07/07/2014

||| leituras [im]perfeitas...


||| música [im]perfeita...

||| cinco aulas para prevenir...


||| ... para terminar um conjunto de "pensamentos absurdos" sobre a questão da indisciplina partilho aqui uma visão prática para as primeiro cinco aulas. é coisa que uso. com adaptações, claro, mas geralmente com a mesma lógica sequencial e temática. ao longo dos anos foi um dos elementos que tenho mantido na minha prática. não são boas ou más estratégias. nem isso são. são coisas que faço. nada mais. nem sei se podem ser replicadas. mas podem, como acho que todos devemos fazer, podem ser partilhadas...

... como tenho a sorte [ou o azar] de nunca ter estado numa escola mais do que um ano fruto de um sistema de colocações e coisas que tais que me impele a isso parto sempre da lógica de: ano novo/turmas novas. 

... aula um // apresentação. raramente apresento conteúdos ou regras. uma folha em branco distribuída a cada aluno. e o pedido para escreverem ou fazerem naquela/daquela folha o que desejarem desde que os represente. já tive de tudo. de textos de página completa até a folha rasgada em pedaços e assim apresentada no final do desafio. esta abordagem permite-me fazer sempre uma leitura do que me espera. aluno a aluno. é totalmente livre e descomprometida. um regra é estabelecida em conversa aberta e franca: o respeito. a linha inultrapassável ao longo do tempo de trabalho que ali começa. não é uma regra imposta. é de definição. um compromisso sem negociação. é o limite. o resto é mesmo só uma conversa. no bom e velho sentido do termo. uma conversa de abertura para um ano de trabalho em conjunto.

... aula dois // diagnóstico. não. nunca faço testes diagnósticos. ou coisas parecidas. logo aí começa o meu conflito com as regras dos "departamentos" mas isso são outros mil. é um diagnóstico à capacidade de trabalho individual e do grau de "coerência" da turma/grupos de trabalho. isto é, com um desafio inicial, individual, testo a capacidade de resposta dos alunos a nível individual. geralmente faço-o com uma caminhada exterior. ao património local. nessa caminhada faço os três testes que preciso para poder construir desafios que se enquadrem naqueles miúdos. uma análise individual é feita pela desafio pergunta-resposta [oral e escrita] sob forma de romance "a la dan brown". depois, o desafio de grupo. dar a possibilidade de criação livre de grupos é perceber imediatamente as relações pré-estabelecidas. pode ser a criação de um mural num determinado local pré-escolhido e pré-preparado. por grupo e em grupo. feita esta análise tratamos da relação da turma consigo mesma. se tem identidade, cooperação ou estrutura. isso é feito com o processo de decisão por unanimidade de qual é o melhor trabalho no final da aula. uma decisão por votação de "braço no ar" depois de discussão plenária. tudo isto corre [dependendo naturalmente das turmas e dos miúdos] geralmente numa espécie de dúvida/confusão. o que é bom, para mim, que estou a analisar tudo. feito isto registo estes elementos que não são estanques e são apenas um ponto de partida para o trabalho que terei que fazer nas aulas seguintes. este "teste" que passará a "monitorização" será necessária repetir em momentos seguintes no decurso do ano lectivo.

... aula três // construção. geralmente é nesta aula ou na seguinte que surgem os conflitos mais fortes. é simples, a não determinação das regras permite-o. resta só o respeito. então é preciso isso mesmo. construir uma turma para aquela disciplina. no meu caso, história, geralmente. construir uma turma passa por "gastar" uma ou mais aulas para o fazer. esta é a primeira. e a primeira é um desafio colectivo de construção de um projecto para um ano lectivo. geralmente levo cinco tema: ajuda, acolhimento, mudança, superação ou invenção. daqui eles podem criar o que quiserem. e "perdemos" uma aula nisto. a definir papeis depois de escolhido o tema. nada está ligada ao programa a cumprir. é um elemento extra. é um projecto. em que a turma se envolve e em que cada um terá um papel. e será guardado sempre tempo para isso. não são projectos teóricos ou temáticos. são acções colectivas. a história serve só de desculpa. pode ir de "reinventar" a porta a apoiar uma associação. pode ir de preparar uma exposição a organizar uma conferência. pode ser tudo. é uma rede, como lhe chamo. que liga. que permite a construção de identidade. e é um desafio feito por período lectivo. um para cada período pois permite a mutação de interesses e a evolução que acompanha a evolução de construção da "turma".

... aula quatro // identidade. esta é a aula do primeiro desafio individual depois de definido o colectivo. geralmente escrevo no quadro. "o tema será: ele é bom/ela é boa". também, geralmente esse é o tema do primeiro período. depois seguem-se outros. basicamente os miúdos terão que escolher uma personagem (histórica ou historicamente contemporânea) de quem são fãs. e saber tudo o que há a saber sobre essa mesma figura. o desafio consiste em apresentar esse trabalho, no final do período [a valer muito no peso final da nota - digo sempre em brincadeira séria], mas de todas as formas possíveis e que consigam imaginar mas sem ser um trabalho escrito. todas as formas são possíveis menos escrita. mas há aqui uma regra que cumpro sempre. esta será a única aula em que falarei nisto e neste trabalho. esclareço todas as dúvidas e nunca mais [re]lembro os alunos. geralmente o que acontece é que no final do período um deles lembra-se que há este trabalho para fazer e lá vai uma corrida para o cumprir. mas é assumir a questão de confiança e responsabilidade, assim como, de autonomia. assim será sempre em qualquer trabalho e essa percepção começa aqui. o meu papel como professor não é ser "lembrete" como lhes digo muitas vezes. a responsabilidade começa aqui e tem que ser ensinada em momentos como este.

... aula cinco // atenção. a última das cinco aulas que "gasto" nestas actividades que me ajudam a "gerir" e criar uma relação com a turma e cada um dos miúdos é, geralmente, "gasta" no não fazer nada. vai parecer altamente estranho mas é mesmo isso. geralmente "entrego-lhes" o desafio de criarem aquela aula. que pode ir de uma caminhada a uma conversa. mas que tem sempre um exercício inicial. os primeiros cinco minutos são de leitura de um texto. tenho duas versões para este momento inicial. ou escolho um livro [geralmente o "as aventuras de huckleberry finn"] que nos vai acompanhar até ao fim do ano. ou textos soltos. cinco minutos em que os miúdos estão em silêncio. a ouvir. às vezes desafios para posições curiosas. de olhos fechados. em cima das cadeiras. de costas uns para os outros. dependente dos textos e da forma dos mesmos. ao longo do ano as aulas terão momentos destes. em que eles, comigo, vão trabalhar a concentração/atenção. e com esta aula terminam as aulas de trabalho de construção do que será um percurso a criar ao longo do ano lectivo. fica a ideia. somente isso. 

04/07/2014

||| palavras [im]perfeitas...

al berto

||| da beleza da escola...


||| ... sentei-me, por uns minutos, no degrau da entrada de uma escola. pensei. das poucas coisas que me restam do que gosto de fazer esta é a que gosto mais. pensar. olhei para tudo aquilo. há uma beleza na escola que não há em mais lado nenhum. a certeza que ali habitam pessoas. que uma escola é feita sempre e só de pessoas. o resto é uma construção de cimento que podia ser outra coisa qualquer. e depois os que entram e os que vão saindo. todos os anos vão saindo centenas. o futuro pertence a quem o desafiar, penso sempre. uns serão pensadores. outros fazedores. outros vão ganhar forma de ser gente fora da escola. a nenhum consigo adivinhar o futuro. talvez a um ou a outro. um palpite, apenas. já muitos me saíram completamente furados. talvez um dia algum venha ter comigo e diga que se lembra de mim, que fui seu professor, um dia. e da escola. a escola será sempre a nossa escola. a deles. estudei aqui quando era pequeno, vão dizer um dia ao passar. e vão dizer a alguém. a outro alguém que tem outra escola como sua. poucos espaços conservam em si esta beleza maior. de serem nossos. a escola será sempre a nossa escola. uma pertença. inesquecível. e nisso reside toda a beleza do mundo. desse mundo inteiro que é só o local onde aprendemos a ser gente...

||| leituras [im]perfeitas...


||| música [im]perfeita...

||| da indisciplina ... nove de nove...


||| ... para terminar esta reflexão mais ou menos conseguida sobre a questão da indisciplina surge a necessidade de fazer uma explicação complementar. considero um acto indisciplinado aquele que quebra uma ordem instituída e apropriada por todos no contexto de uma relação pedagógica estabelecida com base em regras úteis e necessárias. não entra aqui o conceito de "má-educação" ou de "mau comportamento". explico a razão. a má-educação ou mau comportamento são frutos de uma educação primária. isto é, dada em contexto exterior à escola. são um espelho e não uma identidade. gerir esses comportamentos, geralmente materializados em acções é algo que envolve mais do que a relação pedagógica. envolve uma determinação de acção para a cidadania. envolve mais do que um professor e um aluno. envolve educadores e a comunidade escolar como um todo. é por isso que limito aqui a indisciplina nesta relação de um para um. de professor para aluno. ou de um para muitos. de professor para alunos e de alunos entre si, assim como, de alunos para com o seu professor. foi nesse sentido que escrevi estes nove pontos de análise e não qualquer outro mais alargado. é nesse sentido que estabeleço estes últimos três olhares.

... numa sociedade em profunda mutação como a nossa, embora lenta e urgente, deparo-me muitas vezes com "utilizadores" do espaço escolar em segunda geração. passo a explicar. muitos dos educadores [envolvo aqui pais e todos os outros agentes "familiares"] foram uma primeira geração que tiveram acesso à escola. a escola para uma elite burguesa ou de burguesia tradicional existiu durante um tempo histórico e este acesso é aberto muito mais recentemente do que se pensa. a escola inclusiva é o seu expoente máximo e com ela novas necessidades emergem. novos campos de actuação. novos lugares desconhecidos. e ainda bem...

... sete. coerência/consistência // um dos principais factores para a determinação das regras que dão ordem num contexto de aprendizagem é mesmo esta da coerência de actuação e da consistência dos actos. isso passa por algumas coisas muito simples mas por isso mesmo esquecidas muitas vezes que se revelam determinantes para alunos e professores. a coerência de actuação é uma realidade urgente. muitos professores defendem actuações concertadas. iguais. não penso que seja por ai. penso antes que a coerência de actuação deve ser dividida em dois níveis: geral e concreta. até aqui é óbvio. o que quero dizer é que a coerência de actuação perante actos de indisciplina deve ser tomado por todos os professores como um modelo. outra coisa é a actuação de coerência concreta que diz respeito ao modo, forma e espirito que cada professor, de acordo com a sua personalidade pode revestir essas práticas e as suas práticas pedagógicas. deve existir uma coerência partilhada e evidente sendo possível que esta se manifeste em diferentes formas de acção e/ou comunicação. outra coisa é a consistência. falo aqui num misto de interpretação entre a estabilidade, a firmeza e o estabelecimento. neste campo não é dos professores que se espera essa consistência embora tal tenha que existir. é dos alunos. é transferir para eles, tendo eles a noção da coerência de actuação dos seus professores essa estabilidade de actuação, essa firmeza de acto e esse estabelecimento de limites que urge criar. quando um professos, consistentemente, espera algo dos seus alunos e age em conformidade e coerentemente há uma ordem estabelecida que, aceite por todos, permite uma consciencialização para o trabalho que raramente se quebra. tenho essa experiência pessoal de vários anos com turmas ditas impossíveis. digo quase sempre que estes são os passos mais complexos de dar mas também os mais importantes. criar coerência e esperar consistência. esta combinação leva a que os alunos encontrem uma lógica inerente ao trabalho necessário. e vejam que as regras, mesmo que sejam só regras simples, se encaixam nessa lógica. muitas vezes saltamos este universo por ser demasiado difícil de criar. mas sem ele, o castelo da ordem é frágil e facilmente se desfaz. "penso eu de que..."

... oito. apropriação/partilha // na era das "redes sociais" e da "partilha" de tudo e mais alguma coisa os alunos, na sua maioria, ainda estão longe de transformar práticas racionalizadas em actos concretos. em primeiro lugar porque, como referi ontem, a questão da identidade é urgente. dar à escola um sentido, uma identidade, dar a cada espaço disciplinar essa mesma identidade é um percurso que é necessário resgatar. não é óbvio hoje que a escola seja útil. como não é óbvio o benefício, lógica e aculturação possível em cada área disciplinar. como não é lógico ou óbvio que haja necessidade de partilha de conhecimento ou de apropriação da utilidade dos mesmo num tempo e num espaço como aquele que é vivido e passado na escola. muitos os actos de quebra da ordem, representações da indisciplina vivida são afrontas a esta realidade. a transposição de comportamentos exteriores à escola num espaço que tem as suas regras leva a isso. e muitas vezes é só isto. essa transposição clara e linear de um tipo de comportamento de um tipo de vivência/aculturação, para outro, neste caso, a escola. a afronta é tida como "má-educação" quando representada neste desajuste de realidades. ofensa mesmo. porque o é. porque o é intencionalmente ou não, é. é um comportamento ofensivo e desviante. a razão? muitas vezes só uma. falta da apropriação da identidade do local onde ocorre e das regras que deviam ser conscientes. essa identidade é fundamental. repetimos vezes sem conta: estás na escola não estás no café. mas o café também tem as suas regras. e muitas vezes uma identidade mais construída do que a escola. e isso falta. no contexto educativo isso é construído por dois elementos: as regras necessárias [que já falei anteriormente] e a partilha. a partilha é a rede que tece as ligações entre todos os elementos de uma comunidade escolar. a necessidade do outro como agente para a aprendizagem ou simplesmente para a convivência. e isso está por fazer pelos alunos. pelas famílias [pelos educadores] e pela escola. reconstruir a identidade através das redes de partilha é um passo fundamental. "penso eu de que..."

... nove. significado/sentido // este é o último dos nove pontos que me lembrei de pensar. não há nenhuma ordem neles ou hierarquia. podiam ser muitos mais como necessariamente serão para uma análise maior. mas não era isso que queria fazer aqui. era só pensar nestes. nove. e foram nove como podiam ter sido menos ou mais. o acaso aqui é rei e senhor. e a [i]lógica disto tudo também. são só reflexões para um significado. e é esse significado que penso contribuir para muitos actos de indisciplina. ou a sua ausência, melhor dizendo. com programas impossíveis, turmas "super-dimensionadas", menos recursos [de todo o tipo], o sentido dado à escola e o significado de cada aprendizagem tem que valer no seu contexto. pelo desafio interno. mais do que qualquer fundamento anteriormente válido: tens que estudar para seres alguém ou para arranjares trabalho. a escola, alunos e professores precisam urgentemente de definir esta utilidade significativa para as aprendizagens no interior da escola. e dar esse sentido a tudo o que se aprende, desafia e cria. utilizar todos os espaços da escola, dinamizar a escola como organização, promover a lógica do trabalho para a resolução de problemas, pensar e fazer da escola um espaço de investigação, de criação, de praxis mais do que urgente permite dar esse sentido para envolver na construção da escola como lugar de estar e pertencer. e não são só os alunos. são todos os agentes da comunidade escolar. dar sentido permite minorar a indisciplina porque não se quebram as regras e a ordem sem um significado evolutivo maior. essa é a boa indisciplina. a evolução. a inovação. mas o caminho até lá chegar ainda é longo. ainda está por fazer este "combate" à indisciplina pura e dura. mas nenhuma organização como a escola tem a capacidade, competência e o saber para transformar tudo isto num instante. basta querer. ou melhor. basta começar. "penso eu de que..."

... no próximo texto indicarei a forma como coloco em prática, nas primeiras cinco aulas, esta visão para um trabalho contínuo e continuado em contexto de sala de aula.

03/07/2014

||| listas, cliques e coisas que tais...


||| ... [listas, aqui] ...um eterno retorno. às listas provisórias e definitivas. a concursos onde o sistema procura pessoas para "suprir" necessidades "permanentes" e "temporárias" do próprio sistema, temporário ele todo com laivos de desejo de permanência. e depois para umas dezenas de milhar abrem uma duas mil vagas. e depois o resto fica a aguardar. em suspenso. quando termina este contrato e não se sabe se começa o outro. e surgem portas travessas no sistema. abrem as autonomias. abrem as escolas de intervenção prioritária. que podem escolher, antes. a que podem concorrer, antes, todos. todos não. só aqueles que esperam. desejam. anseiam por trabalhar novamente, para o ano, numa escola. aqueles que o sistema criou. às dezenas e centenas de milhar. dizendo que eram precisos, numa fase. dizendo que eram necessários. aqueles que até já serviram o sistema anos a fio. para aqueles espaços de tempo dito temporários que só o são por serem mais baratos para o custo global da coisa. e inventaram-se estratégias de tornar tudo ainda mais kafkiano. com uma alarve proposta de avaliação que subverte tudo. mais uns pontos para somar e alterar tudo se for preciso. pedida, a avaliação, e ganhos os pontos, saltamos números. por cima de outros. à volta de outros. subjugando as regras em que o sistema disse para acreditarmos. e tudo isto em click's. numa página. todo o sistema ali, claro, à nossa frente. em que numa lista o número aparece antes do nome. em que vamos espreitar para ver se subimos uns pontos. ou descemos. ou estamos no mesmo lugar. aprendemos os nomes antes e depois. palavras que deixaram de ser nomes. os antes e os depois. já os conhecemos pelo nome sem os conhecer de outro modo. a lista, infindável. a lista representa a esperança. e o trabalho. e anos de um aprender constante. e a vida. inteira. ali. naqueles números. e isto, ano após ano. num eterno retorno. com mais ou menos manipulações de quem olha para isto como uma boa fórmula de gestão de recursos humanos. e o que eu vejo, em cada lista. são sempre pessoas. professores, todos eles. como eu. anos, após anos, nisto...

||| palavras [im]perfeitas...

tolentino mendonça

||| comparar ou não comparar, eis a questão...


||| ... todos os anos a mesma discussão. e ainda bem. mantenho a minha ideia. cunhal era assim. para uns teimoso. para outros determinado. para outros coerente. eu não sou nenhuma destas coisas. mas esta é a minha ideia. a minha forma de ver a coisa. ó colega, mas assim é injusto para os outros! pode até ser. mas cada miúdo é um miúdo. e a comparação é algo que dilui o "conseguido" no "geral/médio". passo a explicar. a avaliação que faço aos meus alunos nunca é comparativa. isto é, nunca comparo o zé com a maria ou a maria com o rodrigo quando vou dar uma nota. comparo sim, dentro do percurso feito pelo zé, a maria, o rodrigo por eles próprios individualmente. tem-me dado grandes dores de cabeça e discussões esta visão. porque o miúdo pode ser bom mas comparado com a "outra/o" que tem melhor nota não é. mas qual comparar! a única coisa que tenho que comparar é com o percurso individual. e lá vem o argumento que é a turma. a justiça/injustiça. e depois atiro eu com o exame. pois e no exame? comparam? uns com os outros? ou aquela nota vale pelo trabalho/resposta daquele aluno? e quase arrumo a coisa com a própria lógica do sistema. se o sistema diz que cada um vale por si eu detesto esta ideia. defendo o contrário. que cada um tem capacidade próprias, competências próprias, aprendizagens próprias que devem ser reconhecidas e valorizadas como tal. no todo. mas reconhecendo o valor de cada um no seu percurso e não o diluindo num valor médio que só serve a estatística. e sei que esta discussão me vai acompanhar até ao fim dos meus dias como professor. é mal meu. doença de tratamento difícil. loucura ou insanidade. mas pronto. para mim cada miúdo é um mundo em si mesmo. não é uma média...

||| leituras [im]perfeitas...



||| música [im]perfeita...

||| da indisciplina... seis de nove...


||| ... a visão que estou a tentar analisar neste decompor da indisciplina é preventiva. raramente penso de outra forma. os factores determinantes para evitar esse limite que é a quebra da ordem pelo incumprimento da regra. em nenhum caso estamos num acto fortuito de julgamento ou simplificação. é só uma reflexão sempre com estes roteiros de pensamento muito presentes.

... não tomar nada como adquirido é um dos princípios básicos desta reflexão. assim o é na lógica de transmutação das ideias básicas que temos como asseguradas pelas diferentes visões e perspectivas sobre o universo educativo e teorias a estas associadas. aqui, espero, tento fazer também a desconstrução das mesmas numa lógica de ponto médio. de encontrar essa lógica média para uma visão mais alargada partindo do "terreno" para a reflexão.

... quatro: a dispersão // sempre, na escola, houve lugar à dispersão por parte dos alunos. negar esse facto é não ter uma visão global do que é um espaço onde a juventude habita. conceito este, de juventude, levada no que o século vinte lhe foi trazendo como caracterização. a dispersão alargou-se, dizem uns. por via das novas tecnologias. telemóveis, internet, redes sociais, actividades paralelas à escola. tudo a contribuir para a dispersão. principalmente da informação. e principalmente das relações directas tidas como "naturais" no contexto de escola. ligação directa - professor/aluno e aluno/aluno. há aqui dois factores que devo referenciar como alvo de reflexão. em primeiro lugar o adquirido que ontem falava. não podemos ter como adquirido que todos os alunos conseguem o mesmo grau de acesso a esses factores. não é assim, e não é essa a realidade. há diferenciação social, também aqui. e por outro lado o acesso à informação não é sinónimo de acesso ao conhecimento. este ponto de fuga é fundamental para a reflexão sobre esta ideia de dispersão que muitas vezes gera, em ambas as partes: professor e aluno, uma ideia de quebra da ordem. ordem essa em que o professor é o detentor da informação promotora do conhecimento e o aluno é visto como o "aprendiz". não há, aqui quebra nenhuma se a lógica de trabalho for alargada. isto é, se for possível considerar que a construção do conhecimento parte da informação e a informação por si só é apenas motor e combustível para esse conhecimento. estes factores são, de facto, recentes. e claro que as tecnologias da comunicação e informação e a mobilidade das mesmas trouxe para a sala de aula e para a escola uma nova realidade. acima de tudo a rapidez e disponibilidade do acesso. o que se confunde cada vez mais é mesmo isso: informação não é conhecimento. e acesso não quer dizer que se tenha domínio e técnica de análise dessa mesma informação. aqui nascem muitos dos conflitos que geram, muitas vezes, actos de indisciplina. quer pela dispersão natural do grau de imensidão da informação, quer pelo desvalorizar dessa mesma informação necessária para o conhecimento por estar sempre acessível. em alguns casos a articulação entre ambos os factores é determinante. é aqui que o efeito de gestão do conhecimento pode ter um papel determinante. "penso eu de que..."

... cinco: distracção // se uma coisa é a dispersão outra é a distracção. não são uma e a mesma coisa. nem parecidas. nem perto uma da outra estão. podemos pensar que a dispersão leva à distracção. mas o que leva à distracção é sempre a falta de capacidade de concentração e de foco. por muitos elementos de dispersão existentes com um bom domínio da capacidade de concentração, análise e focagem podemos dominar a dispersão e gerir a distracção. este é um daqueles factores que, como professores, muitas vezes temos como conseguidos à priori [falei disto ontem]. temos como adquirido, vezes demais, que os alunos aprenderam e treinaram a capacidade de concentração/atenção. isso raramente acontece. ver o aluno como estudante é uma coisa que acontece tarde. o estudante aprendeu e treinou a capacidade e as competências necessárias para estudar. isso não são coisas naturais. não "nascem" com "eles". devem e precisam ser trabalhadas. a curto, médio e longo prazo. em etapas concretas e com objectivos claros. e esquecemos isto. é verdade que isso é quase impossível com turmas gigantes. sim, é verdade. o que não quer dizer que não seja urgente pensar nisto. mais do que pensar criar estratégias para a determinação destes momentos para focagem e concentração. a distracção é natural em miúdos que, como estes neste tempo, nasceram cheios de apelativos desafios visuais, sociais e de consumo. mais quando os tempos são de exigência social. ou ao mesmo tempo de expectativa de futuro. ou ainda de "fama" imediata vendida a uma juventude que procura esse "aparecimento" a qualquer custo. à escola não deve caber a gestão da intervenção social. mas deve acompanhar a forma como gere a identidade social no seu contexto e a transforma para o futuro. esquecer a aprendizagem da concentração por existirem demasiados factores de distracção incontroláveis é meio caminho andado para estar a um passo do surgimento de casos ou atitudes de confronto muitas vezes tidas como indisciplina. "penso eu de que..."

... seis: identidade/referência // tomando como ponto de início para este item de análise tomemos este modelo social referido no ponto anterior. e num tempo em que o sistema considera cada vez mais o professor como um recurso humano temporário e substituível, a ideia de criar identidade/referência pode parecer um absurdo como elemento para a prevenção da indisciplina ou de atitudes tidas como tal. o mau comportamento e a má-educação são coisas que falarei no último texto. estou aqui a referenciar factores de indisciplina. e este parece-me fundamental. ao professor, nos tempos que correm, é pedido tudo e mais alguma coisa. e para além desse tudo e mais alguma coisa é ainda colocada uma carga burocrática acima da média que lhe retira tempo para o essencial. esta questão simples. simples mas determinante. se a função pedagógica for vista como uma tarefa ou conjunto de tarefas a cumprir facilmente esta identidade/referência se perde em miúdos cujas referências estão em constante mudança e questionamento. o professor como referência e a aula/disciplina como tendo uma identidade própria são urgentes e são elementos estruturantes para uma prevenção da quebra da ordem. passo a dissecar a coisa. um ano lectivo é composto por centenas de aulas. centenas/milhares de actividades pensadas pelo professor para os seus alunos. um programa para cumprir. regras para trabalho individual e colectivo. a turma como grupo. a somar a isto há a questão do que chamo identidade. dar uma identidade própria à disciplina/área temática e às aulas vistas como um percursos feito de desafios é essencial. dá segurança. cria lógica. permite aos alunos saberem com o que podem contar. o que podem esperar. e identificar-se com a lógica de trabalho. apropriar-se dos modelos. por existirem tantas disciplinas e tantos professores em vários ciclos esta noção permite conhecer e perceber as regras e a ordem. os limites de actuação disciplinada são claros para todos. até para o professor. a gestão das expectativas é assim passível de ser realidade de forma clara e precisa. a construção desta identidade/referência é feita ao longo do tempo. e permite, de forma muito simples, clarificar essa posição de cada um no dia-a-dia de trabalho. pode até incluir a surpresa ou a gestão dos objectivos por superação o que enriquece ainda mais esta realidade a ser vivida ao longo do tempo. "penso eu de que..."


02/07/2014

||| palavras [im]perfeitas...

sophia

||| da indisciplina... três de nove...


||| ... de tanta coisa já escrita e dita sobre a indisciplina nos últimos tempos decidi juntar mais umas coisas para complicar. durante três reflexões pequenas e desajustadas irei identificar nove pontos, dos cento e muitos possíveis, sobre essa coisa chamada indisciplina. farei depois um último com a prática que uso para a combater e que me "gasta" sempre cinco aulas no início do ano lectivo. por isso, aqui vai:

... não associo indisciplina a mau comportamento. ou má educação. são, para mim, tudo coisas diferentes. por isso, a visão que darei será com base nessa lógica de quebra das regras que quebram a ordem. esse é o factor a que chamo indisciplina. organizei a reflexão [ou como lhe queiram chamar] em três ordens: geral, alunos, comunidade escolar. aqui vão os três primeiros pontos de análise inicial:

... um: os "à priori" // quando começa o ano lectivo e nos é "atribuída" uma turma começa o desafio de perceber o que vamos encontrar. nas primeiras reuniões é-nos "descrita" a turma. caracterização, chamam-lhe. quando abrimos a porta para a primeira aula todos esses "pre-conceitos" recebidos numa qualquer reunião se confundem com aqueles rostos. junta-se o conhecermos ou não aqueles miúdos. mas junta-se ainda mais uma coisinha importante. é essa imagem, prévia, à priori, que construímos, quer queiramos, quer não, que aqueles miúdos já dominam as regras de convivência em comunidade, assim como, os princípios de educação para o estudo. ora é aqui que penso que tudo mudou nos últimos anos. a "travessia" de vários anos de escolaridade antes de nos "chegarem às mãos" não é garantia desse domínio das regras. pelo contrário, muitas vezes. esse nosso "dado por garantido" terá consequências em todo o desenvolver do comportamento em função dos nosso objectivos para a construção de uma aula ou sequência de aprendizagens. hoje, numa sociedade aberta e multicultural, assim como, como "multieducativa" ter a certeza desses domínios tem sido para mim um fracasso sempre que os considero como garantidos. e um dos pontos fracos da disciplina está nisto. em consideramos que todos os nossos alunos, naquela turma, dominam os princípios básicos de uma educação para o estudo. os desvios de atenção e comportamento são assim garantidos por não nos termos precavido para uma actuação preventiva. preparando o terreno para os hábitos necessários para uma aprendizagem em contexto e significativa. este primeiro passo de convergência de "por em comum" é fundamental para uma harmonia entre actuações no contexto de um trabalho conjunto entre professos e alunos, alunos e alunos e alunos e professor com a turma enquanto grupo. "penso eu de que...".

... dois: as regras // de sempre, a necessidade de regras. o que acontece é a imposição. não a necessidade. as regras estão lá. todas. no dito: estatuto do aluno. no dito: regulamento da escola. e os miúdos levam, geralmente uma "ensaboadela" de regras logo no início do ano lectivo que se estende por mais não sei quantos dias e horas e aulas numa repetição sem fim sempre que um acto indisciplinado acontece. do que desejo destacar aqui não são essas regras impostas. as meta-regras como lhes chamo para espanto de alguns porque são abstratas e universais e não precisas e necessárias como devem ser as regras de trabalho no contexto de uma aprendizagem escolar. as regras necessárias não são só definidas pelo professor. são definidas pelas necessidades de persecução de um objectivo de aprendizagem, isto é, são evidentes para que se consiga o resultado de um desafio proposto. são criadas aula a aula. e são como as regras de um jogo. claras, precisas, simples e orientadoras. não são punitivas. são normativas. em cada aula, em função da metodologia a aplicar, da actividade ou do recurso, há regras necessárias, que são evidentes pois permitem a realização do que é proposto. e muitas vezes nos esquecemos disso. de que temos que evidenciar colocar em comum essas regras necessárias. rapidamente, em função de um comportamento desviante, recorremos às outras. às que estão no regulamento ou no estatuto ou em qualquer outro lado. como punição. como aviso. mas as regras que foram quebradas, antes dessas, foram as de necessidade. as que permitiam o cumprimento da actividade. e é por isso que antes de qualquer outra coisa é preciso torna claras, necessárias e precisas, assim como e fundamentalmente, apropriadas por cada um e por todo a urgência dessa necessidade das regras construídas em função da aprendizagem desejada mais do que as outras que pairam no limbo servindo a todos e a ninguém. " penso eu de que..."

... três: os programas // este é daqueles pontos que é mais difícil de "dominar". depende, em parte, da vontade política e da qualidade do trabalho das equipas criadoras dos programas. a verdade é que [e no caso que me toca que é a história] os programas na sua maioria são demasiado extensos. a liberdade criativa para novas abordagem pedagógicas fica reduzida a muito poucas aulas ou simplesmente a um experiência pontual. a habituação a um modelo de aula torna a rotina num lugar comum para todos. não é só para os alunos. é também e principalmente para o professor que se vê forçado a "correr" para cumprir um programa. o desafiante para qualquer professor é sempre poder criar uma aula. preparar, inquietar-se, ponderar e fazer um desafio a si mesmo e aos seus alunos. cada vez isto está mais reduzido por existirem exames, testes intermédios e uma lógica de escola "produtiva" que tem como fundamental objectivo esta linha de avaliação final por ciclo ou por percurso que se resumo na reprodução do conhecimento em vez de uma análise e transformação do mesmo em aprendizagem de médio e longo prazo. nesta dualidade entre a necessidade de novas abordagens pedagógicas e o cumprimento de uma linha "politicamente estabelecida" está um parte do desafio maior para o "combate" aos comportamentos ditos de indisciplina. é que o reconhecimento da falência de muitos dos programas e modelos é evidente para todos. isso torna o desafio ainda maior. como transformar esta realidade em algo que envolva professores e alunos numa linha de trabalho comum que os "prenda" no sentido de construção da aprendizagem significativa? muitas vezes passa pela integraçãod e projectos paralelos ao tempo de aula ou simplesmente à construção de desafios on-going por período. mas acho mesmo que aqui é necessário mudar. em continuidade do adquirido mas mudar. transformar estes programas em algo possível de ser gerido pelo professor em função das turmas/alunos, assim como, desafiante para estes [não no conteúdo mas na potencialidade de abordagem do mesmo]. a isto voltarei mais tarde. "penso eu de que..."

||| leituras [im]perfeitas...


||| música [im]perfeita...

||| sobre o roubo da alegria, outra vez...


||| ... já escrevi aqui uma vez sobre isto. e recordei hoje um miúdo. o rodrigo. miúdo "popular" entre as suas hostes. um dia, sentados num degrau, perguntou-me: professor, a vida é só isto? teria ele uns quinze anos, dezasseis anos. e eu, na ponta média da vida, respondi a seco e urgentemente: não rodrigo, a vida é isto tudo e muito mais. ao voltar, todos os anos, a encontrar os "jovens" de hoje sinto uma perda cada vez maior da alegria. andam [como nós e como já escrevi aqui também uma vez] todos na demanda da felicidade. mas isso não interessa nada. interessa combater este cinzentismo que habita hoje nas rotinas sem sentido de uma vida e de uma escola cada vez mais centrada nos procedimentos e nos cumprimentos de objectivos. há mais vida para além das metas. e lembro-me bem que nesse ano, depois da conversa com o rodrigo, criei na escola para um grupo de miúdos o dia da caminhada. era um dia, depois das aulas, em que íamos passear. e fazer coisas improváveis. era uma escola no centro da cidade. cheia de horas para tudo e mais alguma coisa. mas aqueles dias eram diferentes. fomos pedir coisas a pessoas. para subir à torre da igreja lá no centro de uma praça que até eles e eu desconhecíamos. ver umas curtas a um cinema. fomos até a uma piscina desactivada fazer um grafitti com um artista que convidámos por email e aceitou a "transgressão" de ser acompanhado por uns dez miúdos e um professor. gostava que o rodrigo tivesse tido a resposta à sua pergunta. dada desta forma estranha. porque a escola tem que fazer sentido. tem que ter essa alegria que agora falta. para ser, antes de tudo o resto, um espaço que acolhe. abraça. que não rouba a alegria. pode parecer romântico. não é. é só uma constatação de facto. simples. 

01/07/2014

||| uma proposta demasiado inocente...


||| ... ó colega, mais vale lá ir para fora contar estrelas do que fazer isso... é impossível. isto foi há uns anos. nestas reuniões ditas de preparação para o ano lectivo que chegará. ideias, pediram. ideias, ou melhor, só uma ideia dei. para as "minhas" turmas mas que gostava de ver alargado numa lógica interdisciplinar [o que quer que seja que essa palavra ainda quer dizer de tão mal tratada que anda]. era só fazer um trabalho de investigação. palavra maldita. parecia que tinha dito um exorcismo colectivo ou um auto de fé em pleno recreio da escola. isso dá muito trabalho. ui. isso os miúdos não são capazes. eles nem escrever um texto são capazes. e pronto. o impossível estava criado. até eu ter dito alto aquela palavra era possível. depois, impossível. não por não ser possível, simplesmente, tornou-se por tanta justificação ou bloqueio criado. acabei por fazer com os miúdos. e com mais uns professores da turma de aderiam a uma espécie de insanidade que é colocar a investigação no centro do trabalho do professor e da escola. e lá se fez. e no final do ano submetemos "aquilo" a um concurso internacional e lá fomos ganhar a coisa. era um prémio e um dinheirinho para a escola. lá nos disseram que tinha corrido bem. mas assim um pouco a contragosto não fosse a ideia pegar. e hoje, passados quase uma dezena de anos dei a mesma ideia. a resposta: ó colega mais vale ir lá para fora contar estrelas do que fazer isso... é impossível. ainda bem. é sinal que se pode fazer. mas é também sinal que ainda está tudo por fazer. outra vez... maldita palavra esta da investigação num espaço chamado escola...