||| ... esta semana é [im]possível. por estar dedicado exclusivamente a uma utopia não estarei por aqui. estarei aqui de passagem, entre passagem e onde começa o escuro da cortina do palco pois sempre fui e serei alguém que gosta muito mais dos bastidores. talvez nos encontremos um dia numa utopia qualquer. para a semana, cá estarei com mais coisas [im]perfeitas...
31/03/2014
28/03/2014
||| do telefone que não fala...
||| ... esta foi uma conversa de cinco minutos. ó professor que marca é o seu telemóvel? olha, nem sei. só uso para falar e pouco mais. para quê? para falar. ah... 'tá bem. não usa a net? uso. no computador. ya, professor mas no telemóvel também dá. o pá! até ai eu sei. e uso. ah... 'tava a ver que era só para falar. já ninguém fala ao telemóvel. não? não. há uma cena que é o whatsapp. ok. isso também sei. tipo, as sms já não se usa. não? não. falar também não. ok. então não seria bom mudar o nome do telemóvel para outra coisa. ya, professor: smartphone. pois... está certo. quer dizer que para falar agora não se fala, escreve-se. e não pelas sms. ok. percebi. então o telemóvel serve para quê? para falar. ai... não estou a perceber. falar mas sem falar. é tipo escrever e dizer as coisas. então não seria melhor falar. não, isso dá muito trabalho. falar? ya. ok. está tudo dito...
||| do impossível se fez algo...
||| ... apetece dizer só isto no quase final de mais um período lectivo. do impossível se fez algo. e a palavra que se ouviu mais foi: sobrevivi. o cansaço é maior do que alguma vez foi. somos pessoas. todos nós, na escola. somos pessoas. e por o sermos é que ainda não desistimos. estamos perto. acho que é mesmo só pelos miúdos que não desistimos. tudo o resto é inútil, impossível, destruidor. falta já a vontade. apetece mandar tudo à fava e não cumprir mais uma ordem inútil que chega em forma de grelha de excel. excrever: deixem-me ensinar. hoje só apetece dizer isto. nada mais.
27/03/2014
||| uma nota só...
||| ... ó professor que nota é que me vai dar? o josé tem destas perguntas. miúdo preocupado, ainda. eu não te vou dar nota nenhuma. não dou nada. ó professor, fogo, diga lá. olha, fazemos uma coisa. vais pensar em como deves fazer essa pergunta e eu digo-te. os colegas dele olharam para mim com aquele ar de que eu era aquele feiticeiro que na encruzilhada pergunta um enigma complexo para indicar um caminho a seguir. para dizer a verdade só me falta o chapéu. há nos alunos um conceito que o seu trabalho não tem um valor em si mesmo. que é o professor, por algum capricho, sapiência infinita ou coisa parecida que determina [e ainda por cima numa grelha qualquer de que ouvem falar] que define o valor do seu trabalho sem que eles próprios o consigam definir. pode parecer estranho mas esta omnipotência da avaliação feita pelo professor sempre foi coisa que achei estranha. há uma coisa sagrada. o professor avalia, sim. e a sua decisão deve ser válida sem justificação. sempre combati e nunca concordei com a não soberania do professor nesta matéria. nos chamados conselhos de turma muitas vezes oiço: ó colega, mas tem que justificar a nota. justificar uma nota é como dizer a um médico que tem que justificar todas as escolhas de um procedimento ou intervenção. não faz sentido. há uma soberania na decisão que é imensamente relevante para a valorização do papel do professor junto dos seus alunos. tanto como o desafio de colocar nas mãos dos alunos a determinação do valor do seu trabalho. ó professor, acho que me vai dar um quatro. é assim que devo perguntar? não, josé. isso é esperteza argumentativa. eu explico. deves perguntar assim: ó professor, eu estudei, apresentei os trabalhos, fiz isto e aquilo, aprendi isto e aquilo. acha que isso merece um quatro como eu penso que mereço? precisamos tanto do valor do mérito na escola. e não é colocar no professor o direito de conceder nada. é colocar no aluno o papel reflexivo do valor do seu trabalho. fogo professor, isso é complicado. pois é. e lá foi ele sem saber a nota. talvez volte com a pergunta certa numa próxima aula...
||| desta gaiola onde se passa tudo...
||| ... gosto muito da ideia de "fecharem a internet" em determinadas horas na escola. gosto mesmo. tudo por causa das redes sociais. ora bem. acho bem. proponho mais. que isolem a escola com uma torre de bloqueio de sinal de telemóvel. pronto. mais uma ideia. outra ideia simples. limitem o acesso à biblioteca da escola e fixem o horário das nove às dez da manhã para aceder a livros. não todos. só alguns. os verdadeiramente úteis. ah... outra ideia. os funcionários da escola devem impedir ajuntamentos de mais de dois alunos nos corredores. e pronto. é isto. ah... bem, já agora, alterem as cercas que vedam a escola e em vez daquelas barras coloquem mesmo tapumes. pronto. é mesmo só isto que tenho como sugestão para melhorar a ideia de "fechar a internet" em determinadas horas na escola. não sou um adepto por aí além da coisa e mais do que isso acho um elemento perverso que deturpa as mentes dos alunos. é um instrumento estranho esse de partilhar coisas ou consultar coisas no espaço escolar. mais do que isso, é um gasto. um desperdício. acho mesmo que deviam voltar as fotocópias. isso sim! a reprografia ser o centro de tudo. o professor [vou mais longe - o ministério] enviava os textos, artigos, trabalhos, etc que quer que os alunos vejam, consultem e leiam e tudo a tirar fotocópias. para mim que sou de história é um sonho tornado realidade. assim, sim. temos uma escola de futuro. sem ironia nenhuma. acho mesmo que deve ser assim. acho que deve ser assim num país onde não há liberdade. e onde não se ensina. onde se manda. deve ser assim num país onde a tecnologia é vista como um bem que o estado controla. e tudo isto tem uma razão. um ministério que em tudo se mete e que não deixa tempo para a escola ensinar a usar o que hoje são ferramentas úteis e necessárias [em muitos casos essenciais] para cada aprendizagem. sintomas de tempos estranhos. mais do que uma medida de contenção como querem dizer é um espaço de reconhecimento do falhanço que tem sido a política educativa para o ensino da cidadania digital. isto tudo porque tirar é sempre mais fácil do que ensinar a usar...
26/03/2014
||| dezanove em cada cem...
||| ... acho que foi ontem que escrevi aqui que a adolescência é um luxo moderno. hoje, ao passar os olhos por esta notícia e limpando os clichés que querem sempre que sejam lidos reparei numa coisa [e cito]: "os jovens andam também preocupados [...] com o facto de não terem amigos (dezanove %)." parei um pouco para pensar. relembrei o rosto de cada um dos meus alunos. e pensei no que oiço e vejo quando falam comigo. fazer as contas é fácil. em cem alunos, dezanove pensam nisto. mas quero mesmo ler este estudo. e parar um pouco neste ponto. sempre houve a questão da popularidade e coisas que tais. houve a haverá pois há esse luxo de ser adolescente e poder pensar nisso. agora o conceito apresentado é diferente. é o medo de não ter amigos. e regressei ao pensamento destes tempos de isolamento. miúdos que vão de um lado para o outro. levados. dentro de um carro ou num transporte. a escola é o local onde passam mais tempo. findo esse tempo passam a circular novamente. chega o fim de tarde e a noite. estar na rua é coisa impossível. vão de um lado para o outro. de casa para casa. de local para local onde o cerco da sua presença é controlada. pelos outros ou pelos educadores. e sinto-me um privilegiado. no meu tempo já havia essa coisa da adolescência mas estava a começar. por isso ainda andei na rua. e estive com os meus amigos sem nada para fazer. sem precisar de me iludir para gostar da realidade. de um bom fim de tarde sem nada para fazer. ou simplesmente numa brincadeira qualquer. na altura típica de uma adolescência que começava a dar os primeiros passos. hoje estes miúdos são sequestrados. raptados desse lugar de partilha. e o medo de não ter amigos penso que passará muito pelo medo de estar só. ou da insignificância, como diz carlo strenger no livro the fear of insignificance [obrigatório ler]. e regresso ao simples gesto de olhar para uma turma minha. dos trinta, sete ou oito, pensam nisto. os outros podem não dizer, mas pensar. e apetecia-me mesmo saber mais sobre isto. corremos sempre o risco de só olhar para as grandes percentagens destes estudos e esquecer estas pequenas. muitas vezes muito mais significativas. que medo é este? o da desumanização? o do isolamento? o da popularidade? basta olhar para eles. como faço. e como recordo agora. penso que será o medo da solidão. coisa que nenhum de nós lhes ensinou. não a solidão crua mas o de estar só. eles nunca estão sós. não sabem o que isso é. ou talvez estejam muito mais sós do que nós pensamos. e vale mesmo a pena, pensar a sério, nisto. por eles e por nós que os ensinamos e educamos.
||| sábio conselho para loucas palavras...
||| ... posso perguntar uma coisa? já reparou que utilizou dezassete vezes no seu discurso a palavra obediência. então farei uma pequena explicação que é uma pergunta. sabe que obedecer vem do conceito "saber escutar". mas fala de obedecer, como forma de trabalhar a indisciplina, como cumprir. deve ser lapso meu que não percebi o seu discurso. primeiro porque obedecer não é sinónimo de disciplina. é sinónimo de cumprimento. e porque o uso que quer dar a uma palavra que parece não conhecer deforma toda a linha do seu pensamento. obedecer é estar preparado para ouvir. escutar com atenção. não é estar quieto. nem cumprir o que lhe mandam. isso é outra coisa. e mesmo assim não estamos a falar de disciplina. estamos a falar de outra coisa. por isso pergunto, depois de a ouvir durante quase uma hora a sagrar a obediência se não queria dizer submissão ou subordinação. é que todo o seu discurso vai neste sentido. são coisas diferentes. muito diferentes. a senhora doutora agitou-se na cadeira. pensou dois muitos e disse: o que importa é que cumpram o que o professor manda. o resto é semântica. estava respondido: submissão. e isto, nestes encontros sobre educação é um perigo. não só pela linha de rumo deste pensamento que está a renascer como a forma como se ilude uma plateia com palavras erradas para sentidos errados. o pior? é que havia uma plateia de professores a tirar notas. e volto ao importante. saber escutar. fechei a porta ao sair e esqueci o que ouvi. não sou daqueles professores fáceis de doutrinar. nem de submeter.
25/03/2014
||| das cinzas ou das coisas que ninguém se lembra...
||| ... antigamente falava-se na política da terra queimada. hoje estamos todos tão encaixados [de caixas] que a terra e as coisas da terra só se revelam quando aparece um grão escuro numa alface comprada num qualquer hipermercado num qualquer dia da semana. talvez que ainda saiba o que quer dizer a expressão possa perceber o que se está a passar na escola, hoje. a rita é uma miúda gira. daquelas curiosas. que até anda com um livro debaixo do braço, de vez em quando, às escondidas dos colegas porque não é cool ler. cool é segurar as paredes com as costas, como lhes digo tantas vezes. e no final de uma aula lá vinha ela falar das coisas lidas. recomendei-lhe o senhor dos anéis. o filme professor? não. o livro. tenho uma edição complementada com as linguagens que o autor criou para cada tipo de personagem. e no final da aula lá o meteu na mochila às escondidas para ler em segredo. porque não é cool saber. ler. e finalmente fui eu que ganhei coragem e perguntei: ó rita, mas porque raio é que não é cool ler, saber, pensar e talvez arriscar perguntar coisas novas? ó professor, é que depois o pessoal não percebe e acha que me estou a armar. tive para lhe explicar de onde vem a expressão: estar a armar. talvez não fosse má ideia para não a usarem tanto pois é coisa que não fica bem a gente cool. ou seja, se leres e falares do que lês os teus colegas não acompanham. ya professor. é isso. e depois acham que sou "outsider". "outsider é bom. estas coisas de falar da língua dos outros melhor do que a nossa faria eça e herculano dar voltas no túmulo, pensei. mas percebi este problema existencial da rita. é que ela saber e os outros não torna tudo mais difícil. a integração. porque a adolescência é um privilégio desta geração. sim, há uns anos atrás não havia essa coisa da adolescência. a sério professor? sim. talvez estivessem por lá os problemas existenciais mas a adolescência é um luxo recente. fogo professor, devia ser fixe. porquê rita? porque assim podia ler e já era adulta... e soltei aquela gargalhada que a inteligência permite. ler. cool e uma conversa sem pés nem cabeça lá me fez perceber um pouco mais a política da terra queimada em que estamos...
||| os peixes já não sabem falar...
||| ... hoje pensei numa frase dita por uma aluna. não percebo as palavras. foi uma coisa inocente no meio de uma conversa sobre qualquer coisa importante. e fiquei a pensar. ao vir a conduzir depois de mais um dia de trabalho fiquei mesmo a pensar nisto. sou professor. a minha alma está na palavra. sem ela nada faz sentido. e mais do que isso. sou um carpinteiro das palavras. trabalho com elas nas minhas aulas para criar as fundações onde assenta o conhecimento. e acredito mesmo no poder da palavra. o pior... o pior é que do outro lado não é assim. deles. neles. nos meus alunos. e faço uma retrospectiva mental. desapareceu a palavra de honra. desbaratámos as palavras e os seus significados ao ponto de ter agora nascido a moda de criar novas palavras para velhos sentidos. é tudo vintage ou é tudo um inconseguimento. ou coisas que tais. o representante desta república em cinzas fala da palavra como poder. e no entanto, na sala de aula, onde devia a palavra ser o centro, o princípio e o fim do sustentáculo do saber, esta está em declínio profundo. é que a palavra, na sala de aula, não deve ser um instrumento de poder. assim o foi usada nos últimos tempos. sem autoridade e como forma de poder. de uns para os outros. a força da palavra é outra. está na compreensão. não é na visão romântica da coisa. é na prática. dar valor à palavra neste momento é tornar compreensível cada uma delas em função do seu significado. a perda de vocabulário é hoje o pior e maior limite na escola e nos alunos. não saber como explicar o mundo. as coisas, dar o nome das coisas. e sem isso, não há força, poder ou elegia da palavra que a torne motor e centro da aprendizagem como deve ser. sou, por isso um carpinteiro sem madeiras para trabalhar. e o primeiro passo é transformar-me em madeireiro. ir para a floresta desconhecida das coisas sem nome e nomear cada uma delas. levar os meus alunos comigo. dizer: isto tem este nome. não é tipo, nem coiso, nem ya, nem assim. dar-lhes palavras para guardarem. um passo de cada vez. uma coisa de cada vez. para que possam, simplesmente, explicar e dar nomes ao mundo. nem que seja só ao seu.
24/03/2014
||| uma aula para falar de ética e estética...
||| ... pedagogia: esta é uma aula de quarenta e cinco minutos que é uma experiência imersiva que levará os alunos a reflectir sobre a construção de uma dialética entre estética e ética na evolução da linha clássica para a perspectiva medieval e posteriormente para uma linha moderna.
||| ... metodologia: esta aula é enquadrada num conjunto de três aulas, sendo a primeira que antecede esta uma aula teórica sobre os conceitos de ética e estética para os pensadores gregos clássicos e para a linha de pensamento dos pensadores medievais. será depois complementada por uma aula de reflexão e síntese teórica sobre a experiência vivida neste contexto. para a preparação da aula o professor deve escurecer totalmente a sala e precisa de um conjunto de trinta velas [uma por aluno] e uma vela para si. deve dispor a sala em U e retirar as cadeiras. nas paredes deve ter colocado uma folha de cartolina preta e a cada aluno deve ser dado um pau de giz branco. os alunos entram para a aula tendo apenas acesa, no centro da sala [ou na secretária do professor] uma vela. o professor fará uma introdução de dez minutos relembrando os conceitos de ética e estética. este tempo permite ao todos uma adaptação à luz [ou ausência dela]. terminada esta introdução o professor pede a um aluno para acender a sua vela indo buscar a chama à sua e que a coloque na mesa à sua frente. por questões de segurança devem os alunos usar copos de vidro de iogurte como suporte. quanto todos tiverem as velas acesas vão reparar que as suas sombras se projectam na cartolina preta nas suas costas. devem virar-te para as cartolinas deixando as velas acesas nas suas costas em cima da mesa. devem, a pedido do professor, desenhar a silhueta da sua sombra na cartolina contornando a sua cabeça e parte do seu tronco. a imagem torna-se similar ao mito da caverna de platão que pode ser explicado pelo professor enquanto os alunos realizam esta tarefa. finalizada a silhueta o professor pede aos alunos para traçarem uma linha que divida o seu rosto em duas partes. uma será a representação da estética e outra da ética. devem analisar os resultados numa lógica de que o rosto e formas do rosto são muitas vezes associadas à noção estética e as formas restantes à noção ética. pode o professor ainda provocar e perguntar a que poderiam os homens e mulheres da idade média associar ao espaço negro fora da forma humana falando os movimentos religiosos, do desconhecido, do mito e da relação com o divino.
||| ... esta aula tem como tema: a apropriação da noção de estética e ética de uma forma provocatória para a discussão e debate. é uma aula de nível complexo mas ao mesmo tempo que permite um debate alargado sobre a dimensão humana e divina, assim como, a racionalidade como elemento comum na organização mental das sociedade clássicas e medievais. poderá ainda associar-se a ideia de idade média ao período "negro" da história ou desconstruir esse mesmo elemento por via das relações entre o sagrado e o profano tão presentes no imaginário medieval e moderno.
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