12/05/2014

||| leituras [im]perfeitas...


||| música [im]perfeita...


||| às vezes, mas só às vezes...

 
||| ... às vezes, mas só às vezes, reparamos neles. na massa de gente que se forma no espaço livre [recreio já não existe]. chamar-lhe "livre" também é um pouco exagerado. mas espaço é. gosto de passear pelos mesmos espaços que os meus alunos. então com sol, ainda mais. sempre precisei de andar para pensar. é natural em mim. e a escola não é só o espaço da sala de aula. tive uma sensação estranha. desafio mesmo todos a experimentarem isto. dar um passeio por todos os espaços da escola e olhar em volta. reparei que há muito cimento. e muito alcatrão. e muitas cercas. e é tudo duro. seco. povoa o espaço da escola ainda algum resto de verde. mas geralmente é mesmo só um bocadinho de relva acompanhado de "não pisar". ou quando é possível pisar, graças aos deuses, muitos se sentam por lá. e ainda bem. é o que resta da nossa necessária relação com o espaço livre. e andava eu a passear e lá reparei no miúdo. o ricardo. sentado na relva que resta. ó professor, por aqui? sim, vim apanhar um bocadinho de sol. tenho este tempo livre. está-se bem aqui. pois está. estás bem, ricardo? [ao lado, a mariana que é a namorada, olhava para mim]. vou indo professor. ó rapaz, isso do vou indo é para pessoal da minha idade que já vai perdendo a esperança. ó professor, os meus pais estão a separar-se. vou ser sincero. nunca lidei muito bem com estas confissões. ninguém nos prepara para isto enquanto professores. há, por outro lado, um desafio constante ao nosso lado humano. e isso é ser professor, também. e ainda bem. ricardo isso não quer dizer que não gostem de ti [lembrei-me de uma coisa qualquer que ouvi ou li um dia sobre o que se deve dizer]. ó professor, pois não. eu sei. quer só dizer que já não gostam um do outro. e isso é pior. porque eu gostava muito dos dois juntos. [e agora, o que responder? não há manual ou resposta feita]. sabes ricardo, nem sei o que te dizer. percebo-te mas não sei o que te dizer. digo-te só que como teu professor tens-me aqui para o que precisares. e como pessoa também. ó professor, obrigado. sabe bem saber isso. às vezes, na escola, não nos conseguem ver sem ser como alunos. e somos mais do que isso. o professor vê isso e ainda bem. e estivemos o resto do tempo à conversa sobre tudo. do desporto que ele gostava e a namorada não. do futuro e mais umas coisas. falta tanto, na escola, esta companhia que hoje [e sempre] tornou a escola num espaço de encontro. falta cada vez mais. isto tudo.

09/05/2014

||| desistir, persistir, insistir...

 
 
||| ... estava aqui a pensar. [de]sistir, [per]sistir,  [in]sistir. giro. pronto, hoje era só isto. ou não. ó professor, vou desistir da escola. como joana? vou desistir. tenho que ir ajudar os meus pais. vamos embora. mas agora, tão perto do fim do ano? professor, a fome não espera por exames. agora sim, hoje. era só isto. ou isto tudo. 

||| leituras [im]perfeitas...


||| música [im]perfeita...


||| perdi uma aula...

 
 
||| ... andamos todos a contar. nas escolas. já repararam? a contar tudo. as aulas que faltam. as aulas dadas. as horas, os tempos, os resultados. contamos tudo. mas contamos tão pouco uns aos outros todas as outras coisas que não são coisas de contar. então cá vai. menos uma. perdi uma aula. vou ter que a "repor". adoro esta expressão. ó colega, já repôs a aula? a verdade é que a imagem que aparece na minha cabeça é aquela de uma menina de patins no hipermercado jumbo [quando existiram] que dizia que era preciso repor detergente na prateleira do casa e lazer. pronto. mas não era esse repor. é mesmo perder. ia com a aula preparada. o conteúdo todo organizadinho. e levava um livro. a lenda do rei arthur. ia começar a aula por ali. um excerto. pronto. ó deuses inquietos que me destruíram a aula! hades, deus dos infernos, foste tu, pá! comecei a falar sobre livros. os miúdos iam perguntando: ó professor, mas como é que sabe isso? e pronto. de cervantes, fomos até camus. de camus a saramago. de saramago a d. dinis. de d. dinis a agustina. e ainda demos um salto a cesariny. quarenta e cinco minutos a falar de livros quando a aula era sobre a segunda guerra mundial. perdida. completamente. a sorte é que cheguei ao pé do jorge que anda a tomar conta da biblioteca que hoje me sentia imbuído do espírito de promotor de leitura. era mentira. acho que era só para acalmar a minha preocupação com: uma aula a menos. a sorte é que eu sou de letras e não sei contar. e por isso posso "perder" muito mais aulas destas. acho que ninguém dá por isso. nem eu. só os miúdos é que dão. no final vieram-me perguntar se podia levar os livros que tinha falado. assim foi. afinal não tinha perdido a aula. tinha ganho a curiosidade deles. mas isso não cabe nas estatísticas do deve e do haver. nem se pode repor...

08/05/2014

||| da dávida e não da oferta...

 
||| ... esta imagem foi tirada há coisa de uma hora no centro de arte contemporânea graça morais em bragança, onde me encontro. uma exposição absolutamente fantástica. amanhã começa um encontro com professores aqui. eu, professor [im]perfeito cá estou para orientar uma coisa em forma de assim. esta exposição é criada partindo da ideia da cegueira branca do livro de saramago. e amanhã estarei com cento e cinquenta professores a partilhar estes espaços e outros desta fantástica cidade. e que importa tudo isto? isso não é sobre a escola e este espaço é sobre a escola. mas é. enquanto passava naquelas salas, e até tive cinco minutos para o fazer sozinho, pensava na frase e pergunta que saramago nos deixou um dia numa entrevista: e se estivéssemos todos cegos? cegos da razão, da indiferença? e pensei nisto. olhei para a sala vazia. e lembrei-me que este ano lectivo, quer de alunos, quer de professores, quer de gente que trabalha com a cultura [nos museus ou em projectos pessoais] não encontrei essa cegueira nenhuma vez. sempre vi gente a lutar contra a corrente. a procurar fazer. mesmo com muito pouco ou com todas as dificuldades. pior, muitas vezes com o mundo contra cada um deles. e a frase que ouvi sempre foi: os miúdos é que não podem pagar por tudo isto. há ali, nesse gesto, uma grandeza imensa e dita em silêncio que é preciso mostrar. é que em muitas salas de aulas os professores foram o último reduto da porcaria em que tudo isto se tornou. tentaram guardar, preservar, reservar os alunos. e ouvi isso tantas vezes. tentaram fazer: porque é preciso. se não se fizer isto morre. isto, dito vezes sem conta. ou, como hoje aqui onde me encontro, e que amanhã serei acompanhado por mais uns quantos que virão para criar este pequeno evento para professores. que disseram que sim. são para eles estas palavras. e mais do que isso. é para que todos saibam que os professores foram, em muitas salas de aula, o garante da paz para as crianças. e que o país nunca se esqueça disso. não é para agradecer. é para não se esquecer. é esse, em grande parte, o imenso valor dos professores. tudo feito no silêncio dos dias. como deve ser. que não se esqueça isso, agora que dizem que as tormentas estão a [falsamente] abrandar...

||| leituras [im]perfeitas...


||| música [im]perfeita...


||| das capelinhas ou do mundo fechado sobre si mesmo...

 
||| ... uma coisa aprendi com o facto de não ter estado nunca numa escola [nem mesmo num distrito] como professor mais do que um ano lectivo. aprendi que não temos uma escola. temos escolas. que não temos uma realidade. temos muitas e diferentes vivências de muitas e únicas comunidades escolares. e é por isso que muitas vezes digo que quem tenta uniformizar o que é rico unicamente pela sua diversidade torna assustadoramente desproporcional a medida do controlo que tem que impor para o fazer. e em parte é isso que temos. de norte a sul do país temos escolas fantásticas. e temos escolas que funcionam mal. como qualquer outro organismo ou organização sob tutela do estado. é normal que assim seja. mas o estado, "a tutela" desconfia de todos da mesma forma e com isso torna-se um elemento obstrutor do que quer que seja que se queira ou deseje fazer. normalizada quando devia regular. não devem saber a diferença. deve ser isso. e desconfia. o que sinto cada vez mais é que quem devia confiar em mim como professor e na minha escola como organização faz exactamente o contrário. desconfia. de tudo e de todos. e de uma forma, às vezes tão absurda que transforma o útil e algo completamente impossível de executar. falo de uma coisa simples. uma grelha, daquelas que anda agora por ai, com critérios de avaliação. desdobrados de valores em percentagens. de percentagens em critérios. de critérios em referências qualitativas. parece um tratado em excel. um coisa assustadora. só fazer aquelas contas são três dias. ainda por cima eu sou de "letras" [só para disfarçar]. o que cada um daqueles quadradinhos me diz quando neles clico é só uma coisa: desconfiam de tudo o que eu faço. tudo. apetece, como faço sempre, enviar aquilo tudo a zero. assim podem desconfiar à vontade. e eu posso gozar com o sistema. felizmente. podem querer tutelar tudo menos a minha liberdade de ensinar. e ensinar não é preencher grelhas de excel. e muitas, mas muitas vezes mesmo [e ainda bem] nem quantificável é. mas que importa, como diria um aluno meu. ninguém vê isso a não ser o professor. pois é... deve ser isso, mesmo...

07/05/2014

||| vamos lá falar de afectar...

 
||| ... vim a matutar naquela conversa. eu gostava de ficar aqui para o ano. gosto da escola. e dos miúdos. e pensei na conversa da moda. os afectos. não gosto da expressão e muito menos do termo. humanização é mais o meu estilo mas eu sou um classicista. por isso, humanização. e ao sair o portão da escola pensei a sério nisto uns minutos. outro dia ouvi uma miúda dizer a coisa mais acertada que ouvi nos últimos anos. dizia ela: a minha escola tem trezentos e oitenta e tal alunos, não sei quantos funcionários, não sei quantos professores, não sei quantos elementos da direcção e todos os dias se estabelecem milhares de relações humanas. todos os dias. milhares de relações. conversas. conflitos, sucessos, segredos, angústias confessadas, conquistas partilhadas. milhares. todos os dias. e pensei nisso. que este sistema não está desenhado para a humanização. está desenhado para a utilização. e explico. estamos quase no final de um ano lectivo. daqui a pouco "milhares" de professores serão chamados a "concorrer" para outras escolas sabendo, muitos mesmo, que não vão ficar naquela onde estiveram este ano. outros sim. mas muitos não. outros em nenhuma [mas isso fica para outro texto]. o que cria isto muitas vezes? a dureza da simples realidade de não dar tanto quanto se queria. deixar os miúdos no final do ano para outros que vão ser seus professores no futuro não é a mesma coisa do que saber que aqueles miúdos vão estar três anos connosco. reservamos as relações humanas ao nível da utilização. defendemo-nos. só quem nunca foi professor é que não sabe o que é "deixar os miúdos" no final de um ano lectivo. a culpa é do que a miúda falava com voz sábia. das relações, aos milhares, que se criam. e podemos dizer que nos dedicamos a mil por cento a cada miúdo. mas dedicação não é afecto. é dedicação. esta humanização da relação precisa de um tempo maior do que só um ano. precisa de uma sedimentação da confiança. precisa do tempo das coisas para ficarem vivas na memória. e custa muito ver excelentes professores presos nesta dualidade entre a dedicação e dádiva. e a escola precisa tanto de uma como da outra. os miúdos precisam tanto de uma como da outra. não é de afecto que estamos a falar. é de algo muito maior do que isso. é da confiança serena das relações humanas em continuidade. mas estes sistema não é para velhos. é para utilizadores funcionais. pensado para tal. para a desumanização. por muito que cada um de nós, como professores, o combata diariamente na sua sala de aula ou naquele abraço sentido ao miúdo que está a precisar. é tempo de olhar para isto. antes que seja, outra vez final do ano lectivo e outra vez, seja tarde demais...

||| música [im]perfeita...


||| leituras [im]perfeitas...


||| do controlo ou da mão que deixa ir...

 
||| ... esta é a base. o "livro" liber monstrorum [ver, aqui]. iria terminar a aula com a projecção do imaginário de hieronymus bosch e toda a sua construção tinha sido pensada para ser assim. a arte tem uma força maior sempre que falamos numa aula exploratória ou mais aberta à criatividade e ao imaginário. esta imagem que hoje aqui coloco foi um dos resultados dessa aula. dada a liberdade aos miúdos de um décimo ano para criar e eis que surgem monstros "medievais" quase a tocar o imaginário de época. em conversa com quem me convidou para este desafio fomos falando que o cinema e as séries de televisão foram trazendo para o presente estas representações. mas a verdade é essa, sim, e um pouco mais além. a representação visual de um monstro criado pela viagem que tentei fazer com os miúdos por um tempo que é impossível recriar foi levar-lhes a ausência de luz, a imaginação e o medo. o resto é só um exercício de reconstrução de imaginário que ganha forma ali, perante os nossos olhos, quase como bosch o fez para as suas obras. estes sem a mestria mas como a imaginação activada. mas este é só um detalhe. apetece-me reflectir noutra coisa. estes não eram meus alunos. foram só emprestados por noventa minutos. e acabei por dar a aula mais controladora que dei nos últimos anos. dirigi todos os passos. queria testar isso também. a certa altura as regras mudaram. era para ter ordenadamente os miúdos a desenharem estes monstros imaginários do universo medieval um a um. e de um momento para o outro estavam todos naquela tela, feita de papel de cenários e o pincel feito de carvão para desenho, a trocar ideias. a dizer: não pá, as pernas são maiores. era o seu monstro. de nenhum deles, mas de cada um dos quatro grupos criados. o resultado foi colectivo. espantou por isso. mas a páginas tantas estava eu a dizer para quem me tinha convidado: não, deixa-os estar. mudaram as regras. eles querem participar todos. e era mesmo isso. e dei por mim a registar isto. este meu desejo de controlar aquela aula e seguir as regras certinhas resultou que a imaginação é sempre mais forte que a lógica. bebendo dela, liberta-se. e foi tão bom rever isso. sentir isso. saber isso. saber que quando dou uma aula assim tenho que ter a capacidade de saber observar quando dar a liberdade criativa. na altura certa e no momento exacto. querer controlar tudo a toda a hora é estafante para além de ser contraproducente. gostei de viver isso. de experimentar isso. fez-me pensar isto tudo. é bom quando damos aos nossos alunos a liberdade certa na medida exacta da sua força criativa. e para isso é preciso gerir a coisa mais importante numa aula. o equilíbrio. valeu a pena esta experiência. por isso. por tudo. e pelos monstros que me fizeram sorrir...
 
obrigado júlia braga,
obrigado alunos/as do décimo ano
da escola artística
soares dos reis

06/05/2014

||| da inclusão, exclusão e do colega...

 
||| ... eu sei que é prático. ó colega, sabe... mas é sintomático também. ó colega, não diga que não leu... esta coisa do "ó colega". um dia disse que escreveria sobre isto, cá está. ó colega mas o miúdo anda tão mal... ora bem... em primeiro lugar esta coisa do ó colega lembra-me uma outra coisa. uma das minhas primeiras experiências profissionais ensinou-me uma coisa importante. sempre que receberes uma indicação deves responder: ok. obrigado. assim quem te der a indicação sabe que a recebeste e compreendeste. ficou-me aquilo. mas era noutra área que não o ensino. ó colega, desculpe mas não tem razão.... e pronto, voltamos ao tema. é que esta coisa de chamar ó colega tem várias leituras. a que faço é sempre a pior de todas. deve ser do meu estado de ressaca pelo encontro a que fui que ainda não me passou. ó colega, não diga isso assim... digo pois. acho que a razão simples para esta coisa do ó colega é porque não sabem o meu nome. é porque estamos a perder ou a querer perder as relações pessoais no espaço das relações profissionais. em todas as escolas onde estive sempre cumprimentei ao chegar e ao sair. e fazia por saber o nome dos meus colegas de profissão. o trato pelo nome indica que sabemos quem é o outro. que nos damos a esse trabalho. pequeno, mas que nos damos a esse cuidado. mas isso está a perder-se. não digo em que certos contextos não dá jeito. porque, de facto num curso, encontro ou reunião podemos não saber os nomes de quem está quando isso acontece  num contexto externo à comunidade escolar. no entanto, numa reunião de professores na mesma escola, na mesma turma, muitas vezes num cruzamento no corredor não saber o nome do outro que por nós passa ou que no mesmo espaço habita é preocupante. é preocupante, sintomático e ilustrativo do que, em muitos casos, se está a transformar a escola. se a escola fosse uma empresa e os funcionários não soubessem o nome uns dos outros algo ia mal. e na escola? ó colega, não diga mais disparates, já chega... concordo. concordo, é um disparate. é que eu sou do tempo em que os professores ainda confraternizavam para além do correr igual dos dias. e conversavam fora dos assuntos da escola. eram pessoas e não funcionários colegas uns dos outros. ó colega, deixe-se de coisas. cale-se lá, se faz favor. certamente. não falo mais nisso. deve ser só uma coisa minha, colega...

||| música [im]perfeita...


||| do pensar a aula. uma aula. a aula...

 
||| ... ando aqui às voltas com uma aula. a júlia desafiou-me para ir dar uma aula aos miúdos dela. o tema: idade média. ora bem... simples então. fui aos clássicos. fui aos "manuais". fui navegar. navegar é preciso, diz o poeta. foi aí que me perdi. perco-me sempre quando navego. encontro muito powerpoint. muita coisa. muitas linhas quase todas iguais. porquê? porque são cópias umas das outras. e pronto. regressei ao que regresso sempre. à folha em branco. uma aula de noventa minutos sobre idade média: religião, arte e vivências. ora bem... umberto eco ajuda-me. lembrei-me que para eco a idade média não é a idade da escuridão. era o tempo em que o homem procura reproduzir-se, na arte, de forma luminosíssima. concordo. vou começar por aí. por desconstruir isso. mas o que é uma aula sobre a idade média, hoje? povoa no imaginário de todos aquela ideia dos reis, dos cavaleiros [da versão rei arthur] ou simplesmente dos homens e mulheres vestidos de sarapilheira que habitam as feiras "ditas" medievais. então como transportar tudo isso para a sala de aula? isso não, uma nova visão da idade média partindo dos estudos mais actuais. do que realmente se sabe ou a história diz saber. em primeiro lugar duas coisas: luz e cheiro. sim. uma aula sobre o tempo médio tem que ter isso. sem luz. e com o cheiro de uma igreja medieval. como o fazer? escurecer a sala. velas, um euro, cinco nos meus amigos chineses. e incenso. lavanda. a sala de aula transformada numa experiência para os sentidos, também. e depois. depois preciso de narrativas de época. da vida numa aldeia. sim, boa ideia. transformar a aula numa aldeia. cada um com o seu papel. a bruxa. importantíssimo. ter uma bruxa. e um largo. uma praça pública. é que dar uma aula não é dar uma lição. é diferente. é transformar uma sala de aula em qualquer outra coisa. é dar ao que se pensa e sabe sobre a idade do meio uma razão lógica de se explicar nos tempos de hoje. é que a ciência histórica não é imaginário. é descrição. e isso é muito importante passar para os miúdos. e terminar com hieronymus bosch para fechar. e chegar à conclusão que não houve tempo tão rico em seres e histórias imaginárias como aquele a que chamamos "das trevas". para isso, o primeiro a fazer a viagem, sou eu. e faço-o sempre primeiro. eu professor, viajo pela minha aula para ver como podem fazer essa viagem os meus alunos. ou estes, emprestados por noventa minutos. lá vou eu acabar de preparar isto...

||| leituras [im]perfeitas...


05/05/2014

||| o rei vai com orelhas de burro...

 
||| ... uma personagem. ou melhor, duas. um encontro sobre educação. ou melhor, três personagens. um encontro sobre educação em que o mote eram as práticas educativas e a disciplina. e as personagens eram oradores. ou melhor, palestrantes. ou melhor, saídos de um armário qualquer. nem sei. nem sei como escrever este texto. estou a pensar para não ofender ninguém. resta a organização e a boa vontade. nem sei. mas descrevo, é o melhor. sem julgamentos para além daqueles que não posso deixar de fazer. por isso, muitos. ou inúteis. mas os meus. como professor sou um defensor acérrimo da formação contínua. não porque dou formação de professores mas porque sou frequentador da mesma nas suas mais variadas formas e feitios. e foi por isso que fui a este encontro. o tema era caro. e permitia ver o que se anda a fazer e dizer sobre este assunto. lá fui. primeira "conferência". resumindo: quietos e calados ou rua. a laicização do estado e a escola inclusiva são os males da indisciplina. o estatuto do aluno e o regulamento da escola são os culpados de tudo o resto. o professor autoritário é um modelo tão válido como outro qualquer. resumindo. ouvi. e ainda ouvi mais. que nos últimos anos o pensamento único da escola inclusiva tinha "calado" quem defendia o modelo do professor autoritário. e que por isso se tinha transformado no modelo de pensamento único mas que havia milhares que defendiam o autoritarismo do professor que deviam poder falar e ser ouvidos. e pronto. resumindo. que posso eu dizer disto? simples. sou um adepto profundo do sistema democrático. do verdadeiro. e por isso quem falou tinha esse direito de o fazer. como eu tenho o direito a discordar de tudo o que disse. só concordo com ele nisso. que calar a parte contrária é sempre um erro. o mesmo que ele queria fazer aos alunos que não se enquadravam no padrão "quietos e calados". mas o que me assustou verdadeiramente foi uma plateia de professores a bater palmas a estas alarvidades gritando, de quando em quanto: "é isso mesmo!". e sentado na última fila pensei. estamos mesmo a assistir ao fim de algo. dos valores abertos pela democracia conquistada. mas principalmente ao imenso risco que é alguém dizer que tem uma receita, por muito demagógica e perigosamente exclusiva que seja e uma classe profissional em desespero, simplesmente aceitar perder toda a legitimidade individual e conquistada por uma sociedade aberta e livre em função de um idiota [de criador de ideia] que apresenta um visão perfeitamente redutora e limitadora de qualquer liberdade para a escola e para o professor [e em primeiro lugar para os alunos]. e fiquei de ressaca. valeu o almoço. a pausa para desabafar comigo porque até tive medo de dizer o que pensava a outros que aplaudiram tudo o que tinha sido dito. o almoço até foi bom. seguia-se um workshop. ora bem... workshop. eu quando penso em workshops penso em coisas práticas. fazer coisas. experimentar. e pronto. lá me sentei. uma hora e tal. a ouvir falar dos pais que queremos para os nossos miúdos. baseada nesta moda do positivo. e pronto. falou-se. falou-se. falou-se. falou-se. positivamente falando. e o retrato com que fiquei foi mesmo de uma sociedade sem sustentação. pior. sem um ideial para si mesma. ou com um ideia de utilizador. os miúdos e os pais [cidadãos] foram transformados de consumidores em utilizadores. e quanto mais utilizadores, mais ocupados. e com isso, com a ginástica, a música, o inglês, o mandarim, a oficina de balões e coisas que tais, pais e filhos, educadores e educandos, utilizam. não produzem pensamento. não param. andam de cá para lá, de lá para cá, sem esse tempo útil e essa urgência da reflexão, do pensamento, da racionalidade e do ideal. uma sociedade de utilizadores. simplesmente. e pronto. intervalo. sol. precisava mesmo de apanhar ar. o sol, valeu o sol! e regresso para a "conferência de encerramento".  ora bem... mais uma personagem. desta vez a "regra" para os pais serem bons educadores. resumindo: tenham uma cunha, perguntem qual é a melhor escola, fujam dos estabelecimentos cujo público contenha "franjas de exclusão social" porque estes é que provocam o bullying e pronto. comprem o meu livro que está lá tudo escrito em três passos simples. e pronto. foi isto. o que ficou? sobre indisciplina a ideia de que muitos querem mesmo os miúdos quietos e calados. sobre práticas educativas, a visão de uma escola que sendo ainda inclusiva, se for por estes caminhos deixará cada vez mais miúdos fora do sistema estando nele "oficialmente". e ficou uma vontade imensa de mostrar que tudo o que vi e ouvi tem outros caminhos possíveis. felizmente. e ficou uma ressaca que ainda não passou...