser um lugar à frente do seu tempo. um lugar de futuro. de conhecimento e de acolhimento. um lugar de imaginação e de construção dos dias que estão para vir. mas cada vez mais a escola é tudo menos isso. pelo que reproduz como por aquilo que lhe é pedido. estas situações são representativas disso. de como o estado que falha, falta, se desintegra numa sociedade com uma cultura com elevado pendor social deixa tanta gente indefesa. tirando os abusos do sistema [que os há em todos e sempre] a escola até nisso tem dado exemplos únicos de resistência. raramente, nós, professores, dizemos a um pai ou mãe ou educador que procure a escola enquanto último lugar de refúgio que não faremos o que podemos para ajudar. nas listas das funções e tarefas de um professor isso não está contido. não importa. importa que a escola é uma porta aberta. um lugar de uma resistência humanista silenciosa que quase ninguém conhece, ouve ou sabe. e nestes tempos ainda tão complexos e difíceis isso é, em si mesmo, um desenho único do futuro que se constrói. que esse seja um exemplo. uma verdade. um caminho. porque em silêncio, ajudando, faz a escola aquilo que a cidadania activa de todos parece esquecer. acolhe, ensina, educa, promove oportunidades e remenda futuros.
07/03/2014
||| sempre confiei naquilo que conhecia...
||| ... de regresso às palavras. estive a consultar o chamado "estatuto do aluno". não por necessidade mas por curiosidade. ora estatuto vem de estabelecer. um conjunto de regras com "força" de normalização, por assim dizer. sobre a palavra aluno já muito escrevi. a primeira coisa que estranhei foi a palavra aluno ser usar do mesmo modo que contribuinte ou utente. é uma designação. o aluno. essa coisa abstracta. aquele que usa os serviços da escola. e pronto. está tudo definido sobre essa coisa estranha que dá um estatuto ao aluno que não existe. sim, porque criar um estatuto é dar um estatuto. outro dos significados da palavra. e ainda bem que eu não tenho alunos. pois não, não tenho. tenho estudantes. e pessoas. na minha sala de aula não há alunos. há estudantes que é assim que os trato. os meus estudantes. porque as palavras dizem coisas. e tenho reparado nisso. que vai, lentamente, desaparecendo as conversas, dos documentos, das referências a palavra estudante. aquele que estuda. e isso é, mais do que o sintoma dos tempos, um elemento de pura referência à função se formos mais conversadores. estudar. estudante. local de estudo. são palavras em desuso. viva a figura abstracta do utente da escola. o aluno. que vai às aulas. mas não estuda. é um elemento de presença e não de acção. por isso ao fim de duas linhas deixei de ler o estatuto do aluno. talvez um dia veja nascer o roteiro do estudante e eu lá vá ler. que não seja eu, professor, a matar as palavras que importam e que guardam aquilo em que acredito. a escola ainda deve ser um lugar de estudantes. todos. professores e alunos. e que não apaguem mais as palavras. que estas tenham estatuto de referência. que estudar seja algo de nobre. de válido. de digno. de central. faltam pois, estudantes, na escola de hoje. estudemos bem o assunto e veremos que assim o é...
||| ainda demora muito...
||| ... a escola ensina. a família, educa. de tempos a tempos oiço esta lengalenga. e quando a escola não ensina e a família não educa? ou quando é pedido à escola para educar e ensinar? e porque se persiste nesta coisa como se fosse uma regra. que cabe à família educar e à escola ensinar. porque o exemplo tem que vir de casa. é mais uma lengalenga a somar à anterior. são verdades presentes, estas. mas também o seu contrário. porque o professor educa pelo exemplo. mesmo sem ter que educar. o exemplo do que é, de como actua, de como ensina. e para muitos miúdos esse é o único exemplo de referencia que vão ter até à sua idade adulta. e mais uma lengalenga surge: mas não pode ser. não compete à escola substituir a educação que os alunos deviam ter, nem as responsabilidades que cabem a outras instituições. pois é. é verdade. mudemos o mundo, então. porque na minha sala de aula há miúdos que precisam de mais respostas sociais do que aquelas previstas no regulamento da escola. e o meu trabalho é ser professor. ou não? é ser cidadão. ou é mais do que isso. ser humano. e nas coisas que posso, naquelas que estão dentro do poder do meu gesto e da minha mão, eu faço. eu sei. podia esperar pelas comissões, pelas reuniões, por descartar aquilo que não são tarefas minhas. porque eu sou professor e no meu contrato diz: leccionar. não diz: educar. e repenso tudo. antes de ser professor sou habitante desta terra e deste tempo. e eles são miúdos. e se todos descartamos tudo para os outros e os outros não tiverem resposta ou descartarem para outros tantos aqueles miúdos serão adultos sem ninguém que os ensine e eduque. senta-te direito. pede, se faz favor. diz, obrigado. não se fala alto. podes argumentar sem discutir. não cai o carmo e a trindade se em simples gestos eu der as palavras e as coisas que lhes faltam quando todos achamos que o sistema vai encontrar uma solução e nada é da nossa responsabilidade. há limites, sim. mas não estes. estes das coisas simples, imediatas que estão na minha mão como ser humano e professor. eu sei. estou errado. não importa. eu vou continuar a ensinar e a educar dentro dos limites do que me é possível. podem continuar. a festa segue dentro de momentos num futuro qualquer.
06/03/2014
||| disse-o com um sorriso honesto...
||| ... ó professor posso hoje não fazer esta actividade? olhei para ela. miúda simpática no seu tempo. quando é assim sai-me sempre a pergunta: ok, mas estás bem? olhou para mim. vi no seu rosto qualquer coisa de apreensivo. deixei para o fim da aula a resposta. a andreia é uma aluna presente. quer aprender. está ali por curiosidade. no final da aula lá fomos trocar as palavras que ficaram por dizer. ando cansada professor. então? tu ainda és tão jovem e já cansada? [digo quase sempre eu com aquele ar paternal que não me assenta nada bem]. professor, depois das aulas tenho explicações. depois das explicações inglês. depois do inglês tenho música. e depois ainda vou fazer trabalhos de casa depois do jantar. e isto é no dia em que não tenho ginásio. olhei para ela. no meu tempo, disse, depois das aulas eu ia a pé até ao centro do lugar onde ficavam as coisas boas e ali ficava, no fim da tarde, a ver as coisas passarem com os meus amigos. acho que só tive uma vez explicações. foi no décimo segundo ano e foram duas ou três para falar de matéria que não tinha dado em filosofia. ó professor, o problema não é ter estas coisas todas. é que não vejo os meus pais. os meus amigos tenho que falar com eles no telemóvel. estou cansada. cansada de não ter coisas para não fazer. olhei novamente para ela. vi-a como uma adulta. no limite das forças de tanto ter para fazer e de ter tão pouco tempo para não fazer nada. é que no meio de tudo aquilo ainda tinha a escola. e os irmãos. e mais umas coisas em que se tinha metido por fazer parte da associação de estudantes. não era uma miúda. era um coisa qualquer em forma de gente que andava de cá para lá e de lá para cá. uma coisa que estava num lugar e depois no outro. sem tempo para si. para a construção do si de que fala, tão bem, damásio. esse tempo ausente de tarefas para a apropriação da construção do eu. para pensar. e o desespero dela era esse sem o saber. pedi-lhe um dia vazio de coisas. que fosse para ela esse desafio. disse que não podia. que os pais pagavam tudo e que não podia faltar. disse que a dispensava da minha aula durante uma semana só para ela ir fazer o que lhe pudesse apetecer. não aceitou. não sabia o que fazer quando nada havia para fazer. o tempo passa. ela, uma miúda que é tudo menos isso, está cansada. estará cansada. será uma adulta, exausta. e eu, ao fechar a porta da sala pensei no que será esta sociedade de gente sempre sem espaço para o vazio cheio de percepção de cada identidade individual no futuro que aparece cada vez mais próximo. gente cheia de nada, andando de coisa nenhuma em coisa nenhuma. assusta...
||| este homem que apenas nasceu...
||| ... da visão das coisas. não gosto de usar este espaço para falar de política [ou ausência dela] no que diz respeito à escola e ao sistema público de ensino. não gosto porque não me interessa como professor mais de metade das coisas que se vão esgrimindo entre leis, decretos e regulamentos. interessa-me sempre a luta pelos direitos sociais e profissionais porque são, tão meus, como de todos. mas hoje parei para ver o todo. aquele todo em forma de modelo que desejam para a escola. dos concursos às autonomias. das palavras aos pedaços. e o que surge aos meus olhos, enquanto elemento desse gigante sistema que a todos absorve é mesmo que estão a despedaçar a escola. ao mesmo tempo que atiram para dentro da comunidade escolar tudo o que outros deviam conseguir resolver, estão também a despedaçar a escola. explico. como se cada coisa fosse uma peça isolada. a direcção é uma peça [manobrável e dominante], os professores [são peças movíveis], os alunos [são milhares de peças separadas umas das outras e vistas como um todo uniforme e disforme] e tudo o resto é cenário. peças. não pessoas. peças. peças que podem ser vendidas. trocadas. cujas regras de encaixe podem ser transformadas de um dia para o outro sem apropriação por todos dos novos caminhos. lembra-me aquelas empresas vendidas aos pedaços como se fossem coisas que ninguém sabe muito bem o que são. e por isso a escola é hoje isso mesmo. um lugar onde pedaços do que um dia foi uma comunidade co-habitam. muitas vezes já sem os restos de qualquer tido de identidade ou forma. como se fossem uma caixa esquecida de peças por arrumar. e se a política é a gestão do [im]possível urge chamar alguém que retome o que é importante. dar significado. dar uma política de razão. dar uma forma ao que hoje está despedaçado. ou corremos o risco da escola nunca mais ganhar, novamente, a forma que precisa para enfrentar os desafios para o qual foi criada...
05/03/2014
||| toldam-se os dedos de onde corre a esperança...
||| ... há momentos assim. em que no caminho nos sentamos numa pedra para descansar e pensamos se vale a pena ir contra a corrente. lutar pelo que se acredita para o ensino e a educação. momentos em que o cansaço é maior do que as forças ou a vontade. em que nos perguntamos que conquistas foram feitas. e vemos percebemos que muito daquilo em que acreditamos ainda está tão longe. às vezes, cada vez mais longe. em que perdemos pessoalmente muito mais do que ganhámos. em que falhámos tantas vezes e com tantos a quem só queríamos ajudar. e ficámos como os maus da fita. e percebemos que por muito que se faça as pessoas não mudam. que o sistema é maior do que nós. que às vezes a solidão e a ausência de apoio são avassaladoras. que queremos ter onde nos agarrar mas nada resta senão o nosso corpo já desgastado de tanto caminhar. que é sempre preciso empurrar. e que estamos a empurrar uma montanha. e ela não se mexe. nem um milímetro. momentos em que pensamos que somos nós que estamos errados e todos os outros certos. em que vemos a corrente do rio das coisas inúteis a passar por nós e temos a tentação de embarcar também como os outros que por lá andam por nos dizerem que é tão mais fácil assim. há momentos em que duvidamos do que andamos a fazer há dez ou mais anos por ver que tão pouco ficou feito. é nesses momentos, que todos temos mesmo quando dizemos que não os temos, que reparamos na pedra onde estamos sentados. que olhamos para o caminho feito. que vemos a estrada cheia de pedras com dentes [como a da aventura de joão sem medo] e o pensamento ganha nova forma. a pedra. aquela onde nos sentamos. estava lá. para nos dar repouso. para nos suportar. para nos aguentar. deu-nos o descanso preciso. e nada mais era pedido. nada mais podemos reclamar para nós. por termos esse momento assim, podemos continuar. porque esta não é a escola que eu quero. e não me importa que outros gostem desta escola que agora existe. eu não gosto. e vou errar, falhar, ser apontado como louco ou ignóbil. serei tudo isso. e trarei cada erro que cometi comigo como cicatriz. e serei apontado na rua, alvo de insultos, risos ou reparos. ou terei pequenas conquistas que ninguém ouvirá falar. não importa no caminho que saibam quem nós somos. quanto mais formos nós o centro da atenção menos será relevante aquilo que conquistamos. por isso saberei que serei sempre alguém atrás do cortinado. seguindo o caminho. desejando que o mundo da escola seja um espaço de verdadeira liberdade e encontro. custar-me-à a vida inteira. não verei, certamente, o resultado. ficará para outros. com os louros que outros sabem receber. por muito que o cansaço seja real maior é o sonho. sempre. porque a escola é a minha casa. porque cada aluno é parte do meu caminho. porque um dia, quando terminar de dar os meus passos na minha luta, direi que segui aquilo que acreditava e não aquilo que outros queriam fazer de mim como professor. e por isso, há momentos assim. há. mas há sempre aquela clareira para descobrir no caminho onde sei que vou seguir. e sei que a vou encontrar. porque é sempre maior o desejo de ver renascer a escola como lugar de alegria e pertença do que qualquer falta de alento que só precisa de uma pedra, cinco minutos de descanso e um sonho sempre no bolso para me guiar. enquanto houver estrada para andar...
||| da vida do convento sabe...
este texto tem bolinha vermelha,
no canto superior direito.
||| ... sabe, o seu filho não pode dizer palavrões nas aulas. e aquele homem, pai, de olhar atento e corpo de trabalho intenso e duro olhou para o filho, à minha frente e disse: o cabrão do miúdo nem vê que me mato a trabalhar e ainda me dá esta carga de trabalhos de ter que vir aqui à escola. serenamente olhei para os dois. percebi que a minha conversa teria que ir um pouco mais longe. que me teria que transformar num educador no sentido lato do termo. isto não vai lá com falinhas mansas professor. ele quando chegar lá a casa vai ver. e eu tinha pensado várias vezes em falar novamente com a mãe. muitas vezes sentada no exacto lugar onde aquele homem se sentava me tinha dito que não sabia o que fazer dele. que também dizia palavrões em casa e que desrespeitava as regras. pediu-me ajuda. olhei serenamente para o pai. e para o filho. pensei em tudo o que podia fazer para desconstruir aquele ciclo, quebrar aquela corrente. decidi dizer que ia fazer uma aposta de um jantar com os dois. que se ele o filho não dissessem palavrões durante um mês eu oferecia-lhes um jantar. foi o que me passou pela cabeça. o homem olhou para mim desconfiado. desculpe professor é que quando eu me exalto digo estas coisas, está a ver? estava. a ver a ouvir. e rematei. sabe, ao longo da minha vida como professor já vi e ouvi de tudo. professores que pedem e marcam falta a alunos por não terem manuais quando o que falta lá em casa é comida. pais que tendo todas as condições não reservam tempo para os filhos. pais que tendo muito pouco ou quase nada dão tudo o que podem para os filhos fugirem da condição em que vivem. famílias ditas normais. famílias ditas modernas. mas sabe o que mais importa em tudo isto? a forma como se dizem e fazem as coisas. é que quer queriam quer não, aqueles que educam são aqueles para quem os miúdos olham como exemplo. nunca se esqueça disso. e no final de mais algumas palavras lá nos despedimos com a aposta feita. foi política e pedagogicamente incorrecta a minha acção. eu sei. mas foi o que consegui. o que me pareceu válido. o que serviu. ao despedir-se, o pai, virou-se para mim e disse: desculpe lá estas merdas professor. sorri. a verdade é que um mês depois lá fui jantar com os dois...
04/03/2014
||| cometi alguma tropelia imperdoável...
||| ... dizem que hoje é carnaval. nunca fui muito da celebração destas coisas mas sim da alegria. porque a escola tem que ser um lugar de alegria. mas hoje, tirando nestes dias em que os mais pequenos ainda se libertam do cinzento dos dias foi tirada da escola essa expressão num local que devia ser o último, a reserva, para esse lugar de encanto. há palavras que já não habitam a escola. júbilo. alegria. conforto. e é curioso que assim seja. porque desapareceram da escola coisas simples como o acto de brincar. o recreio. a distracção. o divertimento. tomaram o seu lugar a responsabilidade, o regulamento, o ridículo [no mau sentido do termo]. aceitou-se a diversidade tolerada mas não o comportamento diferenciado. se alguém dá uma boa e saudável gargalhada todos olham como estranheza. porque é normal um certo grupo usar o cabelo azul mas não é normal rir a bom rir. e nesse correr dos dias estas celebrações medievais de registo do tempo, na linha constante do mito do eterno retorno, fazem cada vez menos sentido porque também fazem cada vez menos sentido todas as representações sociais simples que ligam o homem ao tempo. principalmente porque os restos da cultura cristã de um ocidente que perde todos os dias a sua identidade é uma realidade cada vez mais avassaladora. hoje ninguém ri. todos fazem lol. sinistro. assustador. devia haver um decreto-lei com força de urgência para reclamara a alegria para e na escola. e o lugar ao ridículo saudável. ao sorriso. para que a escola ganhe, de novo, o lugar de conforto para todos. para nós professores e para os nossos alunos. e que as datas de celebração não sejam só isso: datas. sejam vivências. falta tanto viver o tempo da escola como tempo de alegria. e isso anda arredado de todas as discussões de tão cinzentos e nublosos que andam os dias entre os muros da escola.
||| atravessamos descalços a planície vermelha...
||| ... a mais dura das realidades. não tenho tempo para ensinar os meus alunos. não é para lhes dar aulas. é para os ensinar. imaginem o cenário simples: da crise de mil trezentos e oitenta e três/oitenta e cinco (século quatorze) até à crise de dois mil e oito. em nove meses (de tempo útil). três aulas de quarenta a cinco minutos por semana. turmas de trinta alunos. exames para os quais os alunos devem estar preparados. e mais tudo o resto. conclusão, não tenho tempo para ensinar. tenho tempo para outra coisa qualquer. que não é ensinar. é qualquer outra coisa. e penso que henry ford não ficou conhecido por ter inventado o ford t. ficou conhecido por criar a linha de produção. e só posso pensar que o professor é hoje aquele operador do filme dos tempos modernos de chaplin. o homem que aperta porcas. ou aquele que controlo o botão de velocidade da produção na linha que não pára de passar. o pior é que os miúdos não são produtos. nem iguais entre si. nem a minha sala de aula é uma máquina. nem eu sou um operador. mas a mais dura das realidades é que hoje os alunos na escola não aprendem. repetem. na melhor das hipóteses. reproduzem. lembra-me a frase do ministro da educação numa época em que as crianças ainda não tinham direitos: não são pessoas. são espelhos. só devem reflectir. e não era de reflexão. era de reprodução. mas a escola é o lugar onde se ensina. e ensinar é um exercício de liberdade. onde há tempo para parar uma aula e tirar dúvidas. onde há tempo para pensar. para perceber. para compreender. para entender. para repensar e pensar e repensar. por isso, hoje fazemos tudo menos ensinar. devolvam o tempo necessário para isso. para esse único acto nobre que resta a uma escola que se desfaz a olhos vistos. ensinar. devolvem-nos o tempo que nos roubaram para a a escola seja, simplesmente, uma escola novamente.
03/03/2014
||| quantos-queres...
||| ... o futuro. sim, sou professor e se há coisa que me persegue é o futuro. porque é para "quem" trabalho. para o futuro. ele, esse senhor imenso e sempre presente. é simples. é o destino dos meus alunos. e imagino o futuro como este senhor que apresento na imagem de hoje. de sorriso feito. mas sério. imaginado. não sei a razão. sempre foi assim. um quase d. quixote mitológico. o senhor que acolherá os meus alunos. eu sei, é estranho. mas não me incomoda que pensem assim. é assim que consigo, aula a aula, procurar ajudar os meus alunos. porque não os estou só a preparar para o agora. estou a preparar cada um deles para um futuro que não conheço. no qual habitarei parcialmente. no qual todas as minhas capacidades estarão mais debilitadas na oportunidade e mais ricas na experiências. o contrário deles. e tudo isto por causa de uma outra coisa que ficou no meu pensamento de uma discussão que ouvi. era sobre tablet's, tecnologia e o "saber escrever com lápis, caneta e afins". sinais dos tempos que estas discussões emergem cada vez com mais frequência. e penso sempre que há três hipóteses. a que o senhor do futuro seja um homem tecnológico e digital [até inventarem melhor] e os usos das tecnologias hoje ditas novas serão fundamentais como competências para os meus alunos. outra é que o senhor do futuro desligue a ficha eléctrica e então o domínio e controlo das tecnologias ditas digitais serão somente memórias do passado e nada mais do que saber escrever, ler e contar será, a par da imaginação, o mais importante na salvação e vivência humana. a terceira é a co-existência. como hoje. que me parece a mais óbvia. e para isso precisamos de ambas as soluções para conseguir caminhar ao lado ou à frente do senhor do futuro. e por isso obrigo-me sempre a este exercício estranho de desenhar e estar atento a esse lugar que ainda só é imaginado. e custa-me sempre o radicalismo do agora perante esta coisa estranha de tomar um lado da barricada no que diz respeito ao uso das tecnologias, como no que diz respeito às teorias pedagógicas que por ai ainda. quando eu era aluno nunca os professores do meu tempo poderiam saber como seria o meu presente. tive a sorte de muitos deles o imaginarem e me terem preparado para ele. o que me deram como melhor ferramenta? a moderação humanista da visão do presente e do futuro e uma imensa dose de curiosidade e imaginação. curiosamente nenhuma destas competências vinham numa pen drive...
||| há no tempo de pausa uma pausa no tempo...
||| ... fiquei a pensar nisso. depois de um fim-de-semana em conversas com colegas de várias partes do país fique com aquela questão no pensamento: se nós temos hoje menos atenção, se nós também "desligamos" por vários momentos numa troca de ideias com que fundamento reclamamos o mesmo dos nossos alunos falando tantas vezes em défice de atenção? devia ser algo em que pensar. e é verdade. devia. deve. a linha que nos separa tende sempre a ser ténue. sei que alguns apostam na "teoria da conspiração" do "multitasking". outros, no conectivismo. outros apontam para a falta de educação. outros para a concentração. outro para a meditação. eu não vou por ai. vou pela curiosidade. tenho dito isto vezes sem conta. deve ser por estar errado. deve ser por isso que o que digo não faz sentido. a curiosidade foi abandonada como estratégia pedagógica. como instrumento para o conhecimento, observação, atenção. despertar a curiosidade. trabalhar a curiosidade. trabalhar o espanto. construir processos de atenção para ser curioso. estar curioso. e com isto, atento. eu sei. é preciso ser corredor de fundo num tempo do imediato. das soluções imediatas. porque como todos nós, professores, sabemos a estratégia da curiosidade exige pelo menos um ano lectivo para conseguir ser consistentemente conseguida junto dos nossos alunos. e ninguém está para soluções que levam um ano lectivo a serem implementadas para, provavelmente, nem beneficiarmos delas por aqueles alunos passarem a ser de outro professor qualquer no ano seguinte. eu sempre trabalhei assim. talvez por ser um maratonista nesta coisa de procurar mudar o mundo uma pessoa de cada vez. nem que nunca tenha conseguido mudar nada a não ser a mim mesmo. mas custa-me ver que na casa onde devia habitar a curiosidade como estratégia para a atenção habita tudo menos isso. e até tem uma receita. aquela coisa que muitos desejam e procuram. o pior é o tempo. o tempo que demora. as conquistas que são precisas fazer. e aquelas que não se conseguem de imediato. e quem perde, somos nós. todos. perdemos a vontade de estar atentos e ver o que nos rodeia, realmente...
28/02/2014
||| da evolução ou como perdemos o pé...
||| ... ir dar uma aula é como entrar no mar numa praia que não conhecemos. sempre. facilmente avançamos demais e perdemos o pé. isto no que diz respeito ao conhecimento científico. tantas vezes oiço: a história é sempre a mesma. não muda. e nada de mais errado existe nesta assumpção de que as coisas foram sempre assim e assim serão. o acesso constante a informação com um grau de rapidez e facilidade muito mais por parte dos alunos, assim como da nossa parte, colocam-nos perante um dilema. um dilema simples de resolver. mas um dilema. ou as verdades que nos ensinaram há vinte anos atrás num banco qualquer de uma universidade qualquer permanecem para nós válidos e imutáveis ou percebemos que qualquer ramo do conhecimento é uma ciência em construção e procuramos ser professores em actualização permanente. a primeira é mais fácil e cómoda, a segunda mais difícil e exigente. mas a verdade é que os tempos são para a luta permanente pelo saber. é que a verificação dos factos, em história como em qualquer ciência é hoje muito mais fácil. e podemos sempre ser confrontados com aquele aluno que procura o conhecimento de hoje para nos perguntar do fundamento daquilo que dizemos. a verdade, por exemplo, é que eu sou fruto de um misto do que foi a influência da cultura francesa com o início da influência do conhecimento produzido pelas diferentes fontes em inglês. mas sou li e estudei muito mais em francês do que em inglês. falo de livros, filmes, coisas que datam dos anos setenta. mas vou sempre procurar o que hoje se diz, faz, investiga. hoje. porque é hoje que ensino. e o mundo mudou. a escola mudou. eu e eles, os meus alunos, mudaram. e tudo isto importa porque a sala de aula deixou de ser um lugar fechado para o mundo. hoje este entra pela porta, pelas janelas, pelos espaços com a uma força avassaladora. e o professor, no seu tempo, tem que conseguir ser e pensar para além do que hoje tem nas mãos como manipulador da ciência que conhece. e parece que não mas muito do problema do "desligamento" da relação de todos [alunos e professores] com a escola passa por aqui. mesmo que a ninguém isto importe. mas passa.
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