12/06/2014

||| palavras [im]perfeitas...

eugénio de andrade

||| hoje não me apetece...


||| ... hoje, relembrei todas as aulas que não me correram bem. a mim e a eles. pedi desculpa. a mim e a eles, por isso. comigo e com eles decifrei razões. pedi opiniões. abri um novo olhar sobre isso. pedi que me ajudassem, eles. pensei para comigo que nem sempre acerto nas escolhas porque muitas delas são arriscadas. mas não era por isso, diziam eles. era porque não os envolvi. percebi. pedi desculpa novamente. conversámos sobre isso e sobre tudo. falámos das aulas que correram bem. por contraponto. fizemos um balanço. é importante isto. para repensar tudo para o futuro. e não repetir os erros e somente os integrar como aprendizagem. ninguém sabe tudo. mas também não há ninguém que não saiba nada. guardei este ano e estas experiências. mais do que vividas, partilhadas. as boas e as más. e lembrei cesariny: faz-se luz pela eliminação das sombras. é simples. é sempre muito simples. basta conversar sobre isso, um pouco.

||| música [im]perfeita...


||| leituras [im]perfeitas...




11/06/2014

||| de portas abertas...


||| ... cada vez mais é difícil sair da escola. levar os miúdos a algum lado. as visitas de estudo são caras. o tempo é útil e pouco para se desperdiçar com "essas coisas". dizem alguns. importa a matemática. e o português. e o "repor" aulas como se fossem coisas na prateleira de um hipermercado que fosse preciso "repor". aquela visita a trezentos quilómetros é impossível. e no entanto, mesmo ali, no fim da rua, no centro da praça. e no entanto, mesmo ali, na esquina ou na casa abandonada. e mesmo ali, na janela aberta daquela senhora por quem passamos todos os dias. e mesmo ali, a cem metros, está tudo aquilo que nunca vimos, ouvimos ou fomos visitar. todas as desculpas são válidas para fechar a escola ainda mais sobre si mesma. mas são ainda mais aquelas que me levaram, tantas vezes, a sair pela porta principal da escola e ir "passear" com os meus alunos. abrir a escola ao mundo. nem que seja o mundo no fim da rua. mas não serei eu, mais um, a achar e a fazer da escola uma ilha. e a verdade é que, no fim da rua, está mesmo um mundo inteiro por descobrir. haja coragem e vontade e curiosidade...

||| palavras [im]perfeitas...

manuel alegre

||| tanta coisa, tão pouco estudo...


||| ... sentado no degrau das escadas que dão acesso ao corredor, esperava. lá vem o "bando". olá professor. olá. que vão fazer? estudar. ok. se precisarem de alguma coisa digam, ando por aqui. ok professor. obrigado. e lá foram. resolvi levantar-me e ir esticar as pernas. andar de um lado para o outro faz-me bem. ajuda a pensar. e lá fui. andar pela escola, ou deambular como diria um amigo, faz com que as pessoas nos achem malucos. o que é bom. estar sentado ou com a atarefado é que é politicamente correcto. andar pela escola não. é de maluco. por isso, andemos, pensei. e andei. encontrei o "bando" sentado no bar. phones nos ouvidos uns. a mandar sms's outros. de computador e socialmente partilhados, outros. os cadernos abertos sobre a mesa. os manuais também. e uns livros novos e brilhantes de "preparação para exames" ainda por abrir. ó professor, sente-se aqui. lá fui. então isto é que é estudar? e resumo aqui as frase de cinco [ou seis] miúdos: ya professor. eu tenho explicações depois disto. o meu pai comprou-me estes livros de preparação para os exames que diz que são muito bons e a explicadora recomendou. o meu comprou um acesso a um site com tudo explicado e resumos e resoluções de exames. eu tenho um tutor no facebook. e vamos para o café estudar. e ando a tomar umas coisas para a memória. e café. e os apontamentos. e o manual, mas ajuda pouco. e telefonamos uns aos outros. e... e respirei fundo. e perguntei: e estudar? ó professor, é isto. isso fazemos nós. e pensei antes de responder que o tempo deles não era o meu. que hoje [fui interrompido no pensamento com mais uma frase: professor e quando ainda temos dúvidas googlamos] o tempo é outro. o multitasking está aí como realidade e a atenção já não é o que era. mas decidi, mesmo assim dizer: alguém alguma vez vos ensinou a estudar? ya professor, uma vez no nono ano a dt deu uma aula sobre isso. uma vez? sim. e a explicadora também diz como devemos estudar. e o meu pai comprou-me um livro para eu ler para aprender a estudar. ok. vamos parar por um segundo. pode ser? pode professor. e estive a falar. estivemos a conversar. sobre estudar. de studio. de reflexão e análise. de compreensão. de gestão da informação e de conhecimento. de como centrar a atenção. de desligar para pensar. e sei que não fiz nada por aqueles miúdos. nada. porque até eu, ao longo de um ano, assumi como à priori que eles sabiam estudar. e não sabiam. mesmo assumindo isso fui tentando experimentar momentos de estudo. mas não chegou. e fiquei a pensar nisto. que urge retomar as coisas simples. ensinar o que, agora, à priori, pensamos que já vem com eles. que damos, erradamente, por adquirido. ensinar a estudar é uma dessas coisas. depois vem a atenção, a concentração e a civilidade. mas se não ensinamos isto eles não sabem por inspiração divina ou outra. só não temos é tempo ou espaço para isto. e com isso eles, os miúdos, perdem-se. muitas vezes é só isto. e fiquei a pensar.

||| leituras [im]perfeitas...


||| música [im]perfeita...


||| ora explique lá isto...


||| ... ó professor, porque é que temos que ter exames? a minha mãe diz que é porque o ministério desconfia do trabalho dos professores. retive três coisas da afirmação: a razão para os exames. o que "a minha mãe diz". e o fundamento. não sei se a "mãe" disse. sei que pode ser uma razão para a afirmação e a pergunta. a principal razão entre todos os miúdos não era essa. era a de acesso. nem todos podem ter acesso. é preciso "organizar" tanta gente, para o acesso. mas a frase ficou-me na cabeça ao ponto de responder. expliquei, como todos fazemos, a diferença entre examinar e aferir ou escrutinar. acho que todos nós, professores, uma vez num ano fazemos este discurso. da origem das palavras e da razão do sistema. expliquei depois que um sistema inclusivo com o nosso contém dentro de si, escondido, vários elementos de exclusão. simples, silenciosos. pior. por inquietação em vez de vocação. os "caminhos" ou "opções" paralelas a um percurso geral cada vez menos inclusivo e presente é simples. não tens perfil pela inquietação que provocas logo vais para uma opção. de opção em opção sem uma verdadeira orientação vocacional. [mas isto dá uma reflexão mais necessária a seu tempo]. por isso, os exames não "desconfiam" dos professores. desconfiam é que alguns tenham passado nessa peneira da inquietação. e por isso é preciso fazer uma última triagem. mas sabem, eu nunca fui contra um sistema de avaliação final por ciclo. concordo e até acho útil se pensado pedagógica e estruturalmente como mais um recurso para valorizar o conhecimento. o pior é que não é nada disso e por isso parece algo, como vocês dizem: inútil. por isso, a tua mãe só tem razão numa coisa. o "ministério" desconfia. esta é a única verdade na afirmação feita. desconfia sempre. e não é dos professores. é de todos nós. a começar por vocês. um dia vão ver isto claramente. quando perceberem para que servem, hoje, realmente os exames como são feito. e agora vamos comer um gelado que está calor e estas conversas precisam de açúcar para uma melhor digestão...

10/06/2014

||| dos dias que passam num país...


||| ...o meu país é um fruto. laranja. em grego. ou noutra língua qualquer. portucale. porto seguro. o meu país, onde sou professor, é amargo. e doce. cor de terra. sabor a fruto agridoce. é um lugar. um hábito que se ganha. um poema que se ouve. uma música que se canta. como todos os outros. e por isso, diferente de todos os outros. o meu país não é aquilo que hoje, numa cerimónia qualquer encenada por um estado que já não é um país, tenta criar. o meu país é paz. são miúdos que correm. que reaprendem a correr nas ruas porque a liberdade precisa ser reclamada. o meu país, onde sou professor, é um mundo inteiro aberto à descoberta. sem descobrimentos. mas com viagens. e palavras. e a língua portuguesa que é um império e a minha pátria. o meu país é o lugar onde a escola é o centro de tudo o que há de mais livre. um dia, assim será. o meu país é um fruto. feito de gente que trabalha a terra. que mete as mãos no mar. que faz soar as máquinas. que inventa o impossível. o meu país é este pedaço de terra. com e sem mar. com e sem céu. o meu país é uma flor. uma rosa, uma margarida ou um malmequer. qualquer uma que afaste aqueles que querem fazer deste país qualquer coisa emparedada entre a miséria e a resignação. o meu país, em que sou professor, é o lugar de amanhã. por construir. em cada aluno que fala a língua de camões, pessoa e saramago. que diz que o céu é a fome das estrelas e que grita eugénio, sophia e cesariny. o meu país não são números. são rostos. os dos meus alunos. os dos meus colegas. o das pessoas que cruzo na rua. o meu país não é uma laranja. nem um fruto. é uma árvore. inteira. imensa. de pé. rica e fecunda. presa no meio da terra que será, um dia, de todos. novamente. o meu país é uma terra. nela habito, nela ensino. nela passo os meus dias. não só este. todos. e todos os dias, este é o meu país. que falta reclamar. que falta fazer. neste país, sou professor. e nele o serei até ter forças para lutar. este é o meu país. hoje. que é só mais um dia igual a todos os outros. neste país...

09/06/2014

||| palavras [im]perfeitas...

cesariny

||| a última aula ou um teste final...


||| ... há muitos anos que a minha última aula com os meus alunos é sempre igual. e por isso, sempre diferente. para quem arriscar aqui fica como se processa:

... começa a aula com a sala preparada. como se fosse para exame. mas em cada mesa uma só folha de papel normal cortada ao meio e um lápis. na "mesa do professor" uma caixa preta com uma ranhura no meio. tipo urna de voto [urna para voto é sempre uma junção curiosa, mas isso dava uma tese]. os alunos entram na sala e o professor diz. hoje é a última aula. podem escrever uma única pergunta que queiram que eu responda sobre mim como professor ou sobre o que aprendemos ao longo do ano. não escrevem o nome pois é anónimo. terão cinco minutos para elaborar a pergunta e depois a colocarem aqui, na urna das perguntas. irei responder depois, uma a uma. perguntem o que sempre quiseram perguntar mas nunca tiveram coragem para o fazer. ou simplesmente o que ainda resta de curioso para saber. e assim é esta última aula. uma conversa. em torno das perguntas. e das respostas. digo sempre que nenhuma pergunta é "atrevida". as respostas é que o podem ser. por isso partilho aqui três:

... o professor acredita em Deus?
resposta: sou um homem de fé. já religioso não o poderia dizer que sim. um dia um político que já ouviram falar, mário soares, perante a mesma pergunta respondeu não ter a sorte de ter fé. eu tenho essa sorte. o pior é o resto. são os rituais que associamos à fé. há coisas no islamismo com que concordo, coisas no catolicismo com que concordo, coisas no budismo com que concordo. é o que dá estudar as coisas. mas isso dava um ano lectivo para responder... 

... porque é que o professor nunca tira fotografias nas visitas de estudo?
resposta: essa é simples. quero ver. quero guardar na minha memória e não na da máquina. vocês nunca vão perceber isso na plenitude pois vivem na "share life". partilham o que vivem. eu guardo o que vivo. e acho mesmo que deviam pensar e aprender o valor da intimidade. falámos de orwell uma vez, nas aulas. já leram? não, claro. mas um dia, talvez, percebam que esta ideia do guardar é tão importante como partilhar. tiro fotografias de outras coisas. noutros momentos. partilho também, como sabem. mas gosto de ver. e de guardar no meu "disco". porque há memórias e imagens que são mais do que isso. são lições. e com elas preparo aulas, conversas, textos e outras coisas.

... o que é que o professor mais gosta de fazer quando não está a dar aulas?
resposta. gostava e gosto muito de ler. agora o tempo é menor e por isso não leio tanto. passo os olhos em algumas coisas. gosto de pensar. sim, pensar. não estranhem tanto. é importante pensar as coisas. perguntar a nós mesmos a razão das coisas. a lógica do nosso pensamento. ouvir e pensar. é talvez o que mais gosto de fazer. em silêncio. porque só pensando podemos compreender o mundo. 

... e pronto. se tiver coragem, arrisque uma última aula assim. nada, nunca mais, será como antes...

||| leituras [im]perfeitas...


||| música [im]perfeita...


||| este, aquele ou aquela...


||| ... estava aqui a pensar. mais um ano que se fecha. sobre si mesmo, quase. quase um cerco de dias passados. na escola. na sala de aula. fora dela. e os miúdos. centenas deles. há sempre, os bons estudantes. aqueles ditos, bons. cumprem as regras. pensam. vão mais longe. é fácil ver quem são. depois os outros. os esforçados. que trabalham para conseguir o que para os outros quase parece natural. trabalham. estudam. dedicam-se. são cada vez menos. mas são. há pela escola ainda muitos. e ainda bem. depois os outros. aqueles que se estão a marimbar para o sistema. e para aprender. e para a escola. não sendo um acto de revolta ou afirmação é mesmo um estado constante de presença. também são fáceis de identificar. e aqueles que não adquiriram as estruturas mentais e cívicas para a pertença à escola. também é fácil. consigo ver todos esses. falta um. reparamos pouco neles. naqueles que tentam. mesmo. às vezes as tentativas nem se tornam claras. são pontuais. estranhas até. pensamos que foram "copiadas". ou coisa parecida. não chegam à média e por isso ficam fora dela. são poucos. mas estão lá. perdidos no meio dos outros todos. e hoje, encontrei um no meu pensamento. vi-o, claramente. e disse-lhe que o vi. e que vi o esforço. que o reconheci. mesmo quando ele fica aquém do que um sistema chama de médio. vi-o. e guardei esse esforço como forma de ilustração desses miúdos que esquecemos. e apeteceu-me dizer isto.

06/06/2014

||| palavras [im]perfeitas...

Torga

||| quando se fecha a porta...


||| ... são aqueles segundos. sim. são só uns segundos. em que rodamos a chave pela última vez. terminada a última aula com aqueles miúdos. foi um ano lectivo de presença. de encontros. em dias bons e dias maus. em dias de chuva e de sol. em dias que apetecia estar ali e dias em que apetecia estar em todos os lugares menos ali. dias em que as aulas correram bem e dias em que correram mal. dias em que perdemos o juízo e rimos. dias em que as horas pareciam não passar. foram muitas horas. em que a vida correu, em centenas de encontros e desencontros. e há uma saudade que se prende no som da chave que roda pela última vez. em que eles já foram embora pelo corredor. em que estamos só nós com a pasta ao ombro, o livro de ponto na mão e a chave, quase tudo a cair como aconteceu vezes sem conta. é nesse momento. que chega uma saudade. foram embora. foi a última aula. ficou tudo para trás. tudo. o bom e o mau. e isto tudo vai-se passando naqueles segundos. naquele tempo que só quem sabe, só quem é professor, sabe que existe. e vem a ideia que nunca os vamos esquecer. sabemos que não é verdade. que daqui a uns anos não nos vamos lembrar. porque precisamos de espaço. em nós. para os próximos. para os que vão chegar já no próximo ano depois das férias. é sempre assim. entre estes dois mundos, estes dois espaços, estas duas certezas a chave, roda. clic. porta fechada. ano lectivo feito. bem ou mal. feito. e fica o som. da porta. e o ruído no corredor. como compensação. e sabemos que, num ano tão difícil, cumprimos mais uma vez o dever. ninguém ouve isto. ninguém fala destes segundos. mas eles existem. e ainda bem. são estes segundos que fazem de nós, professores.

||| música [im]perfeita...


||| leituras [im]perfeitas...