22/05/2014

||| carta aos deuses...


||| … aos deuses sentados algures. hoje dei uma má aula. não correu bem. estou cansado. acordei a pensar que não sei onde estarei a dar aulas para o ano. se as regras serão as mesmas. entrei na sala sem saber se as regras impostas ainda são as mesmas que vinte e quatro horas antes. estou cansado de tantas mudanças feitas em cima do joelho. de me atirarem com mais trabalho nesta altura em que o cansaço aperta num ano em que vi que somos menos e cada vez são mais as coisas inúteis que inundam os meus dias. vale o sorriso da maria sentada na primeira fila depois de eu ter pedido desculpa pela má aula que tinha acabado de dar. ó professor, mesmo dizendo que a sua aula foi má eu gostei. valem ainda estas palavras para acalmar o desâmino no sistema cada vez mais perdido dentro de si mesmo. é só um desabafo isto tudo. estou cansado de ver e sentir este estado que é o meu tratar-me como uma peça. convocado para isto e para aquilo, sem razão ou lógica. cansado das horas a ver centenas de testes. de me pedirem mais uma grelha. cansado de não ter tempo para ler um bom livro e chegar à aula e contar que tinha feito uma viagem pelas palavras para os maravilhar. cansado deste sistema que pede que os meus miúdos, aquele de cabelo aos caracóis ou aquela de lacinho na cabeça, sejam médios. uma média para uma estatística qualquer que todos vão esquecer em poucos dias. por isso, deuses sentados algures, vão-se embora. deixem-me ser professor novamente. deixem-me dar aulas que gosto. que os meus alunos gostam. lentamente. sem a pressa de chegar a um exame que os vai colocar numa pauta sem brilho ou encanto. ó deuses sentados algures, deixem-me ser professor…

||| música [im]perfeita...

||| leituras [im]perfeitas...


||| desta coisa da disciplina...


||| … dei por mim a ir ler umas coisas. sobre discplina. a visão dos outros. e reparei em duas coisas concretas. que tudo se passa na sala de aula. que todo o “trabalho” de regulação e normalização está colocado no que se espera que o professor faça para “mudar” as coisas. principalmente, as “atitudes”. há, depois, as correntes. os “afectistas” [como lhes chamo], que colocam o afecto e a relação empática como centro do processo de resolução dos problemas. e os “regulistas” [como lhes chamo, também] que colocam o foco na autoridade e força do professor. mais até do que nas regras [ou tanto como]. é que esta coisa da disciplina desperta sempre esta outra coisa que é o lado da trincheira em que cada um se encontra. ou não. para mim que nem um nem outro fazem pleno sentido, que as teorias são boas para os teóricos, acho que o ponto ou ângulo de visão é que está a precisar de ser mudado. a escola recebe hoje miúdos cuja “educação” e o modelo de referência que lhes foi facultado se distorce na lógico do respeito claro pelas regras comuns. rapidamente oiço logo alguém dizer: a escola não educa! ensina! e pronto. lá vem mais uma lógica teórica assente no modelo social de uma burguesia que já não existe de per si. para mim a escola é para todos. o que me custa é ouvir cada vez mais nas sala de professores ou nos corredores: estes miúdos não deviam estar na escola. isto não é para eles. isto, que é a escola, foi feita e conquistada na liberdade de ser exactamente para eles. mas para todos. também. e a cerca que veda a escola do mundo deixou de permitir que se veja, muitas vezes, o óbvio. tudo mudou. de fora para dentro da escola. e não existem ilhas no universo humano. por isso, depois de ler mais um texto penso que há dois factores importantes a reclamar neste desafio da “disciplina”. o primeiro é que se nos centramos no “dentro da sala de aula” estamos a cometer o mesmo erro do que é transformar tudo em ilhas. é que muitas vezes o regular ou criar normas de convivência em sala de aula é determinado pelo que se passa fora daquelas quatro paredes. influi. determina. e é preciso pensar nisso antes de pensar em tudo o resto. e depois, no que é uma lógica integrada e transversal. não é “obrigar” a que os professores todos de um determinado aluno ajam da mesma forma. ou proibir tudo e mais alguma coisa por via de um regulamento ou coisa parecida. é envolver e criar uma lógica de actuação harmonizada. um dos mais importantes sentidos que os alunos procuram é a coerência. o outro: o significado. a razão. a lógica. combinados os dois, coerência e significado ganham os professores todos enquanto equipa uma força maior para criar novas formas de convivência. não se trata de igualar formas de ensinar ou personalidades entre professores. trata-se de tornar claro e preciso o modo de relação humana entre quem procura a disciplina para o bem comum e quem precisa de encontrar significado para o comportamento adequado para cada momento. hoje apeteceu-me pensar nisto. mesmo que, imensamente, utópico...

21/05/2014

||| se paulo bento tivesse email...

 
||| ... vou tentar ser simples. falar a linguagem "transversal". é imaginar o paulo bento sentado ao computador. a ver quem vai e quem não vai. são dez da manhã. o anúncio público está marcado para as vinte horas. email enviado. moutinho tem o email no telefone. acede. olha... estou convocado. quaresma só vem a saber depois das vinte e uma horas que ficou pendurado. se paulo bento tivesse email e a selecção fosse uma escola seria mais ou menos isto. é que esta mania de "convocar" tudo e todos em cima da hora parece que veio para ficar. mais do que isso a ideia que estamos sempre todos contactáveis. mais do que contactáveis: disponíveis. e tudo começa num ministério que coloca os professores a aguardar por colocações e regulamento que vão saindo entre as vinte e três horas e um sábado ou domingo qualquer. e estende-se a escolas onde o tempo de trabalho é confundido com o tempo pessoal. um trabalhador não pertence ao empregador. trabalhar para. não é, de ou vive para o emprego. há cada vez mais esta confusão. e cada vez mais a permissividade de uns e de outros permite abusos. convocatórias em tempo record onde o comentário à sua não visualização ou leitura é sempre: não viste? foi ontem às vinte e duas e cinquenta por email. pois não. não vi. mesmo que visse não respondia. porque a essa hora estou no meu tempo pessoal. reservo-o para as urgências e para o meu tempo de convivência. a isto soma-se esta coisa estranha que circula em conversas do sigilo e da "lei da rolha". não se pode falar nisto. é calar e seguir as regras porque se assim não for... ui. ui, nada. ui que se ninguém disser que não, que não pode e não deve ser assim, vamos de perda em perda de um direito maior do que o tempo. este direito a ser individuo, como agora é moda dizer. individual. ter o tempo e espaço privado que é o que isso quer dizer. e tudo começa, novamente. mais uma regra criada em cima do joelho, num gabinete, altera as regras novamente. e aí vamos nós. mais uma notificação. mais uma convocatória. mais uma alteração. para serem respeitados, devem dar o exemplo. aqueles, lá em cima no gabinete no sétimo ou oitavo andar que olham para as pessoas pequeninas que andam pela rua cá em baixo ou longe, depois de uma serra que num mapa não existe. respeitem as regras. do público e do privado. se não sabem, leiam os princípios da república que os sustenta. e vejam que lá está esse velhinho direito. seja convocada a consciência cívica. para isto tudo. com quarenta e oito horas de antecedência. mas que seja, urgentemente, convocada a razão e a cidadania esclarecida que tanto falta nos tempos de hoje...

||| leituras [im]perfeitas...


||| música [im]perfeita...


||| sentados, num gesto único...

 
||| ... é aquele burburinho no corredor. alguns nervosos. outros de papeis nas mãos como miúdos "grandes". outros com o olhar perdido. um ou outro, com sono. e depois entrar. pelo nome. completo. das poucas vezes em que o sistema os chamará pelo nome. joana margarida silva ferreira. ah... sou eu. o sistema. a chamar pelo nome. curioso. nunca tinha pensado nisto. no futuro, na vida. será o número. de contribuinte. de identidade [conceito tão estranho haver um número de identidade]. sentados numa mesa. um a um. separados por um espaço que lhes diz que é impossível olhar para o lado. que ali vale cada um por si mesmo que lhes tenham dito que juntos são mais. o sistema relembra-lhes isso. cada um por si quando chega a hora da verdade para esse mesmo sistema que não admite o direito de um saber colectivo mais forte do que o saber individual. sentados. a olharem para a hora de começo e fim de uma prova que foi sacralizada durante um ano lectivo. não é o último passo. haverá aulas depois disso. eles sabem disso. é simples. mas quando vejo a sala cheia e o toque soa olho para eles. miúdos. pequeninos. sim, miúdos. e lembro-me de estar daquele lado. não, não me esqueci. e olho para mim do lado do sistema, agora. se por um lado, ser professor, sempre foi mais do que uma escolha uma coisa natural em mim, nunca imaginei que fosse assim. quando estava daquele lado nunca podia imaginar o caminho que a vida me iria dar para percorrer. nem os falhanços. nem as conquistas. os exames que fiz não me prepararam para a vida. o exemplo dos meus professores [e tive muitos e bons e muitos e maus] sim. dos exames só retive essa ideia que ali aparecia, naquela sala cheia de miúdos, como algo claro e limpo. o sistema olha para ti e apresenta-te essa ideia simples: vales por ti. não podes ajudar os outros. não contes com ninguém sem ser contigo. vales x, no final. que vale trinta por cento que fizeste durante um ano lectivo. não esperes nada. o sistema é maior do que tu. és só uma peça. vais perder o nome. ser um número. como ali. entre aquelas centenas naquela escola. em todas as escolas. desejo-lhes boa sorte. no papel para ser lido diz: diga - bom trabalho. eu digo, boa sorte. deve dar um processo disciplinar. não estou a desejar sorte para o exame. estou a desejar sorte para a vida. e que esqueçam aquele momento. e que voltem rapidamente para o corredor. que aquelas horas passem depressa. e venham as conversas e brincadeiras depois. em conjunto. porque aquilo que o sistema lhes nega ali na vida é mais fundamental do que qualquer outra coisa. juntos somos mais. melhores. sabemos mais, aprendemos melhor. mesmo que durante o tempo de um exame isso seja invertido. boa sorte, portanto. sorte. para a vida que é um futuro por revelar. sem exames. com provas e desafios. mas sem exames...

20/05/2014

||| do livro e do sentido das coisas...

 
||| ... ó professor! professor! parei. ia em passo largo no corredor. eram uns miúdos sentados no chão encostados à parede. digam. professor, podemos fazer-lhe uma pergunta. claro. digam. estamos aqui com uma dúvida. porque é que o ensaio sobre a cegueira é uma metáfora do autor sobre um certo modelo de sociedade? é pá, que raio de pergunta. ó professor... era o intervalo grande, como ainda lhe chamo. disse: posso sentar-me com vocês? sim, professor. ok. então mas é esse livro que vai sair no exame? não. mas era uma pergunta que vinha numa ficha. ok. então quem tem o livro aí. ninguém? eu tenho umas fichas de leitura. e eu um resumo. então e o livro? está em casa. já leram? uns bocados. uns bocados? sim. ok. então eu vou ali buscar o livro. e dei um salto à biblioteca. voltei de livro na mão. vamos ler? ó professor, e a pergunta? a resposta está aqui, vão ver. em primeiro lugar, sabem que saramago foi serralheiro mecânico? e que não avançou nos estudos por falta de possibilidades da vida? foi? foi. ó professor, mas o professor não é professor da nossa turma, não se importa de estar aqui connosco? vamos lá esclarecer isso. no papelinho que me deram com a licença para vos ensinar não dizia que só podia ser professor do décimo segundo, letra a. sou professor e ponto. esta mania de se ser professor só de alguns é uma coisa estranha para mim. e sou professor de história mas sei ler. e até umas coisinhas de outras áreas porque não somos só feitos de uma coisa. por isso, vamos lá. o ar não era de grande satisfação. comecei a ler. em voz alta e pausada. parei, ao fim de alguns parágrafos. expliquei as ideias de saramago. falei da visão política. das ideias. de como até a sua vida marcou cada pensamento. falei da ida para lisboa. da azinhaga. falei de pilar e da aventura da seara nova. voltei a ler mais um pouco. em voz alta e pausada. sentado no chão de um corredor da escola. foi assim, durante vários meses. até acabar o livro. passei a ouvir ler. os miúdos que eram quatro ou cinco passaram a quinze e vinte mais para o final. sempre sentados no chão, no intervalo, era quase, como me dizia uma miúda, como uma série daquelas da fox que não queremos perder um episódio mas aqui não dá para gravar ou ver na net. saramago habitou aqueles corredores e aquele chão durante uns meses. juntou-se mais tarde a professor de português da turma. eram só momentos em que se ia ler um livro, sem fichas de leitura, resumos ou leituras de outros formatadas para o que devia ser o pensamento único sobre uma obra imensa. queriam mais, quando acabou. podemos fazer isto com o finalmente há luar? não, as minhas costas já não aguentam. e vocês não são meus alunos, não é? quem passava pelo corredor achava aquilo estranho. não querem ir para uma sala? não. não queremos. estamos bem aqui. foi um hábito reconquistado. o de ler em voz alta. de se falar do livro sem as restrições das linhas de rumo e de leitura. era só um livro, lido. uma conversa que ia de futebol à história do convento. era só isso. nada mais. fechou-se o livro. e tudo voltou a ser como era. saramago deveria ter gostado de por ali ter passado. apetecia ter ali a oliveira. e aquilo ser um jardim. era só um corredor, um livro e o som das palavras em conversa.

||| música [im]perfeita...


||| leituras [im]perfeitas...


||| da ideia do "um para muitos"...

 
||| ... ó professor! venha aqui, tire aqui uma selfie connosco. [ok, lição número um: fotografia já não se diz]. que fixe. ó professor, tem que ir cortar o cabelo! pois tenho. olhem lá e se pedíssemos a alguém para nos tirar uma foto? como? pedindo. ó ricardo, chega aqui. tira aqui uma foto a nós todos. ok. já está. ficou bem? deixa ver. volto a concordar que tenho que cortar o cabelo. ó professor mas uma selfie é mais fixe. resumindo, é uma foto em modo de individualismo. lá está o professor com frases complicadas. não é isso maria, é um retrato do tempo. no meu tempo nós pedíamos a outras pessoas, muitas vezes sem as conhecermos de lado nenhum para nos tirar uma fotografia. geralmente ficavam mal. mas era giro. era giro ir pedir ao outro. a outro. falar com outros. hoje é tudo "self-made". acho que achamos que tudo é mais complicado ou que chateia os outros pedir para nos tirarem uma foto. deixamos de falar, ainda mais, com isso. depois publicamos aqui e ali. muitas vezes para "comentarem". olha, tive uma ideia. ó professor, que medo. quando diz isso vem trabalho para cima de nós. não, esta é gira. vamos criar um projecto aqui para a escola. como assim? até já tenho nome. já? fogo professor, não sei como faz isso. vais chamar-se: uns e os outros. do filme: les un et les autres. não viram, eu sei. ainda por cima em francês. ya, professor, cheira a seca. não, a ideia é simples. vão ter um período para a fazer. ai é? é. é o vosso próximo projecto para nota. eee... ó professor... porque é que fomos falar consigo... estava a brincar. mas vamos fazer. então é assim. vamos criar um site onde o pessoal coloque uma selfie e uma fotografia tirada por outra pessoa a quem vão ter que pedir para lhes tirarem a foto. depois fazemos um mural. para comparar. que acham? professor, que fixe. podemos começar? podem. ó rui, anda cá.... e lá foram. e lá se fez o mural. e lá se fez a leitura do mural. nós representados por nós. sem falar, sem pedir. e nós aos olhos dos outros. a quem foi preciso pedir para tirar o "retrato". a identidade também se constrói assim. e pelo menos falaram um pouco uns com os outros...

19/05/2014

||| das referências...

 
||| ... li no público o artigo de daniel sampaio [aqui]. geralmente não gosto da visão mas desta vez gostei. e reli eduardo lourenço sobre a questão da identidade quando voltei a uma dúvida que tenho em mente há uns tempos. esta questão que chamam de identidade e que eu chamo de referência. mas antes de ir a esse campo apetece-me pensar a "substância do tempo". os estantes de hoje não gerem o conhecimento [ou melhor, a informação, como eu geria e vou gerindo] como nós, no tempo em que as coisas eram consultadas para guardar na memória como referência de conhecimento. a memória é hoje um espaço de acesso ao imediato "consumível" e de referência temporal curta. nisso concordo com daniel sampaio. o tempo imediato tem hoje um protagonismo muito superior à identidade de memória histórica que o precede. as coisas deixam de ter um antes. e também um depois. para serem um agora contínuo. na geração dos miúdos ainda mais. assusta. mas a verdade é que a informação tem hoje uma forma de acesso imediata e permanente que não existia quando, por exemplo, eu estudei na escola [pública] onde se ia à biblioteca ou recorrer ao saber dos outros. tudo demorava um certo tempo com que se contava. tudo tinha que ser guardado. conservado. e com isso se criava identidade e memória. ou como lhe chamo, referência. a minha dúvida é simples. o que fazemos então, nós, seres humanos, com esse espaço de memória a longo prazo? para o que usamos? a neurociência fala-me em neuroplasticidade. acredito. percebo, até. damásio já explicou e provou isso. fernando moura, foi mais longe. mostrou. comprovou. ok. mas então para que está hoje a ser usado isso. esses espaço que fica vazio na memória. cheio de memórias de curto prazo? de referências acríticas a instantes provocatórios? a determinar a forma como observamos o real? cheio de miley cyrus, selfies e autoproclamação do eu enquanto representação ideal da felicidade buscada em constância infinita? a perda da identidade, ou dos elementos de referência [a que associo a história e cultura colectiva, os "heróis" ou simplesmente a pertença local - sem qualquer espírito de nacionalismo mas como forma de identificação] torna-se assustadora numa geração do agora. é que não estamos a falar de uma geração com olhos postos no futuro. em que esse tempo do imediatismo prepara o caminho para o "amanhã" que se falava na geração pós vinte e cinco de abril. fala-se de um conjunto de imensas pessoas em construção que vivem no agora. presas nele. sem identidade. sem referência. a quem, a escola, ainda não sabe responder. a quem a sociedade deseja que sejam "clientes". tudo no agora. e hoje deu-me para pensar nisto. já me passa. mas agora estou a pensar nisto...

||| leituras [im]perfeitas...


||| música [im]perfeita...


||| desta coisa do preparar para a vida...

 
||| ... não sei. acho sempre estranho que alguém ache mesmo que os exames preparam para a vida. percebo isso dito em forma demagógica para um "público" que tem como memória, muitas vezes [e ainda] o exame da "quarta classe". do preparar para a vida. um batalhão de exames do quarto ano ao décimo segundo. com um ritual quase santificado. com professores a lerem regras ditadas por um gabinete que quer uniformizar o impossível. preparar para a vida, dizem eles de sua alta santidade. as televisões abrem as notícias com milhares de miúdos entre os nove e os doze/quinze ou mais anos a fazerem "o" exame. os jornalistas perguntam: sabes que vale para nota? sim, sim, responde a miúda. quem está dentro sabe que a pergunta é absurda. quase desde o primeiro dia em muitas salas se disse vezes sem conta: chegas aos exame e vais ver... ou depois quero ver no exame. tudo na sala, nos dias, nas horas, foram vividos com esta meta. mas o que não se diz é que hoje, como nos próximos tempos, muito menos professores estão nas escolas. o trabalho de organização, vigilância, correção e orientação coube a muitos menos. concentrou-se em muito menos pessoas. os mesmos para tudo. e mais do que isso, quase sem tempo para ensinar. sim, para ensinar. há quem diga que estiveram a treinar os miúdos. o que vi e vejo é mais do que isso. é operacionalizar. tornar operário. transformar os miúdos em operadores. para isto, respondes isto. pronto. ponto. final. nada mais. e depois há as diferenças. abismais. dos miúdos que querem a escola, dos que querem aprender. dos que estão lá por estar. dos que pagam a escola que os pais querem que eles tenham. e ainda aqueles em que a escola é, realmente, um treino mas para o futuro. aqueles que depois da escola pagam explicações e mais mil coisas. que são preparados para "mandar" nos outros, no futuro. é tão desigual tudo isto que um ministério permissivo e incoerente tenta dizer que é uniforme e igualitário. não é. é mentira. os miúdos que vão a exame não vão nas mesmas condições. a desigualdade social é um espelho forte demais que se reflete ainda mais neste momento. é preparar para a vida, dizem eles ainda. continuam a dizer. talvez os miúdos só venham a perceber que era mesmo preparar para vida, no futuro. quando virem que foram enganados. que a mobilidade social era uma ilusão desde o início. que as desigualdades eram maiores do que a mentira da oportunidade que lhes contaram. e talvez estejam a ser mais preparados para a vida do que até eu penso. talvez seja por, um dia perceberem tudo isso, que se podem e vão revoltar. e mudar isto. só não consigo ouvir, mais uma vez, dizerem aqueles que mentem que tudo isto é assim porque é melhor que assim seja. infelizmente é assim. resta-me acreditar que estes miúdos que vão fazer exames possam, no futuro que é o deles, mostrar que podem existir exames mas não como este fim. nem este princípio. é o meu desejo secreto, em silêncio. de vigilante...

16/05/2014

||| receita simples e qb...

 
||| ... o colega mas isso não está no regulamento. [raios partam o regulamento e esta mania das coisas reguladas]. sim, mas posso tentar? acho isso muito errado! não importa, posso tentar. o miúdo tinha saltado pela janela. nada mais, nada menos. e lá vem a razão debatida em reunião: família destruturada. não sei o que isso é. nunca percebi. nem me interessa que o rótulo seja esse. eu proponho fazer isto. importam-se? se não resultar metem-me um processo. pode ser? é pá, mas isso não está no regulamento! ok. então coloquem em acta que fica à minha responsabilidade. a minha proposta. durante uma semana o miúdo ia ficar comigo. um tempo lectivo por dia. uma semana. assim foi depois de muita luta e debate. tanta gente contra. até porque eu tenho o estatuto de louco e seria um perigo. durante uma semana. e lá ficou. uma semana. para se "curar" como dizia alguém. não, não era para nada disso. era para os meus colegas poderem dizer que se falhar a culpa era minha e o miúdo não tinha "cura". durante uma semana, todos os dias, lá estive com ele. a escola era no centro da cidade. tinha acesso a tudo. fomos ao cinema. a um museu. fomos ver o mar [que ele nunca tinha visto]. fomos a uma livraria. fomos ver um jogo de futebol ao fim da tarde. fomos falar com uns senhores que tinham andado na pesca. passou a semana. reunião. ó colega, diga lá o que fez ao miúdo que ele parece outro. não fiz nada. ou melhor, dei-lhe só duas coisas. como assim? despertei-lhe a curiosidade para o mundo e dei-lhe atenção. e fiz tudo da forma mais pedagogicamente incorrecta que conheço. é louco. pois sou. durante o resto do tempo até ao fim do ano lectivo nunca mais ouvi falar do miúdo. às vezes era ele que, com os amigos, que me ia desafiar para ir ver, outra vez, um jogo ao fim do dia. e lá ia eu colocar a pasta ao carro e ia com eles. percebi nesse ano que a destruturação não estava só na família. estava em todos nós que rotulamos tudo sem ver nada. correu bem. podia ter corrido mal. não importa. o que importa é sempre tentar. para conseguir ou falhar. mas tentar. o sistema não resolve nada se não for por via da mudança. não é receita para nada. até porque, tem apenas dez por cento de hipótese de sucesso. mas...

||| música [im]perfeita...


||| leituras [im]perfeitas...


||| já não é o limite...

 
||| ... a coisa começou assim: ó professor, posso falar consigo no final da aula? [e a aula ainda não tinha começado]. claro. eu e a tânia. sim, claro. sabem que podem sempre falar comigo. estou aqui para isso. a aula até nem correu tão bem como eu esperava. sinceramente, eu estava desinspirado. há dias assim. no final lá estavam eles. professor, tem cinco minutos? olha, deixa-me ver só se tenho aqui alguma chamada para atender e depois falamos. foi só espreitar o telefone [e ainda bem que nada, no entanto no email nem se fala]. mas podia tudo esperar. eles estavam ali e primeiro. professor, como lidava com o medo, no seu tempo? como assim? não estou a perceber. sabe, estas semanas tivemos montes de testes. e estão a chegar os exames. os meus pais e os da tânia estão sempre a dizer que temos que ter boas notas. que se matam a trabalhar para nos dar a possibilidade de estudar e mais umas coisas que não interessa. eu tenho medo de falhar. é que eu vejo mesmo o esforço que eles fazem. estão sempre cansados. sempre a discutir por causa do dinheiro que não chega. e nós só queríamos não falhar agora mas são tantos testes. tanta coisa. [parei suspenso]. sim, ainda há miúdos assim. e ainda bem. e não são poucos. muitos só não falam. e respondi: sabem, no tempo em que eu estudei as coisas estavam menos mal do que agora. mas sempre tive essa ideia que é a vossa. o querer corresponder ao que outros, que cuidam de nós, esperam de nós. mas tenho a dizer-vos que essa vossa preocupação me deixa muito feliz. por um lado não perderam o mais bonito que há. esse cuidado. depois porque ganharam outra coisa importante. a responsabilidade. e vocês são miúdos que estudam. não se preocupem. medo todos temos. e teremos sempre. esse medo de falhar ou errar é normal. mas peçam ajuda aos vossos professores. eles estão sempre aqui para vos ajudar. e mais do que isso, descansem. vai parecer estranho o que vos vou dizer. eu tinha um hábito que ainda tenho. quando vejo que estou a ficar cansado ao ponto de começar a falhar no que tenho para fazer tiro uma hora do meu dia, desligo tudo o que me faça distrair das coisas e vou dar um passeio a pé. ainda por cima vocês são namorados. vá. vão passear um pouco e esqueçam a escola por uma hora, meia hora qualquer coisa. [interrupção] ó professor!!! como é que sabe que somos namorados??? é fácil. sou mais velho que vocês... e com o sorriso, o riso e a coisa simples de ser humano e não operário lá foram eles. miúdos bonitos, aqueles. e ainda os há!

15/05/2014

||| do que faz falta...

 
||| ... tenho uma única regra inquebrável com os meus alunos. resume-se a uma palavra: respeito. geralmente no início do ano, na primeira aula, digo isso. em vez de dez, quinze ou mais regras. tenho uma. mas é inquebrável. deles por mim. de mim por eles. pode parecer estranho. mas eu tenho o mesmo respeito por eles que exijo que tenham por mim. mas a base desse respeito não é a autoridade. é o respeito em si mesmo. não é fácil. nunca é. eu tenho a mesma autoridade do que eles [quando a razão está presente]. este é um gesto insano para muitos. partilhar a autoridade. pode mesmo parecer estranho. mas como já o fiz em todas as circunstâncias possíveis [de turmas de nível a turmas em escolas teip] sei que a sua lógica é muito difícil de conquistar mas uma vez conseguido torna-se sólida e transformadora. isto é, a regra é só uma. e aplica-se a tudo. houve uma vez, só uma, na minha vida como professor que essa regra foi quebrada. já foi há uns bons anos. lembro-me como se fosse hoje. terminei a aula como se nada fosse. na aula seguinte eu não era o mesmo para eles. perceberam. sentiram. no final da aula perguntaram-me: ó professor, não estava bem hoje? não. eu é que já não sou o mesmo professor. porque quebraram a única regra que tinha. perderam a minha confiança, o meu respeito e agora terão aquilo que não pensavam que podia ser cada uma das aulas. serão simplesmente lições. umas atrás das outras. e não foi preciso mais nada. acho que andaram o resto do ano a pedir desculpa. e hoje falta muito essa cultura do respeito mútuo na escola. não se trata de respeito "automático" pelo professor. é de uns e de outros. algo construído. conquistado. dá muito trabalho. ui... se dá. mesmo muito. pode levar um ano inteiro a conseguir, mas é urgente. é o que faz com que quando passo num corredor cheio de miúdos, sem ser preciso algum diz: deixem passar o professor. ou que pensem as aulas como desafios e no final me perguntem, com consideração: que achou professor? ou que não entrem na sala desordenadamente. é um hábito. uma rotina. um costume que se interioriza e não se conquista. demora muito tempo. é muito cansativo. mas no final é uma reserva única de convivência entre pessoas num espaço comum. e isso falta. falta cada vez mais. porque achamos sempre que não temos que educar. mas o respeito ensina-se. educa-se. treina-se. conquista-se. só assim podemos ter espaços únicos reservados à educação. e é um respeito profundo. de mim, como professor, para eles como estudantes e deles como estudantes para mim como professor e como pessoa. e isto importa. mesmo que digam que não.

||| leituras [im]perfeitas...


 

||| música [im]perfeita...


||| esse lugar, este lugar...

 
"...parecia talvez haver nesta sala atulhada de móveis, coberturas, porcelanas e fotografias,
mais espaço do que era habitual..."
kafka, o processo
 
||| ... entrem comigo. raramente lá vou. sem razão mas talvez só pelo espaço. a porta está aberta. entrem comigo. a sala dos professores. se um dia tivesse uma escola era o primeiro local que eliminava. mas entrem comigo. entro em passo corrido. há uma mesa livre. daquelas redondas, grandes. com cinco lugares. coloco a mala no chão. olho em volta. acabou de tocar e chegam pessoas em passo corrido também. é um intervalo um pouco maior. sento-me. tiro um livro para disfarçar. olho em volta. uma mulher, sentada do lado oposto ao meu, está cercada de papeis. testes vistos e revistos. está a assinar as folhas num gesto mecânico e impensado. chegam. há um ruído constante quando chegam. muitos em silêncio. mas tudo feito em gesto acelerado. pousam as malas e materiais. ouve-se um ai.... ufa. bom dia, colega. já está mais uma feita. a aula, refere-se. sentam-se por uns segundos. a sala enche. o ruído aumenta. olha, trouxeram-te as autorizações? é pá, o miúdo não pode ir. como faço agora? um homem de costas olha pela janela. como se quisesse estar em todos os lugares menos ali. o ar cansado mostra tudo isso. é pá hoje o ricardo está insuportável. olha que o miúdo fez isto... ó colega, pode assinar isto? interrompem-me a observação da cena. claro que sim. não uso caneta. tem uma? tenho, obrigado. já está. regresso ao olhar. duas pessoas, um homem e uma mulher sentam-se em silêncio. sinto que precisam daquele pedaço pequeno de descanso. procuram qualquer coisa que não precisam nas suas pastas. estão desconfortáveis. um deles coloca as mãos no rosto. é pá, bom dia! é que o benfica não ganha e nós não nos livramos do crato! entra alguém a dizer alto. soam umas risadas que não são gargalhadas. só mesmo tu ó eduardo. é um homem de meia idade que tenta mostrar a alegria que falta a tantos. por uns segundo consegue. o burburinho acaba por abafar a alegria. nem sabes, no sábado faltei à prova de natação do meu filho, diz uma mulher quase em surdina a outra. tinha testes para ver. não dá para tudo. eu fui a uma sessão de yoga. faz-me tão bem. preciso mesmo de desligar disto tudo. não aguento sem ser assim. e o colega de matemática, já foi a operação? não, ainda não há é substituto e os miúdos estão a ficar atrasados na matéria. cruzam-se conversas destas. às dezenas. centenas, mesmo. e observo tudo. há uma tristeza transparente naquele espaço. é pá, vamos lá animar que ainda falta a taça! e as europeias e os tipos vão-se embora! haja esperança. últimos sorrisos. há um tentar romper da falta de força uma vez mais. toca. terminou aquele tempo. não vens? agora não tenho aula. oiço, fico aqui. tenho estes testes para assinar. não há tempo em casa para tudo. levanto-me. não abri a boca. apenas estive a olhar para tudo aquilo. falta alegria. falta vontade de ali estar. falta ligar e não desligar a escola. da escola. vai-se arrastando o ir para a sala. mais dois dedos de conversa. uma pausa para tratar de uma coisa. o ritmo acelera novamente. está tudo por cumprir. está tudo por fazer. funciona. do verbo funcionar. não encanta. do verbo encantar. fecho os olhos. respiro fundo. ó professor, o que vamos fazer hoje? espera-me uma miúda logo à saída da sala de professores. não sei. nunca sei. ainda bem.

14/05/2014

||| plataformas sem ponto zero...

 
||| ... moodle. ehehehehehehhehe [gargalhada]. pronto, está dito. ó professor, onde é que tirou aquilo? não tirei. coloquei. ó professor, fogo, diga lá. a sério, criei e coloquei lá. não aceito partilhas copiadas a não ser como referência. ó professor, tirei isto da net, que acha? e o que deixaste lá? como? sim, em troca. nada, fiz só copy/paste. ok, mas deixaste um comentário a dizer isso? que fizeste uma cópia? não. para quê? porque não é teu. é de acesso livre mas não é teu. ya, professor, mas era interessante. ok, então deixavas um comentário. era o mínimo. e o que tens tu colocado na net sem ser os vídeos gravados num concerto ou as fotos tiradas em todo o lado com os amigos? imagina que a net era uma biblioteca. por cada livro que consultavas tinhas que deixar lá outro. já viste que no prazo de pouco tempo a biblioteca aumentava, em muito, o seu espólio? ó professor, nunca tinha pensado nisso. pois... a verdade é que a maioria do que se partilha, no moodle de uma escola ou em muitos espaços que usamos são cópias, de cópias, de cópias. mas tem valor o primeiro que as colocou acessível a todos. pensem nisso. é por isso que uma plataforma que serve de apoio às aulas, para trabalhos e afins, se tiver só informação copiada daqui e dali tem o mesmo valor que uma qualquer pesquisa feita em cima do joelho por qualquer um de nós: eu ou tu. a escola, sempre defendi, deve ser um lugar onde o conhecimento ganha a imensa forma de ser o elemento central do processo de aprendizagem. como posso eu dar o exemplo disso se, no meu espaço que criei para vocês me limito a partilhar coisas que encontro por ai na net. também o devo fazer, claro. mas devo exigir a mim e a vocês o mesmo que exijo na sala de aula. que criem. que sejam autores. que sejam e partilhem reflexões. que vão mais longe. e o que me assusta é que só vejo cópias. cópias de cópias de cópias. será que não está na altura de todos serem originais? ó professor, fogo, não se pode falar consigo. é mesmo exigente. pois sou. para mal dos vossos pecados. mas vamos lá ver à net quais são eles. os pecados. podemos sempre fazer: copy/paste...
 

||| música [im]perfeita...


||| leituras [im]perfeitas...

 

||| madalena ou a tábua rasa...

 
||| ... a imagem era esta. completa. maria madalena. não. era uma personagem de um filme que não vi. dizia um aluno. que comparada isso com uma cena de um filme que eu não vi. era a mim que faltava a referência para o entender. eu sabia a história e a arquitectura deste quadro. mas ó professor, é mesmo igual. mas no filme era sofrimento. quase morte. aqui, talvez. êxtase. palavra complexa. isto tudo por causa de uma aula. no final de uma aula voltei a pensar nisto. naquelas trinta almas. naquelas trinta pessoas com graus tão diferentes de experiências e conhecimento. e de como ainda vejo que muitos os consideram uma tábua rasa onde podem escrever tudo o que sabem sem considerar as referências que aqueles miúdos, pessoas em construção, vão tendo. é a posição professor. ou a expressão. e contou-me a história do filme que eu não vi. disse-lhe mesmo isso. não vi, vou ver. pedi o nome. aluguei. vi. e lá estava. não madalena mas outra personagem. era um daqueles filmes de acção que transpiram americanismo e "bravura" americana por todos os lados. mas reconheci a cena. e percebi a influência do realizador. e fomos falar disso numa aula posterior. das referências na arte. das influências. de que nenhum de nós é um ser feito tábua rasa. ó professor, só mesmo você. todos acham que nós saímos de casa para a escola e da escola para casa e que não vemos mais nada. este é o tempo do acesso à informação. menos ao conhecimento. mais à informação. não posso negar isso. nem que, mesmo em tempos difíceis, os meus alunos experimentam coisas para além das paredes da sala de aula. e ainda bem. e quando essas experiências são válidas, oportunas e coerentes não as posso negar. posso incluir. e mais do que isso, posso e devo aprender. para que a referência seja ponte e não pedra para arremessar contra a tábua. madalena, deitada, fez-me pensar nisto.

13/05/2014

||| mais um e pum...

 
||| ... no final de um ano lectivo devo ter visto quase [ou mais] de dois mil testes. sim. e o que ganhei eu ao "ver" dois mil testes. nada. trezentos e tal alunos sem eu poder dizer, de quase nenhum, que lhe fiz algum bem ao ver os seus testes. anotações, correcções, nota. e depois os exames no final que se aproximam. nunca fui contra exames. sou-o contra este modelo e esta avalanche que transformou a escola numa fábrica e os estudantes em operários. um teste tem que ser um instrumento pedagógico em si mesmo. mas não há tempo para isso. há tempo para testes de correcção simples. são dois mil num ano. é tempo que não é dado. é roubado. aos outros. ao meu próprio tempo para aprender. ao meu próprio tempo para pensar e preparar o que ensinar. um teste devia ser isso mesmo. teste. vamos ver. vamos desafiar. vamos aprimorar o conhecimento. não é. é um momento de repetição. ver se são capazes de repetir o que vem num livro, o que eu disse numa aula, uma definição que debitei quando queria ter ensinado. e são quase dez mil folhas de papel. num ano. só um professor. dez mil folhas de papel. uma por aluno. e tempo, nem consigo contar as horas com os olhos em escalas, cotações e coisas que tais. avaliamos o que queremos que eles tenham aprendido. e serve tudo uma lógica pérfida de inutilidade. porque os testes não servem para nada se forem feitos assim. se fossem, testes, desafios, isso sim. mas não há tempo. há tempo para a inutilidade de apurar resultados para colocar numa folhinha e enviar pela estúpida cadeia de "comando" para ficar lá, pendurada e misturada, numa estatística final qualquer que alguém um dia irá dizer na televisão: estão a ver, subiu. e com isto perco eu o meu tempo. pior, perco o tempo para os meus estudantes transformados em copistas. e era tão simples que tudo não fosse assim. mas infelizmente não temos tempo para pensar nisso. há testes para corrigir...

||| leituras [im]perfeitas...


||| música [im]perfeita...


||| ensinar uma coisa básica...

 
||| ... escrevo este texto depois de ter tido cinco minutos a ver televisão enquanto terminava um café. o único do dia, verdade seja dita. não ouvi a notícia. era mesmo só a imagem a passar. um rapaz dizia qualquer coisa a uma jornalista. era sobre um jogo qualquer de futebol. o rapaz, miúdo, falava como adulto. e não sorria. o homem ao lado, certamente seu pai, igualava em tudo o rapaz. e dei por mim a lembrar-me de uma saída da escola ao fim de um dia. as conversas dos miúdos pareciam as dos adultos. há, tenho que ir fazer isto e depois isto. tenho isto para tratar e amanhã ligo-te. etc... [sempre adorei isto do: etc...] adultos em ponto pequeno. ou rapaziada com o presente roubado. são todos adultos antes de tempo. não riem. não sorriem. custa-me tanto ver isto. falam de "relações" em vez de namoros. falam de fazer coisas em vez de experimentar. seguem o traço da responsabilidade sem nunca terem feito uma asneira típica da idade e quando o fazem assume tudo um tamanho maior do que seria se fossem só traquinices da idade. e nós afundamos ainda mais a juventude que deve ser deles: pareces um miúdo! ó pá, já tinhas idade para ser responsável! já não és criança! e dizemos isto a miúdos de dez ou onze anos. e mais tarde a miúdos com dezasseis ou dezassete. queremos que sejam todos cinzentos como nós, mesmo quando nós dizemos que não estamos bem assim. ou do outro lado, dizemos: procura é ser feliz. é o outro lado. são miúdos. a felicidade está lá pela inocência. não os coloquemos a procurar uma coisa que fomos nós que perdemos. e nem foi a felicidade que perdemos. foi a alegria. e nem nisso acertamos. mantenham a alegria é algo que digo muitas vezes aos meus miúdos. conservem-na. façam com que viva sempre. e depois oiço: ó professor, nas suas aulas sinto-me como se fosse uma criança. e tenham eles dez, dezoito ou vinte anos. negamos cedo demais esse direito que é deles. queremos robots adultos em vez de miúdos. pássaros. pardais. à solta. enjaulados já eles estão. da escola para casa, de casa para as actividades [quando as há], das actividades para casa e no dia seguinte para a escola. enjaulados. ainda outro dia me dizia uma educadora: eles já nem correr sabem. eu digo mais, nem cair. e eu que tive tantos arranhões nas pernas e braços que nem tinham conta assusta-me. assusta-me cada vez mais ter adultos em miniatura de cor cinzenta e não miúdos. espero que o benfica ganhe. talvez assim, aquele miúdo na televisão cujo rosto sem sorrir guardo em mim, possa perceber o que é um sorriso, verdadeiro, de criança.

12/05/2014

||| uma aula na idade média...

 
||| ... pedagogia: dar sentido, significado, percepcionar um tempo que é tão longínquo como a memória colectiva histórica, assim como, desmistificar as visões contemporâneas mais "comerciais" do que foi a idade média é uma evidência pedagógica necessária central no papel do professor de história nos tempos que correm.
 
||| ... metodologia: esta aula foi experimentada numa turma do décimo ano, para noventa minutos, no máximo de trinta alunos. o professor começa por preparar a sala: tapa as janelas (deve obter na sala a maior escuridão possível). precisa de cinco ou seis velas pequenas, incenso com aroma de lavanda ou alecrim, papel de cenário e carvão para desenho. a sala deve ainda ser preparada colocando as cadeiras em cima das mesas com os pés para cima criando a ideia de uma "floresta" de cadeiras. os alunos são convidados a entrar na sala quando o cheiro do incenso se começa a espalhar pelo espaço e às escuras estando apenas uma vela acesa que está na posse do professor. o professor faz um enquadramento teórico e explicativo [o mais imersivo possível] partindo da descrição da vida quotidiana vs vida religiosa na idade média, numa aldeia exemplo. divide depois os alunos por grupos [quatro ou cinco] que serão habitantes de uma aldeia. cada grupo, uma aldeia. com cada elemento a ter um papel. senhor, trabalhador, monge, bruxa, etc... o professor pede depois aos alunos para imaginarem uma caminhada por uma floresta, sem luz, mostrando o imaginário medieval/clássico dos monstros e seres que eram descritos à época [ver liber monstrorum]. distribui uma vela a cada grupo e o carvão para desenho. previamente o professor colou o papel de cenário na parede cobrindo uma área que permita aos grupos desenharam os monstros ou seres imaginários que conseguem criar no espaço de tempo de vinte a vinte e cinco minutos. o alunos vão até esse "mural" e desenham, em grupos de três, iluminados apenas pela vela, os seres criados. no final deste tempo o professor convida os alunos a voltarem a sentar-se [no chão onde estão desde o início] e a criarem um mosteiro para a sua aldeia. este mosteiro terá que ter regras [que os alunos definem em grupo], assim como, devem ter hábitos próprios [que os alunos devem desenhar e criar]. estes hábitos podem respeitar trajes da altura ou serem criações imaginadas. o professor faz o enquadramento teórico sobre o clero regular para melhor compreensão pelos alunos. por fim, os alunos são convidados a desenhar os monges e sua forma de vestir no mesmo espaço onde desenharam os monstros ou seres imaginados. nota: tudo isto é feito apenas com a iluminação das velas. no final da aula o professor acende a luz da sala e revela o quadro/mural final. por comparação pode projectar uma imagem do liber monstrorum ou de bosch [tentações de santo antão ou outra] para pedir aos alunos para fazerem uma reflexão sobre esta nova ideia da idade média que acabaram de construir. ver exemplo de apresentação em powerpoint que pode ajuda na articulação entre a componente teórica e prática da aula, [clicar aqui].
 
||| ... esta aula tem como tema: a idade média. é uma aula de desconstrução do imaginário contemporâneo sobre a idade média enquanto "idade das trevas" e de apropriação imersiva dos alunos sobre o tempo histórico enquanto construção humana e temporalmente condicionada.

||| leituras [im]perfeitas...


||| música [im]perfeita...


||| às vezes, mas só às vezes...

 
||| ... às vezes, mas só às vezes, reparamos neles. na massa de gente que se forma no espaço livre [recreio já não existe]. chamar-lhe "livre" também é um pouco exagerado. mas espaço é. gosto de passear pelos mesmos espaços que os meus alunos. então com sol, ainda mais. sempre precisei de andar para pensar. é natural em mim. e a escola não é só o espaço da sala de aula. tive uma sensação estranha. desafio mesmo todos a experimentarem isto. dar um passeio por todos os espaços da escola e olhar em volta. reparei que há muito cimento. e muito alcatrão. e muitas cercas. e é tudo duro. seco. povoa o espaço da escola ainda algum resto de verde. mas geralmente é mesmo só um bocadinho de relva acompanhado de "não pisar". ou quando é possível pisar, graças aos deuses, muitos se sentam por lá. e ainda bem. é o que resta da nossa necessária relação com o espaço livre. e andava eu a passear e lá reparei no miúdo. o ricardo. sentado na relva que resta. ó professor, por aqui? sim, vim apanhar um bocadinho de sol. tenho este tempo livre. está-se bem aqui. pois está. estás bem, ricardo? [ao lado, a mariana que é a namorada, olhava para mim]. vou indo professor. ó rapaz, isso do vou indo é para pessoal da minha idade que já vai perdendo a esperança. ó professor, os meus pais estão a separar-se. vou ser sincero. nunca lidei muito bem com estas confissões. ninguém nos prepara para isto enquanto professores. há, por outro lado, um desafio constante ao nosso lado humano. e isso é ser professor, também. e ainda bem. ricardo isso não quer dizer que não gostem de ti [lembrei-me de uma coisa qualquer que ouvi ou li um dia sobre o que se deve dizer]. ó professor, pois não. eu sei. quer só dizer que já não gostam um do outro. e isso é pior. porque eu gostava muito dos dois juntos. [e agora, o que responder? não há manual ou resposta feita]. sabes ricardo, nem sei o que te dizer. percebo-te mas não sei o que te dizer. digo-te só que como teu professor tens-me aqui para o que precisares. e como pessoa também. ó professor, obrigado. sabe bem saber isso. às vezes, na escola, não nos conseguem ver sem ser como alunos. e somos mais do que isso. o professor vê isso e ainda bem. e estivemos o resto do tempo à conversa sobre tudo. do desporto que ele gostava e a namorada não. do futuro e mais umas coisas. falta tanto, na escola, esta companhia que hoje [e sempre] tornou a escola num espaço de encontro. falta cada vez mais. isto tudo.

09/05/2014

||| desistir, persistir, insistir...

 
 
||| ... estava aqui a pensar. [de]sistir, [per]sistir,  [in]sistir. giro. pronto, hoje era só isto. ou não. ó professor, vou desistir da escola. como joana? vou desistir. tenho que ir ajudar os meus pais. vamos embora. mas agora, tão perto do fim do ano? professor, a fome não espera por exames. agora sim, hoje. era só isto. ou isto tudo. 

||| leituras [im]perfeitas...


||| música [im]perfeita...


||| perdi uma aula...

 
 
||| ... andamos todos a contar. nas escolas. já repararam? a contar tudo. as aulas que faltam. as aulas dadas. as horas, os tempos, os resultados. contamos tudo. mas contamos tão pouco uns aos outros todas as outras coisas que não são coisas de contar. então cá vai. menos uma. perdi uma aula. vou ter que a "repor". adoro esta expressão. ó colega, já repôs a aula? a verdade é que a imagem que aparece na minha cabeça é aquela de uma menina de patins no hipermercado jumbo [quando existiram] que dizia que era preciso repor detergente na prateleira do casa e lazer. pronto. mas não era esse repor. é mesmo perder. ia com a aula preparada. o conteúdo todo organizadinho. e levava um livro. a lenda do rei arthur. ia começar a aula por ali. um excerto. pronto. ó deuses inquietos que me destruíram a aula! hades, deus dos infernos, foste tu, pá! comecei a falar sobre livros. os miúdos iam perguntando: ó professor, mas como é que sabe isso? e pronto. de cervantes, fomos até camus. de camus a saramago. de saramago a d. dinis. de d. dinis a agustina. e ainda demos um salto a cesariny. quarenta e cinco minutos a falar de livros quando a aula era sobre a segunda guerra mundial. perdida. completamente. a sorte é que cheguei ao pé do jorge que anda a tomar conta da biblioteca que hoje me sentia imbuído do espírito de promotor de leitura. era mentira. acho que era só para acalmar a minha preocupação com: uma aula a menos. a sorte é que eu sou de letras e não sei contar. e por isso posso "perder" muito mais aulas destas. acho que ninguém dá por isso. nem eu. só os miúdos é que dão. no final vieram-me perguntar se podia levar os livros que tinha falado. assim foi. afinal não tinha perdido a aula. tinha ganho a curiosidade deles. mas isso não cabe nas estatísticas do deve e do haver. nem se pode repor...

08/05/2014

||| da dávida e não da oferta...

 
||| ... esta imagem foi tirada há coisa de uma hora no centro de arte contemporânea graça morais em bragança, onde me encontro. uma exposição absolutamente fantástica. amanhã começa um encontro com professores aqui. eu, professor [im]perfeito cá estou para orientar uma coisa em forma de assim. esta exposição é criada partindo da ideia da cegueira branca do livro de saramago. e amanhã estarei com cento e cinquenta professores a partilhar estes espaços e outros desta fantástica cidade. e que importa tudo isto? isso não é sobre a escola e este espaço é sobre a escola. mas é. enquanto passava naquelas salas, e até tive cinco minutos para o fazer sozinho, pensava na frase e pergunta que saramago nos deixou um dia numa entrevista: e se estivéssemos todos cegos? cegos da razão, da indiferença? e pensei nisto. olhei para a sala vazia. e lembrei-me que este ano lectivo, quer de alunos, quer de professores, quer de gente que trabalha com a cultura [nos museus ou em projectos pessoais] não encontrei essa cegueira nenhuma vez. sempre vi gente a lutar contra a corrente. a procurar fazer. mesmo com muito pouco ou com todas as dificuldades. pior, muitas vezes com o mundo contra cada um deles. e a frase que ouvi sempre foi: os miúdos é que não podem pagar por tudo isto. há ali, nesse gesto, uma grandeza imensa e dita em silêncio que é preciso mostrar. é que em muitas salas de aulas os professores foram o último reduto da porcaria em que tudo isto se tornou. tentaram guardar, preservar, reservar os alunos. e ouvi isso tantas vezes. tentaram fazer: porque é preciso. se não se fizer isto morre. isto, dito vezes sem conta. ou, como hoje aqui onde me encontro, e que amanhã serei acompanhado por mais uns quantos que virão para criar este pequeno evento para professores. que disseram que sim. são para eles estas palavras. e mais do que isso. é para que todos saibam que os professores foram, em muitas salas de aula, o garante da paz para as crianças. e que o país nunca se esqueça disso. não é para agradecer. é para não se esquecer. é esse, em grande parte, o imenso valor dos professores. tudo feito no silêncio dos dias. como deve ser. que não se esqueça isso, agora que dizem que as tormentas estão a [falsamente] abrandar...

||| leituras [im]perfeitas...


||| música [im]perfeita...


||| das capelinhas ou do mundo fechado sobre si mesmo...

 
||| ... uma coisa aprendi com o facto de não ter estado nunca numa escola [nem mesmo num distrito] como professor mais do que um ano lectivo. aprendi que não temos uma escola. temos escolas. que não temos uma realidade. temos muitas e diferentes vivências de muitas e únicas comunidades escolares. e é por isso que muitas vezes digo que quem tenta uniformizar o que é rico unicamente pela sua diversidade torna assustadoramente desproporcional a medida do controlo que tem que impor para o fazer. e em parte é isso que temos. de norte a sul do país temos escolas fantásticas. e temos escolas que funcionam mal. como qualquer outro organismo ou organização sob tutela do estado. é normal que assim seja. mas o estado, "a tutela" desconfia de todos da mesma forma e com isso torna-se um elemento obstrutor do que quer que seja que se queira ou deseje fazer. normalizada quando devia regular. não devem saber a diferença. deve ser isso. e desconfia. o que sinto cada vez mais é que quem devia confiar em mim como professor e na minha escola como organização faz exactamente o contrário. desconfia. de tudo e de todos. e de uma forma, às vezes tão absurda que transforma o útil e algo completamente impossível de executar. falo de uma coisa simples. uma grelha, daquelas que anda agora por ai, com critérios de avaliação. desdobrados de valores em percentagens. de percentagens em critérios. de critérios em referências qualitativas. parece um tratado em excel. um coisa assustadora. só fazer aquelas contas são três dias. ainda por cima eu sou de "letras" [só para disfarçar]. o que cada um daqueles quadradinhos me diz quando neles clico é só uma coisa: desconfiam de tudo o que eu faço. tudo. apetece, como faço sempre, enviar aquilo tudo a zero. assim podem desconfiar à vontade. e eu posso gozar com o sistema. felizmente. podem querer tutelar tudo menos a minha liberdade de ensinar. e ensinar não é preencher grelhas de excel. e muitas, mas muitas vezes mesmo [e ainda bem] nem quantificável é. mas que importa, como diria um aluno meu. ninguém vê isso a não ser o professor. pois é... deve ser isso, mesmo...

07/05/2014

||| vamos lá falar de afectar...

 
||| ... vim a matutar naquela conversa. eu gostava de ficar aqui para o ano. gosto da escola. e dos miúdos. e pensei na conversa da moda. os afectos. não gosto da expressão e muito menos do termo. humanização é mais o meu estilo mas eu sou um classicista. por isso, humanização. e ao sair o portão da escola pensei a sério nisto uns minutos. outro dia ouvi uma miúda dizer a coisa mais acertada que ouvi nos últimos anos. dizia ela: a minha escola tem trezentos e oitenta e tal alunos, não sei quantos funcionários, não sei quantos professores, não sei quantos elementos da direcção e todos os dias se estabelecem milhares de relações humanas. todos os dias. milhares de relações. conversas. conflitos, sucessos, segredos, angústias confessadas, conquistas partilhadas. milhares. todos os dias. e pensei nisso. que este sistema não está desenhado para a humanização. está desenhado para a utilização. e explico. estamos quase no final de um ano lectivo. daqui a pouco "milhares" de professores serão chamados a "concorrer" para outras escolas sabendo, muitos mesmo, que não vão ficar naquela onde estiveram este ano. outros sim. mas muitos não. outros em nenhuma [mas isso fica para outro texto]. o que cria isto muitas vezes? a dureza da simples realidade de não dar tanto quanto se queria. deixar os miúdos no final do ano para outros que vão ser seus professores no futuro não é a mesma coisa do que saber que aqueles miúdos vão estar três anos connosco. reservamos as relações humanas ao nível da utilização. defendemo-nos. só quem nunca foi professor é que não sabe o que é "deixar os miúdos" no final de um ano lectivo. a culpa é do que a miúda falava com voz sábia. das relações, aos milhares, que se criam. e podemos dizer que nos dedicamos a mil por cento a cada miúdo. mas dedicação não é afecto. é dedicação. esta humanização da relação precisa de um tempo maior do que só um ano. precisa de uma sedimentação da confiança. precisa do tempo das coisas para ficarem vivas na memória. e custa muito ver excelentes professores presos nesta dualidade entre a dedicação e dádiva. e a escola precisa tanto de uma como da outra. os miúdos precisam tanto de uma como da outra. não é de afecto que estamos a falar. é de algo muito maior do que isso. é da confiança serena das relações humanas em continuidade. mas estes sistema não é para velhos. é para utilizadores funcionais. pensado para tal. para a desumanização. por muito que cada um de nós, como professores, o combata diariamente na sua sala de aula ou naquele abraço sentido ao miúdo que está a precisar. é tempo de olhar para isto. antes que seja, outra vez final do ano lectivo e outra vez, seja tarde demais...

||| música [im]perfeita...


||| leituras [im]perfeitas...


||| do controlo ou da mão que deixa ir...

 
||| ... esta é a base. o "livro" liber monstrorum [ver, aqui]. iria terminar a aula com a projecção do imaginário de hieronymus bosch e toda a sua construção tinha sido pensada para ser assim. a arte tem uma força maior sempre que falamos numa aula exploratória ou mais aberta à criatividade e ao imaginário. esta imagem que hoje aqui coloco foi um dos resultados dessa aula. dada a liberdade aos miúdos de um décimo ano para criar e eis que surgem monstros "medievais" quase a tocar o imaginário de época. em conversa com quem me convidou para este desafio fomos falando que o cinema e as séries de televisão foram trazendo para o presente estas representações. mas a verdade é essa, sim, e um pouco mais além. a representação visual de um monstro criado pela viagem que tentei fazer com os miúdos por um tempo que é impossível recriar foi levar-lhes a ausência de luz, a imaginação e o medo. o resto é só um exercício de reconstrução de imaginário que ganha forma ali, perante os nossos olhos, quase como bosch o fez para as suas obras. estes sem a mestria mas como a imaginação activada. mas este é só um detalhe. apetece-me reflectir noutra coisa. estes não eram meus alunos. foram só emprestados por noventa minutos. e acabei por dar a aula mais controladora que dei nos últimos anos. dirigi todos os passos. queria testar isso também. a certa altura as regras mudaram. era para ter ordenadamente os miúdos a desenharem estes monstros imaginários do universo medieval um a um. e de um momento para o outro estavam todos naquela tela, feita de papel de cenários e o pincel feito de carvão para desenho, a trocar ideias. a dizer: não pá, as pernas são maiores. era o seu monstro. de nenhum deles, mas de cada um dos quatro grupos criados. o resultado foi colectivo. espantou por isso. mas a páginas tantas estava eu a dizer para quem me tinha convidado: não, deixa-os estar. mudaram as regras. eles querem participar todos. e era mesmo isso. e dei por mim a registar isto. este meu desejo de controlar aquela aula e seguir as regras certinhas resultou que a imaginação é sempre mais forte que a lógica. bebendo dela, liberta-se. e foi tão bom rever isso. sentir isso. saber isso. saber que quando dou uma aula assim tenho que ter a capacidade de saber observar quando dar a liberdade criativa. na altura certa e no momento exacto. querer controlar tudo a toda a hora é estafante para além de ser contraproducente. gostei de viver isso. de experimentar isso. fez-me pensar isto tudo. é bom quando damos aos nossos alunos a liberdade certa na medida exacta da sua força criativa. e para isso é preciso gerir a coisa mais importante numa aula. o equilíbrio. valeu a pena esta experiência. por isso. por tudo. e pelos monstros que me fizeram sorrir...
 
obrigado júlia braga,
obrigado alunos/as do décimo ano
da escola artística
soares dos reis

06/05/2014

||| da inclusão, exclusão e do colega...

 
||| ... eu sei que é prático. ó colega, sabe... mas é sintomático também. ó colega, não diga que não leu... esta coisa do "ó colega". um dia disse que escreveria sobre isto, cá está. ó colega mas o miúdo anda tão mal... ora bem... em primeiro lugar esta coisa do ó colega lembra-me uma outra coisa. uma das minhas primeiras experiências profissionais ensinou-me uma coisa importante. sempre que receberes uma indicação deves responder: ok. obrigado. assim quem te der a indicação sabe que a recebeste e compreendeste. ficou-me aquilo. mas era noutra área que não o ensino. ó colega, desculpe mas não tem razão.... e pronto, voltamos ao tema. é que esta coisa de chamar ó colega tem várias leituras. a que faço é sempre a pior de todas. deve ser do meu estado de ressaca pelo encontro a que fui que ainda não me passou. ó colega, não diga isso assim... digo pois. acho que a razão simples para esta coisa do ó colega é porque não sabem o meu nome. é porque estamos a perder ou a querer perder as relações pessoais no espaço das relações profissionais. em todas as escolas onde estive sempre cumprimentei ao chegar e ao sair. e fazia por saber o nome dos meus colegas de profissão. o trato pelo nome indica que sabemos quem é o outro. que nos damos a esse trabalho. pequeno, mas que nos damos a esse cuidado. mas isso está a perder-se. não digo em que certos contextos não dá jeito. porque, de facto num curso, encontro ou reunião podemos não saber os nomes de quem está quando isso acontece  num contexto externo à comunidade escolar. no entanto, numa reunião de professores na mesma escola, na mesma turma, muitas vezes num cruzamento no corredor não saber o nome do outro que por nós passa ou que no mesmo espaço habita é preocupante. é preocupante, sintomático e ilustrativo do que, em muitos casos, se está a transformar a escola. se a escola fosse uma empresa e os funcionários não soubessem o nome uns dos outros algo ia mal. e na escola? ó colega, não diga mais disparates, já chega... concordo. concordo, é um disparate. é que eu sou do tempo em que os professores ainda confraternizavam para além do correr igual dos dias. e conversavam fora dos assuntos da escola. eram pessoas e não funcionários colegas uns dos outros. ó colega, deixe-se de coisas. cale-se lá, se faz favor. certamente. não falo mais nisso. deve ser só uma coisa minha, colega...

||| música [im]perfeita...


||| do pensar a aula. uma aula. a aula...

 
||| ... ando aqui às voltas com uma aula. a júlia desafiou-me para ir dar uma aula aos miúdos dela. o tema: idade média. ora bem... simples então. fui aos clássicos. fui aos "manuais". fui navegar. navegar é preciso, diz o poeta. foi aí que me perdi. perco-me sempre quando navego. encontro muito powerpoint. muita coisa. muitas linhas quase todas iguais. porquê? porque são cópias umas das outras. e pronto. regressei ao que regresso sempre. à folha em branco. uma aula de noventa minutos sobre idade média: religião, arte e vivências. ora bem... umberto eco ajuda-me. lembrei-me que para eco a idade média não é a idade da escuridão. era o tempo em que o homem procura reproduzir-se, na arte, de forma luminosíssima. concordo. vou começar por aí. por desconstruir isso. mas o que é uma aula sobre a idade média, hoje? povoa no imaginário de todos aquela ideia dos reis, dos cavaleiros [da versão rei arthur] ou simplesmente dos homens e mulheres vestidos de sarapilheira que habitam as feiras "ditas" medievais. então como transportar tudo isso para a sala de aula? isso não, uma nova visão da idade média partindo dos estudos mais actuais. do que realmente se sabe ou a história diz saber. em primeiro lugar duas coisas: luz e cheiro. sim. uma aula sobre o tempo médio tem que ter isso. sem luz. e com o cheiro de uma igreja medieval. como o fazer? escurecer a sala. velas, um euro, cinco nos meus amigos chineses. e incenso. lavanda. a sala de aula transformada numa experiência para os sentidos, também. e depois. depois preciso de narrativas de época. da vida numa aldeia. sim, boa ideia. transformar a aula numa aldeia. cada um com o seu papel. a bruxa. importantíssimo. ter uma bruxa. e um largo. uma praça pública. é que dar uma aula não é dar uma lição. é diferente. é transformar uma sala de aula em qualquer outra coisa. é dar ao que se pensa e sabe sobre a idade do meio uma razão lógica de se explicar nos tempos de hoje. é que a ciência histórica não é imaginário. é descrição. e isso é muito importante passar para os miúdos. e terminar com hieronymus bosch para fechar. e chegar à conclusão que não houve tempo tão rico em seres e histórias imaginárias como aquele a que chamamos "das trevas". para isso, o primeiro a fazer a viagem, sou eu. e faço-o sempre primeiro. eu professor, viajo pela minha aula para ver como podem fazer essa viagem os meus alunos. ou estes, emprestados por noventa minutos. lá vou eu acabar de preparar isto...

||| leituras [im]perfeitas...


05/05/2014

||| o rei vai com orelhas de burro...

 
||| ... uma personagem. ou melhor, duas. um encontro sobre educação. ou melhor, três personagens. um encontro sobre educação em que o mote eram as práticas educativas e a disciplina. e as personagens eram oradores. ou melhor, palestrantes. ou melhor, saídos de um armário qualquer. nem sei. nem sei como escrever este texto. estou a pensar para não ofender ninguém. resta a organização e a boa vontade. nem sei. mas descrevo, é o melhor. sem julgamentos para além daqueles que não posso deixar de fazer. por isso, muitos. ou inúteis. mas os meus. como professor sou um defensor acérrimo da formação contínua. não porque dou formação de professores mas porque sou frequentador da mesma nas suas mais variadas formas e feitios. e foi por isso que fui a este encontro. o tema era caro. e permitia ver o que se anda a fazer e dizer sobre este assunto. lá fui. primeira "conferência". resumindo: quietos e calados ou rua. a laicização do estado e a escola inclusiva são os males da indisciplina. o estatuto do aluno e o regulamento da escola são os culpados de tudo o resto. o professor autoritário é um modelo tão válido como outro qualquer. resumindo. ouvi. e ainda ouvi mais. que nos últimos anos o pensamento único da escola inclusiva tinha "calado" quem defendia o modelo do professor autoritário. e que por isso se tinha transformado no modelo de pensamento único mas que havia milhares que defendiam o autoritarismo do professor que deviam poder falar e ser ouvidos. e pronto. resumindo. que posso eu dizer disto? simples. sou um adepto profundo do sistema democrático. do verdadeiro. e por isso quem falou tinha esse direito de o fazer. como eu tenho o direito a discordar de tudo o que disse. só concordo com ele nisso. que calar a parte contrária é sempre um erro. o mesmo que ele queria fazer aos alunos que não se enquadravam no padrão "quietos e calados". mas o que me assustou verdadeiramente foi uma plateia de professores a bater palmas a estas alarvidades gritando, de quando em quanto: "é isso mesmo!". e sentado na última fila pensei. estamos mesmo a assistir ao fim de algo. dos valores abertos pela democracia conquistada. mas principalmente ao imenso risco que é alguém dizer que tem uma receita, por muito demagógica e perigosamente exclusiva que seja e uma classe profissional em desespero, simplesmente aceitar perder toda a legitimidade individual e conquistada por uma sociedade aberta e livre em função de um idiota [de criador de ideia] que apresenta um visão perfeitamente redutora e limitadora de qualquer liberdade para a escola e para o professor [e em primeiro lugar para os alunos]. e fiquei de ressaca. valeu o almoço. a pausa para desabafar comigo porque até tive medo de dizer o que pensava a outros que aplaudiram tudo o que tinha sido dito. o almoço até foi bom. seguia-se um workshop. ora bem... workshop. eu quando penso em workshops penso em coisas práticas. fazer coisas. experimentar. e pronto. lá me sentei. uma hora e tal. a ouvir falar dos pais que queremos para os nossos miúdos. baseada nesta moda do positivo. e pronto. falou-se. falou-se. falou-se. falou-se. positivamente falando. e o retrato com que fiquei foi mesmo de uma sociedade sem sustentação. pior. sem um ideial para si mesma. ou com um ideia de utilizador. os miúdos e os pais [cidadãos] foram transformados de consumidores em utilizadores. e quanto mais utilizadores, mais ocupados. e com isso, com a ginástica, a música, o inglês, o mandarim, a oficina de balões e coisas que tais, pais e filhos, educadores e educandos, utilizam. não produzem pensamento. não param. andam de cá para lá, de lá para cá, sem esse tempo útil e essa urgência da reflexão, do pensamento, da racionalidade e do ideal. uma sociedade de utilizadores. simplesmente. e pronto. intervalo. sol. precisava mesmo de apanhar ar. o sol, valeu o sol! e regresso para a "conferência de encerramento".  ora bem... mais uma personagem. desta vez a "regra" para os pais serem bons educadores. resumindo: tenham uma cunha, perguntem qual é a melhor escola, fujam dos estabelecimentos cujo público contenha "franjas de exclusão social" porque estes é que provocam o bullying e pronto. comprem o meu livro que está lá tudo escrito em três passos simples. e pronto. foi isto. o que ficou? sobre indisciplina a ideia de que muitos querem mesmo os miúdos quietos e calados. sobre práticas educativas, a visão de uma escola que sendo ainda inclusiva, se for por estes caminhos deixará cada vez mais miúdos fora do sistema estando nele "oficialmente". e ficou uma vontade imensa de mostrar que tudo o que vi e ouvi tem outros caminhos possíveis. felizmente. e ficou uma ressaca que ainda não passou...

||| música [im]perfeita...


||| leituras [im]perfeitas...


||| do silêncio brilhante se vão fazendo os dias...

 
||| ... esta história é curta. espero que conheça as personagens. a cristina e a mafalda. uma professora. a outra, aluna. não conhece a cristina, nem a mafalda? faz mal. uma é uma professora extraordinária. a outra, uma miúda fantástica. e que importa isso? então eu conto a história. a cristina enviou-me uma mensagem por via de uma rede social dizendo: podemos usar uns textos que tem pelo blog para uma peça de teatro? como eu acho que o que escrevo aqui são mesmo um conjunto absurdo de disparates disse que sim com o aviso que podiam fazer mal à saúde mental pública. mas, depois de uns sorrisos e troca de ideias fiquei sem saber mais nada. um tempo antes tinha recebido da mafalda, que tinha sido minha aluna [e já agora... tenho pena dos professores que dizem "minha ex ou minha antiga aluna". para ela eu serei sempre o seu professor e para mim ela será sempre a minha aluna, para além de uma miúda fantástica. esta coisa dos ex é coisa de crescidos para coisas estúpidas] uma mensagem, também via rede social a perguntar se ia ao festival de teatro. respondi que faria tudo para ir mas não tinha a certeza. ora... passados uns tempos recebo a mensagem da cristina. usámos uns textinhos. a peça estreia dia dois de maio. eu raramente faço isto. acho que foi mesmo daquelas aprendizagens que nunca vou esquecer. respondi. ó cristina, posso ir. guarda-me por lá dois lugares? a resposta foi pronta e imensa. claro que sim. e no passado dia dois, lá fui. o que encontrei não tem palavras. mesmo. até pelo que explicarei no texto que vou escrever a seguir em contraponto com este. uma sala com mais de quatrocentos lugares, cheia. de pais, de elementos da comunidade, de professores, de gente. para ver teatro. para ver os miúdos a representar. e não era uma daquelas construções simples. a cristina deu uma dimensão moral e única, ao estilo clássico, do que pode ser uma mensagem, uma lição, de filhos para pais, de alunos para professores, entre pessoas. a mafalda representou e eu nunca a tinha visto naquele papel. gostei do abraço no final. espero que o futuro lhe pertença. tem tudo para o conquistar. o texto, recriado do que aqui escrevo, teve o milagre de fazer sentido. o que já é imenso. mas vi muito mais do que isso. vi uma comunidade unida em função do trabalho de uma pessoa dedicada. de uma pessoa acarinhada. respeitada. de uma pessoa que optou por não ir pelo caminho fácil. de ensinar, moralizar, construir, edificar um trabalho para além do óbvio. e saí daquela noite de uma hora e pouco de alma cheia. por saber que há professores assim. e miúdos assim. que ainda fazem da escola uma escola. que ainda conseguem, no silêncio imenso do seu trabalho, mudar as coisas. uma pessoa de cada vez. um sonho em cada passo. e fiquei descansado. feliz. e muito mais rico como pessoa e como professor. obrigado pela noite que me deram que não esquecerei nunca. e o obrigado por ainda criarem e fazerem a escola que tanto precisamos nos dias que correm. obrigado e parabéns. e para quem não conhece a cristina e a mafalda façam o favor de as descobrir. uma é uma professora extraordinária  e a outra uma miúda fantástica...

02/05/2014

||| tenho medo do escuro...

 
||| ... ó professor, eu não sei apresentar isto. a ideia era fantástica. ó professor, fogo, não me faça isso. mas ó mariana são só cinco minutos. ó professor mas eu não sei. sabes pois, não foste tu que fizeste o trabalho? fui. então? ó professor, vão gozar. não vão nada que eu estou lá. ya, professor, mas é depois. vão-me gozar. eu tinha lido o trabalho. sem qualquer cópia da "net" e com ideias simples. algumas perspectivas diferentes. a guerra colonial é sempre um tema complexo. mas a perspectiva era diferente. bem escrita. bem pensada. com pés e cabeça. coisa rara nos tempos que correm em que as ideias são réplicas de ideias [ou coisas] copiadas e recopiadas no tempo da "sociedade em informação". dos milhares de pontos a mariana tinha feito uma ligação nova. uma nova abordagem. ó professor e se não corre bem? mariana, são só cinco minutos para apresentares a ideia à turma. mas professor, nunca fiz isso! nunca? nunca! quer dizer... andas há doze anos na escola e nunca fizeste uma apresentação de uma ideia a um grupo de pessoas? aos teus colegas? não professor. e não sei fazer. sentei-me com ela, num intervalo. estivemos a rever as etapas e a rever a organização da apresentação. e falar do discurso oral. a construir a apresentação. no dia, lá estava ela, de mãos junto às costas e de apresentação feita. construiu e apresentou uma ideia. ao fim de doze anos e mais uns pozinhos. e eu pensei no quão estranha pode ser uma escola onde um aluno anda doze anos sem nunca ter apresentado uma ideia aos seus pares. ou simplesmente trabalhar essa ideia com esse intuito. mariana, correu muito bem! obrigado professor. até gostei. boa... para a semana há mais...

||| leituras [im]perfeitas...


||| música [im]perfeita...


||| no meio do dia uma discussão...

 
||| ... três considerações prévias. um: considero que a política é o "governo da polis". sou desses antiquados. que acham que é o governo das coisas e não das pessoas. por isso sou anarquista racional, neste momento. nem de "direita" nem de "esquerda". governam-se coisas. simples. dois: acho que o professor não pode ser um ser "apolítico". tem o dever de entender o seu tempo e explorar a sua visão nem contexto de comunidade não sendo doutrinador em nenhum momento. os miúdos estão a determinar a sua posição e a condição de reflexo é aqui importante. três: sou um defensor acérrimo da liberdade individual sobre a determinação social colectiva embora defenda que se podem e devem quebrar as regras mas não a ordem estabelecida quando a cidadania existente é esclarecida, útil e coerente. feitas estas considerações posso partilhar um daqueles momentos surreais no meio do trabalho inútil de um professor nos dias que correm ou correram. ó colega, isso é completamente comuna. a minha frase foi simples. ninguém tem o direito de "dar" autonomia pois não é coisa que se dê. a não ser que a visão seja que os outros, mesmo que miúdos, não são seres dotados de uma liberdade individual própria e que não lhes é concedida mas inerente à sua condição de seres humanos. ó colega, é isso mesmo. não no sentido de "comer criancinhas ao pequeno almoço". mas de comunal, até sou. vê! esta malta de esquerda e o eduquês dão cabo disto tudo. estes miúdos precisam é de disciplina e que a autonomia seja dada aos poucos. se não for assim não nos safamos. franzi o sobrolho como faço sempre quando a coisa ganha forma de "estranha realidade esta em que vivo". a resposta: colega, deve ser por não cortar o cabelo há uns três meses que olha para mim e vê pela minha cara que sou um perigoso comunista subversivo das almas inocentes! o que eu disse era que se fosse da lógica comunal podia dizer-me o que disse. passo a dar-lhe a lição que lhe falta. as terras comunais eram aquelas onde se ia buscar, numa comunidade, de forma organizada e responsável, alguns bens considerados úteis ou necessários pelos habitantes de um determinado local. ou explicar. não concordo com a sua visão que "dar autonomia". não é nossa a liberdade é deles. trabalhar a responsabilidade sim. essa ideia que o poder está nas mãos de quem controla a turma, como é o seu caso, assusta-me. porque se assim é os seus alunos são seres com a liberdade de aprendizagem cativa nas suas orientações e verdades. a ciência exige autonomia mas não concedida. responsável. pois... é mais difícil. é. muito mais. utópica até. ou talvez só importante. é que não é nossa a liberdade para dar. é deles para a aprenderem a gerir. e não é a autonomia. é a responsabilidade. e já agora, não sou nem nunca fui um romântico da educação. nem sei falar eduquês nem "cratês", nem "rodriguês", nem nada disso. tenho o meu modelo de pensamento. construído. em autonomia responsável. será assim tão estranho? pronto colega, não se exalte. ah... e a grelha dos critérios de avaliação. tem por ai? e assim se arruma, com a burocracia, um momento surreal de defesa de uma ideia...