19/06/2014

||| palavras [im]perfeitas...

almada negreiros

||| ó colega explique lá...


||| ... e pronto... é isto. nestes últimos dias ando sem paciência para o sistema. ó colega explique lá o que quer dizer com isto. e lá vou explicar. acho horroroso ter que explicar uma frase. ó colega mas então não pode ser assim. tem que ser dito como está escrito no regulamento. mas é a mesma coisa. mas não está com a linguagem apropriada. apropriada? insultei alguém. não é isso colega. é que tem que ser como está escrito. mas é a mesma coisa. mas não é. porque não são as mesmas palavras. ó raios mais isto. eu altero então. mas não percebeu, foi isso? a expressão mudou. não é isso colega. tem que colocar como está no regulamento e pronto. ok. assim será. mas posso colocar uma nota final de advertência? como assim colega? posso colocar uma advertência? no final. depende colega, consigo nunca sei o que vai sair daí. eu ia só colocar que o pensamento único tem uma linguagem única que o acompanha. e quem pensa para além da unicidade também tem direito a uma certa liberdade de expressão e linguagem. pronto, colega, já nem sei o que lhe dizer. não diga nada. deixe ir como escrevi que é só a mesma coisa mas sem os "pirlimpimpis" do sistema que fala uma língua estúpida e fechada. isso é que não pode ser colega. tem que ser como está no regulamento. ok. não desisto mas posso dar voto de vencido? como assim, colega... ufa que isto cansa...

||| leituras [im]perfeitas...


||| música [im]perfeita...


||| mas porque não pode ser mais simples...



||| ... é sempre neste tempo que se torna claro para mim, como professor, que tudo é complicado. não, não é complicado. não é isso. é deliberadamente tornado complexo. é assim com os projectos que aparecem. com receitas milagrosas e "metodologias" com etapas e coisas que tais. aparecem e desaparecem. dependem, dizem-me sempre, de financiamento e de objectivos. ok. entendo. mas porque raio é tudo tão complexo. a escola precisa agora de se livrar disso tudo. sinceramente acho mesmo isto. de se limpar dessa torre de babel em que está mergulhada de ideias, projectos e coisas que tais. descer [ou subir] ao mais simples. nos comportamentos, dizer obrigado. se faz favor. com licença. bom dia e boa tarde. regressar às simples regras de civilidade que evitam tanto vários conflitos e confusões. e no conhecimento, na aprendizagens, livrar-se de todas as linguagens esquisitas para dar outros nomes às coisas. basta um bom programa. não é preciso mais nada. mas não. se fosse assim era tudo mais complexo. mais complexo do que uma escola ter trinta medidas para gerir a indisciplina ou não sei quantas reuniões para averiguação do cumprimento de metas para depois serem "secundarizadas" por mais umas quantas de entrega de planificações e mais umas quantas no final do ano, como agora, para avaliação do cumprimento disso tudo? é para mim claro. precisamos de regressar às coisas simples. limpas de toda a imbecilidade do sistema que acha que só os especialistas são capazes de ver o óbvio e que os grupos de trabalho são mais importantes do que as pessoas que querem resolver as coisas com uma ideia, simples. estamos presos nisto. e sair é tão simples que até é complexo que não se consiga ver de tão claro que se torna tudo quando vemos a realidade para além das palavras "caras" que nos enevoam os dias e a linguagem. falta fazer tudo. o mais simples. por isso, até logo...

18/06/2014

||| palavras [im]perfeitas...

josé saramago

||| da perda da inocência e da razão...


||| ...este é o momento em que são revelados no silêncio ensurdecedor das reuniões. ouvia nos corredores da "informação" alguém perguntar a outro alguém: esta escola teve posição x com um tal porcento no ranking e o que diz deste final de ano? tipo medalha. como a sua escola é de valor x pode falar disto. e é este o momento em que tudo se cria. as tabelas se juntam. e as grelhas [que deviam servir para assar sardinhas e nada mais] confluem numa desejada harmonia que transforma a escola numa dependência do instituto nacional de estatística em versão pobre e excel. e quando não se cumprem as metas, nascem as discussões. porque todos somos empurrados para elas. para "elevar" a qualidade e os números que acompanham a qualidade escondem a ignorância de tantos. mas não importa. importa cumprir as metas. impossíveis. ou possíveis. mas cumprir. como se fosse essa entidade abstracta, qual mercados, a guiar o caminho. a meta. não que eu não defenda a evolução da escola enquanto sistema. claro que o faço. só não suporto a tirania desta coisa que transforma tudo nisso e só nisso. num crachá para vender a escola. como se fosse um produto. x numa lista de y. e o resto? o resto são conselhos de turma com discussões "infernais". professores a olharem sempre uns para os outros. para o bem e para o mal. divididos. porque a meta, está lá. e se um diz que se está a marimbar para a meta o mundo inteiro se torna pesado demais para suportar. mas é disto, desta coisa e deste tempo, infelizmente, que está tecido este fim de ano lectivo. que termine depressa. que fique lá na parede o número para ostentar durante o absurdo de um tempo que vai passar. o pior são as cicatrizes. e as vidas roubadas aos miúdos que no meio disto tudo são, tantas vezes, só aquele número na lista de papel, anónimos, como um todo que não define nem descreve a sua escola. hoje pensei nisto...

||| música [im]perfeita...


||| leituras [im]perfeitas...



||| que as há... há...


||| ... quando é demais é falta de respeito. mas a quem posso eu, professor que "superou" já tantos ministros e equipas ministrais, para questionar o sistema onde me integro mais do que o faço todos os dias na minha prática que, dizem, cada vez menos se coaduna com o tal... sistema. é que estou a ver saírem os exames. um a seguir ao outro. e penso. penso no instrumento de controlo e publicidade em que se tornaram. neste bicho de duas cabeças que serve ao seu dono e ao seu escravo. e a mais ninguém. porque nem com pinças lhe podia tocar para além do óbvio. seria muito estranho dizer que toda a escola se tornou escrava deste momento que agora ocorre com a opulência de um momento bacoco. mas que ninguém vê. nunca como agora a frase "o rei vai nú" me faz mais sentido. o sistema empurrou para a escravidão dos "exames" todos. professores, alunos, funcionários, escola, educadores em casa e fora dela. depois serve uma coisa em forma de assim ou assado. nem a dificuldade exprime qualquer exigência. e penso na estupidez inteligente disto tudo. é que todos, tudo, agora na escola, se resume a números. x que superaram. x que falharam. x que abandonam. x que ficam. em percentagem, preferencialmente. e a estupidez assusta-me. porque é tão manipulável que até é evidente. por mais estranho que tudo isto parece, cada vez mais se torna tão evidente que é cada vez mais difícil de esconder, sob o manto enguiçado da exigência tudo o que há para ser visto. não serve o seu dono porque não engana ninguém e não serve mais nada porque não é inteligente. é estupido. e a estupidez, graças aos deuses, foi a razão pela qual, para além da ignorância, que a escola, esse imenso peso da agitação social, foi criada. tempos cada vez mais estranhos, estes. em que todos se parecem querer enganar sem nenhum estar a acreditar que está enganado...

17/06/2014

||| palavras [im]perfeitas...

vinicius

||| era preciso saber ler...


||| ... prometeu. ó professor. lá está você e as suas coisas. sim, prometeu. o fogo. aquele que roubou. tal ícaro. aventureiro. ó professor não estou a perceber nada. pois não, vocês já nem sabem o que são as histórias clássicas. ya professor, diga-me só o que é/era para "meter" na dois ponto cinco. e pronto. basicamente é isto. tudo se resume a isto. o que é que é para "meter" aqui e ali. perceber não interessa. tal como não interessa explicar. parece-me, cada vez mais que isto é uma realidade. não importa explicar porque também não importa [nem tal parece ser do interesse do sistema] que seja compreendido e reflectido. é só uma coisa para "meter" na dois ponto cinco. e essa coisa é ipsis verbis. que é isso professor. fogo já tenho errado. não dei essa coisa. a coisa. para meter lá, na resposta à pergunta. escrita "tal e qual". ah... ó professor, fogo. complica tanto. será? serei eu que complico? ou serão vocês que não dominam o pensamento para descomplicar o que digo simplesmente? professor, o que interessa é responder bem. não miúdo. o que importa é pensar. perceber e compreender. responder é só um acto mecanizado se for como me dizes. professor, já chega. diga lá o que era para colocar na dois ponto cinco. e tudo se resume a isto...

||| leituras [im]perfeitas...


||| música [im]perfeita...


||| foi, sim foi...


||| ... dos vários últimos anos de trabalho no reino da educação este foi o mais difícil. não há outra forma de o dizer. foi mais complexo. o mais cansativo. o mais desafiante. o mais arriscado. o mais perigoso. o mais envolvente. e ao mesmo tempo, tudo isto. baralhado. emaranhado. em dias. e horas. e ideias, e aulas e projectos. e tudo. embrulhado. e o cansaço que agora habita em mim, professor, desfaz-se em cada papel ainda por preencher quando já só resta o sistema e uma ou outra coisa por "entregar". todo o sistema se tornou mais pesado. uma crise arrastada em todos os níveis arrastou também para a escola um cinzento pesado demasiado extenso para tantos dias de tantas coisas. é estranho dizer isto. mas é verdade. se cada dia foi um desafio, foi também uma batalha. e as batalhas são sempre momentos de combate. e de imaginação. duas das coisas mais desgastantes para qualquer pessoa. e é assim. e foi assim. e não há outra forma ou outro nome para dar a isto. foi o ano mais difícil para mim. para a escola. para a educação. e ainda falta cumprir tudo o que resta para fechar este ano e abrir aquele que está para vir. que seja agora. e simples. porque de difícil este já se cumpriu e deixou as marcas nas mãos e no pensamento. e ficaram. como registos. que seja agora. retomemos o trabalho que o caminho ainda está por fazer. que seja agora, feito, tudo o que falta.

16/06/2014

||| palavras [im]perfeitas...

al berto

||| do perigo da liberdade...

 
||| ... ó professor, vamos ter saudades das suas aulas. não vão nada. vão é gozar as férias. ó professor e aquelas aulas livres? aquelas na rua? livres? sim, podíamos fazer coisas. e parei por instantes para pensar nesse lugar de liberdade. que falta sempre ensinar. como se houvesse aulas "presas" e aulas "livres". como se, por dar uma aula na rua, tudo fosse mais feito de liberdade, quando, pela natureza da coisa tende a ser mais pensado e preparado para haver menos riscos. é curioso, isto. e a conversa é sempre boa para criar estes pontos de reflexão. a aula dirigida, pensada em sala de aula, onde até julgava que eles iam sentir essa liberdade de criar é desvalorizada para outra dada num contexto diferente. sempre defendi esta ideia da aprendizagem em contexto. e de facto muda tudo. porque há uma liberdade de olhar, de ver e de sentir que supera qualquer outra para além da liberdade racional e criada artificialmente em sala de aula. uma complementa a outra. eu sei. e é com essa percepção que os miúdos ficam. e ainda bem. porque sem antítese não há síntese. e é bom que eles levem essa ideia com eles. que há momentos em que a liberdade pensada é tão ou mais importante do que a liberdade vivida. e que um programa para cumprir não é tão importante como a liberdade de criar. é igualmente importante. somente isso. e nada mais do que isso...

||| leituras [im]perfeitas...


||| música [im]perfeita...


||| daquela coisa vazia...


||| ... é quase como ver o esqueleto da coisa. só gente. a escola nos dias que se vão passar, sem alunos. há os exames todos. os apoios. as coisas que passam. mas há um vazio que não tem explicação. é o som que muda. é a cor que muda. é a forma das coisas que vai mudando de dia para dia até ao momento em que todos abandonam o espaço e fica tudo para a limpeza. há nestes dias um tempo diferente. é um tempo de mudança. sente-se em cada instante. como se fosse a dimensão imperfeitas das coisas ainda por fazer. enche-se tudo de um trabalho burocrático ainda maior. há a presença constante da "máquina dos exames". e reuniões. e mais coisas que fazem o cansaço chegar aos olhos e aos sentidos. é estranho este tempo e esta mudança que surge nas mais pequenas coisas. até só na simples ausência de uma pressa que toma os outros dias por certo. há muitas coisas para fazer, cada vez mais, mas há também um lugar desabitado que se recolhe neste tempo. aquele da sala de aula. aquele da aula para dar ou das conversas de fim de dia no corredor. a escola ganha um vazio determinante. algo que a transforma no sistema. puro e duro. sem a estranha vida que os miúdos dão à escola em todos os outros dias. e isso está escrito em todo o lado. curiosamente...

13/06/2014

||| palavras [im]perfeitas...

fernando pessoa

||| já houve um tempo em que se festejava...


||| ... ó professor, hoje é festa. ok. desde o primeiro dia digo sempre que sim. que ajudo. à festa. preferia uma celebração mas desisto logo à primeira explicação que tenho que dar da diferença entre as duas coisas. e depois vem o que me anda a assustar. o tema será: e pimba, um tema para eles terem que "aprender" qualquer coisa. há, mas vamos ter umas brincadeiras. e pimba: pedagógicas, claro. para eles "aprenderem" alguma coisa. ah... e vamos ter umas mostras de ciência, música e tal. ok. e pimba: porque não pode ser só brincadeira. não pode? porquê? porque é que tem tudo, agora, que ter um "objectivo pedagógico". uma "aprendizagem"? raios... mas então não é uma festa. é uma aula em ponto grande com coisas diferentes. é pá, os miúdos andaram um ano lectivo a levar com "aprendizagens" e no último dia de aulas: pimba. mais ainda. festa é festa. brincadeira é brincadeira. aprender é aprender. deixem à festa o que é da festa. a celebração. a ausência do cumprimento dos rituais do quotidiano. a quebra nas regras e nas rotinas. mas não... tudo muito organizadinho. daqui para ali. depois para a sala dez, depois mais isto e mais aquilo. festa. está bem. um dia, vou conseguir, fazer a festa no último dia de aulas. sem nada para aprender. só para brincar. festa que é, celebração. porque isso é tão ou mais importante do que tudo o resto. e o último dia de aulas devia mesmo ser um momento de liberdade.

||| música [im]perfeita...


||| leituras [im]perfeitas...


||| desta coisa do universo da imagem...


||| ... nunca escrevi aqui sobre isto. mas faz-me confusão. deve ser da minha natural reserva da privacidade. alguém me perguntava: que achas das fotos da turma que coloquei no meu facebook? e ajudas-me a escolher umas para o da escola? há aqui uma linha que traço. sempre o fiz e independentemente das opiniões continuarei a fazer. posso até [como até já partilhei aqui] tirar fotografias de alguns registos ou momentos que crio ou faço com os meus alunos. mas nunca os partilho identificados. isto é, em que seja possível ver o rosto ou qualquer elemento de identificação dos miúdos. não há, para isto, nenhum regulamento, lei ou norma. é o meu bom-senso a imperar. não o faço também para lhes falar do anonimato. e da importância do colectivo em detrimento do individual. já conhecem as regras. eles. e para mim são sempre muito claras. ofendida a pessoa que me pediu para rever fotografias lá fomos para as da escola. acho que falta mesmo uma lição de história. para perceber o que é público, privado e íntimo. e nos tempos que correm em que os miúdos partilham tudo: de um pé a uma tatuagem, de um gesto a uma foto em grupo, alguém tem que lhes dizer que há esferas na vida em cidadania. e quais são. e como funcionam. e quais são as regras de civilidade para cada uma delas. quando somos nós, professores, os primeiros a confundir essas esferas da vida colectiva estamos a deixar entrar no espaço da escola uma lição por dar. uma referência por criar. e hoje, depois de escolher algumas fotos, para uma instituição que é pública, lembrei-me disto.  pessoal. colectivo. público, privado e íntimo. isto falta "ensinar" à escola do presente e do futuro...

12/06/2014

||| palavras [im]perfeitas...

eugénio de andrade

||| hoje não me apetece...


||| ... hoje, relembrei todas as aulas que não me correram bem. a mim e a eles. pedi desculpa. a mim e a eles, por isso. comigo e com eles decifrei razões. pedi opiniões. abri um novo olhar sobre isso. pedi que me ajudassem, eles. pensei para comigo que nem sempre acerto nas escolhas porque muitas delas são arriscadas. mas não era por isso, diziam eles. era porque não os envolvi. percebi. pedi desculpa novamente. conversámos sobre isso e sobre tudo. falámos das aulas que correram bem. por contraponto. fizemos um balanço. é importante isto. para repensar tudo para o futuro. e não repetir os erros e somente os integrar como aprendizagem. ninguém sabe tudo. mas também não há ninguém que não saiba nada. guardei este ano e estas experiências. mais do que vividas, partilhadas. as boas e as más. e lembrei cesariny: faz-se luz pela eliminação das sombras. é simples. é sempre muito simples. basta conversar sobre isso, um pouco.

||| música [im]perfeita...


||| leituras [im]perfeitas...




11/06/2014

||| de portas abertas...


||| ... cada vez mais é difícil sair da escola. levar os miúdos a algum lado. as visitas de estudo são caras. o tempo é útil e pouco para se desperdiçar com "essas coisas". dizem alguns. importa a matemática. e o português. e o "repor" aulas como se fossem coisas na prateleira de um hipermercado que fosse preciso "repor". aquela visita a trezentos quilómetros é impossível. e no entanto, mesmo ali, no fim da rua, no centro da praça. e no entanto, mesmo ali, na esquina ou na casa abandonada. e mesmo ali, na janela aberta daquela senhora por quem passamos todos os dias. e mesmo ali, a cem metros, está tudo aquilo que nunca vimos, ouvimos ou fomos visitar. todas as desculpas são válidas para fechar a escola ainda mais sobre si mesma. mas são ainda mais aquelas que me levaram, tantas vezes, a sair pela porta principal da escola e ir "passear" com os meus alunos. abrir a escola ao mundo. nem que seja o mundo no fim da rua. mas não serei eu, mais um, a achar e a fazer da escola uma ilha. e a verdade é que, no fim da rua, está mesmo um mundo inteiro por descobrir. haja coragem e vontade e curiosidade...

||| palavras [im]perfeitas...

manuel alegre

||| tanta coisa, tão pouco estudo...


||| ... sentado no degrau das escadas que dão acesso ao corredor, esperava. lá vem o "bando". olá professor. olá. que vão fazer? estudar. ok. se precisarem de alguma coisa digam, ando por aqui. ok professor. obrigado. e lá foram. resolvi levantar-me e ir esticar as pernas. andar de um lado para o outro faz-me bem. ajuda a pensar. e lá fui. andar pela escola, ou deambular como diria um amigo, faz com que as pessoas nos achem malucos. o que é bom. estar sentado ou com a atarefado é que é politicamente correcto. andar pela escola não. é de maluco. por isso, andemos, pensei. e andei. encontrei o "bando" sentado no bar. phones nos ouvidos uns. a mandar sms's outros. de computador e socialmente partilhados, outros. os cadernos abertos sobre a mesa. os manuais também. e uns livros novos e brilhantes de "preparação para exames" ainda por abrir. ó professor, sente-se aqui. lá fui. então isto é que é estudar? e resumo aqui as frase de cinco [ou seis] miúdos: ya professor. eu tenho explicações depois disto. o meu pai comprou-me estes livros de preparação para os exames que diz que são muito bons e a explicadora recomendou. o meu comprou um acesso a um site com tudo explicado e resumos e resoluções de exames. eu tenho um tutor no facebook. e vamos para o café estudar. e ando a tomar umas coisas para a memória. e café. e os apontamentos. e o manual, mas ajuda pouco. e telefonamos uns aos outros. e... e respirei fundo. e perguntei: e estudar? ó professor, é isto. isso fazemos nós. e pensei antes de responder que o tempo deles não era o meu. que hoje [fui interrompido no pensamento com mais uma frase: professor e quando ainda temos dúvidas googlamos] o tempo é outro. o multitasking está aí como realidade e a atenção já não é o que era. mas decidi, mesmo assim dizer: alguém alguma vez vos ensinou a estudar? ya professor, uma vez no nono ano a dt deu uma aula sobre isso. uma vez? sim. e a explicadora também diz como devemos estudar. e o meu pai comprou-me um livro para eu ler para aprender a estudar. ok. vamos parar por um segundo. pode ser? pode professor. e estive a falar. estivemos a conversar. sobre estudar. de studio. de reflexão e análise. de compreensão. de gestão da informação e de conhecimento. de como centrar a atenção. de desligar para pensar. e sei que não fiz nada por aqueles miúdos. nada. porque até eu, ao longo de um ano, assumi como à priori que eles sabiam estudar. e não sabiam. mesmo assumindo isso fui tentando experimentar momentos de estudo. mas não chegou. e fiquei a pensar nisto. que urge retomar as coisas simples. ensinar o que, agora, à priori, pensamos que já vem com eles. que damos, erradamente, por adquirido. ensinar a estudar é uma dessas coisas. depois vem a atenção, a concentração e a civilidade. mas se não ensinamos isto eles não sabem por inspiração divina ou outra. só não temos é tempo ou espaço para isto. e com isso eles, os miúdos, perdem-se. muitas vezes é só isto. e fiquei a pensar.

||| leituras [im]perfeitas...


||| música [im]perfeita...


||| ora explique lá isto...


||| ... ó professor, porque é que temos que ter exames? a minha mãe diz que é porque o ministério desconfia do trabalho dos professores. retive três coisas da afirmação: a razão para os exames. o que "a minha mãe diz". e o fundamento. não sei se a "mãe" disse. sei que pode ser uma razão para a afirmação e a pergunta. a principal razão entre todos os miúdos não era essa. era a de acesso. nem todos podem ter acesso. é preciso "organizar" tanta gente, para o acesso. mas a frase ficou-me na cabeça ao ponto de responder. expliquei, como todos fazemos, a diferença entre examinar e aferir ou escrutinar. acho que todos nós, professores, uma vez num ano fazemos este discurso. da origem das palavras e da razão do sistema. expliquei depois que um sistema inclusivo com o nosso contém dentro de si, escondido, vários elementos de exclusão. simples, silenciosos. pior. por inquietação em vez de vocação. os "caminhos" ou "opções" paralelas a um percurso geral cada vez menos inclusivo e presente é simples. não tens perfil pela inquietação que provocas logo vais para uma opção. de opção em opção sem uma verdadeira orientação vocacional. [mas isto dá uma reflexão mais necessária a seu tempo]. por isso, os exames não "desconfiam" dos professores. desconfiam é que alguns tenham passado nessa peneira da inquietação. e por isso é preciso fazer uma última triagem. mas sabem, eu nunca fui contra um sistema de avaliação final por ciclo. concordo e até acho útil se pensado pedagógica e estruturalmente como mais um recurso para valorizar o conhecimento. o pior é que não é nada disso e por isso parece algo, como vocês dizem: inútil. por isso, a tua mãe só tem razão numa coisa. o "ministério" desconfia. esta é a única verdade na afirmação feita. desconfia sempre. e não é dos professores. é de todos nós. a começar por vocês. um dia vão ver isto claramente. quando perceberem para que servem, hoje, realmente os exames como são feito. e agora vamos comer um gelado que está calor e estas conversas precisam de açúcar para uma melhor digestão...

10/06/2014

||| dos dias que passam num país...


||| ...o meu país é um fruto. laranja. em grego. ou noutra língua qualquer. portucale. porto seguro. o meu país, onde sou professor, é amargo. e doce. cor de terra. sabor a fruto agridoce. é um lugar. um hábito que se ganha. um poema que se ouve. uma música que se canta. como todos os outros. e por isso, diferente de todos os outros. o meu país não é aquilo que hoje, numa cerimónia qualquer encenada por um estado que já não é um país, tenta criar. o meu país é paz. são miúdos que correm. que reaprendem a correr nas ruas porque a liberdade precisa ser reclamada. o meu país, onde sou professor, é um mundo inteiro aberto à descoberta. sem descobrimentos. mas com viagens. e palavras. e a língua portuguesa que é um império e a minha pátria. o meu país é o lugar onde a escola é o centro de tudo o que há de mais livre. um dia, assim será. o meu país é um fruto. feito de gente que trabalha a terra. que mete as mãos no mar. que faz soar as máquinas. que inventa o impossível. o meu país é este pedaço de terra. com e sem mar. com e sem céu. o meu país é uma flor. uma rosa, uma margarida ou um malmequer. qualquer uma que afaste aqueles que querem fazer deste país qualquer coisa emparedada entre a miséria e a resignação. o meu país, em que sou professor, é o lugar de amanhã. por construir. em cada aluno que fala a língua de camões, pessoa e saramago. que diz que o céu é a fome das estrelas e que grita eugénio, sophia e cesariny. o meu país não são números. são rostos. os dos meus alunos. os dos meus colegas. o das pessoas que cruzo na rua. o meu país não é uma laranja. nem um fruto. é uma árvore. inteira. imensa. de pé. rica e fecunda. presa no meio da terra que será, um dia, de todos. novamente. o meu país é uma terra. nela habito, nela ensino. nela passo os meus dias. não só este. todos. e todos os dias, este é o meu país. que falta reclamar. que falta fazer. neste país, sou professor. e nele o serei até ter forças para lutar. este é o meu país. hoje. que é só mais um dia igual a todos os outros. neste país...

09/06/2014

||| palavras [im]perfeitas...

cesariny

||| a última aula ou um teste final...


||| ... há muitos anos que a minha última aula com os meus alunos é sempre igual. e por isso, sempre diferente. para quem arriscar aqui fica como se processa:

... começa a aula com a sala preparada. como se fosse para exame. mas em cada mesa uma só folha de papel normal cortada ao meio e um lápis. na "mesa do professor" uma caixa preta com uma ranhura no meio. tipo urna de voto [urna para voto é sempre uma junção curiosa, mas isso dava uma tese]. os alunos entram na sala e o professor diz. hoje é a última aula. podem escrever uma única pergunta que queiram que eu responda sobre mim como professor ou sobre o que aprendemos ao longo do ano. não escrevem o nome pois é anónimo. terão cinco minutos para elaborar a pergunta e depois a colocarem aqui, na urna das perguntas. irei responder depois, uma a uma. perguntem o que sempre quiseram perguntar mas nunca tiveram coragem para o fazer. ou simplesmente o que ainda resta de curioso para saber. e assim é esta última aula. uma conversa. em torno das perguntas. e das respostas. digo sempre que nenhuma pergunta é "atrevida". as respostas é que o podem ser. por isso partilho aqui três:

... o professor acredita em Deus?
resposta: sou um homem de fé. já religioso não o poderia dizer que sim. um dia um político que já ouviram falar, mário soares, perante a mesma pergunta respondeu não ter a sorte de ter fé. eu tenho essa sorte. o pior é o resto. são os rituais que associamos à fé. há coisas no islamismo com que concordo, coisas no catolicismo com que concordo, coisas no budismo com que concordo. é o que dá estudar as coisas. mas isso dava um ano lectivo para responder... 

... porque é que o professor nunca tira fotografias nas visitas de estudo?
resposta: essa é simples. quero ver. quero guardar na minha memória e não na da máquina. vocês nunca vão perceber isso na plenitude pois vivem na "share life". partilham o que vivem. eu guardo o que vivo. e acho mesmo que deviam pensar e aprender o valor da intimidade. falámos de orwell uma vez, nas aulas. já leram? não, claro. mas um dia, talvez, percebam que esta ideia do guardar é tão importante como partilhar. tiro fotografias de outras coisas. noutros momentos. partilho também, como sabem. mas gosto de ver. e de guardar no meu "disco". porque há memórias e imagens que são mais do que isso. são lições. e com elas preparo aulas, conversas, textos e outras coisas.

... o que é que o professor mais gosta de fazer quando não está a dar aulas?
resposta. gostava e gosto muito de ler. agora o tempo é menor e por isso não leio tanto. passo os olhos em algumas coisas. gosto de pensar. sim, pensar. não estranhem tanto. é importante pensar as coisas. perguntar a nós mesmos a razão das coisas. a lógica do nosso pensamento. ouvir e pensar. é talvez o que mais gosto de fazer. em silêncio. porque só pensando podemos compreender o mundo. 

... e pronto. se tiver coragem, arrisque uma última aula assim. nada, nunca mais, será como antes...

||| leituras [im]perfeitas...


||| música [im]perfeita...


||| este, aquele ou aquela...


||| ... estava aqui a pensar. mais um ano que se fecha. sobre si mesmo, quase. quase um cerco de dias passados. na escola. na sala de aula. fora dela. e os miúdos. centenas deles. há sempre, os bons estudantes. aqueles ditos, bons. cumprem as regras. pensam. vão mais longe. é fácil ver quem são. depois os outros. os esforçados. que trabalham para conseguir o que para os outros quase parece natural. trabalham. estudam. dedicam-se. são cada vez menos. mas são. há pela escola ainda muitos. e ainda bem. depois os outros. aqueles que se estão a marimbar para o sistema. e para aprender. e para a escola. não sendo um acto de revolta ou afirmação é mesmo um estado constante de presença. também são fáceis de identificar. e aqueles que não adquiriram as estruturas mentais e cívicas para a pertença à escola. também é fácil. consigo ver todos esses. falta um. reparamos pouco neles. naqueles que tentam. mesmo. às vezes as tentativas nem se tornam claras. são pontuais. estranhas até. pensamos que foram "copiadas". ou coisa parecida. não chegam à média e por isso ficam fora dela. são poucos. mas estão lá. perdidos no meio dos outros todos. e hoje, encontrei um no meu pensamento. vi-o, claramente. e disse-lhe que o vi. e que vi o esforço. que o reconheci. mesmo quando ele fica aquém do que um sistema chama de médio. vi-o. e guardei esse esforço como forma de ilustração desses miúdos que esquecemos. e apeteceu-me dizer isto.

06/06/2014

||| palavras [im]perfeitas...

Torga

||| quando se fecha a porta...


||| ... são aqueles segundos. sim. são só uns segundos. em que rodamos a chave pela última vez. terminada a última aula com aqueles miúdos. foi um ano lectivo de presença. de encontros. em dias bons e dias maus. em dias de chuva e de sol. em dias que apetecia estar ali e dias em que apetecia estar em todos os lugares menos ali. dias em que as aulas correram bem e dias em que correram mal. dias em que perdemos o juízo e rimos. dias em que as horas pareciam não passar. foram muitas horas. em que a vida correu, em centenas de encontros e desencontros. e há uma saudade que se prende no som da chave que roda pela última vez. em que eles já foram embora pelo corredor. em que estamos só nós com a pasta ao ombro, o livro de ponto na mão e a chave, quase tudo a cair como aconteceu vezes sem conta. é nesse momento. que chega uma saudade. foram embora. foi a última aula. ficou tudo para trás. tudo. o bom e o mau. e isto tudo vai-se passando naqueles segundos. naquele tempo que só quem sabe, só quem é professor, sabe que existe. e vem a ideia que nunca os vamos esquecer. sabemos que não é verdade. que daqui a uns anos não nos vamos lembrar. porque precisamos de espaço. em nós. para os próximos. para os que vão chegar já no próximo ano depois das férias. é sempre assim. entre estes dois mundos, estes dois espaços, estas duas certezas a chave, roda. clic. porta fechada. ano lectivo feito. bem ou mal. feito. e fica o som. da porta. e o ruído no corredor. como compensação. e sabemos que, num ano tão difícil, cumprimos mais uma vez o dever. ninguém ouve isto. ninguém fala destes segundos. mas eles existem. e ainda bem. são estes segundos que fazem de nós, professores.

||| música [im]perfeita...


||| leituras [im]perfeitas...



||| falar caro ou simplesmente dizer coisas...


||| ... adoro quando acham que "falo caro". que numa pequena reunião de preparação de qualquer coisa digo outra coisa qualquer citando um clássico ou saltando uma frase feita de tempos imemoriais. acham-me estranho. é giro que quem não tem a linguagem do correr dos dias é considerado snob. estranho. ou louco. é curioso isto. se falta leitura na escola, aos miúdos, também o falta nas conversas. da memória colectiva. da história. e não é por essa ser uma área do meu interesse. é porque falta elevação no pensamento. na discussão. falta não dizer: nos termos do regulamento. falta falar do espírito da lei. faltam palavras. contestação é uma dela. tese. antítese. síntese.  não é dizer coisas "caras" por o dizer. nem complicar. é pensar. fazer as coisas pensadas. falta muito isto. porque o tempo que falta rouba tudo isto. passamos a cumprir a linguagem do sistema. não queremos complicar a vida a ninguém menos que outros nos compliquem a nossa. simplificamos as palavras e a comunicação. e pior, simplificamos o pensamento. e com isso aqueles que não o fazem são sempre estrangeiros no meio de tudo isto. resistir à simplificação do pensamento é urgente. muito mais na escola que devia ser o lugar único e primeiro desse espaço cristalino de reflexão. para o futuro.

05/06/2014

||| palavras [im]perfeitas...


Cesariny 

||| das estórias, dois...

 
||| ... ó professor o que é um retrato. desculpa? um retrato, o professor está sempre a dizer: como podem ver neste retrato. ok. as coisas simples, nunca te esqueças das coisas simples. dizia-me ao ouvido um mestre que tive. é claro. o retrato não é do tempo deles. é a fotografia. o retrato vem do latim: retractus. fazer a efigie de uma pessoa. de [re]trahere. de tirar. puxar. trazer para fora de uma imagem. não é uma fotografia. tive na família essa memória. dos mais velhos dizerem que queriam tirar o retrato. esse colocar em imagem para mais tarde retirar de lá uma memória. encenada. é curioso isto. lá expliquei. sem esta confusão da origem. não era uma fotografia. era um retrato. e decidi criar uma aula vintage. ui... foi o caos. por acaso não foi uma aula. foi uma semana. semana das aulas vintage. como era vintage os miúdos adoraram, claro. é dar nomes parvos às coisas e adoram logo. então entravam palavras na aula. "novas". vossemecê. obséquio. quiçá. retrato. foi uma semana de palavras "novas". de com sua licença. do se faz favor. se me é permitido. achei piada à coisa. e os miúdos também. foram para casa perguntar palavras que deixámos de usar. aos pais. aos avós. aos mais velhos. e parecia que tinha tudo voltado aos anos vinte, mesmo. falavam assim como se fosse natural. brincavam com as palavras. falámos da origem. das mudanças. do que se perdeu e do que se ganhou. do psiché. e muito nos rimos com isto. e das regras de cividade pública e privada que acompanhavam as palavras. tudo isto por causa do retrato. e falámos dos clássicos. dos livros. fomos aos livros. até a alexandre herculano. buscar novas palavras. novas que eram velhas. e nos cadernos povoavam estas coisas. falava-se assim. e tentava-se perceber de onde vinham as palavras e o que queriam dizer. tornaram-se críticos. do uso e do abuso da simplificação. foi muito curioso. vintage. mas curioso...

||| leituras [im]perfeitas...


||| música [im]perfeita...


||| das pequenas estórias, um...

 
||| ... estória um: caro professor. escrevo-lhe passado tanto tempo. queria a sua ajuda. estou a fazer mestrado em história contemporânea e uma professora falou-me do seu artigo sobre a geração de setenta. pode ajudar-me? queria umas ideias de como começar e por onde explorar o tema. de tempos a tempos recebo emails assim. alunos que foram. que passaram. a tânia sempre foi uma aluna curiosa. dedicada mas como se diria hoje: média. hoje é uma brilhante investigadora. aprendi com o tempo que aqueles que "julgamos" e avaliamos como excelentes geralmente precisam de menos para conquistar do que os outros. estes, que lutam, procuram sempre ajuda. são gente que cresceu. que encontrou um caminho. que procurou. que lutou e conquistou. é curioso, isto. lá respondi ao email. olá. gostei de saber de ti. claro que sim. ajudo. e lá falei da biblioteca do departamento de línguas que tem um texto fabuloso do professor carlos reis. e das conversas com ele sobre os vencidos da vida. e lá se combinou o café. é aqui que as coisas mudam. mudam porque quando reencontramos um aluno passado tantos anos não os vemos tão "crescidos". é curioso. só passado um tempo isso se desconstrói. no decurso da conversa. agora mais estruturada. sem as brincadeiras típicas de um tempo. sem os ganchos no cabelo ou a mochila cor-de-rosa. é curioso isto. mas tudo tem o seu sentido. sentados, a tomar um café, o papel do professor e da aluna ganha forma novamente. ela confiava em mim para a orientação. eu dava o que tinha e sabia. conversa amena. serena. simples. levei uns documentos. uns artigos. finalizou-se o reencontro. que tenhas sorte, sucesso e fortuna. e tudo de bom. professor, nunca me esqueci que terminava sempre as despedidas com o seu "tudo de bom". é curioso o que fica. estas coisas. as expressões, ficam. digo, é verdade, sempre: tudo de bom. é um desejo sincero. simples. antigo. ficou com ela. voltei a saber dela agora. a tese. defendida e convite para o lançamento do livro. vai para doutoramento. acho bem. tem lógica. pediu ajuda outra vez. mais uns anos passados. é giro. isto. de se ser professor ao longo da vida. e disto ninguém fala. não se conta. são só histórias que ficam. entre os professores e os alunos. simplesmente.

04/06/2014

||| dos dias cheios de coisas e papeis...

 
||| ... chegados estes dias tudo são papeis na vida de um professor. os testes vistos. as grelhas. os questionários. as pautas. papeis para preencher no "computador" e para enviar até dia x. e os alunos pendurados num limbo do tempo. entre as aulas e os exames. como se fosse o horizonte em que ninguém acredita mas finge que sim. tudo trabalho burocrático. demais. que nos afasta de tudo e de todos. até uns dos outros na escola. as dúvidas surgem em catadupa. sabemos que somos menos. na sala dos professores estendem-se lençóis de convocatórias que inundam o email também. são menos para mais. resulta agora em todas as coisas. falta um certo sangue novo. não no sentido habitual. mas da força. falta mesmo na escola. vontades novas. somos cada vez melhores operários na organização desorganizada. estão sempre a convocar-nos. para mais coisas com mais papeis. e mais justificações. sou particularmente adverso a ter que justificar tudo o que faço. a nota que dou ou não dou. a fórmula da avaliação que aplico. a aula que quero mudar. tudo justificado. ou a precisar de justificação. para ficar escrito. em actas. cada vez mais actas. para fazer. para escrever. para alguém ler e verificar. depois sabemos bem que vão para o "arquivo" cinco anos até serem destruídas. e a inutilidade ganha ainda mais força. reuniões a que se somam reuniões. o miúdo que disse um palavrão e deu um estalo ao outro. na sala. conselho de turma. mais uma reunião. todos de acordo que o sistema não tem resposta. mas faz de conta. e mais uma folha com cruzes para preencher. e vamos andando assim, mas neste tempo final tudo é a duplicar. e estamos fartos. queremos ir para casa. sabendo que em casa também tudo continua. a noite é feita de volta de mais uma grelha para preencher em vez de um livro para ler para lhes dar umas últimas indicações ou ideias. e são assim, as coisas. até mudarem. porque vão ter que mudar. mesmo.

||| leituras [im]perfeitas...


||| música [im]perfeita...


||| a explicadora, o império e a cadeira...

 
||| ... as aulas de preparação para os exames são chatas. nem são aulas. são treinos. tipo ginásio. para isto, isto. vá, outra vez. as regras. cuidado com a linguagem. e pronto. pode sair isto, isto e isto. é simples. tenham calma. leiam tudo muito bem. pensem antes de responder. essas coisas. ditas vezes sem conta. isso e passar confiança para o lado deles. quando a falta. ou gerir expectativas, quando as há. e a aula decorria normalmente até ser colocada a afirmação no ar: ó professor mas a minha explicadora diz para não fazer assim. ups. parei. quem? a minha explicadora. ok. como é que ela se chama? sílvia. ok. e onde é que ela trabalha? ali, no centro. ok. amanhã falamos sobre isso. pensei como sempre: raios partam. mas seguiu-se a aula, o treino, e findou. no fim do dia, pés a caminho. entrei no centro de explicações. posso falar com a sílvia. quem deseja falar-lhe. o professor da mariana. ok, só um momento. foi chamar. esperei. esperei pelo fim de uma explicação a um grupo de quatro miúdos. no final lá veio a sílvia. olá. olá. vinha falar-lhe para articularmos a preparação para o exame. parece que temos visões diferentes e podemos, com isso, prejudicar a mariana. ela ficou surpresa. foi a primeira vez que tal lhe tinha acontecido, ao que parece. expliquei que não sou contra "explicações" desde que isso não interfira na minha sala de aula. que percebia que ela, sem colocação, tivesse que sobreviver. percebi isso tudo e até disse que entendia os centros como negócios. que respeitava a necessidade dela sobreviver e que não era isso que estava em causa. em causa estava o modelo de preparação e só isso me interessava. foi uma boa conversa. entre dois professores. com a mariana e o "treino" como ponto de discussão. articulamos estratégias. chegámos à brilhante conclusão que a miúda até se "safava" bem. afinal somos todos seres humanos e a conversa é a melhor forma de aprender. no dia seguinte, na aula seguinte a mariana veio dizer-me que a sílvia mandava cumprimentos. mandei cumprimentos de volta. o exame estava mais perto. e a mariana ficou a ganhar. dá trabalho pensar e fazer assim, eu sei, mas eu sou professor. e o humanismo é uma referência que quero passar aos meus alunos. a mariana ficou a ganhar. eu também. mas que importa isso...
 
 

03/06/2014

||| é tudo a correr...

 
||| ... sim, sim, entre. ó colega, desculpe, importa-se que eu passe só estas fichas de autoavaliação porque não tive tempo na minha aula? claro que não, força. e lá foram distribuídas as folhas. e lá os miúdos fizeram umas cruzes e "pediram" uma nota. recolhido tudo, o obrigado. a porta fechou-se e eu continuei. para mim a aula mais importante é a da autoavaliação. sempre foi. a razão? porque a "nota final" não é um número que o professor atribui do alto da sua sapiência e poder. se assim for automaticamente desvalorizamos a referência que a mesma permite. o valor de uma nota, de uma avaliação, não está na atribuição da mesma. está na conquista da mesma. na brincadeira costumo dizer que eles todos começam com vinte. manter é que é difícil. e a autoavaliação é um momento único. o reconhecimento do "conseguido", do "perdido" e do "por aprender". uma avaliação do percurso. do reconhecimento. porque cada vez mais o trabalho como percurso é perdido para essa coisa: ó professor quanto é que me vai dar? e cada vez são menos os miúdos que se preocupam com isso. que desvalorizam essa nota. ou esse percurso. ou a aprendizagem em si e o conhecimento por associação. é quase uma ligação lógica. recentrar o interesse valorizando a conquista pessoal. para isso é preciso uma aula com tempo. a última do período ou várias, ao longo do tempo. tecnicamente inventei um nome: são os marcos. como os da geografia. marcos do que aprendi e como aprendi. que marcam o caminho. o percurso. posso até saltar alguns ou falhar outros. mas tenho que ter a capacidade, o tempo e a reflexão para os reconhecer. a autoavaliação sem fichas ou cruzinhas. numa conversa aberta. numa troca de ideias. importa. e importa muito. para valorizar. para conseguir dar valor. à nota. que afinal de contas, é mesmo só uma nota. conquistada, é mais do que isso. e é simples.

||| música [im]perfeita...


||| leituras [im]perfeitas...


||| obsceno ou não é assim...

 
||| ... estava no fim da descrição do nascimento. segurava nas mãos o evangelho segundo jesus cristo de saramago. ninguém humanizou a figura de cristo como saramago o fez ao descrever o seu nascimento. fica, em nós, preso. o gesto e a imagem. estava sentado num banco de ferro que sustentava a minha espera entre aulas. chegou o intervalo sem eu dar por isso. o hábito da leitura é algo que serve de exemplo. gosto que os alunos me vejam a ler. e gosto de ler. por isso reservo para os tempos de espera essa desculpa. e sempre tenho assunto para conversar se algum me aborda. foi o caso. o bando dos cinco, como lhes chamava para má fortuna deles que achavam que bando era ofensivo. a beatriz era uma do bando dos cinco. por isso eram seis. eram cinco com a beatriz mais um que não era do bando mas era o namorado da beatriz. seis, portanto. ao chegaram perto de mim vinham só cinco. olá professor, que faz? leio. ya, isso nós vemos. o quê? um livro de saramago. o professor só lê secas. pois... é da idade. devia era ler o harry potter. esses já li. todos. todos? sim. eu vi os filmes. pois, não é a mesma coisa. não? não. então beatriz e o tiago? [saiu-me]. não sei professor. eles acabaram a relação, disse logo a rita. acabaram o quê, perguntei eu em jeito de dúvida sobre uma só palavra. acabaram professor. ok. andavam e acabaram. essa do andar é do meu tempo também. deixámos de namorar para andar. e agora de andar para ter relações. não, não é das sexuais embora possa ser. são relações. como os adultos. e a conversa decorreu sobre os motivos do "fim" e coisas que tais. que os homens são todos iguais. que o "divórcio" ia ser doloroso. sobre a vingança nas redes sociais [coisa que não havia no meu tempo, só mesmo a má língua entre amigos]. e pensei na pornografia de tudo aquilo. como se tudo fosse pornograficamente obsceno. não o namoro e coisas que tais. a "adultez" de tudo aquilo. disse uma vez que no dia em que me obrigassem a dar aulas sobre educação sexual me demitia por falta de preparação. numa conversa de dez minutos tive ainda mais essa certeza. é preciso preparação. o que dizemos pode ser reflexo da nossa vivência pessoal e não de uma resposta esclarecida. mas nada disso importava ali. era o discurso. adulto demais para miúdos. para um bando de miúdos. a "relação" é uma actividade. como o inglês. uma coisa que se faz. como os adultos fazem. e fazem tão mal. e tudo é replicado. assustadoramente. o fim da relação tem o drama do divorcio espelhado. a vingança é mais bruta. mais pública. partilhada em mundos virtuais para além dos reais. e não estamos, nós professores, preparados para isto. defendo sempre que o professor não é amigo. nem companheiro. nem confidente. é muito mais do que isso tudo junto. é professor e esse espaço de confiança é determinante para a construção de relações de identidade e referência. mas o que me assusta mesmo é a incapacidade deles, dos miúdos, em não serem adultos. em não replicarem o que vão vendo e vivendo. em abdicarem dessas referências, e muito mais nas relações humanas, para serem simples, jovens, curiosos e melhores do que nós que estragamos a vida com coisas a mais em vidas a menos. disse-lhes qualquer coisa. que estas coisas são importantes mas não são relações. são namoros. e dei uma mini aula sobre o namoro. e da importância da palavra. e como era divertido. desde o código do leque na época moderna ao namoro dos anos trinta e quarenta do século vinte. e lá fomos rindo. e sorrindo. e desconstruindo isto tudo que de tão adulto se torna, simplesmente, obsceno. e quando terminámos uma conversa divertida fechei o livro e pensei. andamos mesmo a roubar a possibilidade de estes miúdos serem crianças. terem esse tempo. serem essa coisa livre e imaginada. e isso é o que custa mais no meio de tudo isto...

02/06/2014

||| sim, ainda é verdade...

 
||| ... dois mil e dez. a joana era minha aluna do sexto ano. era daquelas miúdas caladas mas curiosas. de pergunta fácil e olhar desprendido. e há dias lembrei-me dela. e hoje também. por uma simples razão. fui fazer uma daquelas compras do dia-a-dia que qualquer professor faz porque também se alimenta mesmo que os nossos alunos achem que vivemos na escola. e uma senhora, de idade entre os trinta e os quarenta, disse: boa tarde. pode dizer-me o preço disto? respondi prontamente: dois euros e trinta. obrigado. e é para crianças? sim, diz aqui que sim. desculpe é que não sei ler. não faz mal. e fui ajudando a senhora. este episódio que parece estranho não é. lembro-me dos números. em dois mil e onze cinco virgula dois porcento dos portugueses eram analfabetos. se fosse um partido político tinha mais votos que o bloco de esquerda nas eleições europeias passadas. e isto fez-me lembrar a joana. lembro-me bem de pedir uma autorização para assinar. por causa de uma visita de estudo. e nunca mais chegava. nunca mais vinha o papel. chegou depois com uma dedada. não questionei. ofereci-me. fui, durante um ano lectivo à junta de freguesia ensinar a ler e a escrever mesmo não tendo autorização ou formação para isso. foi das experiências mais ricas que vivi profissionalmente. mas não vemos isso. hoje, na escola, já nem vemos os pais, muitas vezes. as inscrições são feitas "on-line" mesmo que muitos destes pais sejam parte dos cinquenta por cento da população sem domínio das tecnologias digitais. e afastamos a escola de todos por tudo isto. porque nos esquecemos da realidade em que estamos envolvidos. um mestre que tive disse-me uma vez: a geração que ensinas saberá sempre mais do que a que a fez nascer. e penso muitas vezes nisto. que quem está em casa, muitas vezes, sabe "menos" do que aqueles miúdos. ainda. e neste nosso país isso é uma realidade constante. e quando ditamos regras, normas, processos, orientações. quando falamos a língua da escola, quando desdobramos as palavras nos recados que enviamos aos educadores, não nos podemos esquecer disto. seja qual for o contexto. mesmo que a realidade seja a contrária desta. a língua que falamos não é a nossa. é a comum. a da educação. e isto é preciso ensinar. ver. analisar. perceber. corremos o risco de transformar a escola numa ilha, se assim for. cada vez mais.

||| leituras [im]perfeitas...


||| música [im]perfeita...


||| do caos e do medo...

 
||| ... somos os piores inimigos de nós mesmos. mais papistas que o papa. de um exigência desconfiada. de uma incompreensão extrema. queremos mais evidências do que a realidade. não admitimos abstrações. destruímos as relações humanas para as encher de registos técnicos. não somos melhores por isso mas queremos parecer muito mais eficientes assim. renomeamos as coisas com termos estúpidos e confusos para parecerem inacessíveis. mesmo a nós mesmos. dizemos que se assim não for as consequências serão terríveis. os processos. e falamos de histórias que aconteceram aos outros mesmo não tendo acontecido ou sendo ouvidas numa terceira ou quarta versão. habitamos o medo. criamos o sistema. fazemos dele ainda mais sistema do que é. complicamos o complicado. cercamos tudo e todos de regras, normas e orientações. gastamos papel a mais. ou mais papel. ou mais emails. ou por qualquer outra forma para informar. que não é informar. é dizer. que não é dizer. é mandar. criamos hierarquias que nos dividem. ainda mais. assumimos que não queremos o poder, por muito pequeno que seja, mas tendo-o não abdicamos dele e somos reis e senhores de coisa nenhuma mas parecendo tudo muito mais do que é. criamos inimizades mesmo sendo muito poucos. desconfiamos. sempre. voltamos a instaurar o medo. é assim porque tem que ser assim. não acreditamos nos sucessos. temos sempre fórmulas. ou dúvidas. não pode ser possível que eles [os miúdos] sejam bons com outros se não o são connosco. temos sempre medo que nos coloquem em causa. registamos tudo por medo e não por observação. somos invejosos. não vamos às coisas feitas uns pelos outros. ou se vamos é porque somos convocados. habitamos a ausência de vontade. porque criamos tudo isto. ou alguns criam tudo isto e outros habitam tudo isto. e há uns que querem romper tudo isto. desses desconfiamos ainda mais pois perturbam a ordem. as coisas sempre foram assim. assim estão bem. há o medo que controla tudo. mesmo que tudo seja um caos tremendo que neste final de ano lectivo se acumula em trabalho e mais trabalho e mais trabalho e mais trabalho onde os miúdos aparecem em último plano. e pior do que os que querem romper com a ordem são mesmo aqueles que resistem. é que há sempre alguém que resiste. a esses é preciso ainda meter mais medo. ou um processo. para os afastar. para os calar. mas, raios, resistem ainda. e mais. somos os nossos piores inimigos. nós, professores. num sistema que é governado pelo caos e pelo medo. e não vemos porque não queremos ver. ou vemos e não resistimos. e não deixamos de pensar nisto. mesmo que seja calados...