||| ... tenho defendido e penso muito nesta ideia que chegará o dia em que os professores serão chamados a salvar o que restará da escola. é evidente que um sistema não aguenta tantos experimentalismos. desde que sou professor já uma dezena ou mais de ministros "reformaram" o sistema. pior, "reformaram" os currículos. tiraram áreas, colocaram disciplinas, tiraram disciplinas, colocaram áreas. redesenharam objectivos para metas, competências para sei lá o quê... por muito que eu lute para que isso não afecte o que se passa na minha sala de aula a verdade é que as sombras e os ecos vão lá parar. entram pela porta sem a minha autorização. desfazem o que levei, às vezes, anos a conquistar com aqueles miúdos. o gosto por aprender. o aprender para saber e não para responder automaticamente. e penso. eu sou um fruto deste sistema que me gerou. aprendi duas coisas com a escola: que há sempre uma resposta única e correcta e que seguindo uma linha vamos ter a um destino. aprendi isto que desaprendi rapidamente. tive a sorte de ter excelentes professores que desconstruíram isso. e agora que está na moda os dias disto e daquilo e ontem [ou hoje, que isto está sempre tudo a mudar] falaram de dia da felicidade. se pensarmos bem, também ela é uma palavra solitária. como se fosse só um caminho. uma resposta certa. uma ideia e um roteiro único. infelizmente, felizmente, não é assim. aprendi com esses meus professores o que tento ensinar aos meus alunos. que a ciência tem cem anos. que ainda não sabemos nada. que temos mais dúvidas do que certezas. que quanto mais a ciência for social ou humana mais hipóteses em aberto existem. assim como nas outras que se dizem exactas. que não há uma resposta certa. certo é o caminho para novas respostas que lhes cabe descobrir. e tenho defendido que um dia os professores vão ser chamados a salvar a escola. que assim seja. mas que pensem em novos modelos, formas e organizações. que não seja uma resposta certa mas a certeza de um caminho que será preciso fazer. e já começa a ser urgente esse chamar dos que sabem. é preciso edificar a escola, novamente. disso já não tenho dúvida nenhuma. e se o poder político surdo e cego continua a caminhar no sentido de entrar pela minha porta da sala de aula farei o favor aos meus alunos de a fechar. ou isso, ou sair eu, com eles, pela janela. que isso não seja exemplo. nem resposta única. mas que ficarão à porta as ideias estúpidas de um poder estúpido, ficarão. não entram. não entram mais. já chega.
21/03/2014
20/03/2014
||| mui nobre e sábio conhecimento...
||| ... entre a sala de aula e a sala de professores/biblioteca há um corredor. ao passar no corredor oiço os alunos a conversar. vejo beijos. risos. empurrões. vejo miúdos sentados de auscultadores nos ouvidos. na primeira aula digo sempre que só tenho uma regra: respeito. eles por mim, eu por eles. mas de que se reveste este respeito. não do cumprimento cego de regras, normas ou comportamentos. isso fica para outro tipo de professores que não eu. o respeito reveste-se da forma e da atitude do comportamento. vi alunos respeitarem regras com a maior falta de respeito que podia imaginar. e outros que as quebraram respeitando imensamente a minha relação pedagógica com eles. por isso é mesmo a forma e a atitude. isso diz-me muito. sinceramente. porque sou um professor. e não renego as duas vertentes da minha profissão. ensino e educo. sim. não sou daqueles que acha que há umas separação nestas duas coisas. há limites para ambas. a moral, a ética, a estética, a etiqueta, a determinação, a informação cívica não me cabe. cabe aos educadores. mas a mim, como professor, cabe parar no corredor e se vir alunos em comportamentos desadequados, dizer. falar com eles. explicar. educar. porque ninguém nasce ensinado. e a escola é um espaço onde as coisas que acontecem se regem por uma regra de identidade de escola. se ninguém lhes disser nada será consentido. e não é. o respeito é também o respeito pelo meu foro de intimidade e de exposição. tive esse exemplo dos meus professores. quando o professor passava parávamos, muitas vezes, de fazer algo que era uma brincadeira entre nós por respeito ao professor. hoje isso raramente acontece. uma das razões é simples. a nossa indiferença tornou-se tolerância ao intolerável. o cansaço, nisto, ajuda. já nem queremos saber. "que se matem". mas não. é mesmo por ai que tudo começa. à minha frente não. nem nas costas, por inerência. mas é preciso dizer. fazer sentir que não está bem. que não é adequado. o silêncio. o olhar para o lado, não funciona. não é "educar os filhos dos outros". é determinar e fazer por construir uma identidade de comportamentos na escola. na escola que queremos ter. dá trabalho? dá. cinco minutos a menos num intervalo. ouvir duas ou três vezes quando viramos costas que somos isto e aquilo, exigentes e mais umas coisas. mas com o hábito vem a certeza do certo e do errado. do que são os limites e da compreensão do comportamento em comunidade. são coisas simples que deixámos de fazer. e com isso, com o "quem cala, consente", inundaram-se os corredores e as salas daquilo que não cabe na escola. o desrespeito. a minha regra é de ouro. os meus alunos sabem. sentem. vão vendo em cada atitude. por vezes, em confronto. mas é uma conquista necessária na escola, na sala de aula, que eu quero para mim e para eles. respeito. só assim posso ter o espaço mental, a certeza simples, que posso ensinar.
||| privatize-se a escola, toda...
||| ... a nasa encomendou um estudo a uns investigadores matemáticos e estes perceberam que a civilização, tal como a conhecemos, está a chegar ao fim. nada de estranho aqui. carlos fiolhais, homem e pensador que tive já o prazer de acompanhar em conversas e reflexões, declarou num artigo ao público o colapso da escola. e a culpa é de maria filomena mónica. não do fim da civilização mas do colapso identificado no artigo de fiolhais. gosto muito da forma bruta como filomena mónica sempre escreveu e tocou nos assuntos. tal como francisco louçã. isto para explicar que não é pelo quadrante político que leio as suas reflexões. é como cidadão. sinceramente há coisas no pensamento de filomena mónica com o qual me identifico enquanto provocador. este seu último devaneio de criar um diário deu nisto. de colocar a nú uma parte do que se passa na escola. estando dentro do sistema tenho a completa noção que se trata de uma parte. mas as partes fazem o todo. e gosto imenso desta brutalidade que está a ser feita das palavras recolhidas deste trabalho. é um colocar em público uma coisa privada. é como tirar uma fotografia de uma cena de viagem e dizer que a viagem toda se resume a, apenas, aquela fotografia ou conjunto de fotografias. mas não deixa de ser um registo. é interessante por isso. é um exercício importante por isso. coloca em discussão. sou e serei um professor que defende que a escola, sendo pública, é um espaço privado. de relações próximas, de esferas de registos pessoais e únicos. é quase como quando passo num corredor e vejo dois alunos a namorar enquanto passo. paro sempre. não para dar um sermão mas para explicar o que é a privacidade ou intimidade que não é um exercício público. é por isso que defendo que se deve privatizar a escola. tornar privado. eu sei, temos pouco tempo desta noção. do que é privado e público. é coisa moderna, com cerca de cem anos. o pior é que professores e alunos deixaram de ter a educação como uma reserva de intimidade e tornaram este lugar de divisão entre educar e ensinar como se tal fosse possível. maria filomena mónica não faz mais do que levar esta linha para além do limite colocando em público o que devia ser privado. e com isso revela aquilo que todos dizemos em surdina. o fim do modelo civilizacional está perto e a escola é um espelho isso. a escolaridade obrigatória aumentada até aos doze anos sem qualquer preparação da escola, dos professores e do contexto; a ausência dos educadores no seu papel de educação dos filhos ou educandos. a falta de respeito social do espaço de educação e ensino; a desvalorização do conhecimento como elemento de referência; o declínio da estruturação social enquanto organização para a cidadania; a massificação do ensino sem suporte académico, técnico e material, etc... não é nada que todos não vejamos tudo isto. mas quebrando esta linha simples do privado para o público somos confrontados com as imagens que são construídas de uns e de outros. não são os professores que ficam bem ou mal na fotografia. nem os alunos. nem a escola. somos nós. todos. enquanto civilização. talvez seja da fase do tal declínio em que estamos. ou simplesmente porque deixámos chegar isto aqui. mas a provocação de maria filomena mónica vai passar. vão chover críticas. palavras azedas. ofensas. e o declínio vai continuar. saberiam os homens e mulheres no fim do império romano que a sua civilização estaria a chegar ao fim? creio que não. talvez privatizando novamente este debate naqueles que podem encontrar a solução a coisa mude. que se cale um ministério que só atrapalha e deixe, aqueles que sabem como mudar isto, falar. que se dê a voz aos professores e às escolas. e que se faça a mudança urgente. a culpa não é de quem revela o que se passa numa parte da escola. é de todos. é da imobilidade. é de não percebermos que podemos estar nesse momento de fim sem saber o que fazer a seguir. vale a pena pensar nisto. e mais do que pensar. fazer qualquer coisa. a sério.
19/03/2014
||| sim, o mundo é quadrado e a terra é o centro...
||| ... tudo para a rua. está sol. somos nós que andamos à volta do sol ou o sol que anda à volta da terra. e houve respostas: é o sol que anda à nossa volta. desculpem? a sério. não estou a brincar. lembro-me perfeitamente. ó professor, mas o que é que isso importa. nada, claro. depois seguiu-se uma conversa sobre o futuro. que não era preciso saber para ganhar dinheiro. era preciso ser desenrascado. esperto. ou então ser tudo dado. ser-lhes tudo dado. porque o amigo conhece outro amigo que arranja um trabalho. isto no fim de um ciclo chamado de secundário. primário, diria eu. se há coisa que me assusta profundamente é a ignorância. pior, o triunfo dos medíocres. aqueles que dizem que ajudam, fazem, conseguem. por via desse caminho abjecto que é sempre feito calcando sobre um terreno de gente que não sabe e não pensa para além do óbvio. mas diga-me lá professor, o que é que isso importa. ainda não tinha resposta para dar. lembrava-me que acreditam que basta parecer bem para aparecer num qualquer programa e ganhar uns trocos. que toda a vida deles se resumia a isso. o dinheiro que era preciso ter para ter qualquer coisa e assim ser alguém. continuar a ignorar. a não saber. porque não interessa. porque isso não tem valor. valor, dito, orçamento. que importa se a terra gira à volta do sol ou o sol à volta da terra. isso são coisas que não interessam. sem valor. coisas da ciência que é uma senhora distante que nada lhes diz a não ser as fórmulas estranhas que devem decorar. esqueçam galileu. de volta à sala, um mapa. pior ainda. a rússia, os estados unidos, o porto e lisboa. não importa onde são. coloca-se no google maps. até está no telemóvel. norte e sul é tudo a mesma coisa. importa sim aquele amigo que diz que arranja uma forma de encontrar emprego, mesmo que não seja emprego mas sim trabalho. continuar a estudar, sem razão. a terra continuará a rodar sobre si mesma pois é, para muitos, o centro do universo. e nada mais...
||| quando só já resta uma razão...
||| ... a história ouvi-a pela boca de um amigo. homem bom do museu do brincar. reza assim: um rapaz, um dia, queria contar histórias ao mundo para fazer os outros felizes e despertar a vontade de estar vivo e continuar a acreditar nos sonhos. um dia pegou num banquinho e foi para o meio da praça de uma pequena aldeia. subia para o banco e começou a contar as suas histórias. cem pessoas vieram para o ouvir. no dia seguinte voltou com o seu banquinho, subiu e começou a contar as suas histórias. cinquenta pessoas vieram para o ouvir. no dia seguinte voltou. subiu ao seu banquinho e contou as suas histórias. dez pessoas vieram para o ouvir. mais um dia e voltou, subiu ao seu banquinho, contou as suas histórias e só cinco pessoas vieram para o ouvir. voltou no dia seguinte, subiu ao seu banquinho e só uma pessoa foi ouvir as suas histórias. voltou no dia seguinte, subiu ao seu banquinho e ninguém o ouviu mas ele contou as suas histórias. estes dias repetiram-se muitas vezes sem ninguém para o ouvir. um dia um outro rapaz parou junto do rapaz que contava as suas histórias para ninguém o ouvir e no final perguntou: desculpa, mas porque vens tu para aqui contar histórias se ninguém te ouve. a resposta foi esta: sabes, comecei por querer que as minhas histórias fizessem os outros felizes e fossem o despertar da vontade de estar vivo e acreditar nos sonhos. agora, todos os dias subo ao meu banquinho e conto as minhas histórias para que eu continue a acreditar que é possível ser feliz, para ter vontade de estar vivo e para não deixar morrer os meus sonhos. e no final da história, eu, olhei para mim hoje. de tanto querer uma outra escola, um outro caminho, de tanto ter feito nos últimos anos por isso, mesmo sem ninguém perceber, sinto que agora continuar é mesmo só o acto simples de não deixar eu de ter a capacidade de sonhar. há quem me pergunte porque raio me meto a tentar mudar as coisas. outros acusam-me de tentar e falhar. dou a cara por coisas que não me dizem respeito. faço mais do que posso ou devo. tento empurrar o mundo. falho muitas vezes. vejo que as pessoas à minha volta desistem. aquelas a quem digo para não o fazerem porque o mundo e a escola precisam delas. resta-me só uma razão para continuar. só uma. eles. os meus alunos. por eles. porque este não pode ser a escola do futuro, deles. e por isso vou continuar a pegar no meu banquinho, ir para o meio da praça e contar as minhas histórias. mesmo que ninguém vá ouvir ou só vão lá dizer mal de mim. por eles. por nós. pela escola. mesmo estando longe das forças de outros tempos ou da forma simples da vontade de mudar tudo. talvez só reste mesmo isso. um única razão...
18/03/2014
||| dois dedos de conversa...
||| ... sou sincero. nunca gostei de estar nas salas de professores. sempre que me sento lá vem alguém falar dos miúdos que fazem isto, aquilo e mais isto e mais aquilo. e da reunião x e y. e coisas que tais das quais fugo a sete pés. ah... e as grelhas. manda-me as grelhas. não sei trabalhar com excel. pode ser em papel e caneta, digo para ver se afasto a coisa. mas não... até sabem que sei, por isso, nem isso dá. e com a chegada do sol nada como me sentar algures pela escola com a minha mala e um livro ou simplesmente sem nada. foi num desses momentos que a rita e o Manuel vieram ter comigo. era um daqueles intervalos da tarde que são um pouco maiores. chamar intervalos a coisas com cinco minutos é como chamar a um queque, bolo. por isso, era daqueles grandes. e o sol estava bom, quente sem ser demais. e os miúdos lá vieram. ó professor, podemos estar aqui. pergunta estranha. podem, claro. é que o professor podia querer estar sozinho. não, estava só a apanhar sol um bocadinho. e vocês? nada. não estávamos a fazer nada. aqui não há nada para fazer. não, perguntei eu com aquele ar reprovador. não. é sempre a mesma seca. ok. e que tal conversarem. o quê professor? sim, conversarem. ó professor, isso é seca. ah... está bem. sabem que temos o dever de falar. lá vem o professor com aquelas coisas que ninguém percebe. é verdade. há um poema de um poeta português, mário cesariny que termina com a frase: o nosso dever de falar. é um dever. porque nos foi dada essa faculdade. essa possibilidade. não é teclar no telemóvel. é falar. pois é verdade, professor, mas o pessoal agora não fala. e se fala é de coisas parvas. então vá. vamos falar de uma coisa que não é parva. já viram o sol hoje? ya, professor. está bom. pois está. que horas são? e o gesto foi imediato: ir buscar o telemóvel para ver as horas. não, guardem lá isso. digam lá que horas são. a rita tentou adivinhar. eram, quatro e pouco. já pensaram que antes de haver relógio as pessoas mediam o tempo pelo sol? ya professor, no sexto-ano até fizemos um relógio de sol. a sério, perguntei eu. sim, está ali atrás do pavilhão. quer ir ver. quero, claro. e lá fomos. e lá estava. o relógio de sol, esquecido. ó pá rita, são mesmo quatro e pouco. fixe. por acaso até foi. e agora se pensarem que não existe tempo. ou que este calendário que nós usamos nem sempre existiu. é verdade, professor? é. as horas, minutos, meses, anos e etc nem sempre foram contados da mesma maneira. ya, professor, tipo os chineses andam no ano três mil e tal. não é bem assim, manuel mas estás perto. que confusão. não importa. está quase a tocar para entrar. nem demos pelo tempo. estás a ver, é porque não existe. fogo professor lá está você com teorias maradas. então e que tal? o quê professor? conversar. não estamos a perceber. vocês diziam que conversar era uma seca. foi o que estivemos a fazer nos últimos quinze minutos. ya, mas com o professor é fixe. não. experimentem. mas vá. para a próxima encontramo-nos aqui para brincar. ó professor não goze connosco. a sério. e lá ficou só o sol no recreio. e uma conversa feita. se ninguém os ensina, eles não sabem o que existe para além do que lhes é dado. simples, pensei. é o nosso dever de falar. imenso cesariny. sempre.
||| ensinar... que palavra tão estranha...
||| ... acabaram com as competências. agora é metas. e coisas assim. como se fosse possível, matematicamente ensinar tudo de cinco em cinco minutos. desapareceu a palavra didáctica. era do grego e deve ser por eles terem ido à falência. o pior é que está a desaparecer a palavra: ensinar. ou então é usado no contexto: eu já não consigo ensinar nada a estes miúdos. geralmente acompanhado por: eles não querem aprender. pior. o que se ouve é mesmo: isto agora é preparar para os testes. ou para os exames. é esse o objectivo. desculpem. a meta. objectivo também já não se usa pois não vá despertar a vontade própria de ter objectivos. são metas. tudo. ensinar é que não. treinar. treinar é que é preciso. como se a sala de aula fosse esse forno das almas para um resultado comum que desafia a lógica de qualquer coisa e qualquer lugar chamado escola. é basicamente como a fruta nos hipermercados. toda igual. com um selo. uma marca. no final, pimba. levam os miúdos com um selo: a nota. e pronto. estão prontos para enfrentar a universidade. melhor, a universalidade da vida se não forem para estudos superiores. se forem, vão encontrar a universalidade. ou não. ou simplesmente continuar a repetir procedimentos. é mais simples que ensinar e aprender. é treinar. sou só eu que acho que isto mais parece um sistema de fazer presuntos mecanicamente ou simplesmente não percebo nada disto? devo ser eu... certamente, sou eu que estou a pensar mal e estou do lado errado da estrada. deve ser mesmo isso. é que eu não acho piada nenhuma a isto tudo. nenhuma, mesmo.
17/03/2014
||| a direito e em frente é que é...
||| ... uma pedra no sapato. uma revolta. uma questão apaixonante. um tabu. uma coisa qualquer. vamos lá falar de indisciplina. não é a primeira vez, nem será a última, mas esta é brutalmente politicamente incorrecta. li com atenção, como leio sempre, qualquer artigo, opinião, consideração ou disparate sobre esta questão. li este. li já muitos outros. há uma coisa comum. quase nunca se dissociam dois conceitos: autoridade e disciplina. vamos lá ser incorrectos. primeira incorrecção: a autoridade não é algo concedido. é preciso conquistar. já houve o tempo do contrário. e funcionou muito bem. basta pensar que nesse tempo as figuras de referência eram o padre, o médico e o professor. em terra de cego, quem tem olho é rei. num país dos anos trinta a sessenta ou setenta uma imensa parte da população não saiba ler nem escrever. a história tem destas coisas. lembra que as elites são sempre aqueles detentores de qualquer coisa que os outros não possuem. conhecimento, dinheiro ou fortuna. depois, dizem, lá veio a liberdade e com ela tudo o que se podia fazer. ou não. de fora da escola, do sistema, nos últimos anos vem um profundo desconhecimento do que se passa no terreno. pior do que mexer no sistema é mexer sem saber o que se passa. cegamente. ou não querendo ver. ou pior, mandando. desenhando um propósito que contraria a realidade. afunilando. tentando dar cabo da estrutura para provar que a ideia de outros é melhor do que a daqueles que todos os dias ensinam e criam a escola. não há artigo nenhum que dê autoridade ao professor. nem lei. nem regulamento. nem estatuto. mas há linhas de rumo, acções, modelos e pensamentos que atrapalham. e disso estamos cheios nos últimos anos. ter que conquistar a autoridade é uma coisa da escola. enquanto um todo. enquanto comunidade. para ajudar o professor nessa mesma conquista que tem que fazer junto dos seus alunos. o poder absoluto de origem divina teve o seu século e este é o tempo do global acesso à informação. não ao conhecimento. mas à informação. sem liberdade que ainda está por conquistar. mas com acesso. e isso muda tudo. e que do outro lado, do lado dos alunos e dos educadores destes, tudo mudou também. a literacia não é sinónimo de cidadania esclarecida. e isso facilmente se confunde. e isso sim, tal como esta lógica de contraciclo do poder do sistema sobre o poder da acção na escola é determinante para esta questão da disciplina. para mim, como professor, fundamental. mesmo com imensa baixa de qualificações de uma população ainda em escolarização a verdade é que o acesso à informação é maior do lado dos alunos e educadores destes. mas isso não é mesmo sinónimo de uma cidadania educada e esclarecida. pelo contrário, em muitos casos. por isso raramente faço esta linha de pensamento: pouca autoridade da escola e do professor é igual a indisciplina. é que assim estamos focados num círculo que nunca se vai quebrar. porque estamos, novamente a um passo de dizer coisas como esta: "não consta que pessoas educadas em ambientes mais disciplinadores (não confundamos com repressores) sejam pessoas piores, com menos sentido crítico, menos educadas e menos sensíveis." e este passo é o mesmo que levará a que a sociedade que conhecemos se transforme naquilo que muitos que conhecem os caminhos da história já sabem em que vão dar. mesmo que as palavras sejam cuidadosamente escolhidas. não é o professor que tem, sozinho, que reconquistar a autoridade. é a escola enquanto um todo e enquanto organização social. e o professor também. e o professor também tem que educar. ensinar a dizer obrigado, com licença, se faz favor não é uma tarefa assim tão imensamente de super-herói. é de cidadania. não pode ter depois todas as funções, essas sim, fora do seu limite de capacidades (ser assistente social, educador sexual, educador moral, educador técnico, burocrata...). e mais do que isso. pode e deve exigir ao poder central e dos sistema que não atrapalhe. não se meta sem saber o que se está a passar no terreno. não emane estatutos e coisas que tais sem perceber que a autoridade e a disciplina não são coisas que se regulamentem. são coisas de cidadania. que se aprendem, trabalham e conquistam pelo exemplo. exemplo esse que muitas vezes esse mesmo sistema não apresenta. falemos de indisciplina sim. porque a há nas escolas. falemos de tudo isso mas olhando para o cenário todo e não saudosistas de modelos controladores que reprimem mesmo que a palavra seja alindada para servir os moderados observadores de esquerda ou de direita. comecemos por falar de cidadania esclarecida. de sistemas que apoiam a autoridade pelo valor conquistado e não concedido [porque se a autoridade é concedida também pode ser tirada como se está a ver hoje]. falemos da disciplina como regra ou norma de conduta e não como representação de modelos de comportamento. talvez assim, de uma vez por todas, possamos fazer a discussão que é tão importante e pertinente ser feita. sem tabus, dissimulações ou ideias préconcebidas. vá... vamos lá ser [in]disciplinados nesta discussão que urge ser feita..
||| da gente roubada ou do silêncio dos não inocentes...
||| ... estamos a ensinar uma geração roubada. gente roubada. pessoas em construção todos os dias roubadas. é estranho dizer isto no ano em que se comemoram os quarenta anos de uma revolução que dita em seu nome a palavra liberdade. os meus estudantes, alunos, pessoas estão feitas em gente sem nada. com tudo, mas sem nada. entro na escola e vejo que há tudo o que é preciso ali. espaço. cadeiras e mesas. também não é preciso muito mais para se ensinar e aprender. mas olho para os meus alunos e não vejo nada. vejo rostos perdidos. ideias vagas. saberes incertos. futuros roubados. a razão? simples. o tempo. deixou de haver tempo. há coisas para fazer. umas a seguir às outras. incessantemente. a escola tornou-se numa sequência de aulas, umas após outras. sem lógica ou razão. aprender tornou-se um simples acto de agradar. agradar a quem pergunta no fim do ano numa folha de papel coisas que basta decorar durante um pouco de tempo de atenção e treino. não, não é estudo. é treino. acaba a escola e tudo começa novamente. explicações para uns. inglês, ginásio ou o trabalho do campo para muitos que ainda é uma realidade. para outros, os irmãos em casa para cuidar. alguns ainda os mais velhos que habitam os espaços comuns. a ausência dos pais. dos educadores. que chegam ao fim do dia para comer qualquer coisa. às vezes, nem isso. é preciso trabalhar para pagar as contas. quanto há trabalho. quando não há é a rotina imensa do não saber como fazer as coisas continuarem. partir, para alguns. ficar e ir procurando um desenrasque aqui e ali. ouvir falar de crise, todos os dias. do dinheiro. todos os dias. com o cair da noite, a televisão ou o computador isolam cada um do outro. desapareceu a conversa. há pouco para contar. na escola só se for um namorico novo que não se revela ou uma coisa parecida sobre a vida de outros que a que vivem é sempre igual, julgam. no ano passado ainda havia aquela visita de estudo para contar. este ano, quase que já nem isso há para dizer. e os exames estão aí. as notas dos testes, mostradas ou escondidas. mas isso sempre foi assim. cai a noite. mais uns quantos sms para amigos que estão todos os dias com cada um e sem estarem ali são a companhia e as conversas que, dizem, são lidas pelo cérebro como quase reais. cai a noite. não houve tempo para brincar. mesmo que se tenha dez, onze ou mais ou menos anos. nem para ler um livro. se houver tempo é para fazer a imensidão de trabalhos de casa que uma multiplicidade imensa de disciplinas exige. mais uma sms antes do sono vencer mais um dia. isto é uma geração roubada. da vida. à vida. cansados antes de serem adultos. sem forma, força ou vontade de construírem um amanhã diferente. vencidos da vida antes de lutarem pelos sonhos que são a força de ser jovem. roubados na juventude. em serem crianças, até. e nós, aqueles que ainda habitam este espaço de responsabilidade, deixamos que tudo seja assim. até um dia. que seja breve esse dia porque tudo isto está, imensamente, do lado errado da vida.
14/03/2014
||| perceber que rir não é estúpido...
||| ... gosto de alunos que fazem travessuras. eu sei. já ninguém fala assim. não me importa. travessuras é uma das expressões mais belas que restam em mim da minha idade da inocência. de quando faltava às aulas para ir passear ou estar sem nada para fazer como os amigos. ou coisas simples que eram brincadeiras em que a liberdade era a única coisa que havia para transformar os dias de aulas numa outra coisa qualquer. hoje não há liberdade pura na escola. o nosso constante desejo de controlo e uniformizar tudo fez desaparecer a travessura [que rima com doçura] e fez nascer abruptamente a indisciplina. talvez simplesmente porque os limites deixaram de ser ensinados. passámos a ensinar o que se não podia fazer sem dizer o que se podia fazer e com isso destruiu-se a ideia de limite. e com isto morreu o riso. o rir. aquela gargalhada dada do fundo da alma que não se consegue controlar. que nos torna, transforma, em tolos por um segundo. um limite de tempo em que as regras não se aplicam. em que o limite é mesmo aquele do humor como elemento puro do bem estar. afastámos o humor das salas de aula. dos corredores. somos todos pessoas sérias que não permitem a indisciplina. fabricantes de gente. cada sala uma sala de operações na linha de montagem. cada incumprimento um acto de desrespeito. tudo levado a sério. demasiado. regulámos. ordenámos. punimos. as travessuras são para o carnaval que já nem as tem. ainda sou do tempo da minha mãe me ir buscar à escola na altura do fim das aulas e nos bebedouros espalhados pela escola existirem fontes que nos molhavam todos parecendo que o mundo inteiro podia ser aquilo, aquela brincadeira que, a fazer mal, só uma gripe ou qualquer coisa que tal. hoje não se brinca. hoje não se ri. de tempos a tempos lá sorrimos. mas a medo. com vergonha. porque nada mais há para além de cumprir as coisas que são para cumprir sem vontade. serei talvez dos poucos que restam que provoca os alunos para serem travessos. eles nem sabem o que isso é. mas fazem. e fogem de tocar às campainhas. e colam papeis nos vidros a dizer para os outros terem dias felizes. ou riem com a coisa simples de um professor que diz que não lhe apetece dar aulas mas sim conversar sobre coisas que não interessam a ninguém. resta-me este ponto vivo de loucura para preservar o resto de [in]sanidade em mim e neles que precisam cada vez mais de serem ridículos por um segundo que seja. talvez só humanos. um pouco. por um segundo apenas. mas que faça a diferença. que lhes faça sentido. que não sejam só produtos desta fábrica de pessoas anónimas e uniformes em que querem transformar a escola.
||| não há corpo que aguente...
||| ... alunos desmotivados. professores desmotivados. motivação. sinceramente tudo isto um absurdo. nunca como neste momento, neste espaço de tempo que antecede o fim de mais um período escolar tanto cansaço foi representativo do estado geral da escola. é o cansaço. a sobrecarga. a dimensão imensa do constante. ontem ouvi uma frase que me ficou na cabeça. a globalização da indiferença levou-nos a já nem saber chorar. fixei a primeira parte. globalização da indiferença. acho que é mesmo isto. já nem é desmotivação. é mesmo o grau extremo da indiferença que começa a alastrar na escola. e o desgaste do trabalho errado da concentração para a motivação. os professores fazem tudo para criar motivação nos alunos que estão indiferentes, muitos deles, muitas vezes, a esse esforço. esse esforço sai do corpo já cansado das lutas dentro e fora da escola daqueles que são mais do que professores. são pessoas, pais, responsáveis. alastra como um nevoeiro silencioso e transforma-se num cansaço constante. estrutural como agora dizem. e esse cansaço, a certa altura, em certa medida, nesta medida, gera indiferença. e o pior que pode haver na escola é este sentimento de indiferença. esta globalização do deixar andar. cumprir por cumprir. fazer por fazer. sobreviver a mais uma semana. mais um dia. mais uma aula. é um perigoso elemento de contágio este. que se transporta pelo ar e pelas atitudes. contagioso. é certo que muitos lutam afincadamente contra este estado das coisas da escola. mas também a esses o cansaço pesa. perdem forças. e hoje este lastro imenso de indiferença torna a escola num lugar desabitado. de passagem. onde o que se espera é o fim. o fim de mais um dia. o fim de mais uma semana. o fim de mais um período. só para descansar um pouco e saber que mais um mês, dois, três nos esperam no último e derradeiro período escolar. mas que escola é esta? não é uma escola. não é nada. é a indiferença em forma de organização. resta só aquela esperança que o sistema rebente e com ele aqueles que nos colocaram aqui. e que venha, depois disso, aquilo que todos desejamos em segredo no fim do dia. uma nova escola onde possamos construir novos dias. claros, limpos e diferentes.
13/03/2014
||| uma ponta do fio para explicar o novelo...
||| ... se partilhei aqui duas propostas para "treinar" a atenção, partilho agora uma proposta para o trabalho de desenvolvimento da curiosidade que faz já a ponte com o trabalho centrado no conhecimento. sem curiosidade não há estudantes nem escola.
||| ... proposta: num espaço reservado da sala o professor coloca um espaço [placar, folha de papel, etc...] onde escreve três coisas: o que sei. o que quero saber. o que aprendi. estes espaços, em forma de placard servem para os alunos, no início da aula serem desafiados a preencher os dois primeiros campos. numa primeira fase com orientação do professor sendo que ao longo do tempo será útil trabalhar a autonomia. o que sei é o espaço em que o aluno escreve o que sabe [mesmo que sejam ideias pré-concebidas sem relação com o conhecimento científico] sobre o assunto. o que já sabe. no espaço: o que quero saber o aluno deve colocar o lhe desperta a curiosidade, que perguntas tem. que coisas quer saber. no final da aula ou ciclo de aulas sobre o assunto os alunos devem colocar no espaço: o que aprendi aquilo que julgaram interessante ou importante terem aprendido sobre aquele assunto. este registo pode ser feito com materiais simples como pedaços de papel recortados ou simplesmente post-it's.
||| sei que vou ou não vou para ali...
||| ... hoje uma turma de ex-alunos meus vão ter um espectáculo. o que desejo? que seja o primeiro de muitos da vida deles. que mesmo que alguém lhes diga que não devem continuar, que continuem. e que todos tenham o sucesso que os deuses lhes devem dar. não estando presente, estarei com eles. com cada um deles e com eles todos. que nunca se esqueçam que são mais, melhores, maiores quando são, todos juntos, um só. sucesso e fortuna é o que lhes desejo.
... tirando este desejo, penso sempre numa frase que ouvi: ó professor, acha mesmo que a d. inês era bonita? bonita é a teresa do oitavo b. miúdos serão sempre miúdos. e não há paixão como a primeira, dizem. isto porque estive a discutir a noção de beleza. lá veio a rihanna e mais umas quantas. umas que nem sei o nome. mas lá as vi. plasticamente perfeitas. a noção da beleza é aquela. estranha para mim. estranha talvez não. a precisar de se decifrada. desconstruída. expliquei que sou do tempo em que a beleza era associada à noção do bem. e não de um tempo em que a beleza é erotismo provocante. melhor, chocante. provocatório. comercial. ficaram a olhar para mim. expliquei mais um pouco. a construção dos ídolos é uma coisa muito antiga. assim como da beleza. não foi isso que mudou nos tempos que correm. foi a dimensão verdadeira da beleza enquanto instrumento de promoção dos valores. claro que não expliquei assim. disse somente que achava que belo seria ver estas personagens fora deste cenário criado para o efeito. e lá fomos falando de erotismo. ó professor, fogo... fala de tudo como se não fosse nada. os professores não falam disso connosco. do erotismo? não. de tudo. eles não sabiam o que era o erotismo. nem a sua origem. nem a sua história. no final da conversa agradeceram. muita coisa aparecia agora como clara para eles. desafiei-os a pensar se o david, obra clássica, teria ou não pendor erótico. e ainda os desafiei mais. tragam para hoje aquela obra e transformem a imagem como hoje vos são "vendidos" os ídolos. assim podem perceber o valor de um culto da beleza para além do óbvio. lá foram. e eu fiquei a pensar nisto do falar sobre tudo. se há lugar no mundo onde não pode haver coisas em que não se fala é na escola. e é com os professores. para isso, para a censura, basta o resto da vida em sociedade... pensei.
||| das coisas breves em que tudo importa...
||| ... ao passar os portões da escola observo o que se passa à minha volta. gente a mais. tempo a menos. o tempo dos deuses terminou. o tempo dos justos, também. santo agostinho iria ter dificuldade em compreender isto. kant, também. ou talvez mesmo eu tenha agora dificuldade em perceber que aquilo que aparece em frente aos meus olhos ainda tem o nome de escola. não tem. já nem isso tem. agrupamento. sede de agrupamento. e eu que sou muito dado à importância das palavras reparo nisso. ainda há na boca dos professores " a minha escola". fui à minha escola levar isto ou aquilo. no entanto esse nome, essa coisa simples de chamar as coisas pelos nomes, muda a forma como comunicamos. a reunião é na sede do agrupamento. agrupamento. lembra aqueles batalhões preparados em acampamento antes de uma batalha na idade média. um agrupamento de gente não é uma escola. é mesmo só um agrupamento. gente junta. coisas juntas. escolas juntas numa coisa que nem nome tem. é só um grupo. um agrupar. e tudo na palavra importa. até ao ponto de se ver claramente a falta de estratégia ou visão. agrupar é juntar sem ordem. estar contido é diferente. ser similar. a escola é palavra em desuso. de cima para baixo. é. guardemos nós, guardiões dos deuses, as palavras como tesouros. como resistência e luta. vou-me embora. vou para a escola...
12/03/2014
||| a atenção para ouvir ler...
||| ... ainda sobre a questão da atenção. uma estratégia um pouco abandonada e que valia como determinante no factor da atenção para os alunos era a leitura em voz alta. george steiner chega a afirmar a importância do "saber de cor". e damásio recentemente desvendou que para a criatividade e imaginação é determinante o poder a memória. a leitura em voz alta tem esse "poder" escondido de potenciar tudo isso e a atenção. a forma como é feito é que pode variar. aqui fica uma proposta.
||| ... proposta: muitas vezes peço aos meus alunos para fecharem os olhos, colocarem a cabeça sobre a secretária e ouvirem. faço leituras pequenas. de contos contemporâneos ou nem por isso. sem pedir mais nada. nem comentário. nem análise. nem nada. que oiçam só. começo por textos com a duração de menos de um minuto e vou estendendo o tempo ao longo do ano lectivo. a posição deles varia também um pouco. posso pedir ainda para, de olhos fechados irem descrevendo com gestos o que estão a ouvir. movimentando-se na sala ou movimentando apenas os braços e criando as expressões como se fosse um exercício de teatro mudo. a concentração e atenção são aqui trabalhadas de forma contínua e continuada. ninguém nasce ensinado e treinar a competência da atenção pela escuta atenta é uma necessidade cada vez maior.
||| estou a naufragar...
||| ... esta coisa de encomendar trabalhos tem que acabar. zero. nem leio. mania do raio dos miúdos pensarem que eu não tenho internet ou que não sei ler. copiar e colar. entregar. zero. pronto. desabafei. passemos ao assunto do dia. coisas. tipo. cenas. ya. swag. tão a ver? ó professor é aquela coisa, tipo, a cena coiso da maria, está a ver? não. não estou. perdi-me algures no coiso tipo cena. e eu sou da geração que inventou o bué. imaginem. já não se usa. agora é tudo estrangeiro. inglês. americanado para não lhe chamar outra coisa. ó professor, fogo. é aquela coisa tipo assim. alexandre o'neill tinha um livro que se chamava: uma coisa em forma de assim. bonito. mas era poeta. uma coisa tipo assim não sei. e vem acompanhado com o gesto e tudo. tipo uma cena coiso assim que serve para... está a ver. não. continuo sem conseguir ver nada a não ser o coiso em forma de assim que é um livro do poeta escritor. ó stor, fogo. não o estou a perceber. nem eu a ti. vês. é o que dá eu ter mais palavras para explicar as coisas do que tu. 'pere. vou explicar outra vez. ok. eu precisava de uma coisa como aquilo que deu à maria para o trabalho. um escópio. um quê? era uma cena que o stor chamou de escópio qualquer coisa, está a ver. estava. já estava a ver o que era. a cena. e via a cena toda. passei de professor a stor. e de esperar a 'pere. e a coisa de caleidoscópio a escópio. estamos bem. ok. vai ali ao quadro. ó stor, fogo. pois é... tem de ser. escreve lá o nome da coisa para ver ser é o mesmo que eu estou a pensar. ok, stor. iscópio, a giz. e fiquei a olhar para aquilo. ok. essa cena não sei o que é. sei o que é um caleidoscópio. será isso. yaaaaaa!!!! é isso. e só estava a ver quando é que o kusturica entrava pela minha sala com um anão a dobrar colheres com a mente. que rio de conversa é esta? é uma cena tipo assim coiso, marada. pois é. mesmo. e lá disse que tinha que escrever vinte vezes caleidoscópio. e que cena, coiso, tipo não explica a realidade. não são nomes de coisas. para as coisas. pode ser swag mas não é bonito. assusta. simplesmente, assusta. e combater isto é um esforço acrescido para um professor. porque tenho medo que um dia estes miúdos precisem mesmo de explicar qualquer coisa e as únicas palavras que possuem são aquelas que nada explicam.
||| as cinco coisas que faltam na escola...
||| ... está na moda fazer listas. e indicar coisas como se fosse fácil cumprir os itens e criar algo novo. por isso, para embarcar na onda, cá vão, deste professor [im]perfeito as cinco coisas que acho que faltam na escola, hoje...
||| ... um: identidade.
... tal como cada aluno é um aluno e cada professor é um professor, também: cada escola é uma escola. nivelar ou querer uniformizar a nível nacional uma coisa que tem implementação local, comunitária e diferenciada é um erro. o que falta é a prática de construção de identidade. como se a escola fosse um todo e esse todo tivesse a sua linha de rumo, característica e determinação própria. uma identidade organizacional que fosse diferenciadora e elemento de acolhimento de todos ao qual todos se identificavam. tentou-se isso com os planos pedagógicos de escola mas sem alma ou força. pode ser uma identidade artística, técnica, cientifica, desportiva mas algo que determine a natureza da escola enquanto organização e que faça disso o seu rumo e força para mobilização de competências e interesse de todos.
||| ... dois: estratégia.
... não é com regulamentos, regras e directivas gerais, emanadas de cima para baixo que as escolas ganham competências e capacidades estratégicas para lidar com o contexto e desafios em que estão integradas. se deve existir um plano geral mais ainda deve existir uma estratégia de escola. comum e comunitariamente definida. uma estratégia que adeque globalmente o que se quer da escola enquanto agente de mudança e conhecimento. esta estratégia passa pela questão da identidade acima descrita, assim como, da variação entre a linha de rumo e as práticas pedagógicas a implementar. o convite à discussão do tipo de caminho a fazer é um papel fundamental para os professores se mobilizarem para a mudança. e isso é ter visão e relação estratégica da escola e para a escola enquanto agente de promoção do crescimento individual e colectivo da comunidade onde está inserida.
||| ...três: plano.
... devia existir um plano de formação para professores em cada escola. um plano anual. que fosse criado pela escola e pelos professores em função as necessidades de desenvolvimento de competências e capacidades, assim como, de conhecimentos para o desenvolvimento de estratégias e da identidade da escola. um plano concreto, com metas e objectivos muito bem definidos e claros que fosse um instrumento de apoio ao professor na sua prática diária e não um recurso abstrato e teórico sem ligação ao contexto real de trabalho do professor. devia este plano ser pensado para ter espaços gerais e em grupo em formação, assim como, apoio directo e individual ao professor. um verdadeiro recurso de apoio de formação por formadores competentes e que fossem integrados enquanto elementos de inovação externa e interna para as práticas pedagógicas desenvolvidas em ambiente real.
||| ...quatro: projectos.
... muitas escolas viram morrer os clubes e actividades complementares ao percurso curricular nacional definido oficialmente. as escolas deviam apostar seriamente em criar projectos anuais ou plurianuais [por ciclo de estudo] como ofertas complementares. esta dinâmica que, associada à identidade podia estar aberta à comunidade permitia o envolvimento alargado e o reconhecimento externo. projectos de cariz científico, social, desportivo e/ou artístico que fossem promotores de integração e envolvimento dos encarregados de educação e outros elementos permitiam uma abertura da escola para além do cumprimento obrigatório dos programas oficiais.
||| ...cinco: conhecimento.
... a escola deve ser um lugar de ciência. mais do que isso, promotora e dinamizadora da investigação e do trabalho de difusão científica. e mais do que isso um lugar onde a gestão do conhecimento é uma regra. a não individualização de projectos numa só pessoa e a partilha em equipas de professores permitiria isso. mais, a construção de "bolsas" de investigação e partilhada/divulgação científica permitiria à escola ganhar um lugar de excelência junto da comunidade local, regional e nacional. permitiria ainda que, devido à mobilidade dos professores, que o trabalho de um professor feito num ano lectivo fosse continuado por outros no futuro.
...e pronto. é isto. ideias [im]perfeitas para uma escola ainda por construir...
11/03/2014
||| a cidade é um chão de palavras pisadas...
||| ... a minha primeira abordagem com os alunos é sempre baseada na "educação" para a atenção. ninguém nasce ensinado a estar atento. a redução do tempo que temos para ensinar coisas tão simples como estas está na razão de muitas das questões de aprendizagem, disciplina e gestão do conhecimento que actualmente imperam em alguns ambientes escolares. deixo aqui uma estratégia/proposta que utilizo:
||| ... proposta: trabalhar a atenção pode ser um exercício simples. o som faz parte de um dos mais importantes elementos da nossa percepção sobre o real. existem várias referências sobre isto em projectos actuais. do exemplo do porto sonoro [ver aqui] até ao trabalho da binaural [ver aqui]. a criação das paisagens sonoras implica duas coisas importantes no trabalho de "treino" da atenção: o silêncio e a escuta. o trabalho envolve muitas vezes a saída da sala de aula [para recolha de sons] e o trabalho em sala de aula [para escuta]. com qualquer telemóvel ou equipamento básico se pode fazer uma gravação sonora simples e comparar com os registos destes projectos. se a escola ou o professor tiver equipamento de registo sonoro mais avançado poderá criar um projecto de recolha que decorre ao longo do ano. outro registo/proposta simples é a da gravação de entrevistas. no início do ano o professor distribui a cada aluno um tema que será trabalhado nesse ano lectivo. pede então ao aluno, entregando um guião de entrevista que recolha junto de um familiar, amigo ou pessoa próxima um registo áudio. este trabalho desenvolve complementar e abertamente a questão da escuta activa com a vantagem de resultar em algo que pode ser analisado em contexto de sala de aula no momento de oportunidade de explicação de uma temática.
||| porém se alguém não foi ninguém...
||| ... desde o início do ano que achava que a margarida era uma miúda diferente. no canto, a meio da sala, naquelas mesas encostadas à parede. sempre de olhar suspenso. estando, não estando. era fácil de ver. o pior é que eu não tinha tempo só para ela. no final da aula pediu, desta vez, para falar comigo. diz margarida é por causa da nota do trabalho? não te importes. importa o que conseguiram fazer. disse com o meu ar de vidente. não professor. não é sobre isso. não sei como dizer isto. diz, disse eu, sem dizer nada. aprendi que se eles querem dizer dizem. empurrar aqui não funciona. forçar, muito menos. professor, tenho medo de vir para a escola. pensei que seria um daqueles exercícios que os miúdos fazem uma vez na adolescência. não. repetiu. tenho medo. sentei-me na cadeira e disse para ela se sentar também. o intervalo era grande. deixei-me estar. sabe, o rui e os amigos ameaçam-me. se não faço o que eles dizem tenho medo que me aconteça alguma coisa. e ouvi todas as coisas. tudo aquilo que me disse. lembrei-me dos nomes que dão modernamente a estas coisas. bulling dizem. falta de valores, digo eu. ó professor, não diga a ninguém. tenho medo. a margarida é um miúda no pleno da adolescência. o rui e os amigos já vão para o fim dela. se é que a tiveram. conheço-os bem. todos conhecemos. todos nós, professores, sabemos quem eles são. quer um, quer os outros. pensei no que tinham dito nestes casos. comunicar à direcção de turma. etc... formos interrompidos pelo bater na porta. ah... desculpe colega, não sabia que estava aqui. vamos já sair. tinha passado o intervalo. obrigado professor. de nada, margarida. vou ver o que posso fazer. não faça nada professor. é pior. e saímos pela porta da sala cada um com os seus pensamentos. eu a pensar que tinha que comunicar aquilo. ou não. no final do dia fui para a portaria. esperei o rui e os amigos. chamei os rapazes para falar sobre qualquer coisa. eram meus alunos, também. disse que a margarida era uma miúda fantástica. e que aquilo terminava ali. olhei-os. vi a reacção. percebi. nunca ninguém os tinha confrontado. iam sempre parar a processos e coisas que tais que em nada resultavam. a margarida, pensei na miúda que era e que podia ser, somente. expliquei que a vida é feita de escolhas. e que lhes dava três aulas sem porem os pés na minha sala para irem pensar no assunto. que na minha sala só entravam pessoas. quando eles fossem pessoas. seres humanos. podiam regressar. até lá, não entravam. iam ter coisas para fazer. tenho a sorte dos miúdos gostarem de ir às minhas aulas e tirar isso ser castigo. o que mais reparei foi na reacção. não esperavam o imediato da coisa. esperavam tudo menos isso. e disse-lhes apenas mais uma coisa: antes de ser professor, sou pessoa. e nenhuma pessoa pode permitir qualquer tipo de violência sobre outra pessoa. ou seremos tudo, menos seres humanos. se ninguém lhes ensinou isto, ensino eu. a margarida demorou a sorrir. levou meses. mas hoje voltei a ver o sorriso belo no seu rosto. e tudo ficou como uma má memória, somente. infelizmente, na escola...
||| e eles são tantos e tão diferentes...
||| ... vamos lá ver bem como isto anda. turmas do "ensino regular". ainda regulam. adoro estes conceitos. cef, pief, ensino vocacional. turmas de nível. niveladas, portanto. ensino profissional. isto no ensino básico e secundário. o dito ensino regular [o percurso mais académico dentro do sistema] são já em muitas escolas o menor número da oferta geral. primeiro vieram os cef [cursos de educação/formação]. muitos dos miúdos que não tinham "perfil" para o ensino académico foram enviados para estes percursos. depois, como alguns tinham necessidade de percursos ainda mais diferenciados... os pief. e agora, como bem se pode ver a sequência, o chamado ensino vocacional. sempre disse que a escola deve acolher antes de tudo o resto. problema: não o pode fazer a qualquer custo. pergunta: e quando os alunos no ensino vocacional não tiverem perfil ainda para este tipo de ensino? vamos de problema em problema criando na escola um emaranhado de nós e cordas que vamos, um dia, não conseguir desatar. e para "cima"? no "superior"? as licenciaturas que tinham 5 cinco anos passam a três. os mestrados são integrados. é-se mestre aos vinte e poucos anos. depois o doutoramento. depois o pós-doutoramento e aposto que já há qualquer coisa depois disto. mas então e os miúdos? aqueles do vocacional e tal... ah... há os cet e agora arranja-se aqui uma coisa que no meu tempo se chamava de bacharel mas agora fica como técnico superior. dois anos e já está. desculpem... mas é do meu cansaço deste sistema esquizofrénico ou estamos mesmo perante um sistema impossível de gerir e que se torna impossível criar valor cientifico para não falar em mais nenhum... devo ser eu que não me enquadro no sistema por ser professor...
10/03/2014
||| erros nossos não são de toda a gente...
||| ... eu gosto muito da palavra disciplina. e de adestrar. quando discuto sobre as aulas e os exames falo sempre esta língua. é preciso disciplina. tornar destros estes miúdos que são uns selvagens. repetir. memorizar. em que ano nasceu d. afonso henriques. dito cem vezes. em voz alta. todos em fila. todos de pé. pai fundador da nação. todos devem saber isto. no futuro será muito útil. mil cento e nove. talvez. talvez? sim, mas não importa. onde? coimbra, viseu ou guimarães ou lá para os lados de... não importa. repetir. disciplinarmente. repetir. mil cento e nove. e no teste a pergunta. em que ano nasceu do primeiro rei de portugal. ui... não está lá o nome. está a função do homem. ui... ó professor o que é para escrever aqui? não responder. eles devem ter autonomia. adestramento capaz de os tornar capazes de responder. não digo. d. afonso henriques não precisa de ser apresentado. toma lá um erro. mil cento e dez. e se não estiver mal? não importa. importa o que eu disse e eles devem repetir. para colocar no exame no final do ano. e nos intermédios. e nos meus testes. e findo a ironia por aqui. estou cansado. de ver isto quase ser uma realidade. talvez em algumas salas já o seja. e recordo um dos meus mestres. ninguém nasce ensinado. dizia. e por isso, se queres ganhar estudantes em vez de alunos tens que os ensinar primeiro a serem estudantes. começa por três coisas simples que serão as tuas regras mais preciosas: atenção, curiosidade, conhecimento. ensinar a estar atento. ensinar a ser curioso. ensinar o valor de saber. ao longo do tempo em que sou professor são sempre estes os meus passos. ensinar a estar atento. a ganhar atenção. sem isso nada se ganha, ensina ou aprende. não vale a pena começar pelo conhecimento se não se começar por ganhar atenção. depois a curiosidade. da atenção ganha nascem perguntas. dúvidas. razões por explicar. e no fim, o conhecimento. não para repetir numa folha de papel. o conhecimento como valor. aquela coisa simples de saber explicar porque uma coisa acontece ou por é assim. aquela ligação dos pontos que até aí eram só informação dispersa. ao longo desta semana vou deixar aqui estratégias e actividades que uso com os meus alunos para trabalhar estas três coisas. a sorte é que ninguém lê isto...
||| há que dizer-se das coisas...
||| ... uns óculos. dez euros cada um. para ajudar. e o miúdo lá teve os óculos. dizia-me alguém no final de uma conversa que isto se tinha passado numa escola. que se passa na escola, isto, quase todos os dias. cada vez mais. já uma vez escrevi aqui que, para muitos, a escola é a última reserva de identificação com o estado social [providência]. mas o que importa não é isso. é mesmo a ideia que a escola representa e espelha o todo social no seu tempo. eu sempre defendi que a escola devia ser um lugar à frente do seu tempo. um lugar de futuro. de conhecimento e de acolhimento. um lugar de imaginação e de construção dos dias que estão para vir. mas cada vez mais a escola é tudo menos isso. pelo que reproduz como por aquilo que lhe é pedido. estas situações são representativas disso. de como o estado que falha, falta, se desintegra numa sociedade com uma cultura com elevado pendor social deixa tanta gente indefesa. tirando os abusos do sistema [que os há em todos e sempre] a escola até nisso tem dado exemplos únicos de resistência. raramente, nós, professores, dizemos a um pai ou mãe ou educador que procure a escola enquanto último lugar de refúgio que não faremos o que podemos para ajudar. nas listas das funções e tarefas de um professor isso não está contido. não importa. importa que a escola é uma porta aberta. um lugar de uma resistência humanista silenciosa que quase ninguém conhece, ouve ou sabe. e nestes tempos ainda tão complexos e difíceis isso é, em si mesmo, um desenho único do futuro que se constrói. que esse seja um exemplo. uma verdade. um caminho. porque em silêncio, ajudando, faz a escola aquilo que a cidadania activa de todos parece esquecer. acolhe, ensina, educa, promove oportunidades e remenda futuros.
07/03/2014
||| sempre confiei naquilo que conhecia...
||| ... de regresso às palavras. estive a consultar o chamado "estatuto do aluno". não por necessidade mas por curiosidade. ora estatuto vem de estabelecer. um conjunto de regras com "força" de normalização, por assim dizer. sobre a palavra aluno já muito escrevi. a primeira coisa que estranhei foi a palavra aluno ser usar do mesmo modo que contribuinte ou utente. é uma designação. o aluno. essa coisa abstracta. aquele que usa os serviços da escola. e pronto. está tudo definido sobre essa coisa estranha que dá um estatuto ao aluno que não existe. sim, porque criar um estatuto é dar um estatuto. outro dos significados da palavra. e ainda bem que eu não tenho alunos. pois não, não tenho. tenho estudantes. e pessoas. na minha sala de aula não há alunos. há estudantes que é assim que os trato. os meus estudantes. porque as palavras dizem coisas. e tenho reparado nisso. que vai, lentamente, desaparecendo as conversas, dos documentos, das referências a palavra estudante. aquele que estuda. e isso é, mais do que o sintoma dos tempos, um elemento de pura referência à função se formos mais conversadores. estudar. estudante. local de estudo. são palavras em desuso. viva a figura abstracta do utente da escola. o aluno. que vai às aulas. mas não estuda. é um elemento de presença e não de acção. por isso ao fim de duas linhas deixei de ler o estatuto do aluno. talvez um dia veja nascer o roteiro do estudante e eu lá vá ler. que não seja eu, professor, a matar as palavras que importam e que guardam aquilo em que acredito. a escola ainda deve ser um lugar de estudantes. todos. professores e alunos. e que não apaguem mais as palavras. que estas tenham estatuto de referência. que estudar seja algo de nobre. de válido. de digno. de central. faltam pois, estudantes, na escola de hoje. estudemos bem o assunto e veremos que assim o é...
||| ainda demora muito...
||| ... a escola ensina. a família, educa. de tempos a tempos oiço esta lengalenga. e quando a escola não ensina e a família não educa? ou quando é pedido à escola para educar e ensinar? e porque se persiste nesta coisa como se fosse uma regra. que cabe à família educar e à escola ensinar. porque o exemplo tem que vir de casa. é mais uma lengalenga a somar à anterior. são verdades presentes, estas. mas também o seu contrário. porque o professor educa pelo exemplo. mesmo sem ter que educar. o exemplo do que é, de como actua, de como ensina. e para muitos miúdos esse é o único exemplo de referencia que vão ter até à sua idade adulta. e mais uma lengalenga surge: mas não pode ser. não compete à escola substituir a educação que os alunos deviam ter, nem as responsabilidades que cabem a outras instituições. pois é. é verdade. mudemos o mundo, então. porque na minha sala de aula há miúdos que precisam de mais respostas sociais do que aquelas previstas no regulamento da escola. e o meu trabalho é ser professor. ou não? é ser cidadão. ou é mais do que isso. ser humano. e nas coisas que posso, naquelas que estão dentro do poder do meu gesto e da minha mão, eu faço. eu sei. podia esperar pelas comissões, pelas reuniões, por descartar aquilo que não são tarefas minhas. porque eu sou professor e no meu contrato diz: leccionar. não diz: educar. e repenso tudo. antes de ser professor sou habitante desta terra e deste tempo. e eles são miúdos. e se todos descartamos tudo para os outros e os outros não tiverem resposta ou descartarem para outros tantos aqueles miúdos serão adultos sem ninguém que os ensine e eduque. senta-te direito. pede, se faz favor. diz, obrigado. não se fala alto. podes argumentar sem discutir. não cai o carmo e a trindade se em simples gestos eu der as palavras e as coisas que lhes faltam quando todos achamos que o sistema vai encontrar uma solução e nada é da nossa responsabilidade. há limites, sim. mas não estes. estes das coisas simples, imediatas que estão na minha mão como ser humano e professor. eu sei. estou errado. não importa. eu vou continuar a ensinar e a educar dentro dos limites do que me é possível. podem continuar. a festa segue dentro de momentos num futuro qualquer.
06/03/2014
||| disse-o com um sorriso honesto...
||| ... ó professor posso hoje não fazer esta actividade? olhei para ela. miúda simpática no seu tempo. quando é assim sai-me sempre a pergunta: ok, mas estás bem? olhou para mim. vi no seu rosto qualquer coisa de apreensivo. deixei para o fim da aula a resposta. a andreia é uma aluna presente. quer aprender. está ali por curiosidade. no final da aula lá fomos trocar as palavras que ficaram por dizer. ando cansada professor. então? tu ainda és tão jovem e já cansada? [digo quase sempre eu com aquele ar paternal que não me assenta nada bem]. professor, depois das aulas tenho explicações. depois das explicações inglês. depois do inglês tenho música. e depois ainda vou fazer trabalhos de casa depois do jantar. e isto é no dia em que não tenho ginásio. olhei para ela. no meu tempo, disse, depois das aulas eu ia a pé até ao centro do lugar onde ficavam as coisas boas e ali ficava, no fim da tarde, a ver as coisas passarem com os meus amigos. acho que só tive uma vez explicações. foi no décimo segundo ano e foram duas ou três para falar de matéria que não tinha dado em filosofia. ó professor, o problema não é ter estas coisas todas. é que não vejo os meus pais. os meus amigos tenho que falar com eles no telemóvel. estou cansada. cansada de não ter coisas para não fazer. olhei novamente para ela. vi-a como uma adulta. no limite das forças de tanto ter para fazer e de ter tão pouco tempo para não fazer nada. é que no meio de tudo aquilo ainda tinha a escola. e os irmãos. e mais umas coisas em que se tinha metido por fazer parte da associação de estudantes. não era uma miúda. era um coisa qualquer em forma de gente que andava de cá para lá e de lá para cá. uma coisa que estava num lugar e depois no outro. sem tempo para si. para a construção do si de que fala, tão bem, damásio. esse tempo ausente de tarefas para a apropriação da construção do eu. para pensar. e o desespero dela era esse sem o saber. pedi-lhe um dia vazio de coisas. que fosse para ela esse desafio. disse que não podia. que os pais pagavam tudo e que não podia faltar. disse que a dispensava da minha aula durante uma semana só para ela ir fazer o que lhe pudesse apetecer. não aceitou. não sabia o que fazer quando nada havia para fazer. o tempo passa. ela, uma miúda que é tudo menos isso, está cansada. estará cansada. será uma adulta, exausta. e eu, ao fechar a porta da sala pensei no que será esta sociedade de gente sempre sem espaço para o vazio cheio de percepção de cada identidade individual no futuro que aparece cada vez mais próximo. gente cheia de nada, andando de coisa nenhuma em coisa nenhuma. assusta...
||| este homem que apenas nasceu...
||| ... da visão das coisas. não gosto de usar este espaço para falar de política [ou ausência dela] no que diz respeito à escola e ao sistema público de ensino. não gosto porque não me interessa como professor mais de metade das coisas que se vão esgrimindo entre leis, decretos e regulamentos. interessa-me sempre a luta pelos direitos sociais e profissionais porque são, tão meus, como de todos. mas hoje parei para ver o todo. aquele todo em forma de modelo que desejam para a escola. dos concursos às autonomias. das palavras aos pedaços. e o que surge aos meus olhos, enquanto elemento desse gigante sistema que a todos absorve é mesmo que estão a despedaçar a escola. ao mesmo tempo que atiram para dentro da comunidade escolar tudo o que outros deviam conseguir resolver, estão também a despedaçar a escola. explico. como se cada coisa fosse uma peça isolada. a direcção é uma peça [manobrável e dominante], os professores [são peças movíveis], os alunos [são milhares de peças separadas umas das outras e vistas como um todo uniforme e disforme] e tudo o resto é cenário. peças. não pessoas. peças. peças que podem ser vendidas. trocadas. cujas regras de encaixe podem ser transformadas de um dia para o outro sem apropriação por todos dos novos caminhos. lembra-me aquelas empresas vendidas aos pedaços como se fossem coisas que ninguém sabe muito bem o que são. e por isso a escola é hoje isso mesmo. um lugar onde pedaços do que um dia foi uma comunidade co-habitam. muitas vezes já sem os restos de qualquer tido de identidade ou forma. como se fossem uma caixa esquecida de peças por arrumar. e se a política é a gestão do [im]possível urge chamar alguém que retome o que é importante. dar significado. dar uma política de razão. dar uma forma ao que hoje está despedaçado. ou corremos o risco da escola nunca mais ganhar, novamente, a forma que precisa para enfrentar os desafios para o qual foi criada...
05/03/2014
||| toldam-se os dedos de onde corre a esperança...
||| ... há momentos assim. em que no caminho nos sentamos numa pedra para descansar e pensamos se vale a pena ir contra a corrente. lutar pelo que se acredita para o ensino e a educação. momentos em que o cansaço é maior do que as forças ou a vontade. em que nos perguntamos que conquistas foram feitas. e vemos percebemos que muito daquilo em que acreditamos ainda está tão longe. às vezes, cada vez mais longe. em que perdemos pessoalmente muito mais do que ganhámos. em que falhámos tantas vezes e com tantos a quem só queríamos ajudar. e ficámos como os maus da fita. e percebemos que por muito que se faça as pessoas não mudam. que o sistema é maior do que nós. que às vezes a solidão e a ausência de apoio são avassaladoras. que queremos ter onde nos agarrar mas nada resta senão o nosso corpo já desgastado de tanto caminhar. que é sempre preciso empurrar. e que estamos a empurrar uma montanha. e ela não se mexe. nem um milímetro. momentos em que pensamos que somos nós que estamos errados e todos os outros certos. em que vemos a corrente do rio das coisas inúteis a passar por nós e temos a tentação de embarcar também como os outros que por lá andam por nos dizerem que é tão mais fácil assim. há momentos em que duvidamos do que andamos a fazer há dez ou mais anos por ver que tão pouco ficou feito. é nesses momentos, que todos temos mesmo quando dizemos que não os temos, que reparamos na pedra onde estamos sentados. que olhamos para o caminho feito. que vemos a estrada cheia de pedras com dentes [como a da aventura de joão sem medo] e o pensamento ganha nova forma. a pedra. aquela onde nos sentamos. estava lá. para nos dar repouso. para nos suportar. para nos aguentar. deu-nos o descanso preciso. e nada mais era pedido. nada mais podemos reclamar para nós. por termos esse momento assim, podemos continuar. porque esta não é a escola que eu quero. e não me importa que outros gostem desta escola que agora existe. eu não gosto. e vou errar, falhar, ser apontado como louco ou ignóbil. serei tudo isso. e trarei cada erro que cometi comigo como cicatriz. e serei apontado na rua, alvo de insultos, risos ou reparos. ou terei pequenas conquistas que ninguém ouvirá falar. não importa no caminho que saibam quem nós somos. quanto mais formos nós o centro da atenção menos será relevante aquilo que conquistamos. por isso saberei que serei sempre alguém atrás do cortinado. seguindo o caminho. desejando que o mundo da escola seja um espaço de verdadeira liberdade e encontro. custar-me-à a vida inteira. não verei, certamente, o resultado. ficará para outros. com os louros que outros sabem receber. por muito que o cansaço seja real maior é o sonho. sempre. porque a escola é a minha casa. porque cada aluno é parte do meu caminho. porque um dia, quando terminar de dar os meus passos na minha luta, direi que segui aquilo que acreditava e não aquilo que outros queriam fazer de mim como professor. e por isso, há momentos assim. há. mas há sempre aquela clareira para descobrir no caminho onde sei que vou seguir. e sei que a vou encontrar. porque é sempre maior o desejo de ver renascer a escola como lugar de alegria e pertença do que qualquer falta de alento que só precisa de uma pedra, cinco minutos de descanso e um sonho sempre no bolso para me guiar. enquanto houver estrada para andar...
||| da vida do convento sabe...
este texto tem bolinha vermelha,
no canto superior direito.
||| ... sabe, o seu filho não pode dizer palavrões nas aulas. e aquele homem, pai, de olhar atento e corpo de trabalho intenso e duro olhou para o filho, à minha frente e disse: o cabrão do miúdo nem vê que me mato a trabalhar e ainda me dá esta carga de trabalhos de ter que vir aqui à escola. serenamente olhei para os dois. percebi que a minha conversa teria que ir um pouco mais longe. que me teria que transformar num educador no sentido lato do termo. isto não vai lá com falinhas mansas professor. ele quando chegar lá a casa vai ver. e eu tinha pensado várias vezes em falar novamente com a mãe. muitas vezes sentada no exacto lugar onde aquele homem se sentava me tinha dito que não sabia o que fazer dele. que também dizia palavrões em casa e que desrespeitava as regras. pediu-me ajuda. olhei serenamente para o pai. e para o filho. pensei em tudo o que podia fazer para desconstruir aquele ciclo, quebrar aquela corrente. decidi dizer que ia fazer uma aposta de um jantar com os dois. que se ele o filho não dissessem palavrões durante um mês eu oferecia-lhes um jantar. foi o que me passou pela cabeça. o homem olhou para mim desconfiado. desculpe professor é que quando eu me exalto digo estas coisas, está a ver? estava. a ver a ouvir. e rematei. sabe, ao longo da minha vida como professor já vi e ouvi de tudo. professores que pedem e marcam falta a alunos por não terem manuais quando o que falta lá em casa é comida. pais que tendo todas as condições não reservam tempo para os filhos. pais que tendo muito pouco ou quase nada dão tudo o que podem para os filhos fugirem da condição em que vivem. famílias ditas normais. famílias ditas modernas. mas sabe o que mais importa em tudo isto? a forma como se dizem e fazem as coisas. é que quer queriam quer não, aqueles que educam são aqueles para quem os miúdos olham como exemplo. nunca se esqueça disso. e no final de mais algumas palavras lá nos despedimos com a aposta feita. foi política e pedagogicamente incorrecta a minha acção. eu sei. mas foi o que consegui. o que me pareceu válido. o que serviu. ao despedir-se, o pai, virou-se para mim e disse: desculpe lá estas merdas professor. sorri. a verdade é que um mês depois lá fui jantar com os dois...
04/03/2014
||| cometi alguma tropelia imperdoável...
||| ... dizem que hoje é carnaval. nunca fui muito da celebração destas coisas mas sim da alegria. porque a escola tem que ser um lugar de alegria. mas hoje, tirando nestes dias em que os mais pequenos ainda se libertam do cinzento dos dias foi tirada da escola essa expressão num local que devia ser o último, a reserva, para esse lugar de encanto. há palavras que já não habitam a escola. júbilo. alegria. conforto. e é curioso que assim seja. porque desapareceram da escola coisas simples como o acto de brincar. o recreio. a distracção. o divertimento. tomaram o seu lugar a responsabilidade, o regulamento, o ridículo [no mau sentido do termo]. aceitou-se a diversidade tolerada mas não o comportamento diferenciado. se alguém dá uma boa e saudável gargalhada todos olham como estranheza. porque é normal um certo grupo usar o cabelo azul mas não é normal rir a bom rir. e nesse correr dos dias estas celebrações medievais de registo do tempo, na linha constante do mito do eterno retorno, fazem cada vez menos sentido porque também fazem cada vez menos sentido todas as representações sociais simples que ligam o homem ao tempo. principalmente porque os restos da cultura cristã de um ocidente que perde todos os dias a sua identidade é uma realidade cada vez mais avassaladora. hoje ninguém ri. todos fazem lol. sinistro. assustador. devia haver um decreto-lei com força de urgência para reclamara a alegria para e na escola. e o lugar ao ridículo saudável. ao sorriso. para que a escola ganhe, de novo, o lugar de conforto para todos. para nós professores e para os nossos alunos. e que as datas de celebração não sejam só isso: datas. sejam vivências. falta tanto viver o tempo da escola como tempo de alegria. e isso anda arredado de todas as discussões de tão cinzentos e nublosos que andam os dias entre os muros da escola.
||| atravessamos descalços a planície vermelha...
||| ... a mais dura das realidades. não tenho tempo para ensinar os meus alunos. não é para lhes dar aulas. é para os ensinar. imaginem o cenário simples: da crise de mil trezentos e oitenta e três/oitenta e cinco (século quatorze) até à crise de dois mil e oito. em nove meses (de tempo útil). três aulas de quarenta a cinco minutos por semana. turmas de trinta alunos. exames para os quais os alunos devem estar preparados. e mais tudo o resto. conclusão, não tenho tempo para ensinar. tenho tempo para outra coisa qualquer. que não é ensinar. é qualquer outra coisa. e penso que henry ford não ficou conhecido por ter inventado o ford t. ficou conhecido por criar a linha de produção. e só posso pensar que o professor é hoje aquele operador do filme dos tempos modernos de chaplin. o homem que aperta porcas. ou aquele que controlo o botão de velocidade da produção na linha que não pára de passar. o pior é que os miúdos não são produtos. nem iguais entre si. nem a minha sala de aula é uma máquina. nem eu sou um operador. mas a mais dura das realidades é que hoje os alunos na escola não aprendem. repetem. na melhor das hipóteses. reproduzem. lembra-me a frase do ministro da educação numa época em que as crianças ainda não tinham direitos: não são pessoas. são espelhos. só devem reflectir. e não era de reflexão. era de reprodução. mas a escola é o lugar onde se ensina. e ensinar é um exercício de liberdade. onde há tempo para parar uma aula e tirar dúvidas. onde há tempo para pensar. para perceber. para compreender. para entender. para repensar e pensar e repensar. por isso, hoje fazemos tudo menos ensinar. devolvam o tempo necessário para isso. para esse único acto nobre que resta a uma escola que se desfaz a olhos vistos. ensinar. devolvem-nos o tempo que nos roubaram para a a escola seja, simplesmente, uma escola novamente.
03/03/2014
||| quantos-queres...
||| ... o futuro. sim, sou professor e se há coisa que me persegue é o futuro. porque é para "quem" trabalho. para o futuro. ele, esse senhor imenso e sempre presente. é simples. é o destino dos meus alunos. e imagino o futuro como este senhor que apresento na imagem de hoje. de sorriso feito. mas sério. imaginado. não sei a razão. sempre foi assim. um quase d. quixote mitológico. o senhor que acolherá os meus alunos. eu sei, é estranho. mas não me incomoda que pensem assim. é assim que consigo, aula a aula, procurar ajudar os meus alunos. porque não os estou só a preparar para o agora. estou a preparar cada um deles para um futuro que não conheço. no qual habitarei parcialmente. no qual todas as minhas capacidades estarão mais debilitadas na oportunidade e mais ricas na experiências. o contrário deles. e tudo isto por causa de uma outra coisa que ficou no meu pensamento de uma discussão que ouvi. era sobre tablet's, tecnologia e o "saber escrever com lápis, caneta e afins". sinais dos tempos que estas discussões emergem cada vez com mais frequência. e penso sempre que há três hipóteses. a que o senhor do futuro seja um homem tecnológico e digital [até inventarem melhor] e os usos das tecnologias hoje ditas novas serão fundamentais como competências para os meus alunos. outra é que o senhor do futuro desligue a ficha eléctrica e então o domínio e controlo das tecnologias ditas digitais serão somente memórias do passado e nada mais do que saber escrever, ler e contar será, a par da imaginação, o mais importante na salvação e vivência humana. a terceira é a co-existência. como hoje. que me parece a mais óbvia. e para isso precisamos de ambas as soluções para conseguir caminhar ao lado ou à frente do senhor do futuro. e por isso obrigo-me sempre a este exercício estranho de desenhar e estar atento a esse lugar que ainda só é imaginado. e custa-me sempre o radicalismo do agora perante esta coisa estranha de tomar um lado da barricada no que diz respeito ao uso das tecnologias, como no que diz respeito às teorias pedagógicas que por ai ainda. quando eu era aluno nunca os professores do meu tempo poderiam saber como seria o meu presente. tive a sorte de muitos deles o imaginarem e me terem preparado para ele. o que me deram como melhor ferramenta? a moderação humanista da visão do presente e do futuro e uma imensa dose de curiosidade e imaginação. curiosamente nenhuma destas competências vinham numa pen drive...
||| há no tempo de pausa uma pausa no tempo...
||| ... fiquei a pensar nisso. depois de um fim-de-semana em conversas com colegas de várias partes do país fique com aquela questão no pensamento: se nós temos hoje menos atenção, se nós também "desligamos" por vários momentos numa troca de ideias com que fundamento reclamamos o mesmo dos nossos alunos falando tantas vezes em défice de atenção? devia ser algo em que pensar. e é verdade. devia. deve. a linha que nos separa tende sempre a ser ténue. sei que alguns apostam na "teoria da conspiração" do "multitasking". outros, no conectivismo. outros apontam para a falta de educação. outros para a concentração. outro para a meditação. eu não vou por ai. vou pela curiosidade. tenho dito isto vezes sem conta. deve ser por estar errado. deve ser por isso que o que digo não faz sentido. a curiosidade foi abandonada como estratégia pedagógica. como instrumento para o conhecimento, observação, atenção. despertar a curiosidade. trabalhar a curiosidade. trabalhar o espanto. construir processos de atenção para ser curioso. estar curioso. e com isto, atento. eu sei. é preciso ser corredor de fundo num tempo do imediato. das soluções imediatas. porque como todos nós, professores, sabemos a estratégia da curiosidade exige pelo menos um ano lectivo para conseguir ser consistentemente conseguida junto dos nossos alunos. e ninguém está para soluções que levam um ano lectivo a serem implementadas para, provavelmente, nem beneficiarmos delas por aqueles alunos passarem a ser de outro professor qualquer no ano seguinte. eu sempre trabalhei assim. talvez por ser um maratonista nesta coisa de procurar mudar o mundo uma pessoa de cada vez. nem que nunca tenha conseguido mudar nada a não ser a mim mesmo. mas custa-me ver que na casa onde devia habitar a curiosidade como estratégia para a atenção habita tudo menos isso. e até tem uma receita. aquela coisa que muitos desejam e procuram. o pior é o tempo. o tempo que demora. as conquistas que são precisas fazer. e aquelas que não se conseguem de imediato. e quem perde, somos nós. todos. perdemos a vontade de estar atentos e ver o que nos rodeia, realmente...
Subscrever:
Mensagens (Atom)


























.jpeg)



