22/07/2014

||| só me lembro de maquiavel...


"e aconteceu também com aqueles imperadores que, 
sendo homens comuns, pela corrupção dos soldados,
ascendiam à cabeça do império.
estes dependem inteiramente da vontade e da sorte
de quem lhes concedeu esse estatuto,
que são duas coisas muito volúveis e instáveis.
não sabem nem podem 
conservar esse estatuto. não sabem porque,
não são homens de grande engenho e capacidade, não é
razoável que, tendo vivido sempre como homens comuns
saibam comandar. não podem porque não têm forças
que lhes sejam dedicadas e fiéis."
o principe, maquiavel

||| ... tenho um hábito recente. sempre fui de ver pouca ou nenhuma televisão. nos últimos temos inverti esse sentido. um hábito criou-se. com um breve e curto pequeno-almoço espreito as notícias da manhã num telejornal matinal. e hoje era sobre a escola. e a prova. era uma espécie de "aguardar a catástrofe". e circulavam as imagens cruzando-se os portões de vários espaços escolares. uns atrás dos outros. com jornalistas a falarem com professores. vai fazer? vai entrar? e a espera era mesmo por um movimento mais brusco. uma palavra desafinada. e no meio de tudo aquilo reparei num conjunto de figuras vestidas com a farda policial. iam garantir a segurança. a ordem. nesse momento, como noutros, fiquei pensativo. estas imagens vão inundar a chamada "comunicação social" nas próximas horas. a escola cercada. guardada. dos seus guardiões. e tudo me pareceu tão surreal que só podia ser montagem. mas não era. era mesmo isto. sem conhecimento ou explicação os jornalistas falavam do que não sabiam. os professores acalorados por uma luta justa e por injustiças sucessivas levantavam a voz e procuravam conquistas. e tudo me pareceu tão estranho. como chegámos aqui? eu que sou professor e que sou um profundo defensor da desobediência civil sempre achei que quando é injusta a lei a única opção é desobedecer. e isso era esperado perante tanta coisa injusta criada nos últimos anos por um ministério que está a fazer explodir, por dentro, a educação. mas a desobediência deve ser poderosa na forma e espantosa na coerência. e a desinformação aqui é total. e por isso perigosa. ou muito bem feita por quem quer ver a escola a desaparecer. são uns contra os outros no mesmo sistema e a imagem que se quer criar é que os guardiões da escola são aqueles que não querem passar por uma avaliação. falta aqui uma imensa clarificação. o sistema tornou-se tão denso que não é fácil dizer: esta prova não serve para avaliar nada. porque ninguém hoje sabe o que faz um professor. para além de dar aulas isso não é claro. e por isso os julgamentos são simples de fazer. é aqui que tudo é maquiavélico. porque é cirúrgico. estratégico. é fácil desagregar uma imagem construída pela seriedade do trabalho que a maioria dos professor faz. é só filmar uma destas cenas criada para isso mesmo e a repetir sem fim durante um dia numa televisão qualquer. é também assim que se destrói a escola. e maquiavel tinha razão. muita razão. quando aqueles que chegam ao poder não conseguem ter a dignidade necessária para o cargo tudo corre como previsto. imperfeitamente. mal. de maldade. contra. e isso vai levar muito tempo a recuperar. que quem venha a seguir venha por bem. pois tem muito, mas muito trabalho para fazer...

21/07/2014

||| palavras [im]perfeitas...

cesariny

||| maldita prova dos nove ou da boca do inferno...


||| ... já muito se escreveu desde o momento em que o ministério da educação fez levantar dos mortos [qual lázaro] a prova para quem deseja um dia ser professor "de carreira" ou simplesmente sonhar em ter um qualquer lugar numa lista com o nome de "necessidades transitórias" ou similar porque até lá arranjam outro nome para a precariedade de tudo isto. e não vou entrar na análise que pacheco pereira [aqui] fez tão bem sobre a imoralidade da marcação "à socapa" da dita prova. nem coisa que o valha. os estratagemas só revelam o que sempre tive em mente. não é incompetência. é estratégia. sim, se muitos acham que tudo isto são erros atrás de erros ainda estão num estado de negação evidente. não, não são erros. é muito bem pensado. e é o que antigamente se chamava de cerco. fernando alves [aqui] lembrou a emboscada. embora ache o texto que ele lê como ninguém, brilhante, acho-o limitado neste conceito de emboscada. é mesmo um cerco. daqueles medievais. que dura há uns anos. que cerca toda a escola. e todos os que nela estão. dos directores aos professores, dos funcionários aos alunos. porque é persistente. medieval no pensamento e na brutalidade. desgastante mais do que abrupta. é desvirtuosa na forma e imoral no processo. é um ataque silencioso e estratégico. é muito bem pensado. ao contrário do que parece. é malévolo. e isso é que é preocupante. tem uma intenção. não é circunstancial. e a prova é quase a forma simples de dar um dos três golpes de morte. sim, num cerco há três objectivos fundamentais. desgastar. desmoralizar. destruir. qualquer versão barata da "arte da guerra" ensina isso. e estes três objectivos são concretizados e materializados em acções. primeiro há que "tratar" dos mais fracos. a prova toma conta disso. os professores que não são de "carreira", os chamados de "contratados" são um alvo fácil. e de desmoralização simples. basta retirar aquilo que lhes dá acesso ao sistema. a verdade da aprendizagem feita nesse mesmo sistema. e substituir isso por um instrumento controlável. que faça uns desistir. outros revoltarem-se. outros, simplesmente [e o mais importante, perderem a vontade de combater o sistema]. e quando tudo e todos pensavam que lázaro estava morto e enterrado eis que ele se ergue. surpreendentemente, dizem uns. só quem não percebe esta visão desonrada do "cerco" podia pensar que não viria ainda mais uma vez este momento único de "limpeza". é que há aqui uma coisa que falta. no século dezassete e dezoito a guerra ganhou uma nova leitura. era a nobreza do campo de batalha que espelhava o triunfo. e não a técnica ou a táctica. e isso foi algo que este ministério não aprendeu. ou nem deve saber o que é. a honra. a nobreza. porque estar na política assim não é um erro. é um desrespeito. é imoral. é uma desonra. porque isto não é gerir e já nem é mandar. é soberba. é falta de respeito. é um atentado. e quando as leis e as regras. e quando os actos e as fórmulas. e quando os feitos e as mostras são como o são neste caso, resta a quem serve este senhor fazer apenas uma coisa. resistir. desobedecer. e é assim que se ganham os cercos. resistir, sempre. desobedecer, cada vez mais. dizer não. e esperar. os senhores, como estes, acabam sempre por cair. mais tarde ou mais cedo. por uma simples razão. são senhores temporários. de um tempo que não é o seu. e assim, ninguém ganha e todos perdem. restam apenas aqueles que vão resistir mais uma vez. deles será sempre o futuro. quer queiram, quer não...

||| leituras [im]perfeitas...


||| música [im]perfeita...

||| olhar para as coisas sem as coisas serem só coisas...


||| ... estava aqui a pensar. estando sempre no sistema, dentro do mesmo, de uma forma ou de outra, nunca consigo um distanciamento claro. racional. e eu, anarquista racional, preciso desse distanciamento para perceber o que se passa. e olhando para as pautas dos exames nacionais parei por um pouco. fui espreitar os resultados nacionais. história, sempre a par com a matemática, faliu. sucumbiu à força do desgaste em virtude de muitas outras que subiram. adoro sempre esta análise como se tudo fosse um barómetro. subiu, desceu. manteve. e na semana antes tinha dito numa conversa paralela com outros professores que isto ia acontecer. que as "notas", iam subir. e até arrisquei que no caso de história iam descer. como o meu destino como professor está cada vez mais comprometido por um sistema que diz que não precisa de mim, estou a pensar ir para cartomante. com esta previsão [óbvia] até me saí bem. podia dizer até: eu tinha razão. mas não. a razão é tão clara que só não a vemos porque achamos que o sistema ainda tem qualquer pingo de respeito por quem, nas escolas, ainda ensina e ainda aprende. mas tal já nem é verdade. a parte do respeito. não é mesmo verdade. é um jogo. estranho e incompreensível por se tratar do futuro e não de uma eleição ou legitimação. lembro-me de uma excelente professorar da física que, um dia, numa aula fascinante como só ela sabia dar, que o cientista é o mestre da ilusão. para obter os resultados que quer cria a ciência que imagina. e com isto gera novo conhecimento. e lembrei-me dela ao pensar que este momento, estes exames nacionais, davam um excelente estudo sociológico/psiquiátrico. ao olhar para os resultados e as médias só me aparecia uma palavra: legitimação. pronto. afinal era verdade. com mais alunos por turma, menos professores, uma escola em destruição massiva era possível melhorar resultados. era e a prova estava ali. naquelas pautas. mais matemática e mais português. menos de tudo o resto. e a receita resulta. está ali. para quem contestar. será possível dizer num qualquer "sondbite" que a coisa subiu. estão a ver! era possível! e até estamos melhor! nessa altura já ninguém se lembrará que os exames eram mais fáceis. que os alunos levaram um ano sem pensar só a trabalhar e treinar para "o" exame e que tudo o resto que faz de uma escola uma escola desaparece a olhos vistos. para o todo restará esse "sucesso". e isto dava mesmo um estudo. de como se podem manipular as massas, de como se pode iludir com truques de mágico barato e de má qualidade uma sociedade desgastada pelo correr dos tristes e pobres dias. a escola, transformada num "depósito" de alunos continuará a definhar com aventuras destas. e o que se segue ainda é pior. porque já se percebeu que, assim, tudo vale. e quanto à descida em história? para não falar da matemática que nada sei... é simples. a culpa é dos professores. como sempre, dirá o ministério. mas não é. é de um exame que desbarata a inteligência e a preparação que professores que sabem o que fazem fizeram com os seus alunos e por ser uma disciplina onde a lógica sem ilusão ainda é necessária. e isso não se dá como este sistema. este ministério. e esta política educativa. será por isso que a matemática também está como está?...

11/07/2014

||| palavras [im]perfeitas...

maria teresa horta

||| enquanto houver estrada para...


||| ... e foi assim que decidi manter aberto este espaço. assim, como o comecei. este será o ano um. depois veremos. infelizmente em educação e nos tempos que correrem muita coisa há para dizer. melhor, para pensar. por isso vou fazer umas "obras" nesta casa. vão surgir três separadores laterais, em breve. um para projecto educativos com o "selo" professor [im]perfeito. isto é, recomendarei ou darei a conhecer projectos que podem ser relevantes para todos para o trabalho com alunos ou professores. só recomendarei o que conhecer e que sei que posso indicar como de relevantes, inovadores ou de excelência. abrirei ainda um espaço para aulas. fui fazendo isso aqui ao longo do tempo em pequenos textos. irei sistematizar tudo isso e criar umas sugestões de trabalho que desenvolvo ou que posso vir a desenvolver explicando o como faço e o que pode correr bem ou mal. geralmente mais mal que bem... mas isso é normal para este lado de [im]perfeições constantes. e por fim um último separador com recursos. podem ser apresentações, vídeos, filmes, livros, ideias. tudo o que pode ser usado em contexto de sala de aula ou para a prática lectiva. e pronto. as coisas disparatadas e as reflexões [im]perfeitas de alguém que é só mais um professor vão andar aqui. neste universo virtual. obrigado, a todos/as que me vão lendo com a paciência inerente à loucura e perigo de ler estas coisas sem pés nem cabeça...

||| leituras [im]perfeitas...


||| música [im]perfeita...

||| abaixo o quadro de honra. sim, não, mas talvez...


||| ... desta vez demorei um pouco mais a pensar. o texto que partilhei numa rede social aqui ao lado [este texto: aqui] levantou uma interessante discussão. não conheço a autora nem a sua linha de pensamento por isso não me vou deter nisso. vou começar por explicar a minha demora nesta pequenina reflexão sobre o tema. é que tenho uma imagem presa na memória. a minha memória é fotográfica, quando a tenho. e a imagem é de uma escola onde estive a dar aulas, escola teip, onde o quadro de honra estava metido num vão de escada, afixado e perdido por lá, onde só com muita sorte alguém o poderia ver. foi preciso desconstruir esta imagem para conseguir escrever estas linhas. e já estão. ora bem. vamos lá. eu faço uma distinção que já partilhei aqui. não é uma distinção. é uma observação. todos o miúdos são alunos mas todos precisam de aprender a ser estudantes. coisa que alguns conseguem ser "melhores" do que outros. os quadros de honra ou mérito evoluíram do que a autora escreve. de mérito: para os estudantes, passaram a honra: para todos os alunos. em grande parte é assim. há os méritos para os melhores estudantes mas também o reconhecimento por outras coisas: o apoio e ajuda, a solidariedade, o desporto, o ambiente, etc. com isto passou-se do mérito para a honra. eu que sou um amante das palavras sei que isto quer dizer muito. mérito vem do conceito digno de reconhecimento [já volto aqui]. honra está ligada à "dignidade" e "boa vontade" e está muito mais ligado a uma lógica de reputação. ora, reputação e reconhecimento são coisas muito diferentes. e é aí que entra a minha posição. se pensarmos no futuro muitos destes miúdos que um dia vão ter uma profissão vão encontrar os quadros disto e daquilo. basta lembrar a moda americana [e desculpem a costela esquerda - também tenho direitas - capitalista] do "empregado do mês" ou dos objectivos para remuneração. isto é o reconhecimento. que alguém atribui. que é dado. a conquista é apenas feita pelo cumprimento das regras. no caso dos miúdos: estudar. ora, a minha ideia foi sempre que o estudo é preciso treinar. um miúdo treinado para ser um bom estudante, cumprindo todas as regras, pode "entrar" por proposta [pois é assim que é feito] dos outros [os professores que reconhecem o cumprimento dessas regras] no tal quadro. aqui o mérito é mesmo limitado. ao cumprimento. agora vem o resto. a reputação. a dignidade e a boa vontade. é aqui que navego com muito mais facilidade. por isso sempre tive uma lógica similar nas minhas aulas. quase como um "espaço para a honra". todos nós temos nas turmas bons alunos, bons estudantes e bons miúdos. o mérito não é medido por competição. é medido, a meu ver e com os meus alunos, pela colaboração. por isso há um quadro que gosto muito mais. afixado quase sempre no inicio do ano vai até ao final do mesmo. está dividido em três partes: o que aprendi. o que não sei. a quem vou perguntar. e ao longo do ano vai sendo preenchido. aqueles alunos que são bons estudantes podem assim revelar-se como bons miúdos. e todos como alunos. há na dignidade de partilhar o conhecimento muito mais reconhecimento do que numa placa afixada num qualquer vão de escada validada apenas por um grupo que reconhece ao outro o direito ao seu mérito. por isso não posso dizer abaixo a coisa. posso dizer que a coisa, pensada de outra forma, pode, de facto, ser útil para valorizar a reputação, a dignidade e a bom vontade dos miúdos. tem é que ser útil. e ter valor. prático. sem ser aquela imagem com que comecei estes disparates que agora acabam aqui. foi o que pensei, pela minha prática e porque acho que quer o mérito, quer a honra, não são coisas que se "penduram". são coisas que se usam. e isso é preciso ensinar aos miúdos. alunos e estudantes...

10/07/2014

||| palavras [im]perfeitas...

alberto caeiro

||| três direitos novos ou velhos...


||| ... deviam existir três direitos fundamentais no estatuto da carreira docente. não estão lá mas valia a pena fazer uma adenda. o direito ao silêncio. o direito à pausa. e o direito à palavra. o direito ao silêncio é fundamental para um professor. em várias vertentes. o direito a reclamar o silêncio na escola. ou num momento de uma aula. ou de trabalho. devia ser um bem adquirido pela civilidade. não é o silêncio obrigado. é o silêncio como espaço de reflexão. para se pensar antes de falar. para se ter direito à reflexão. para não sair tudo o que apetece a toda a gente no contexto da escola. o silêncio para a reflexão. e o direito à pausa. se eu fosse falar de descanso iam cair-me em cima. pausa. somente. ter direito a dizer: preciso fazer uma pausa nas coisas inúteis que me roubam o tempo para dar aulas e para pensar e preparar as coisas para os miúdos. essa pausa podia ser o tempo necessário para ir a um museu, ao cinema. para ler um livro. para ir a uma tertúlia. pausa. porque quer digamos ou não a profissão de professor é de um desgaste imenso. rápido e profundo. e a pausa devia ser um direito consagrado para a profissão. tornava tudo muito mais simples. mais rico. e por fim o direito à palavra. não. não é o direito de dizer. é o direito à palavra. de não ser "estranho" por se usarem palavras "que eles não percebem". de recuperar a palavra como elemento fundamental para o conhecimento. de elevar o discurso e as discussões. de tornar a palavra o caminho simples para o saber. o aprender. e não só com os miúdos. entre nós, professores. a simplificação de tudo tem um preço. um peso, um resultado. reclamar a palavra bem dita, bem escrita, bem pensada, complexa e rica é urgente. e o direito a usar dessa palavra sem ser visto como "intelectual" na casa onde a intelectualidade devia ser palavra de honra é um direito fundamental. três direitos que reclamo. sempre que posso...

||| leituras [im]perfeitas...


||| música [im]perfeita...

||| desta coisa de estar sempre ajudar...


||| ... da alta definição da realidade afasto-me um pouco. para ver. sou do tempo em que se chumbava. sim, de chumbo. metal perigoso. agora. agora é o cobre. de cobrar. também perigoso, dizem. de metal passou-se ao plástico. e ao pvc. e ao contraplacado. já não se chumba. nem se fica retido. ou não se prossegue. ou transita. é aprovado ou não aprovado. de prova. ou qualquer coisa parecida. transita, de trânsito ainda vai valendo. mas nada disso importa. quer dizer, importa. porque as palavras importam. volto ao princípio. sou do tempo do chumbo. como aluno alguns dos nossos colegas ficavam "para trás". repetiam tudo. uma vez mais. não era bom, dizem agora. os ditos estudos. é caro, dizem outros. passou tudo a ser medido pelo preço da coisa. um aluno que "reprova" [outra palavra maldita] custa x. os outros que não chumbam custa menos x. e um professor custa x. e uma turma custa y. mas ainda não é isso que importa. o que estava a pensar afastado da alta definição da realidade era mesmo no esforço. na cultura do esforço. é que saber que hoje estamos a encher os professores do esforço de conseguir "recuperar" os alunos que estão para chumbar. é do lado do professor que está o peso da possível recuperação. o aluno só tem que se "apresentar" ao serviço. quase como castigo sem o ser. ou como se tudo, por um toque de mágica, fosse possível corrigir. como se um ano de faltas pudesse ser corrigido por uns dias de presenças. são as "estratégias" de um sistema que acha que é caro tudo. e assim, dando a volta à coisa, sai mais barato. lembra o remendo no pneu que já não tem cura possível em vez do investimento necessário. de prevenção. é que é tudo caro. muito caro. pois é. é a hipoteca do esforço. e do futuro. e do conhecimento. e da escola. é só isso. é caro. muito, mesmo...

09/07/2014

||| palavras [im]perfeitas...

nava

||| o que fazer quando a razão parou...


||| ... este espaço começou em outubro. tinha um propósito. seguir os dias de um professor [im]perfeito. eu. agora que termina o ano lectivo e a razão desta aventura se extingue com ele também não sei o que lhe fazer. se o "descontinuar" como é moderno dizer, se o continuar e alargar. não sou nenhum investigador ou "sábio". nem "comentador". nem nada que o valha. aqui vim, durante estes meses partilhar umas coisas. abrir uma ideia que sempre defendi. que devemos partilhar como fazemos as coisas. por isso partilhei "aulas" pensadas para os meus alunos. não são melhores nem piores do que outras. são as minhas. como faço. e fui partilhando estados de alma. a verdade é que este espaço nunca foi para ser o que já é. era para os meus alunos "verem" como pensa e sente o seu professor. o que pensa e o que faz, para eles e por eles. alargou-se nesse objectivo a ser um pouco mais do que isso. e ainda bem. comecei a gostar dele. de aqui vir dizer estes disparates [im]perfeitos. e agora que se fecha a sua razão de existir não sei o que fazer. a emoção diz para continuar. a razão diz que quando a lógica inicial se afasta a divagação se aproxima. veremos. mas que tem sido uma aventura para guardar na memória, tem. mesmo cheia de [im]perfeições. e ainda bem. acima de tudo, o meu obrigado, a quem lê...

||| leituras [im]perfeitas...



||| música [im]perfeita...

||| navegar é preciso, criar ainda mais...


||| ... de tempos a tempos faço isso. vou procurar coisas. navegar é preciso. e lá sigo as regras do google. embora seja de procurar em mais um ou outro "motor de buscas". e tento sempre em várias formas. em português. em inglês. em francês e em espanhol. é o que dá. mais do que isso não sei. aprendi três anos alemão mas já me esqueci de tudo. e procuro tudo o que possam ser ideias ou estratégias para criar dinâmicas de aprendizagem em sala de aula. para além de uma overdose de coisas vindas do outro lado do atlântico [muitas de primeira intervenção ou de análise ainda em construção] encontro muita coisa boa longe. e muita coisa tem uma overdose de tic. papel e coisas simples não é tão fácil encontrar. é preciso ir muito longe mesmo. curioso que as práticas mais "disruptivas" com o comum surgem quando vamos para o lado dos centros de recurso australianos. é curioso. penso. mas o que encontro acima de tudo é uma das fundamentais características do ser humano. a reserva. nunca se partilha o como se faz. os recursos, tirando casos pontuais, tornam-se produtos para venda quando dizem o como e por isso temos que pagar por uma ideia. não sou contra a ideia de mercado. mas acho que no que diz respeito à educação devia haver muito mais partilha. e não são estudos. ou estudos de caso que agora é moderno dizer assim. é mesmo metodologias. o fazer. como se faz. tenho pena sempre de encontrar essa reserva no espaço da educação. o conhecimento tem a natureza de empurrar as civilizações para o futuro. e a escola e os seus agentes deviam ser  motores dessa partilha. e desse "acelerar" o conhecimento do futuro. o mundo da internet ainda é muito composto por esta ideia de "montra". talvez o futuro seja mesmo esse. a versão três ponto zero da coisa tem que ser centrada no conhecimento. ou corremos o risco de ter o mundo na palma da mão mas transformado numa rua de montras fechadas ou de acesso apenas para alguns que podem comprar esse mesmo conhecimento. naveguemos, então. que o tempo não espera por nós nem pelas novas ideias...

08/07/2014

||| palavras [im]perfeitas...

saramago

||| acho que ninguém imagina...


||| ... e eu a pensar que já não se fazia nada por aqui. acho que ninguém imagina o trabalho que há para fazer e a ser feito nas escolas neste tempo em que não há miúdos por lá. não, o trabalho do professor não se resume a dar "umas aulas". a escola é agora uma instituição cheia de coisas para fazer. seja porque há exames para corrigir, reuniões para estar presente e participar, projectos a criar ou encerrar, turmas para fazer ou planos para criar. aulas ainda há. embora toda a gente pense que não. e reuniões de turma ou de coisas para fazer. e formação. interna. externa. e avaliação. relatórios de avaliação do trabalho de um ano ou mais. e tudo resumido num fim de ano lectivo demasiado complicado e demasiado pesado num tempo em que o corpo e alma já pedem algum descanso. e não é só aquele descanso das férias. é pausa. afastamento, mesmo. porque durante o ano foi-se raptado pela escola. todos os dias. e agora é preciso esse afastamento. natural. para recompor a mente. para recompor as forças. mas não é esse tempo que aparece ainda como claro e perfeito neste tempo. este ainda é o tempo da escola que pede mais uma coisa para fazer, por fazer, urgente. necessária. e devia, um dia, ser feito um verdadeiro trabalho jornalístico e público sobre isto. para que seja claro que ser professor é muito mais do que "ir ali dar umas aulas". muito, mas muito mais, do que isso...

||| leituras [im]perfeitas...


||| música [im]perfeita...

||| destas discussões sobre o estado do monstro...


||| ... esta tendência tem sido seguida nos últimos anos. quando a escola está em fecho do ano lectivo e organização do próximo a "tutela" [um dia falarei sobre este conceito] lembra-se de colocar uma nova aventura "à discussão". agora é a notícia da municipalização das escolas. ora vamos por partes. começar por lembrar que o senhor que agora ocupa um dos lugares mais rotativos dos últimos quarenta anos entrou pela porta com uma tshirt a dizer: implodir. estas frases sempre seguem quem as diz. mesmo que retiradas do contexto ou ditas para chamar a atenção necessária para ser "o/a" escolhido/a. pois bem. ao chegar lembro-me bem que a frase que se seguiu foi: isto é mais complicado deste lado. pois, é sempre. é por isso que não se deve falar antes de tempo. duas coisas se tornavam evidentes. o sistema todo é caro. tem "gente a mais". basicamente é um enorme gabinete de gestão de recursos humanos. ora, o tempo era todo disso. cortar. em tudo. em número e em expectativas. tudo sob o mando diáfano da fantasia do combate ao "eduquês" [o que quer que isso fosse]. era preciso exigir e respeitar. sentados e calados. todos. e não eram só os alunos. eram todos. rapidamente se tornou claro que a forma de comunicação não era a melhor e o objectivo era só um. cortar despesa. fosse ela na forma de pessoas, fosse ela na forma de organizações/organização. e disfarçar tudo com o rigor. muito mais português e muito mais matemática. o resto é paisagem. e resumindo foi isto. é isto. não importa que as salas ficassem cheias. nem que os miúdos tivessem que fazer muito mais quilómetros para chegar à escola. importava a eficiência do sistema. e os custos a reduzir. e pronto. chegados os mapas ao fim deste tempo ao tampo da secretária uma coisa era ainda evidente: é caro, ainda. e mais do que isso. o estado, esse ser sagrado, não tem que andar nestas coisas. o estado providência é uma coisa obsoleta. coisa de pensamento neo-liberal como foi baptizado. por isso, a educação das almas pode muito bem ser feita por "outros agentes". venham os privados. não chega. venham as escolas em autonomia. mas é claro que um franchising [no pensamento mercantilista da coisa] dá sempre uma trabalheira e isto até nem é coisa que dê lucro. ora então... vamos lá pensar noutra forma. a única palavra que encontro é: trepasse. pode parecer absurdo mas é o que me surge como ideia. ao ler os planos [porque agora tudo parece uma cena tirada do wikileaks] descobertos cheios de grelhas com cruzes de todos os tipos e feitios, o que aparece é isso. um trepasse. mas que importa então isso. não é uma "estratégia de proximidade"? não é assim em mais de metade dos países da europa? não. é o canto do cisne. a desistência total por ausência de competência para gerir um sistema que precisa de uma reforma profunda para poder voltar a funcionar. eu que sou um acérrimo defensor de uma identidade e plano de escola sei que este modelo vai cair no caciquismo local. e mais do que isso vai [re]criar uma rede de "funcionários" que se vão multiplicar num sistema falido no seu todo. é que eu ainda me lembro dos "delegados regionais". e não, não eram os dos cae. eram antes desses. serão multiplicados serviços. lógicas, procedimentos. e o ministério passará de tutelar a regulador. se assim fosse era bom. mas o que vai acontecer é o que acontece sempre. a leituras de muitos será sempre o papel de vários e as orientações triplicadas por isso tudo. um passo para a venda. que é sempre o que se segue quando os trespasses falham. e o que assusta é que tudo isto nunca teve uma lógica que não fosse possível combater. está e esteve sempre em frente aos nossos olhos. é só preciso querer ver...

07/07/2014

||| palavras [im]perfeitas...

torga

||| fechar a escola, já...


||| ... um sistema obsoleto é sempre muito caro. insuportável para quem o tem que manter. é caro porque perde tudo por todos os lados. tempo, recursos e resultados. sempre a perder. geralmente chama-se um gestor para gerir o impossível. e o que faz o gestor: corta onde pode. mascara o resto. e quando tudo está polido como um carro em segunda mão com quilómetros a mais, vende ou trepassa a coisa e sai com sucesso. se isto não fosse uma anedota até podíamos rir um pouco com o que se está a passar com o fecho de mais trezentas e onze escolas [que se sabem]. ou com a ideia de municipalização de muitas. o trepasse é sempre uma boa política para uma coisa que está em falência de valores, ideias e recursos. a escola é essa coisa, neste momento. por ter sido arrastada para aqui. e sim, propositadamente arrastada para aqui. há uma lógica "liberal" nisto tudo. a palavra está gasta mas a lógica tornou-se quase numa imperceptível caminhada silenciosa onde todos estão a ver para onde tudo vai mas todos acham que não há força possível que trave a máquina em andamento. mas há. há e o pior é que é evidente que há. a mesma que impele a que tudo nos pareça claro quando vemos o todo para além das partes. o sistema está obsoleto. e é caro. é caro por isso. não por ser a sua natureza. é determinação à posteriori. com os remendos. em parte, são os remendos que tornam a coisa insustentável. não a sua lógica. por isso, o que seria preciso era o simples acto de despir o sistema de tudo isso e voltar a refazer tudo. despir é ainda muito mal visto numa sociedade clássica e com pudor pelas coisas erradas. ninguém teria essa força. ou teríamos que ter todos. todos nós que somos professores e sabemos o que a escola precisa para ser "sustentável". nós sabemos. e todos os dias vemos como podia ser feito. mas somos só peças na máquina obsoleta e insustentável, não é?...

||| leituras [im]perfeitas...


||| música [im]perfeita...

||| cinco aulas para prevenir...


||| ... para terminar um conjunto de "pensamentos absurdos" sobre a questão da indisciplina partilho aqui uma visão prática para as primeiro cinco aulas. é coisa que uso. com adaptações, claro, mas geralmente com a mesma lógica sequencial e temática. ao longo dos anos foi um dos elementos que tenho mantido na minha prática. não são boas ou más estratégias. nem isso são. são coisas que faço. nada mais. nem sei se podem ser replicadas. mas podem, como acho que todos devemos fazer, podem ser partilhadas...

... como tenho a sorte [ou o azar] de nunca ter estado numa escola mais do que um ano fruto de um sistema de colocações e coisas que tais que me impele a isso parto sempre da lógica de: ano novo/turmas novas. 

... aula um // apresentação. raramente apresento conteúdos ou regras. uma folha em branco distribuída a cada aluno. e o pedido para escreverem ou fazerem naquela/daquela folha o que desejarem desde que os represente. já tive de tudo. de textos de página completa até a folha rasgada em pedaços e assim apresentada no final do desafio. esta abordagem permite-me fazer sempre uma leitura do que me espera. aluno a aluno. é totalmente livre e descomprometida. um regra é estabelecida em conversa aberta e franca: o respeito. a linha inultrapassável ao longo do tempo de trabalho que ali começa. não é uma regra imposta. é de definição. um compromisso sem negociação. é o limite. o resto é mesmo só uma conversa. no bom e velho sentido do termo. uma conversa de abertura para um ano de trabalho em conjunto.

... aula dois // diagnóstico. não. nunca faço testes diagnósticos. ou coisas parecidas. logo aí começa o meu conflito com as regras dos "departamentos" mas isso são outros mil. é um diagnóstico à capacidade de trabalho individual e do grau de "coerência" da turma/grupos de trabalho. isto é, com um desafio inicial, individual, testo a capacidade de resposta dos alunos a nível individual. geralmente faço-o com uma caminhada exterior. ao património local. nessa caminhada faço os três testes que preciso para poder construir desafios que se enquadrem naqueles miúdos. uma análise individual é feita pela desafio pergunta-resposta [oral e escrita] sob forma de romance "a la dan brown". depois, o desafio de grupo. dar a possibilidade de criação livre de grupos é perceber imediatamente as relações pré-estabelecidas. pode ser a criação de um mural num determinado local pré-escolhido e pré-preparado. por grupo e em grupo. feita esta análise tratamos da relação da turma consigo mesma. se tem identidade, cooperação ou estrutura. isso é feito com o processo de decisão por unanimidade de qual é o melhor trabalho no final da aula. uma decisão por votação de "braço no ar" depois de discussão plenária. tudo isto corre [dependendo naturalmente das turmas e dos miúdos] geralmente numa espécie de dúvida/confusão. o que é bom, para mim, que estou a analisar tudo. feito isto registo estes elementos que não são estanques e são apenas um ponto de partida para o trabalho que terei que fazer nas aulas seguintes. este "teste" que passará a "monitorização" será necessária repetir em momentos seguintes no decurso do ano lectivo.

... aula três // construção. geralmente é nesta aula ou na seguinte que surgem os conflitos mais fortes. é simples, a não determinação das regras permite-o. resta só o respeito. então é preciso isso mesmo. construir uma turma para aquela disciplina. no meu caso, história, geralmente. construir uma turma passa por "gastar" uma ou mais aulas para o fazer. esta é a primeira. e a primeira é um desafio colectivo de construção de um projecto para um ano lectivo. geralmente levo cinco tema: ajuda, acolhimento, mudança, superação ou invenção. daqui eles podem criar o que quiserem. e "perdemos" uma aula nisto. a definir papeis depois de escolhido o tema. nada está ligada ao programa a cumprir. é um elemento extra. é um projecto. em que a turma se envolve e em que cada um terá um papel. e será guardado sempre tempo para isso. não são projectos teóricos ou temáticos. são acções colectivas. a história serve só de desculpa. pode ir de "reinventar" a porta a apoiar uma associação. pode ir de preparar uma exposição a organizar uma conferência. pode ser tudo. é uma rede, como lhe chamo. que liga. que permite a construção de identidade. e é um desafio feito por período lectivo. um para cada período pois permite a mutação de interesses e a evolução que acompanha a evolução de construção da "turma".

... aula quatro // identidade. esta é a aula do primeiro desafio individual depois de definido o colectivo. geralmente escrevo no quadro. "o tema será: ele é bom/ela é boa". também, geralmente esse é o tema do primeiro período. depois seguem-se outros. basicamente os miúdos terão que escolher uma personagem (histórica ou historicamente contemporânea) de quem são fãs. e saber tudo o que há a saber sobre essa mesma figura. o desafio consiste em apresentar esse trabalho, no final do período [a valer muito no peso final da nota - digo sempre em brincadeira séria], mas de todas as formas possíveis e que consigam imaginar mas sem ser um trabalho escrito. todas as formas são possíveis menos escrita. mas há aqui uma regra que cumpro sempre. esta será a única aula em que falarei nisto e neste trabalho. esclareço todas as dúvidas e nunca mais [re]lembro os alunos. geralmente o que acontece é que no final do período um deles lembra-se que há este trabalho para fazer e lá vai uma corrida para o cumprir. mas é assumir a questão de confiança e responsabilidade, assim como, de autonomia. assim será sempre em qualquer trabalho e essa percepção começa aqui. o meu papel como professor não é ser "lembrete" como lhes digo muitas vezes. a responsabilidade começa aqui e tem que ser ensinada em momentos como este.

... aula cinco // atenção. a última das cinco aulas que "gasto" nestas actividades que me ajudam a "gerir" e criar uma relação com a turma e cada um dos miúdos é, geralmente, "gasta" no não fazer nada. vai parecer altamente estranho mas é mesmo isso. geralmente "entrego-lhes" o desafio de criarem aquela aula. que pode ir de uma caminhada a uma conversa. mas que tem sempre um exercício inicial. os primeiros cinco minutos são de leitura de um texto. tenho duas versões para este momento inicial. ou escolho um livro [geralmente o "as aventuras de huckleberry finn"] que nos vai acompanhar até ao fim do ano. ou textos soltos. cinco minutos em que os miúdos estão em silêncio. a ouvir. às vezes desafios para posições curiosas. de olhos fechados. em cima das cadeiras. de costas uns para os outros. dependente dos textos e da forma dos mesmos. ao longo do ano as aulas terão momentos destes. em que eles, comigo, vão trabalhar a concentração/atenção. e com esta aula terminam as aulas de trabalho de construção do que será um percurso a criar ao longo do ano lectivo. fica a ideia. somente isso. 

04/07/2014

||| palavras [im]perfeitas...

al berto

||| da beleza da escola...


||| ... sentei-me, por uns minutos, no degrau da entrada de uma escola. pensei. das poucas coisas que me restam do que gosto de fazer esta é a que gosto mais. pensar. olhei para tudo aquilo. há uma beleza na escola que não há em mais lado nenhum. a certeza que ali habitam pessoas. que uma escola é feita sempre e só de pessoas. o resto é uma construção de cimento que podia ser outra coisa qualquer. e depois os que entram e os que vão saindo. todos os anos vão saindo centenas. o futuro pertence a quem o desafiar, penso sempre. uns serão pensadores. outros fazedores. outros vão ganhar forma de ser gente fora da escola. a nenhum consigo adivinhar o futuro. talvez a um ou a outro. um palpite, apenas. já muitos me saíram completamente furados. talvez um dia algum venha ter comigo e diga que se lembra de mim, que fui seu professor, um dia. e da escola. a escola será sempre a nossa escola. a deles. estudei aqui quando era pequeno, vão dizer um dia ao passar. e vão dizer a alguém. a outro alguém que tem outra escola como sua. poucos espaços conservam em si esta beleza maior. de serem nossos. a escola será sempre a nossa escola. uma pertença. inesquecível. e nisso reside toda a beleza do mundo. desse mundo inteiro que é só o local onde aprendemos a ser gente...

||| leituras [im]perfeitas...


||| música [im]perfeita...

||| da indisciplina ... nove de nove...


||| ... para terminar esta reflexão mais ou menos conseguida sobre a questão da indisciplina surge a necessidade de fazer uma explicação complementar. considero um acto indisciplinado aquele que quebra uma ordem instituída e apropriada por todos no contexto de uma relação pedagógica estabelecida com base em regras úteis e necessárias. não entra aqui o conceito de "má-educação" ou de "mau comportamento". explico a razão. a má-educação ou mau comportamento são frutos de uma educação primária. isto é, dada em contexto exterior à escola. são um espelho e não uma identidade. gerir esses comportamentos, geralmente materializados em acções é algo que envolve mais do que a relação pedagógica. envolve uma determinação de acção para a cidadania. envolve mais do que um professor e um aluno. envolve educadores e a comunidade escolar como um todo. é por isso que limito aqui a indisciplina nesta relação de um para um. de professor para aluno. ou de um para muitos. de professor para alunos e de alunos entre si, assim como, de alunos para com o seu professor. foi nesse sentido que escrevi estes nove pontos de análise e não qualquer outro mais alargado. é nesse sentido que estabeleço estes últimos três olhares.

... numa sociedade em profunda mutação como a nossa, embora lenta e urgente, deparo-me muitas vezes com "utilizadores" do espaço escolar em segunda geração. passo a explicar. muitos dos educadores [envolvo aqui pais e todos os outros agentes "familiares"] foram uma primeira geração que tiveram acesso à escola. a escola para uma elite burguesa ou de burguesia tradicional existiu durante um tempo histórico e este acesso é aberto muito mais recentemente do que se pensa. a escola inclusiva é o seu expoente máximo e com ela novas necessidades emergem. novos campos de actuação. novos lugares desconhecidos. e ainda bem...

... sete. coerência/consistência // um dos principais factores para a determinação das regras que dão ordem num contexto de aprendizagem é mesmo esta da coerência de actuação e da consistência dos actos. isso passa por algumas coisas muito simples mas por isso mesmo esquecidas muitas vezes que se revelam determinantes para alunos e professores. a coerência de actuação é uma realidade urgente. muitos professores defendem actuações concertadas. iguais. não penso que seja por ai. penso antes que a coerência de actuação deve ser dividida em dois níveis: geral e concreta. até aqui é óbvio. o que quero dizer é que a coerência de actuação perante actos de indisciplina deve ser tomado por todos os professores como um modelo. outra coisa é a actuação de coerência concreta que diz respeito ao modo, forma e espirito que cada professor, de acordo com a sua personalidade pode revestir essas práticas e as suas práticas pedagógicas. deve existir uma coerência partilhada e evidente sendo possível que esta se manifeste em diferentes formas de acção e/ou comunicação. outra coisa é a consistência. falo aqui num misto de interpretação entre a estabilidade, a firmeza e o estabelecimento. neste campo não é dos professores que se espera essa consistência embora tal tenha que existir. é dos alunos. é transferir para eles, tendo eles a noção da coerência de actuação dos seus professores essa estabilidade de actuação, essa firmeza de acto e esse estabelecimento de limites que urge criar. quando um professos, consistentemente, espera algo dos seus alunos e age em conformidade e coerentemente há uma ordem estabelecida que, aceite por todos, permite uma consciencialização para o trabalho que raramente se quebra. tenho essa experiência pessoal de vários anos com turmas ditas impossíveis. digo quase sempre que estes são os passos mais complexos de dar mas também os mais importantes. criar coerência e esperar consistência. esta combinação leva a que os alunos encontrem uma lógica inerente ao trabalho necessário. e vejam que as regras, mesmo que sejam só regras simples, se encaixam nessa lógica. muitas vezes saltamos este universo por ser demasiado difícil de criar. mas sem ele, o castelo da ordem é frágil e facilmente se desfaz. "penso eu de que..."

... oito. apropriação/partilha // na era das "redes sociais" e da "partilha" de tudo e mais alguma coisa os alunos, na sua maioria, ainda estão longe de transformar práticas racionalizadas em actos concretos. em primeiro lugar porque, como referi ontem, a questão da identidade é urgente. dar à escola um sentido, uma identidade, dar a cada espaço disciplinar essa mesma identidade é um percurso que é necessário resgatar. não é óbvio hoje que a escola seja útil. como não é óbvio o benefício, lógica e aculturação possível em cada área disciplinar. como não é lógico ou óbvio que haja necessidade de partilha de conhecimento ou de apropriação da utilidade dos mesmo num tempo e num espaço como aquele que é vivido e passado na escola. muitos os actos de quebra da ordem, representações da indisciplina vivida são afrontas a esta realidade. a transposição de comportamentos exteriores à escola num espaço que tem as suas regras leva a isso. e muitas vezes é só isto. essa transposição clara e linear de um tipo de comportamento de um tipo de vivência/aculturação, para outro, neste caso, a escola. a afronta é tida como "má-educação" quando representada neste desajuste de realidades. ofensa mesmo. porque o é. porque o é intencionalmente ou não, é. é um comportamento ofensivo e desviante. a razão? muitas vezes só uma. falta da apropriação da identidade do local onde ocorre e das regras que deviam ser conscientes. essa identidade é fundamental. repetimos vezes sem conta: estás na escola não estás no café. mas o café também tem as suas regras. e muitas vezes uma identidade mais construída do que a escola. e isso falta. no contexto educativo isso é construído por dois elementos: as regras necessárias [que já falei anteriormente] e a partilha. a partilha é a rede que tece as ligações entre todos os elementos de uma comunidade escolar. a necessidade do outro como agente para a aprendizagem ou simplesmente para a convivência. e isso está por fazer pelos alunos. pelas famílias [pelos educadores] e pela escola. reconstruir a identidade através das redes de partilha é um passo fundamental. "penso eu de que..."

... nove. significado/sentido // este é o último dos nove pontos que me lembrei de pensar. não há nenhuma ordem neles ou hierarquia. podiam ser muitos mais como necessariamente serão para uma análise maior. mas não era isso que queria fazer aqui. era só pensar nestes. nove. e foram nove como podiam ter sido menos ou mais. o acaso aqui é rei e senhor. e a [i]lógica disto tudo também. são só reflexões para um significado. e é esse significado que penso contribuir para muitos actos de indisciplina. ou a sua ausência, melhor dizendo. com programas impossíveis, turmas "super-dimensionadas", menos recursos [de todo o tipo], o sentido dado à escola e o significado de cada aprendizagem tem que valer no seu contexto. pelo desafio interno. mais do que qualquer fundamento anteriormente válido: tens que estudar para seres alguém ou para arranjares trabalho. a escola, alunos e professores precisam urgentemente de definir esta utilidade significativa para as aprendizagens no interior da escola. e dar esse sentido a tudo o que se aprende, desafia e cria. utilizar todos os espaços da escola, dinamizar a escola como organização, promover a lógica do trabalho para a resolução de problemas, pensar e fazer da escola um espaço de investigação, de criação, de praxis mais do que urgente permite dar esse sentido para envolver na construção da escola como lugar de estar e pertencer. e não são só os alunos. são todos os agentes da comunidade escolar. dar sentido permite minorar a indisciplina porque não se quebram as regras e a ordem sem um significado evolutivo maior. essa é a boa indisciplina. a evolução. a inovação. mas o caminho até lá chegar ainda é longo. ainda está por fazer este "combate" à indisciplina pura e dura. mas nenhuma organização como a escola tem a capacidade, competência e o saber para transformar tudo isto num instante. basta querer. ou melhor. basta começar. "penso eu de que..."

... no próximo texto indicarei a forma como coloco em prática, nas primeiras cinco aulas, esta visão para um trabalho contínuo e continuado em contexto de sala de aula.

03/07/2014

||| listas, cliques e coisas que tais...


||| ... [listas, aqui] ...um eterno retorno. às listas provisórias e definitivas. a concursos onde o sistema procura pessoas para "suprir" necessidades "permanentes" e "temporárias" do próprio sistema, temporário ele todo com laivos de desejo de permanência. e depois para umas dezenas de milhar abrem uma duas mil vagas. e depois o resto fica a aguardar. em suspenso. quando termina este contrato e não se sabe se começa o outro. e surgem portas travessas no sistema. abrem as autonomias. abrem as escolas de intervenção prioritária. que podem escolher, antes. a que podem concorrer, antes, todos. todos não. só aqueles que esperam. desejam. anseiam por trabalhar novamente, para o ano, numa escola. aqueles que o sistema criou. às dezenas e centenas de milhar. dizendo que eram precisos, numa fase. dizendo que eram necessários. aqueles que até já serviram o sistema anos a fio. para aqueles espaços de tempo dito temporários que só o são por serem mais baratos para o custo global da coisa. e inventaram-se estratégias de tornar tudo ainda mais kafkiano. com uma alarve proposta de avaliação que subverte tudo. mais uns pontos para somar e alterar tudo se for preciso. pedida, a avaliação, e ganhos os pontos, saltamos números. por cima de outros. à volta de outros. subjugando as regras em que o sistema disse para acreditarmos. e tudo isto em click's. numa página. todo o sistema ali, claro, à nossa frente. em que numa lista o número aparece antes do nome. em que vamos espreitar para ver se subimos uns pontos. ou descemos. ou estamos no mesmo lugar. aprendemos os nomes antes e depois. palavras que deixaram de ser nomes. os antes e os depois. já os conhecemos pelo nome sem os conhecer de outro modo. a lista, infindável. a lista representa a esperança. e o trabalho. e anos de um aprender constante. e a vida. inteira. ali. naqueles números. e isto, ano após ano. num eterno retorno. com mais ou menos manipulações de quem olha para isto como uma boa fórmula de gestão de recursos humanos. e o que eu vejo, em cada lista. são sempre pessoas. professores, todos eles. como eu. anos, após anos, nisto...

||| palavras [im]perfeitas...

tolentino mendonça

||| comparar ou não comparar, eis a questão...


||| ... todos os anos a mesma discussão. e ainda bem. mantenho a minha ideia. cunhal era assim. para uns teimoso. para outros determinado. para outros coerente. eu não sou nenhuma destas coisas. mas esta é a minha ideia. a minha forma de ver a coisa. ó colega, mas assim é injusto para os outros! pode até ser. mas cada miúdo é um miúdo. e a comparação é algo que dilui o "conseguido" no "geral/médio". passo a explicar. a avaliação que faço aos meus alunos nunca é comparativa. isto é, nunca comparo o zé com a maria ou a maria com o rodrigo quando vou dar uma nota. comparo sim, dentro do percurso feito pelo zé, a maria, o rodrigo por eles próprios individualmente. tem-me dado grandes dores de cabeça e discussões esta visão. porque o miúdo pode ser bom mas comparado com a "outra/o" que tem melhor nota não é. mas qual comparar! a única coisa que tenho que comparar é com o percurso individual. e lá vem o argumento que é a turma. a justiça/injustiça. e depois atiro eu com o exame. pois e no exame? comparam? uns com os outros? ou aquela nota vale pelo trabalho/resposta daquele aluno? e quase arrumo a coisa com a própria lógica do sistema. se o sistema diz que cada um vale por si eu detesto esta ideia. defendo o contrário. que cada um tem capacidade próprias, competências próprias, aprendizagens próprias que devem ser reconhecidas e valorizadas como tal. no todo. mas reconhecendo o valor de cada um no seu percurso e não o diluindo num valor médio que só serve a estatística. e sei que esta discussão me vai acompanhar até ao fim dos meus dias como professor. é mal meu. doença de tratamento difícil. loucura ou insanidade. mas pronto. para mim cada miúdo é um mundo em si mesmo. não é uma média...

||| leituras [im]perfeitas...



||| música [im]perfeita...

||| da indisciplina... seis de nove...


||| ... a visão que estou a tentar analisar neste decompor da indisciplina é preventiva. raramente penso de outra forma. os factores determinantes para evitar esse limite que é a quebra da ordem pelo incumprimento da regra. em nenhum caso estamos num acto fortuito de julgamento ou simplificação. é só uma reflexão sempre com estes roteiros de pensamento muito presentes.

... não tomar nada como adquirido é um dos princípios básicos desta reflexão. assim o é na lógica de transmutação das ideias básicas que temos como asseguradas pelas diferentes visões e perspectivas sobre o universo educativo e teorias a estas associadas. aqui, espero, tento fazer também a desconstrução das mesmas numa lógica de ponto médio. de encontrar essa lógica média para uma visão mais alargada partindo do "terreno" para a reflexão.

... quatro: a dispersão // sempre, na escola, houve lugar à dispersão por parte dos alunos. negar esse facto é não ter uma visão global do que é um espaço onde a juventude habita. conceito este, de juventude, levada no que o século vinte lhe foi trazendo como caracterização. a dispersão alargou-se, dizem uns. por via das novas tecnologias. telemóveis, internet, redes sociais, actividades paralelas à escola. tudo a contribuir para a dispersão. principalmente da informação. e principalmente das relações directas tidas como "naturais" no contexto de escola. ligação directa - professor/aluno e aluno/aluno. há aqui dois factores que devo referenciar como alvo de reflexão. em primeiro lugar o adquirido que ontem falava. não podemos ter como adquirido que todos os alunos conseguem o mesmo grau de acesso a esses factores. não é assim, e não é essa a realidade. há diferenciação social, também aqui. e por outro lado o acesso à informação não é sinónimo de acesso ao conhecimento. este ponto de fuga é fundamental para a reflexão sobre esta ideia de dispersão que muitas vezes gera, em ambas as partes: professor e aluno, uma ideia de quebra da ordem. ordem essa em que o professor é o detentor da informação promotora do conhecimento e o aluno é visto como o "aprendiz". não há, aqui quebra nenhuma se a lógica de trabalho for alargada. isto é, se for possível considerar que a construção do conhecimento parte da informação e a informação por si só é apenas motor e combustível para esse conhecimento. estes factores são, de facto, recentes. e claro que as tecnologias da comunicação e informação e a mobilidade das mesmas trouxe para a sala de aula e para a escola uma nova realidade. acima de tudo a rapidez e disponibilidade do acesso. o que se confunde cada vez mais é mesmo isso: informação não é conhecimento. e acesso não quer dizer que se tenha domínio e técnica de análise dessa mesma informação. aqui nascem muitos dos conflitos que geram, muitas vezes, actos de indisciplina. quer pela dispersão natural do grau de imensidão da informação, quer pelo desvalorizar dessa mesma informação necessária para o conhecimento por estar sempre acessível. em alguns casos a articulação entre ambos os factores é determinante. é aqui que o efeito de gestão do conhecimento pode ter um papel determinante. "penso eu de que..."

... cinco: distracção // se uma coisa é a dispersão outra é a distracção. não são uma e a mesma coisa. nem parecidas. nem perto uma da outra estão. podemos pensar que a dispersão leva à distracção. mas o que leva à distracção é sempre a falta de capacidade de concentração e de foco. por muitos elementos de dispersão existentes com um bom domínio da capacidade de concentração, análise e focagem podemos dominar a dispersão e gerir a distracção. este é um daqueles factores que, como professores, muitas vezes temos como conseguidos à priori [falei disto ontem]. temos como adquirido, vezes demais, que os alunos aprenderam e treinaram a capacidade de concentração/atenção. isso raramente acontece. ver o aluno como estudante é uma coisa que acontece tarde. o estudante aprendeu e treinou a capacidade e as competências necessárias para estudar. isso não são coisas naturais. não "nascem" com "eles". devem e precisam ser trabalhadas. a curto, médio e longo prazo. em etapas concretas e com objectivos claros. e esquecemos isto. é verdade que isso é quase impossível com turmas gigantes. sim, é verdade. o que não quer dizer que não seja urgente pensar nisto. mais do que pensar criar estratégias para a determinação destes momentos para focagem e concentração. a distracção é natural em miúdos que, como estes neste tempo, nasceram cheios de apelativos desafios visuais, sociais e de consumo. mais quando os tempos são de exigência social. ou ao mesmo tempo de expectativa de futuro. ou ainda de "fama" imediata vendida a uma juventude que procura esse "aparecimento" a qualquer custo. à escola não deve caber a gestão da intervenção social. mas deve acompanhar a forma como gere a identidade social no seu contexto e a transforma para o futuro. esquecer a aprendizagem da concentração por existirem demasiados factores de distracção incontroláveis é meio caminho andado para estar a um passo do surgimento de casos ou atitudes de confronto muitas vezes tidas como indisciplina. "penso eu de que..."

... seis: identidade/referência // tomando como ponto de início para este item de análise tomemos este modelo social referido no ponto anterior. e num tempo em que o sistema considera cada vez mais o professor como um recurso humano temporário e substituível, a ideia de criar identidade/referência pode parecer um absurdo como elemento para a prevenção da indisciplina ou de atitudes tidas como tal. o mau comportamento e a má-educação são coisas que falarei no último texto. estou aqui a referenciar factores de indisciplina. e este parece-me fundamental. ao professor, nos tempos que correm, é pedido tudo e mais alguma coisa. e para além desse tudo e mais alguma coisa é ainda colocada uma carga burocrática acima da média que lhe retira tempo para o essencial. esta questão simples. simples mas determinante. se a função pedagógica for vista como uma tarefa ou conjunto de tarefas a cumprir facilmente esta identidade/referência se perde em miúdos cujas referências estão em constante mudança e questionamento. o professor como referência e a aula/disciplina como tendo uma identidade própria são urgentes e são elementos estruturantes para uma prevenção da quebra da ordem. passo a dissecar a coisa. um ano lectivo é composto por centenas de aulas. centenas/milhares de actividades pensadas pelo professor para os seus alunos. um programa para cumprir. regras para trabalho individual e colectivo. a turma como grupo. a somar a isto há a questão do que chamo identidade. dar uma identidade própria à disciplina/área temática e às aulas vistas como um percursos feito de desafios é essencial. dá segurança. cria lógica. permite aos alunos saberem com o que podem contar. o que podem esperar. e identificar-se com a lógica de trabalho. apropriar-se dos modelos. por existirem tantas disciplinas e tantos professores em vários ciclos esta noção permite conhecer e perceber as regras e a ordem. os limites de actuação disciplinada são claros para todos. até para o professor. a gestão das expectativas é assim passível de ser realidade de forma clara e precisa. a construção desta identidade/referência é feita ao longo do tempo. e permite, de forma muito simples, clarificar essa posição de cada um no dia-a-dia de trabalho. pode até incluir a surpresa ou a gestão dos objectivos por superação o que enriquece ainda mais esta realidade a ser vivida ao longo do tempo. "penso eu de que..."


02/07/2014

||| palavras [im]perfeitas...

sophia

||| da indisciplina... três de nove...


||| ... de tanta coisa já escrita e dita sobre a indisciplina nos últimos tempos decidi juntar mais umas coisas para complicar. durante três reflexões pequenas e desajustadas irei identificar nove pontos, dos cento e muitos possíveis, sobre essa coisa chamada indisciplina. farei depois um último com a prática que uso para a combater e que me "gasta" sempre cinco aulas no início do ano lectivo. por isso, aqui vai:

... não associo indisciplina a mau comportamento. ou má educação. são, para mim, tudo coisas diferentes. por isso, a visão que darei será com base nessa lógica de quebra das regras que quebram a ordem. esse é o factor a que chamo indisciplina. organizei a reflexão [ou como lhe queiram chamar] em três ordens: geral, alunos, comunidade escolar. aqui vão os três primeiros pontos de análise inicial:

... um: os "à priori" // quando começa o ano lectivo e nos é "atribuída" uma turma começa o desafio de perceber o que vamos encontrar. nas primeiras reuniões é-nos "descrita" a turma. caracterização, chamam-lhe. quando abrimos a porta para a primeira aula todos esses "pre-conceitos" recebidos numa qualquer reunião se confundem com aqueles rostos. junta-se o conhecermos ou não aqueles miúdos. mas junta-se ainda mais uma coisinha importante. é essa imagem, prévia, à priori, que construímos, quer queiramos, quer não, que aqueles miúdos já dominam as regras de convivência em comunidade, assim como, os princípios de educação para o estudo. ora é aqui que penso que tudo mudou nos últimos anos. a "travessia" de vários anos de escolaridade antes de nos "chegarem às mãos" não é garantia desse domínio das regras. pelo contrário, muitas vezes. esse nosso "dado por garantido" terá consequências em todo o desenvolver do comportamento em função dos nosso objectivos para a construção de uma aula ou sequência de aprendizagens. hoje, numa sociedade aberta e multicultural, assim como, como "multieducativa" ter a certeza desses domínios tem sido para mim um fracasso sempre que os considero como garantidos. e um dos pontos fracos da disciplina está nisto. em consideramos que todos os nossos alunos, naquela turma, dominam os princípios básicos de uma educação para o estudo. os desvios de atenção e comportamento são assim garantidos por não nos termos precavido para uma actuação preventiva. preparando o terreno para os hábitos necessários para uma aprendizagem em contexto e significativa. este primeiro passo de convergência de "por em comum" é fundamental para uma harmonia entre actuações no contexto de um trabalho conjunto entre professos e alunos, alunos e alunos e alunos e professor com a turma enquanto grupo. "penso eu de que...".

... dois: as regras // de sempre, a necessidade de regras. o que acontece é a imposição. não a necessidade. as regras estão lá. todas. no dito: estatuto do aluno. no dito: regulamento da escola. e os miúdos levam, geralmente uma "ensaboadela" de regras logo no início do ano lectivo que se estende por mais não sei quantos dias e horas e aulas numa repetição sem fim sempre que um acto indisciplinado acontece. do que desejo destacar aqui não são essas regras impostas. as meta-regras como lhes chamo para espanto de alguns porque são abstratas e universais e não precisas e necessárias como devem ser as regras de trabalho no contexto de uma aprendizagem escolar. as regras necessárias não são só definidas pelo professor. são definidas pelas necessidades de persecução de um objectivo de aprendizagem, isto é, são evidentes para que se consiga o resultado de um desafio proposto. são criadas aula a aula. e são como as regras de um jogo. claras, precisas, simples e orientadoras. não são punitivas. são normativas. em cada aula, em função da metodologia a aplicar, da actividade ou do recurso, há regras necessárias, que são evidentes pois permitem a realização do que é proposto. e muitas vezes nos esquecemos disso. de que temos que evidenciar colocar em comum essas regras necessárias. rapidamente, em função de um comportamento desviante, recorremos às outras. às que estão no regulamento ou no estatuto ou em qualquer outro lado. como punição. como aviso. mas as regras que foram quebradas, antes dessas, foram as de necessidade. as que permitiam o cumprimento da actividade. e é por isso que antes de qualquer outra coisa é preciso torna claras, necessárias e precisas, assim como e fundamentalmente, apropriadas por cada um e por todo a urgência dessa necessidade das regras construídas em função da aprendizagem desejada mais do que as outras que pairam no limbo servindo a todos e a ninguém. " penso eu de que..."

... três: os programas // este é daqueles pontos que é mais difícil de "dominar". depende, em parte, da vontade política e da qualidade do trabalho das equipas criadoras dos programas. a verdade é que [e no caso que me toca que é a história] os programas na sua maioria são demasiado extensos. a liberdade criativa para novas abordagem pedagógicas fica reduzida a muito poucas aulas ou simplesmente a um experiência pontual. a habituação a um modelo de aula torna a rotina num lugar comum para todos. não é só para os alunos. é também e principalmente para o professor que se vê forçado a "correr" para cumprir um programa. o desafiante para qualquer professor é sempre poder criar uma aula. preparar, inquietar-se, ponderar e fazer um desafio a si mesmo e aos seus alunos. cada vez isto está mais reduzido por existirem exames, testes intermédios e uma lógica de escola "produtiva" que tem como fundamental objectivo esta linha de avaliação final por ciclo ou por percurso que se resumo na reprodução do conhecimento em vez de uma análise e transformação do mesmo em aprendizagem de médio e longo prazo. nesta dualidade entre a necessidade de novas abordagens pedagógicas e o cumprimento de uma linha "politicamente estabelecida" está um parte do desafio maior para o "combate" aos comportamentos ditos de indisciplina. é que o reconhecimento da falência de muitos dos programas e modelos é evidente para todos. isso torna o desafio ainda maior. como transformar esta realidade em algo que envolva professores e alunos numa linha de trabalho comum que os "prenda" no sentido de construção da aprendizagem significativa? muitas vezes passa pela integraçãod e projectos paralelos ao tempo de aula ou simplesmente à construção de desafios on-going por período. mas acho mesmo que aqui é necessário mudar. em continuidade do adquirido mas mudar. transformar estes programas em algo possível de ser gerido pelo professor em função das turmas/alunos, assim como, desafiante para estes [não no conteúdo mas na potencialidade de abordagem do mesmo]. a isto voltarei mais tarde. "penso eu de que..."

||| leituras [im]perfeitas...


||| música [im]perfeita...

||| sobre o roubo da alegria, outra vez...


||| ... já escrevi aqui uma vez sobre isto. e recordei hoje um miúdo. o rodrigo. miúdo "popular" entre as suas hostes. um dia, sentados num degrau, perguntou-me: professor, a vida é só isto? teria ele uns quinze anos, dezasseis anos. e eu, na ponta média da vida, respondi a seco e urgentemente: não rodrigo, a vida é isto tudo e muito mais. ao voltar, todos os anos, a encontrar os "jovens" de hoje sinto uma perda cada vez maior da alegria. andam [como nós e como já escrevi aqui também uma vez] todos na demanda da felicidade. mas isso não interessa nada. interessa combater este cinzentismo que habita hoje nas rotinas sem sentido de uma vida e de uma escola cada vez mais centrada nos procedimentos e nos cumprimentos de objectivos. há mais vida para além das metas. e lembro-me bem que nesse ano, depois da conversa com o rodrigo, criei na escola para um grupo de miúdos o dia da caminhada. era um dia, depois das aulas, em que íamos passear. e fazer coisas improváveis. era uma escola no centro da cidade. cheia de horas para tudo e mais alguma coisa. mas aqueles dias eram diferentes. fomos pedir coisas a pessoas. para subir à torre da igreja lá no centro de uma praça que até eles e eu desconhecíamos. ver umas curtas a um cinema. fomos até a uma piscina desactivada fazer um grafitti com um artista que convidámos por email e aceitou a "transgressão" de ser acompanhado por uns dez miúdos e um professor. gostava que o rodrigo tivesse tido a resposta à sua pergunta. dada desta forma estranha. porque a escola tem que fazer sentido. tem que ter essa alegria que agora falta. para ser, antes de tudo o resto, um espaço que acolhe. abraça. que não rouba a alegria. pode parecer romântico. não é. é só uma constatação de facto. simples. 

01/07/2014

||| uma proposta demasiado inocente...


||| ... ó colega, mais vale lá ir para fora contar estrelas do que fazer isso... é impossível. isto foi há uns anos. nestas reuniões ditas de preparação para o ano lectivo que chegará. ideias, pediram. ideias, ou melhor, só uma ideia dei. para as "minhas" turmas mas que gostava de ver alargado numa lógica interdisciplinar [o que quer que seja que essa palavra ainda quer dizer de tão mal tratada que anda]. era só fazer um trabalho de investigação. palavra maldita. parecia que tinha dito um exorcismo colectivo ou um auto de fé em pleno recreio da escola. isso dá muito trabalho. ui. isso os miúdos não são capazes. eles nem escrever um texto são capazes. e pronto. o impossível estava criado. até eu ter dito alto aquela palavra era possível. depois, impossível. não por não ser possível, simplesmente, tornou-se por tanta justificação ou bloqueio criado. acabei por fazer com os miúdos. e com mais uns professores da turma de aderiam a uma espécie de insanidade que é colocar a investigação no centro do trabalho do professor e da escola. e lá se fez. e no final do ano submetemos "aquilo" a um concurso internacional e lá fomos ganhar a coisa. era um prémio e um dinheirinho para a escola. lá nos disseram que tinha corrido bem. mas assim um pouco a contragosto não fosse a ideia pegar. e hoje, passados quase uma dezena de anos dei a mesma ideia. a resposta: ó colega mais vale ir lá para fora contar estrelas do que fazer isso... é impossível. ainda bem. é sinal que se pode fazer. mas é também sinal que ainda está tudo por fazer. outra vez... maldita palavra esta da investigação num espaço chamado escola...

||| palavras [im]perfeitas...

josé luís peixoto

||| é pá, vocês é só férias...


||| ... é pá, quem me dera era ter o teu trabalho, ser professor, vocês é só férias. aposto que já estás de férias! num fim de tarde qualquer, quando alguém que não é professor nos encontra para dois dedos de conversa depois de um dia de trabalho é sempre assim. ora bem... por onde começar? responder? não responder? pois estou pá. é uma vida santa. nem imaginas. não faço nada o ano todo. e férias é de três em três meses tirando as interrupções que são férias disfarçadas. e sair às cinco e meia. imagina. é um trabalho santo. fogo, quem me dera, replica o outro. e vou continuando eu o discurso. tirando ter oito turmas com trinta miúdos em cada uma. centenas de testes para ver em duplicado ou triplicado todos os meses, mais trabalhos feitos e projectos. tirando reuniões que vão das cinco e trinta da tarde até às nove e meia da noite ou mais um pouco tantas vezes. para além de ter que atender e ouvir com atenção centenas de pais com milhares de problemas. para além de agora, até julho ter que corrigir dezenas de exames, ter feito sete vigilâncias de exames nacionais. estar na escola às oito da manhã sem saber a hora de saída. imagina o bom que é. não consegues imaginar. uma vida santa. imagina ainda que nas interrupções tens dezenas de reuniões umas seguidas às outras, às vezes só com cinco minutos para um café. e imagina ainda o bom que é quando lá por casa todos estão no sofá a ver uma série qualquer durante a noite, eu dizer: tenho só que ir ali ver umas coisas para amanhã para uma aula. e as horas passarem. e ser hora de adormecer de cansaço quando finalmente se chega ao dito sofá. por isso sim. é mesmo um trabalho fantástico. não é para qualquer um. e é que nem te vou contar mais porque podes ficar com vontade de trocar o teu pelo meu e depois lá vou para o desemprego. a sorte é que as pessoas que me conhecem sabem que digo isto tudo com aquele ar de que estou a brincar com tudo e mais alguma coisa. é pá, deixa estar. ainda assim prefiro ser engenheiro. pois. eu se não fosse professor também. e lá saíram umas boas gargalhadas. agora deixar de responder é que não... não vá ainda pensarem que estou de férias...

||| leituras [im]perfeitas...


||| música [im]perfeita...

||| das barbaridades do estranho direito à palavra...


||| ... quando há cinco minutos por aqui tendo a espreitar o que se escreve por aí. porque escrevo por aqui coisas sem pés nem cabeça. e a leitura, dizem, faz bem. sempre fui um acérrimo defensor que se deve ler, mas não tudo a qualquer custo. não é a mesma coisa ler twain ou margarida rebelo pinto. sinceramente, não é. mesmo. mas tirando esta dissertação absurda inicial deparo-me cada ver mais com a barbárie da palavra. e em questões de educação é assustador. talvez esteja a atirar uma pedra sobre mim mesmo. mas sinto isso quando leio. a barbárie da palavra. não tenho melhor termo. se por um lado começam a inundar espaços que tenho como referência alguns textos de uma moderna civilidade educativa pós liberdade, surgem também reflexões de afronta. como é esta [aqui]. tive o infortúnio [ou não] de ter estado num encontro onde o autor deste texto disse algumas coisa que julgava já impossíveis. agora aqui aborda esta questão do género. ouvi-o dizer que um dos problemas da [in]disciplina começou com a laicização do estado. eu não me importo que estes textos existam. acho até que são necessários. estou nos antípodas do pensamento deste autor mas isso nunca me permitirá dizer que ele não tem o direito de escrever. o direito à palavra é uma das coisas mais "sagradas" em democracia. o que me assusta é o pensamento. e para além disso, a visão simplista. se a indisciplina [e um dia escrevo sobre isso] é uma realidade, não pode ser resolvida com um toque de mágica por mais autoritária que seja a visão para uma civilização como o autor lhe chama. e pior do que isso. é mesmo o tom. a forma. a palavra bárbara. bruta. como se fosse preciso chocar para ser lido. para a palavra ter força. quando as ideias não o conseguem é geralmente assim que se atinge o que se quer. grita-se mais alto. e como hoje gritar não chega porque muitos gritam é preciso "abrutalhar" a palavra. tornar ofensiva. e não, não é provocatória. porque a provocação exige a subtileza da ironia sublime. mas não. a barbaridade da palavra subjuga o texto. assim é mais fácil ser comentado. é mais fácil chegar onde se quer. é só lembrar a "implosão" de um certo ministério. mas a poucos dias da beleza da palavra de sophia ser levada para um panteão [embora reconheça que não era preciso] fico pensativo. porque sou professor. e ainda bem que neste meu tempo são as palavras de sophia as "eternas" e as dos outros não. é essa a maior prova que a escola ainda pode ser o lugar da beleza das palavras. porque na escola, a barbaridade tem que ficar fora do espaço de diálogo. porque é de diálogo que falamos. e não desta esgotante e vil barbaridade das palavras. devíamos pensar nisto. a sério.