||| ... de tanta coisa já escrita e dita sobre a indisciplina nos últimos tempos decidi juntar mais umas coisas para complicar. durante três reflexões pequenas e desajustadas irei identificar nove pontos, dos cento e muitos possíveis, sobre essa coisa chamada indisciplina. farei depois um último com a prática que uso para a combater e que me "gasta" sempre cinco aulas no início do ano lectivo. por isso, aqui vai:
... não associo indisciplina a mau comportamento. ou má educação. são, para mim, tudo coisas diferentes. por isso, a visão que darei será com base nessa lógica de quebra das regras que quebram a ordem. esse é o factor a que chamo indisciplina. organizei a reflexão [ou como lhe queiram chamar] em três ordens: geral, alunos, comunidade escolar. aqui vão os três primeiros pontos de análise inicial:
... um: os "à priori" // quando começa o ano lectivo e nos é "atribuída" uma turma começa o desafio de perceber o que vamos encontrar. nas primeiras reuniões é-nos "descrita" a turma. caracterização, chamam-lhe. quando abrimos a porta para a primeira aula todos esses "pre-conceitos" recebidos numa qualquer reunião se confundem com aqueles rostos. junta-se o conhecermos ou não aqueles miúdos. mas junta-se ainda mais uma coisinha importante. é essa imagem, prévia, à priori, que construímos, quer queiramos, quer não, que aqueles miúdos já dominam as regras de convivência em comunidade, assim como, os princípios de educação para o estudo. ora é aqui que penso que tudo mudou nos últimos anos. a "travessia" de vários anos de escolaridade antes de nos "chegarem às mãos" não é garantia desse domínio das regras. pelo contrário, muitas vezes. esse nosso "dado por garantido" terá consequências em todo o desenvolver do comportamento em função dos nosso objectivos para a construção de uma aula ou sequência de aprendizagens. hoje, numa sociedade aberta e multicultural, assim como, como "multieducativa" ter a certeza desses domínios tem sido para mim um fracasso sempre que os considero como garantidos. e um dos pontos fracos da disciplina está nisto. em consideramos que todos os nossos alunos, naquela turma, dominam os princípios básicos de uma educação para o estudo. os desvios de atenção e comportamento são assim garantidos por não nos termos precavido para uma actuação preventiva. preparando o terreno para os hábitos necessários para uma aprendizagem em contexto e significativa. este primeiro passo de convergência de "por em comum" é fundamental para uma harmonia entre actuações no contexto de um trabalho conjunto entre professos e alunos, alunos e alunos e alunos e professor com a turma enquanto grupo. "penso eu de que...".
... dois: as regras // de sempre, a necessidade de regras. o que acontece é a imposição. não a necessidade. as regras estão lá. todas. no dito: estatuto do aluno. no dito: regulamento da escola. e os miúdos levam, geralmente uma "ensaboadela" de regras logo no início do ano lectivo que se estende por mais não sei quantos dias e horas e aulas numa repetição sem fim sempre que um acto indisciplinado acontece. do que desejo destacar aqui não são essas regras impostas. as meta-regras como lhes chamo para espanto de alguns porque são abstratas e universais e não precisas e necessárias como devem ser as regras de trabalho no contexto de uma aprendizagem escolar. as regras necessárias não são só definidas pelo professor. são definidas pelas necessidades de persecução de um objectivo de aprendizagem, isto é, são evidentes para que se consiga o resultado de um desafio proposto. são criadas aula a aula. e são como as regras de um jogo. claras, precisas, simples e orientadoras. não são punitivas. são normativas. em cada aula, em função da metodologia a aplicar, da actividade ou do recurso, há regras necessárias, que são evidentes pois permitem a realização do que é proposto. e muitas vezes nos esquecemos disso. de que temos que evidenciar colocar em comum essas regras necessárias. rapidamente, em função de um comportamento desviante, recorremos às outras. às que estão no regulamento ou no estatuto ou em qualquer outro lado. como punição. como aviso. mas as regras que foram quebradas, antes dessas, foram as de necessidade. as que permitiam o cumprimento da actividade. e é por isso que antes de qualquer outra coisa é preciso torna claras, necessárias e precisas, assim como e fundamentalmente, apropriadas por cada um e por todo a urgência dessa necessidade das regras construídas em função da aprendizagem desejada mais do que as outras que pairam no limbo servindo a todos e a ninguém. " penso eu de que..."
... três: os programas // este é daqueles pontos que é mais difícil de "dominar". depende, em parte, da vontade política e da qualidade do trabalho das equipas criadoras dos programas. a verdade é que [e no caso que me toca que é a história] os programas na sua maioria são demasiado extensos. a liberdade criativa para novas abordagem pedagógicas fica reduzida a muito poucas aulas ou simplesmente a um experiência pontual. a habituação a um modelo de aula torna a rotina num lugar comum para todos. não é só para os alunos. é também e principalmente para o professor que se vê forçado a "correr" para cumprir um programa. o desafiante para qualquer professor é sempre poder criar uma aula. preparar, inquietar-se, ponderar e fazer um desafio a si mesmo e aos seus alunos. cada vez isto está mais reduzido por existirem exames, testes intermédios e uma lógica de escola "produtiva" que tem como fundamental objectivo esta linha de avaliação final por ciclo ou por percurso que se resumo na reprodução do conhecimento em vez de uma análise e transformação do mesmo em aprendizagem de médio e longo prazo. nesta dualidade entre a necessidade de novas abordagens pedagógicas e o cumprimento de uma linha "politicamente estabelecida" está um parte do desafio maior para o "combate" aos comportamentos ditos de indisciplina. é que o reconhecimento da falência de muitos dos programas e modelos é evidente para todos. isso torna o desafio ainda maior. como transformar esta realidade em algo que envolva professores e alunos numa linha de trabalho comum que os "prenda" no sentido de construção da aprendizagem significativa? muitas vezes passa pela integraçãod e projectos paralelos ao tempo de aula ou simplesmente à construção de desafios on-going por período. mas acho mesmo que aqui é necessário mudar. em continuidade do adquirido mas mudar. transformar estes programas em algo possível de ser gerido pelo professor em função das turmas/alunos, assim como, desafiante para estes [não no conteúdo mas na potencialidade de abordagem do mesmo]. a isto voltarei mais tarde. "penso eu de que..."