al berto
16/09/2014
||| elogio da desonestidade [da escola]...
||| ... por acaso não fiz. mas podia ter feito. podia ter dado aos meus alunos indicações sobre a avaliação. mas ontem, quando todos diziam: "olá, bem-vindos de volta à escola", saía um despachado despacho sobre o processo de avaliação. chegado o tempo de pausa para o ler, li. está, aqui, para quem não o leu. e li tudo. até quem assina. e passei pelos "grupos de homogeneidade relativa". posso discordar mas aceito que em alguns contextos fazem sentido, mas não integrados neste despachado despacho. e fui parar a tudo o resto. dispensados os que não fazem parte dos "estudos gerais". aqueles que, não por vocação, mas por opção voluntariamente forçada, vão parar a cursos profissionais, vocacionais e outros ais que tais, dispensados. não é preciso lá irem. podem estragar a coisa. a coisa é a média. o número. o registo estatístico. e os outros. aqueles que precisam de lá ir, vão lá até conseguirem igualar a média. duas vezes no nono ano. apoiados até mais não com apoios de todos os lados. e pensei alto. talvez alto demais. que desonesta escola esta em que terei que trabalhar. estarei, eu, a trabalhar para isto. isto que um gabinete qualquer faz chegar à escola no meu primeiro dia de aulas para me lembrar que estou a trabalhar para os exames. nada mais. só isso. para isso. e para estes exames. este sucesso estatístico urgente. para provar e comprovar a linha de rumo. mesmo que tudo seja manipulado em frente aos meus olhos e eu seja transformado num, em mais, um instrumento ao serviço de tudo isto. mesmo eu sabendo o que está ali, na lei, que me "mandam" ler. que me "mandam" cumprir. mesmo sabendo eu que estarei a contribuir para a desonestidade da escola. enquanto instituição. enquanto fim. enquanto objectivo. e está lá tudo. escrito, descrito. servido em prato dourado decorado com a exigência e o sucesso desejados. na escola, nesta escola que passa a mentir, a ser instrumento, tal como eu, professor, a quem isso foi lembrado no primeiro dia de aulas. resta cumprir, penso. ou resistir, desejo. ou dizer que a escola não pode e não deve ser isto. que isto tem que ter um fim. mas a máquina está afinada. está bem pensada. desgastada e sem forças para resistir. pandora abriu a caixa há muito tempo e só resta uma ténue esperança que uma catástrofe acabe com isto. a bem da escola. ou do que resta, dela...
||| a escola não é uma banda...
"é na limitação que se revela o mestre."
goethe
||| ... quando vejo partilhada a afirmação de josé gil, pensador por quem tenho imensa estima, penso muito. eu não gosto de ter no ministério que me "tutela" o pior ministro de sempre. queria o contrário. ter o melhor ministro de sempre. isso sim, partilharia. isso sim, seria motivo de conversa. e quando, ontem, ouvi as palavras de quem se julga maestro numa orquestra que não é sua, assustei-me.não mais do que já ando. fiquei foi no estado de susto. de suspensão. revi toda a filosofia e linha de rumo deste momento. tudo numa frase só. uma visão do que é a escola. do que querem que seja a escola, agora. a frase era limpa. sem qualquer preconceito ou desvio. uma harmoniosa descrição lógica do que se pensa. os alunos estão nas aulas a aprender. os professores estão nas aulas a ensinar. os alunos estão entregues e os pais vão lá visitar. e está feito. aqui, nesta frase, reside toda a política. toda a pedagogia. toda a linha de rumo. toda a ideia de escola. toda a normalidade. e não, a escola não é uma orquestra. é só mesmo isto. a visão mais limpa e mais pura que podia ser dada. para que todos entendam. não pode ser mais do que isto. é só isto, mesmo. e pode parecer simples. mas não é. é a ausência de tudo no mais puro e simples dos raciocínios lógicos. sem visão nenhuma. sem beleza nenhuma. sem nada. sem pessoas. sem espaços. sem projectos. sem apoios. sem inovação. sem arte, sem nada. uns ensinam, outros aprenderem e outros vão lá visitar. e mais claro não podia ser. é o resumo perfeito. para quem acha que tudo são erros e lapsos desta política ou que não tem linha de rumo, eis que aqui está. mesmo ao som da música da orquestra que diz o mesmo de forma mais eloquente tudo se resume a isto. a uma visão nula da escola. porque uma escola não é uma orquestra. nem uma banda. nem uma equipa. nem nada disso. nem é só o lugar onde se colocam uns para aprender e outros para ensinar e uns que lá vão visitar. não é só isso. é tudo isso e muito mais. e em cada palavra dita reside um profundo desrespeito pelo trabalho diário de todos. não só dos professores. mas de todos. mas ao menos fica claro. limpo. perfeitamente descrito. é isto que querem que a escola seja. só isto. nada mais. tudo o resto é dispensável. desadequado. inquietante. porque tudo é normal quando é assim. só isto. nada mais do que isto. nada para além disto. e é tão simples que ofende...
15/09/2014
||| e se não for um erro?...
"a matemática é a única ciência exacta em que nunca se sabe do que se está a falar nem se aquilo que se diz é verdadeiro."
b. russell
|||... vou admitir que alguém, ao fazer o formulário, numa fórmula qualquer difícil de conseguir passar para uma plataforma cada vez mais "obsoleta", se tenha enganado. vou também admitir que a ordem saída de um gabinete tenha sida mal interpretada e com isso a fórmula tenha tido um lapso. ou, como aqui explicado, seja um lapso matemático. vou admitir isso tudo. e que basta um clique de regresso para colocar tudo na ordem certa, mesmo com o caos que isso irá provocar, uma vez mais com gente já colocada nas escolas e apresentadas às turmas. mas vou admitir também o contrário. que não é um erro. talvez em contra-corrente. talvez porque sou um adepto profundo das teorias do absurdo [e da conspiração por consequência]. vou admitir que isto é uma estratégia. uma visão. uma forma de governar a escola num outro modelo que vem a nascer nos últimos anos. vou admitir que nada disto é um erro. que se quer dar às escolas o poder de escolher quem querem para o lugar que querem. que se quer destituir os professores de qualquer lógica de coerência no seu percurso profissional mesmo sabendo que este ano muito mais gente que era necessária ao sistema foi, por este, afastado. vou admitir que não é um erro. que é uma forma de juntar tudo numa coisa que já se passava separadamente e que ninguém conseguia ver por estarem todos preocupados com as suas árvores e a floresta era algo dos outros. é que isto já se passava. bem ou mal, com esta ou outra fórmula, já existia. os critérios de alfaiate. a lógica da escolha em detrimento da lógica de percurso de cada um, como professor ao longo dos tempos. do cada um por si, contra todos. estava e está implícita há anos no sistema que está a nascer. que nasceu com esta lógica da bolsa onde cabem todos sem caber só mais do que um para cada lugar. vou, por isso, admitir que não é um erro. que nunca foi. que ninguém se enganou ou leu mal a fórmula. vou admitir que é uma visão do professor como recurso dispensável numa lógica de mercado do salve-se quem puder e morra na praia quem tiver que morrer. que abandone o sistema e não chateie mais. hobbes já dizia que o homem era lobo do homem e assim fica provada a teoria que um modelo tão liberal tanto gosta de provar. vou admitir que não é um erro. mesmo sabendo que deve ser. deve mesmo ser. alguém introduziu erradamente a fórmula que baralhou tudo. deve ter sido isso. só pode ter sido isso. porque se não foi erro e é uma estratégia e visão para a escola e para os professores, então, está tudo dito...
nota oficial de explicação, aqui.
||| hoje é o primeiro dia do resto...
||| ... é assim. num ápice. última conversa antes de sair da sala de professores de chave na mão e livro de ponto. antes de verificar a turma para cumprir os primeiros rituais que se vão manter por um ano lectivo. olha-se para os rostos na lista. diz-se: lá vamos nós. e vamos. percorremos os corredores de olhar suspenso. vemos tudo. os miúdos que dizem olá. aqueles que reconhecemos. aqueles que são novos. há os sons, novamente. as primeiras advertências dos funcionários. as mochilas ainda novas guardadas. o movimento do primeiro caminhar para as salas. aqueles que não sabem onde são as salas. os mais pequenos que sorriem. os maiores que conversam. os encontros. os reencontros. os pais que vão deixar os miúdos ao portão. ou os avós. e o movimento adensa-se. torna-se visceral. vivo. intenso. a campainha marca a hora. ou a hora chega. abra-se a porta. pousa-se o livro de ponto e a pasta. ouve-se o arrastar das cadeiras e o burburinho que é preciso fazer assentar. respiramos fundo uma última vez. estamos ali. é a nossa primeira aula. é o nosso primeiro dia. do resto. de tudo o resto que está para vir. abrimos um sorriso. dizemos: olá, eu sou o vosso professor de... estamos de regresso. há nisto, toda a magia do mundo. e das coisas. há nisto, algo de tão imenso, de tão grande, de tão belo que só por isto vale a pena ser-se professor. bom regresso às aulas. bom regresso à escola. para todos/as.
12/09/2014
||| a bolsa ou a vida. ou o fim da lógica de tudo...
“ali chegamos; e à vista me estorço
de gente imersa em fossa:
todas esterco,
como se humano,
a cobrir cara e torso.”
inferno. dante
||| ... tenho que admitir que está bem feito. a destruição de tudo. e a publicação das listas da bolsa de contratação de escolas são mais um passo. o pior é que, deste lado, senhor ministro, também há gente que pensa. e hoje ao ser lançada essa ideia de que tudo já é possível, queria dizer, que tudo estava no caminho que traçou. mas as coisas são diferentes. nem o ocupar do tempo com um crédito horário lhe vale a leitura que qualquer pessoa sabe fazer deste momento. hoje é sexta-feira, senhor ministro. segunda-feira, em todas as escolas, começam as aulas. e hoje, senhor ministro, saíram as listas para as escolas a quem a bênção da autonomia tocou ou qualquer outra fórmula mágica assegurou o poder de manipular as regras. mas admito, senhor ministro. admito mesmo que é assim que se faz, sim. é assim que que destrói o que resta. já só restavam cinco por cento. e desses cinco ainda menos que isso a quem era preciso roubar a esperança e as forças. ou simplesmente retirar o tapete. fazer fugir o chão debaixo dos pés. então desdobra-se a esperança em subcritérios. diz-se que são aprovados. diz-se ainda que são claros. e que serão validados. e depois mistura-se bem. baralha-se tudo. e está feito. apresenta-se em forma de dezenas de listas em dezenas de escolas. que um só professor tem que consultar em dezenas de sites de escolas. onde estão baralhados todos os princípios que alguma vez nortearam um concurso para professores. desonestamente baralhados. com factores que faltam, em toda a linha, a uma verdade de facto e de conteúdo. e depois diz-se que está tudo feito. até se diz para ser dito que tudo foi muito melhor do que o ano passado. e que a normalidade abunda por aí. mas senhor ministro, deste lado está gente que pensa. está gente que sabe cruzar dados. e a matemática aprendida na escola ajuda. por isso, acho que é perigoso aprender matemática. ou por isso acho que é perigoso pensar. mas aqui, desta lado, ainda tem gente assim. que sabe ver as coisas para além do baralhar e voltar a dar. ou da desonestidade de todo um jogo que de tão maléfico já deixou de ter graça. senhor ministro, admito que está bem feito. que está tudo partido, como desejado. mas sei também, que todos o conseguimos ver. que todos sabemos como foi feito. que todos estamos revoltados. e não somos cinco por cento. somos mais, aqueles que injustamente o sistema quer descartar com mais uma pirueta para ludibriar os olhos e os sentidos e vencer a força para dizer não. mas não vence. estas bolsas são um roubo. da esperança. mas não são o que queria que fosse. um truque. é que todos, aqui deste lado, sabemos ver e pensar. e sabemos que este é mais um truque. e sabemos que já não tem a mínima graça. é que a bolsa é a vida. profissional e pessoal para milhares de pessoas. e isso, senhor ministro, não se apaga com estas coisas, mesmo que bem feitas, porque a escola é maior do que tudo isso e a verdade profissional de cada um de nós que sabe pensar, também. que fique bem claro. porque a justiça é sempre maior do que o nevoeiro. por muito denso que o senhor ministro deseje que ele seja. porque isto, isto que está feito, não se faz. a ninguém. a nada. e isso será o fim da história. por muito que tudo pareça normal.
||| dos sons simples da escola...
||| ... eram vozes crescidas que habitavam a escola nas últimas semanas. sérias. de tempos a tempos ouvia-se alguém rir. agora, vamos ouvir a vida entrar pelos portões. aquela gargalhada de voz limpa. aquela provocação dita em jeito mais brusco. aquele constante sussurrar e falar das vozes de muitos. é um movimento único que só um professor conhece. é o "olá professor" depois das primeiras aulas em que se segue o comentário: "este é o nosso professor de história, é fixe". ou então outro comentário qualquer. é a vida que retoma o seu sentido na escola. são os primeiros desafios de olhar. as primeiras coisas que se reencontram. o dizer: é pá, cresceste nas férias! o primeiro "mandar calar". a primeira provocação para testar. há nisto qualquer coisa de imperceptível para os outros. perceber e encontrar encanto nisto é coisa de professor. de uma certa loucura. é preciso abrir a porta da sala antes da aula. e fechar os olhos por um segundo. e ouvir. ouvir o som da escola. nenhum outro é igual. nenhum outro tem a dimensão humana daquele. são crianças, antes de tudo o resto, que passam, vivem e habitam aquele espaço comigo, professor. não importa se são do secundário ou do básico. se são altos, magros, gordos, simpáticos ou antipáticos, rufias ou espertos. são eles, o som da escola. que a habita. que a torna única. que a faz, escola. é só experimentar. fechar os olhos por um segundo e ouvir a escola. viva, outra vez.
||| do ritmo das coisas lá em cima...
||| ... nunca percebi esta coisa de tudo dar muito trabalho ou ser muito complicado. na escola é sempre assim. ui... muito complicado. ui... isso dá muito trabalho. quando não se resume a um simples: não dá, é impossível. que vem acompanhado por um rol de coisas: porque chove. porque não há enquadramento [adoro esta expressão]. porque faz sol. porque são muitos. porque são poucos. porque ninguém adere. porque... é sempre assim. há uma coisa que os meus alunos sempre me dizem: fogo professor, para a sua disciplina é preciso trabalhar muito. não é muito. é só trabalhar. mesmo. os prazos são para cumprir e as coisas para fazer. e sim, é preciso pensar no meio disso tudo. fogo, professor mas é puxado. pois é. tem que ser. este é o vosso tempo. e o meu. o tempo que temos em conjunto. nele habitamos. nele, aprendemos. se assim não for o que é que eu estou aqui a fazer? se fosse assim tão fácil com tudo na escola... mas não é. o pior é enfrentar as coisas que sempre se fizeram. como se fossem moinhos de vento e eu fosse cavaleiro sem vergonha. sempre se fez esta visita. sempre se fizeram estas semanas abertas. sempre... sempre desde quando? antes disso o que se fazia? e depois disso o que se pode fazer? é quase como se o universo inteiro fosse explodir se não se for a este ou aquele museu e e for a outro ou se propomos uma coisa diferente para uma semana aberta. é curioso, isto. porque sou daqueles que acha que a escola deve mudar. deve ser agente de mudança e não de conformismo nem de conformidade. mas se tem que ser assim, que seja, mas só um bocadinho diferente. com trabalho. porque mudar, fazer diferente, dá trabalho, sim. mas essa devia ser a essência da escola. a mistura de ser linha da frente com o trabalho que isso dá. devia ser. talvez faça essa proposta. mais uma vez. para dizerem... ui... isso é muito complicado...
11/09/2014
||| portas abertas na escola...
||| ... mais um ano. é bom. enquanto houver escola, é bom. aberto hoje, mesmo que seja daqueles momentos de cortar a fita. não importa. a escola é uma das mais belas conquistas civilizacionais que temos. e estamos num tempo único. nunca, tantos, tiveram acesso a uma escolarização tão massiva como nos dias de hoje. falta fazer muito, mas a escola abrir portas, mais uma vez, é sempre uma conquista a ser relembrada. é sempre neste dia que relembro um mito/lenda ancestral sul americano muito conhecido. e este ano lectivo, como nunca, faz-me imenso sentido. quando a terra foi criada haviam quatro titãs que a suportavam no céu. com o seu peso nas suas costas viram o homem aparecer. o homem construir casas e povoou a terra. e o seu peso aumentou. os titãs, feitos ar, água, terra e fogo, suportavam tudo aquilo. mas pediram, em troca, uma coisa ao homem. que fosse bondoso. quando o homem traiu pela primeira vez esse pedido, os titãs deixaram cair a terra e esta ficou a flutuar sem apoio no espaço. abandonado pelos quatro titãs o homem foi salvo por um último. a luz. o sol. que condenou o homem a procurar, para sempre, a bondade perdida. e gosto sempre muito desta história. e relembro-a sempre neste primeiro dia. mas este ano particularmente. a razão é simples. é que, desta vez a terra caiu. despedaçou-se. e só resta uma coisa. alguém que a segure. a terra feita escola. feita em pedaços. e os professores, aqueles que todos os dias vão entrar na escola, serão os únicos que a conseguirão segurar. e isso começa hoje. porque todos sabemos que será, em cada sala, em cada hora, que seguraremos a escola. nós, os únicos que o vão fazer, quando o sistema inteiro está em forma de "deixar cair". nós vamos segurar a escola. manter. cuidar. em cada dia que vai passar. cansados, desgastados ou revoltados. mas vamos. é por isso que somos professores. é o nosso dever maior. mesmo sem esperar nada. nem um obrigado. porque a conquista da escola é maior do que tudo o resto. porque sabemos isso como ninguém. seguremos pois, a escola, aos ombros, na esperança que um dia, os deuses revelem a bondade esperada.
||| não podemos esperar o que não ensinamos...
||| ... está quase. quase o momento em que vamos com a chave e o livro de ponto na mão para os encontrar. ao seu encontro. gosto destas palavras antigas. ir ao encontro deles. como eles. gosto da imagem que isto cria. esta ideia da palavra certa. não é ir dar uma aula. a primeira aula não se dá. vai-se ao encontro deles. como eles, ao nosso. pode até ser um reencontro. mas é um ir. e um devir. um dever. que nasce ali para um ano lectivo. novo. ou repetido. mas é um encontro. muitas vezes é uma primeira impressão. de impresso. de escrito. o que fica escrito naqueles primeiros minutos em que, ainda, a voz nos falha. em que olhamos primeiro para o fundo da sala e depois para cada um deles, um a um e todos juntos, para os desvendar. está quase. e relembro uma máxima que tenho como professor desde o primeiro dia em que dei aulas: não esperes nada que não tenhas ensinado. mas surpreende-te sempre. é uma premissa estranha. mas gosto muito dela. relembra-me sempre que tenho o dever de ensinar tudo. o que sei, o que quero que eles saibam, o que não quero que eles saibam. e como gostava que eles fossem como estudantes. tudo. do mais simples cumprimento de bom dia ao mais complexo conceito abstracto da história da humanidade. tenho que lhes ensinar tudo. das regras de civilidade que espero que tenham comigo e com os outros ao processo de resposta lógica a um dilema. do entrar na sala ao sair da sala. mas que esteja sempre de alma aberta a ser surpreendido. apanhado por uma coisa que não sabia e que aprendo. de um miúdo que fala de algo que nunca esperei que ele soubesse. aberto a isso como uma conquista e uma surpresa reservada aos dias mágicos. está quase. o abrir da porta. os olhares. o sorriso e o bom dia que é preciso ensinar também. e ainda bem.
10/09/2014
||| as listas do que se quebra...
||| ... cito: publicitação das listas definitivas de ordenação, exclusão, colocação, não colocação, retirados e colocações administrativas - mobilidade interna e das listas definitivas de ordenação, exclusão, colocação, não colocação, desistências, renovação e retirados - contratação inicial/reserva de recrutamento. eram os restos, segundo quem manda. o que restava "colocar". este conceito de armazém fica sempre bem na boca de quem dirige. é para colocar ali. ou não colocar em lado nenhum. ou por lapsos estratégicos e outros estratégicos lapsos, retirar. afastar. arrumar. os restos. os que restam. dito. o que falta, os cinco por cento. não sei quantos professores existem. nem este espaço quer fazer o que outros fazem muito melhor noutros espaços. mas se forem cem mil, cinco por cento ainda é muita gente. sim. o problema é esse. é que são pessoas. gente que tem décadas da função de ensinar. eu sei, não há dinheiro para tudo nem a duplicação de recursos alguma vez funcionou em nenhuma "empresa". mas aqui, não estamos a falar disso. estamos a falar da forma. da forma como a coisa é feita. da falta de nobreza. da falta de elevação de espírito. da falta de consideração. da esperteza saloia da coisa. da traição. e ontem ouvia um relato de uma professora que ficou sem lugar nestes restos anunciados como tal. é que, há uma coisa, que se quebra. cá dentro. dentro de cada um que ficou "de fora". quebra-se uma coisa fundamental. a confiança. não é receber um obrigado e um "já não é precisa no sistema". é mesmo uma coisa que se quebra. por muito que se combata tudo isso. olha-se agora para o sistema como isso mesmo. um sistema. que desconsidera a pessoa e considera a função. onde o "descarte" é mais relevante que a "dedicação". e com isto quebra-se tudo. pode parecer estranho falar disto. mas a desumanização da escola começa aqui. em cada um deixado de fora, mudado de lugar, colocado em frente a turmas sem condições de saúde ou com de cansaço. e o que importa é que nada disso parece importar. é aí que reside a falência da confiança. é aí que reside a desumanização. é aí que reside o fim da escola. quer queiramos ver, quer não...
||| a primeira aula. como a primeira impressão...
||| ... pedagogia: determinante para a relação professor-aluno, a primeira aula marca a forma e as regras de co-relação para professores e alunos e para os alunos enquanto turma. esta é uma forma de co-construir essa relação num primeiro passo estratégico assente na confiança e respeito individual e colectivo.
||| ... metodologia: esta é uma aula que exige preparação prévia por parte do professor e que o mesmo realize, ao mesmo tempo que os alunos, todas as actividades. na sala é colocada uma tira de papel de cenário com três a quatro metros numa parede. o professor deve ter consigo marcadores para papel ou carvão para desenho. distribui, antes da entrada dos alunos, pelas mesas, duas a três folhas de papel de jornal, uma tesoura, cola de papel e uma cópia, por mesa, dos primeiros artigos da constituição portuguesa. após a entrada dos alunos, sem fazer a chamada ou a sua apresentação, o professor pede aos alunos para irem à folha de papel de cenário escrever o seu nome. voltam a sentar-se e o professor pede aos alunos que recortem o papel de jornal com a forma da sua mão direita. relembro que o professor faz todas as actividades como os alunos. depois de recortados os jornais os alunos vão colar à folha de papel de cenário as "mãos" recortadas espalhando-as de forma aleatória. feita esta parte da aula, o professor pede aos alunos para se apresentarem dizendo o nome. terminada esta apresentação, o professor pede a um aluno para ler o primeiro artigo da constituição portuguesa. e pede a outro aluno que vá escrever, em letras grandes, o mesmo artigo "serpenteando" as mãos e os nomes. terminado esse registo, diz aos alunos que vão ter, em conjunto, que definir uma única regra para as suas aulas. registando no quadro as ideias ajuda a formular o princípio/regra final. esta regra deverá ser escrita, também, no papel de cenário. depois de concluído todo este conjunto de actividades, o professor pede aos alunos para se levantarem das mesas e irem colocar a sua mão direita no local onde colaram o recorte de jornal. apresenta assim o fim da aula, referindo que os alunos, estão agora "ligados" a uma regra que terá validade para todo o ano lectivo. construída por todos e em que cada um se compromete colocando a sua mão como prova e "assinatura".
||| ... esta aula tem como tema: a co-construção da relação pedagógica pelo comprometimento individual e colectivo. esta aula é uma forma diferente e criativa de apelar ao envolvimento dos alunos pela decisão colectiva e pela valorização do comprometimento individual. é também uma forma para o professor conhecer cada aluno numa relação de construção de uma actividade, assim como, das suas capacidades e conhecimento iniciais.
||| eles, são só letras, ainda...
||| ... estas primeiras reuniões. onde ainda falta gente. sim, gente. tudo são só números e letras. e planos. e discussões para caracterizar a turma. e levanto o dedo. e digo: ainda não são uma turma. são um bando. levam a mal. a palavra bando é antiga. ninguém a usa. ganhou mau nome. era só para dizer que ainda não são uma turma. são só miúdos que se vão juntar todos nos mesmos espaços, às mesmas horas. e lá surgem os dados. não sei quantos porcento dos pais frequentaram o ensino secundário. há x negativas do ano passado. há casos "referenciados". expressão que detesto. e alguém diz: é pá, estes dois juntos é que não podem ficar. e levanto o dedo. mas eles não são os mesmos do ano passado. sabem isso não sabem? mudaram. e nós também. e lá vem o olhar. o tipo é louco, não é de ligar ao que diz. a conversa segue como o que tivesse dito fosse um eco. um devaneio de um miúdo que não percebe nada disto. e é preciso fazer a planta da sala. a proposta já vem pré-fabricada. e como se fossem peças de xadrez toda a gente dá o seu palpite. muda o número treze, joana, para a frente. e levanto o dedo. eu não uso esta disposição de sala de aula. como faço? [e deixei de dizer para perguntar]. depois de mais um olhar em jeito de loucura assumida e reconhecida por todos, alguém diz já cansado de me aturar: o colega faz como achar melhor. e pronto, está resolvido. ninguém parece já conceber outra disposição para a sala de aula. e lembro-me do que um dia me disseram: se alterares o contexto podes alterar os comportamentos. nem vale a pena levantar o dedo novamente. a sala de aula é como aquele mapa militar. estanque. mesmo que os rios e as serras não se vejam por ali. faz sentido. é militarmente válido. quase a acabar a reunião digo que tenho umas propostas para a minha disciplina que gostava de apresentar para ver como articular conteúdos com as outras. falo durante cinco minutos. umas visitas de estudo, um laboratório, um acampamento. um quê? colega, essa coisa das articulações tem que ser noutra reunião. não temos tempo aqui. mas deixe as propostas que integramos no plano anual se for possível. o tempo. esse ser danado. penso eu. e olho em volta. sou o único que não tem uma agenda. ou um caderno com apontamentos de turmas e coisas que tais. tenho um bloco de notas e um lápis. todos os anos entro numa reunião destas com a esperança que alguém diga: vamos lá preparar isto em conjunto. saio da reunião com papéis. e a saber que não sei quantos por cento dos educadores dos meus miúdos frequentaram o ensino superior. nem o nome dos meus colegas fiquei a saber porque foi tudo rápido demais. e retomo o que disse. um bando. falta a turma. e falta o conselho. falta tudo.
09/09/2014
||| não é esta a escola que eu quero...
"quando a luz se apaga nas janelas
perde a estrela d'alva o seu fulgor"
canção de embalar, josé afonso
||| ... não quero esta escola. não quero mais esta escola. clamo por prometeu, para vir devolver o fogo roubado aos deuses. e que de pandora, aberta a caixa, ainda fique a última virtude: a esperança. que seja ela a força que falta agora. não quero mais esta escola. e se ninguém diz, digo eu, não gosto desta escola. não gosto de ser professor nesta escola. gosto de ser professor. mas esta escola não é a minha. já nem escola é. é um agrupamento. um ajuntamento. não. isto não é uma escola. é um sistema. é outra coisa qualquer. uma escola não é o lugar onde se ouve mais a palavra: cumprir. é onde se ouve mais a palavra: aprender. e é preciso dizer não. alguém que diga que não. não é esta escola que tem que existir. nesta escola estamos a perder o fulgor. nesta escola estamos a perder a força. nesta escola estamos a fazer resvalar para o inútil o conhecimento e o saber. estamos a cumprir, funcionários que fazem cumprir e por cumprir. metas, resultados, objectivos. cumprir. obedecer. estamos a trabalhar para uma tabela. devíamos trabalhar para uma única coisa. para o saber dos nossos miúdos. fazer deles estudantes. fazer deles pessoas. não como esta gente que quer continuar com esta escola. essa gente não. gente. com alma e com saber para enfrentar o futuro. não quero esta escola. quero uma escola onde o "aprender" esmaga o "cumprir". onde o "estar" esmaga o "andar". onde os professores recuperam o brilho. a força. o tempo. roubado o tempo, roubam-nos agora o fogo. o fulgor. passamos todos a andar de cá para lá com papéis na mão o dia todo e as nossas salas de aula são lugares sem espaço ao desvio do pensamento porque tudo é para cumprir. basta. chega desta escola. eu não a quero. posso ser só eu. deve ser de mim que estou mal programado. devo ter mais esse defeito. mas não aceito. não me resigno. não me calo. e não quero. não aceito. é simples. para que fique bem claro. não quero esta escola. e sei que escola quero. agora, digam o que disserem, este é o meu manifesto. por isso, chamo por ti, prometeu. vem trazer, de volta, o fogo aos homens. estamos a precisar. muito.
||| dos limites, se houver...
||| ... viagem feita. seis horas para duas de conversa. dá para pensar pelo caminho. vim com uma reflexão presa no pensamento. na conversa coloquei a questão os "pré-conceitos" das avaliações e análises que se fazem sobre as condições dos alunos, geralmente, nestas primeiras reuniões de professores. que comigo, eles, os miúdos que quero que se transformem em estudantes, partem sempre do zero. que gosto de não saber nada nesta altura. de gerir o primeiro encontro com eles de forma "limpa". sem aquela coisa que muitas vezes sai da conversa: esta turma é preciso ter mão firme. ou aquele miúdo tem que se ajudar. e a questão colocada levantou-me dúvidas. há uma peça de teatro absolutamente fantástica que recordo sempre. chama-se "a dúvida". é de john patrick shanley. foi, em dois mil e oito adaptada ao cinema com dois brilhantes actores. mas o livro é melhor do que a peça ou o filme. eu tenho dúvidas. as pessoas não estão habituadas a que, alguém que é convidado para falar sobre um assunto tenha dúvidas "em directo". mas tive. e disse o que digo sempre nessa altura: tenho que pensar mais nisso. é simples. não é a resposta que desejam ouvir mas é a que realmente é útil. e fiquei com a dúvida. a ponta solta para o pensamento gerar uma ideia. ou uma co-relação de ideias. tenho uma premissa inicial em que pensei. acho que um director de turma ou alguém que dá informações aos professores sobre o que se passa na esfera [privada/íntima] da família que, através de um educador representa esse espaço numa conversa com a "escola" só deve partilhar em contexto de reunião o que seja verdadeiramente útil e oportuno para a gestão da aprendizagem ou do comportamento. é que a nossa bondade, virtude sempre necessária, muitas vezes coloca na mesa da escola o que deve ser feito por outros, mesmo que na escola. e a conversa foi seguindo com aquelas dúvidas concretas: e se um miúdo mudar de casa para mais longe e começar a chegar atrasado. e se... os limites. foi nisso que vim a pensar. se a minha premissa se mantém como lógica, isto é, partilhar o que é relevante para a gestão da aprendizagem e do comportamento, onde se encontra o limite já não é tão simples. e depois, em conversa de fim de noite, já em descanso, introduzi um novo conceito: as considerações. o problema não é dizer que os educadores de um miúdo estão desempregados. são as considerações, depois da informação. que transformam a coisa: coitado do miúdo. e a realidade passa a ser outra. a informação deixa de ser informação para ser cercada de julgamentos de valor ou criação de estereótipos. os limites, eram a pergunta. onde estão. e não tenho resposta. ainda. tenho dúvidas. muitas. preciso ouvir. e pensar. e ler. e pensar. e rever. e pensar. mas fiquei com isso guardado no bolso para, quando tiver pensado, trazer de volta.
08/09/2014
||| ainda temos escola?...
||| ... a pergunta apareceu sem mais nem menos. hoje que estou a regressar à escola. ainda temos escola? sim, escola, de lazer. é estranho ir à origem das palavras. é que o lazer é o tempo permitido. lícito. e será lícito então dizer que ainda temos escola? ou teremos outra coisa. houve o tempo do "sistema escolar". agora é tudo coisas com siglas que já nem permitem adivinhar o que quer que seja. os nomes das coisas sempre me importaram muito. restam poucas escola com o nome de um escritor, poeta ou figura insigne. isto tudo porque tive que colocar no google maps o nome da escola. ainda estava a designação antiga. gostei disso. escola secundária poeta tal. é bonito. mas logo a rectificação apareceu. agrupamento de escolas da terra tal. é estranho isto. a terra ter um agrupamento. não é estranho o agrupamento porque já nada disso parece estranho mesmo sempre. é estranho o nome do poeta não estar lá. fui à procura da poesia, por causa do poeta. lá o encontrei. mas disso já não resta nada no nome da escola. curiosamente os mais velhos, sentados nos bancos de jardim, quando se pergunta pela escola, não sabem. é o liceu. o liceu é ali ao fundo, virar à direita e dá com ele. se eu perguntar pelo agrupamento, como uma vez já me aconteceu, mandaram-me para o quartel dos bombeiros. é curioso isto da escola que já não existe. que já não temos. nem liceu, nem escola, nem poeta, nem agrupamento. passei [sim, porque não uso, a maioria das vezes o gps] a perguntar pelo espaço escolar da terra. respondem-me sempre em jeito de pergunta: dos mais pequenos ou dos outros. é do outros. ah... é virar à esquerda ali ao fundo. dificil de perceber isto. de tão moderna que se quer a coisa que a escola já nem tem nome. curioso isto. hoje que estou em viagem, penso mais nisto. talvez dê com a escola de destino. ou então posso sempre dizer que é ao pé do centro comercial, a coisa, lá perto...
||| a soma de todos os erros...
||| ... sim. ainda anda a ressaca dos erros pelo ar. e da desconsideração. e ainda nem o ano lectivo começou em pleno. mas não é disso que me recordo hoje. recordo-me de uma conversa. conheço a susana há uns bons anos. já não os conto que parece mal. ela e o fernando são duas pessoas que tenho em elevada consideração como pessoas e como professores. são, aquilo que um professor deve ser e um pouco mais. são pessoas bonitas. o que é bom. nem sempre nos cruzamos com pessoas assim. mas regresso à conversa. a conversa foi há um tempo. já não me recordo. um ano, dois anos. por aí. sou formador de professores e como tal cruzei-me com a susana nesse contexto. eu do lado de cá e ela do lado de lá. mas o reencontro, recordo, foi no contexto de uma visita exploratória ao museu da electricidade em lisboa/belém. e naquele tempo que antecede o começo e no correr da conversa e da normal pergunta: então e escola? saiu aquilo. muito complicado. este ano tenho dez turmas. não sei quantos níveis. e podia parecer estranho. mas não era. era um prenúncio. do que este ano ainda se agravou mais. embrulhado no discurso: "estamos todos no mesmo barco" e "vão dando graças aos deuses por terem trabalho", fazem-se coisas impossíveis. entregar a um professor dezenas de turmas com dezenas de níveis é de uma insanidade plena. e vestido de um discurso de comiseração que destrói qualquer vontade ou força de resistência à "esmola" dada. e o mais curioso nisto tudo? que se não fosse tão triste de ver e viver seria somente curioso? é que tudo isto revela duas coisas. a primeira é que o desgaste, o cansaço, a força ou perda da mesma ocorrerá muito cedo. e um professor vive da força que tem. da vontade. da energia. precisa dela em cada dia. em cada hora de cada dia. em cada aula. sem ela é um funcionário, somente, cansado de funcionar. mas revela ainda algo maior. que ser professor é um exercício de uma vontade brutal. maior do que tudo o que "atiram" para cima de cada professor neste tempos que correm. uma vontade, não só feita pelo "ter emprego" mas pela verdade do simples acto de ensinar. não é uma vocação como lhe chamam. mas é uma dedicação. um acto dedicado. e isso, por muito que queiram destruir é quase impossível. porque enquanto houver vontade haverá luta. resistência. ou simplesmente esperança. e hoje que me recordei desta conversa, recordei-me ainda mais deste pensamento que me habita há muito sempre que os tempos se complicam. é tão difícil vencer a vontade de ser professor. e isso é o mais belo que temos como grupo profissional. mesmo que ninguém o veja. vejo eu. hoje, ao recordar esta conversa.
05/09/2014
||| do bom de ser professor...
||| ... pim. novo email. "ó professor, vai ser nosso professor este ano?" a resposta era não. mas não importa. importa a memória. somente isso. e a ideia. e a necessidade. ou o sentir que somos precisos. há nisto algo de brilhante. não tenho outra palavra para o descrever. de brilhante. que brilha. em nós. "olá catarina, não. infelizmente não vou. mas estou sempre aqui deste lado para o que precisarem. e quem sabe faço um dia destes uma visita aí à escola só para vos ver." e vou à agenda. marco lá um dia. uma hora: visitar o nono ano na escola x. porque se assim não é, não vou. o correr dos dias passa depressa demais. nunca lá voltamos. e eles sabem isso. porque muitos de nós, professores, dizemos que voltamos. mas custa. ou simplesmente não temos tempos para lá voltar. mas seria e é, importante voltar. e quando vou e digo: "vim só dizer-vos olá!" recebo sempre do outro lado um comentário: "ó professor, não se esqueceu de nós!". pois não. foram aquele marco na agenda. e na vida. feito quando ainda havia tempo para planear as coisas. mesmo que seja longe. e isto importa. para eles. com as devidas desculpas para quem está na sala e agora é "o seu professor". mas entrar, dizer olá, dizer: não esqueci. é relevante. nem que sejam só cinco minutos. fecho a agenda. tenho já três visitas para fazer este ano...
||| das lições da história das coisas...
||| ... e fui lendo e ouvindo. em conversa ou em sussurro. "pior não pode ficar". e isto foi no ano passado. e eu, com aquele humor negro que às vezes me salta da boca dizia: "ainda falta a parte em que queimam papéis. esperem." na história, quando um regime está em fim de linha, há sempre alguém, em algum gabinete que queima papéis. os rastos das coisas. era e é só uma imagem. agora é mais moderno. há umas máquinas que transformam os papéis em tirinhas. tirando a ironia disto tudo, digo que novamente que ainda nem aí estamos. abro o mundo virtual para o espreitar pela manhã. as notícias sucedem-se. erros nas aplicações para colocação de professores. prazo alargado mas a coisa não está melhor. ou está melhor às quatro da manhã para desespero de tantos. menos de vinte e quatro horas para dar uma respostas. directores em modo de "farmácia de serviço". reuniões gerais em pavilhões onde se escuta: aproveitem que o trabalho está a faltar para todos. mesmo que muitos tenham dez níveis numa disciplina. e horários por preencher. escolas ainda a aguardar orientações que não sejam só: este professor vai para aí. rescisões criadas em minutas feitas em copypaste. estamos nisto. e não. ainda não estamos na fase de queimar papéis. embora cheire a saída da equipa que desgoverna o sistema, de si, maquiavélico, ainda estamos noutra fase. no "pouco importa". há nos regimes historicamente em declínio um momento em que quem governa decide entre quatro paredes. não, não é como sempre. é diferente. é que mesmo no início, quando as quatro paredes mostram a quem governa uma realidade diferente do que a que cada um vive fora daquele espaço mas ainda há uma ligação com o real. com o dia-a-dia, nem que seja pela memória de trabalho. aqui, estamos na fase em que esse desligamento aconteceu. a plataforma está a dar erro? não importa. está tudo normal e que tudo se corrige. porque já deixaram, verdadeiramente, de interessar as pessoas. os professores que estão do outro lado. é o sistema. é assim. e este alheamento da realidade é que leva ao declínio profundo do governo da coisa. porque é a fase em que quem está do lado de cá olha para tudo e só vê absurdo e desconsideração. em que o desgaste mata a pouca ou nenhuma fé que existia na lógica que diziam haver nisto tudo. e por isso os erros sucedem-se. e por isso, o desrespeito é maior. nos gabinetes tudo se passa a resolver com uma correcção. rectifica-se. não importa o erro, importa o fim. por cima de tudo e de todos. não importa a hora a que se telefona, o dia em que se publicam as listas. isso não importa. importa que aquela realidade desligada já da realidade das coisas se mantenha [aparentemente] viva. o problema final é só um. e já aconteceu. é que já ninguém os ouve. já ninguém acreditada. há só um sentimento brutal de afastamento, raiva e desconsideração. e sim, é aqui que se segue o queimar dos papéis. mesmo que ninguém o veja. mesmo que pareça que vai tudo ser cumprido. queimou-se tudo. o futuro, também.
04/09/2014
||| sim, mas amanhã...
||| ... todos os anos, a mesma coisa. os materiais. as primeiras aulas. os planos. anuais e coisas que tais. repetidos exaustivamente em capas empoeiradas para "inspecção" ver. amarelos de tão gastos e tão inúteis. e depois em reunião [agora quase concílio de tanta gente junta] as palavras de sempre. cooperar, partilhar e coisas que tais. e no fim das reuniões aquela mão sobre as costas do colega que diz: podias emprestar-me aquelas fichas do ano passado sobre esta primeira matéria? sim, as mesmas que até tinham ficado no dossier mas que, como ninguém lá vai ver, ninguém sabe que estão por lá. é uma cultura que se intensificará neste ano. pela ausência do "tempo" para parar e pensar em conjunto. pelo individualismo a que votámos cada um de nós na escola. ao cumprir necessário do inútil para vã-glória do sistema. ainda me lembro das boas experiências que tive. reuniões que eram momentos de construção de materiais. discussões sobre as melhores formas de abordar um tema. trabalho conjunto e em conjunto. útil. mas tudo isso agora parece uma vaga memória. andamos todos numa incessante busca para encontrar algo feito por outros ou para nós. com isto perdemos uma parte da força de sermos professores. passámos de criadores a consumidores. a precisar por falta de tempo, força ou vontade. por ser mais fácil. e com isto, perdemos a forma de fazer e ser diferentes como profissionais. o sistema criou a forma e a desculpa perfeita. esmagou a lógica pedagógica. transformou-a num agitar constante da repetição. de tudo. dos conteúdos aos recursos para os ministrar. dos desafios aos dias em aula que deviam ser medidos em minutos. e com isto, perdemos, todos. mais uma vez. pior, perdemos aquilo que nos faz ser quem somos. porque ser professor não é ser técnico. é ter nas mãos o saber imenso e capacidade imaginativa de criar formas de ensinar e de aprender. e, roubado isso, resta muito pouco. muito pouco, mesmo.
||| do uso da palavra...
||| ... quase nenhuma outra profissão tem este desígnio. o do nobre uso da palavra. dita e escrita. nisso, a responsabilidade dos professores é imensa. e não é só na forma como recentemente a questão se levantou. a forma é apenas a sombra da verdadeira importância do uso da palavra. é do respeito e pela consideração pelo dito. pelo escrito. pela dimensão. pela revelação da palavra como modelo exemplar da lógica. como instrumento de educação. pela compreensão e pela dimensão pedagógica da mesma. tudo isto porque, cada vez mais, se lê e vê nas chamadas "redes sociais" o desbaratar da palavra. na forma, conteúdo e dimensão. seja por um comentário mais brejeiro. seja pelo arremessar das palavras como pedras, sem o polimento necessário do pensamento para quem [ou a quem] cabe a nobre missão de ensinar. se cabe aos dirigentes esse mesmo respeito pela verdade da palavra, cabe a quem acusa ou reivindica, em educação, o elevar da forma, do conteúdo e da dimensão. é simples. porque o respeito pedido é ganho também assim. não pelo exercício contrário. não por levar para a rua o discurso ou a acusação desprovida de sentido. expressar o sentimento de desagrado pode ter muitas formas. mas cabe a quem é professor dar o exemplo. dar o exemplo que a palavra é sempre mais importante do que qualquer explosão de vontades ou inquietações por mais intensas que sejam. é o exemplo. é sempre o exemplo que fica. para nós, para quem dirige e para os alunos. sim. esses que também sabem ver que a palavra tem, em si mesmo, uma razão. e hoje apeteceu-me pensar nisto. falar disto. mesmo irritado com um sistema impossível que tudo desgasta.
03/09/2014
||| do bunker ou da ausência da realidade...
||| ... a resposta [aqui]. pronto. está tudo bem. é preciso fazer os horários. ver os professores. e há noventa dias para se ser desempregado. não é preciso ir a correr. disse uma vez que este espaço não seria para considerações políticas ou de "governança". nem gosto da pessoalização da coisa. é por isso que vou alargar esta reflexão. há um momento em que sabemos que estamos ultrapassados pelas circunstâncias. aquele que todos lembramos. no iraque. em que o ministro dizia que estava a ganhar a guerra com os militares a poucos quilómetros. ou quando o reich era bombardeado às portas e o mestre de cerimónias movimentava divisões no mapa que já não existiam. estes são aqueles exemplos radicais. mas há outros. mais simples. quando um professor diz na sua sala de aula qualquer coisa que a ciência já provou não ser assim. porque as coisas vão evoluindo. ou simplesmente porque estamos desligados da realidade para além do dia a dia. ou porque essa realidade tem a forma que desejamos que ela tenha. estes discursos em jeito de resposta são isso mesmo. há uma palavra que define isto. alheamento. não, não é no sentido de afastamento ou desconsideração. é no sentido de observação sobre um prisma. uma perspectiva distorcida. uma irrealidade que é, na verdade, uma realidade pensada apenas. é por isso que isto é perigoso. no sentido que carlos fiolhais escrevia outro dia. é perigoso porque é incompetente. e novamente a palavra. não de falta de competência. mas falta de capacidade de real implementação ou execução. de cumprir um fim. uma decisão de gabinete é sempre assim. ouvia um governante recentemente dizer: não se pode ter um tribunal há porta de cada cidadão. e são só cinquenta e nove quilómetros. só pensei: ir. é que ir e vir são cento e vinte. e sessenta quilómetros em autoestrada são vinte e tal minutos. mas numa estrada nacional é mais. muito mais. e nem toda a gente em carro ou condições próprias para isso. mas isso é a outra realidade. a que não está nos mapas. é a mesma coisa quando alguém diz: até dia onze ou quinze está tudo pronto nas escolas. tudo lá colocado. tudo em andamento. tudo pronto. é só fazer um clique. alguém num gabinete fazer um clique. surgem as listas. as colocações e tudo o mais. mas as aulas, sim, aquela coisa que é "devida" aos professores, começam no dia a seguir. ou em quarenta e oito horas se houver sorte. horas para preparar tudo. a mala para a viagem. os horários. as rotinas para estabelecer. para muitos, arrendar uma casa nova para ficar a mais de cento e tal quilómetros de casa e as histórias que tais. e no dia seguinte estar a dar uma aula. uma de muitas. porque eles, os miúdos, não podem sofrer com este sistema. e paro por um instante. vou reler uma frase lida ontem muito depressa: as pessoas somos nós. quando dizem: as pessoas tem que compreender que... as pessoas somos nós. e as pessoas que podem ter noventa dias para se inscrever num centro de emprego, perdendo cada dia em que não o fazem o seu rendimento, somos nós. professores, mas pessoas primeiro. somos nós. e isso é muito mais real do que qualquer mapa, lista ou clique feito num bunker. é tão simples quanto isto.
||| uma bolsa, a bolsa ou medeia...
||| ... imagino sempre a beleza de medeia. jasão, homem imprudente mas herói consagrado tem daquelas paixões que não existem por serem feitas por encanto. mas o que gosto é daquilo que ninguém se lembra. é que medeia teve um filho. chamava-se medo. e é medo que medeia tenta matar. curioso. isto tudo enquanto olho para a bolsa de contratação de escola que agora aparece inventada lá para os lados da direcção geral das coisas da gestão de recursos humanos da educação. diria, como eduardo lourenço, que tudo o que está dito está nos clássicos da mitologia. o resto são imitações. se a ideia que o imaginário colocou sobre medeia foi a da serpente de muitas cabeças, a verdade é que nada representa melhor tudo em que está transformado o processo de recrutamento de professores do que essa mesma imagem. são tantas pontas, tantas cabeças, tantas formas e fórmulas que já só o medo faz sentido e até parece preciso ser salvo. é tudo tão desgastante. tão emaranhado. tão estúpido. tão estranho. façamos o seguinte exercício. uma escola precisa de um professor. então há tanta coisa para se passar para o lugar ser ocupado que nos perdemos a meio do caminho. há "os do quadro". se houver, está resolvido. há mas pediram a rescisão inventada para poupar uns milhares. começa a coisa. não há mais do quadro que fiquem com o horário? ok. concurso extraordinário. não chega? contratados da lista a sorte vos espera. não dá. é uma escola com autonomia ou com outra forma de relação com o monstro. então lá vem esta coisa da bolsa. tudo é sinistro. perigosamente sinistro. até o nome. bolsa. lembra um saco preto e enevoado onde são metidos muitas pessoas, professores, e depois se vai tirando de lá um a um conforme for preciso. depois descarta-se. depois do uso. é simples. não, não é. há que responder a subcritérios. outro nome estranho. se alguns fazem sentido, quem contrata, tentar saber [por exemplo se tem "competências" para ensinar alunos com surdez] outros parecem saídos do quem quer ser milionário. gosta mais de branco ou de amarelo? fez algum projecto? alguma coisinha? e pronto. estamos de volta a medeia. sim. porque tudo isto começa aí. e é explicado por isso. quase como um encantamento, por uma ideia [agora cada vez mais absurda de lembrar], foi gritado aos sete ventos que era preciso explodir com a coisa. isso e uma falsa ideia de exigência numa escola que clamava por qualquer mudança sincera. agora se percebe que foi um encantamento. um chamamento para a destruição, sim, mas da escola. e de cada professor que passa a ser desgastado para além do medo. com salas de professores vazias nas escolas, por estes dias, pensa-se que preparar o ano lectivo se faz de um dia para o outro. que dar aulas é como apertar parafusos. e que os professores são recursos humanos que se podem dar e baralhar como qualquer outro elemento que cabe numa estatística. com um ministério e os seus serviços transformados em bunker e um sistema que medeia iria invejar, resta-nos o medo. não, não é o sentimento. é o filho de medeia. porque há sempre aquela esperança que, no final, venha alguém que nos salve. é que ainda não aprendemos que enquanto não formos nós, professores, a salvar o sistema estaremos sempre ao mando destes semi-deuses fechados nos seus reinos de nevoeiro. venha o medo, salvo, por si mesmo. o filho. não o sentimento.
02/09/2014
||| das coisas boas que nos esperam...
||| ... quando se entra na escola, nestes dias, ainda ninguém sabe quase nada. só horários e algumas informações e pouco mais. há coisa que mudaram. uma parede que foi pintada. aquele armário que mudou de lugar. o cheiro dos espaços ainda limpos. e a conversa inevitável sobre o que será mais um ano. e há coisas fantásticas. o respirar fundo para recomeçar. o puxar pelas forças que um tempo de descanso conseguiu conquistar. o esperar que dure durante algum tempo até o cansaço se instalar. o ver as funções a ter. ou daquelas que não serão vividas nos próximos tempos. e saber que ainda é preciso esperar. perceber o que mudou. para além dos espaços. e saber que este ano, nem que seja por uma ou duas aulas, se tem o desejo profundo de ensinar verdadeiramente qualquer coisa. qualquer coisa que não seja o que é obrigatório. dar aquela aula. nem que seja só uma. aquela aula fantástica. em que eles, os miúdos que ainda não conhecemos ou que conhecemos mas já não são os mesmos porque algum tempo passou, em que eles, miúdos agora em busca de algo que não sabem bem o que é, venham beber curiosamente o que temos para lhes dar. e dar. ninguém como um professor dá tanto. tudo. o que sabe. dar o que se sabe é dar futuro. aquilo que foi lido num livro. aquilo que se descobriu num passeio nas férias numa caminhada qualquer fora daquele contexto. aquela fotografia que até se tirou já a pensar numa futura aula. e saber que o sistema está todo contra isso. e desafiar o sistema. para aquela aula. nem que seja só uma. em que arriscamos fazer diferente. fazer como gostávamos que fossem todas as aulas. uma caminhada na rua. uma aula de pé. qualquer coisa. saber que ainda se sente na pele a paixão pela arte de ensinar. e sentir que essa vontade cada vez mais é um acto de rebelião contra o modelo das coisas nos dias que dizem que devem correr para metas e coisas que tais. ver os miúdos aprender. e no final dizerem, foi fixe professor. e sabermos que fomos rebeldes com causa. só porque tivemos a coragem de fazer uma coisa boa neste ano que vai começar. dar uma aula. a nossa aula. aquela aula. assim será.
||| do retorno e da irresponsabilidade...
"― não é da nossa incumbência darmos-lhe explicações. volte para o seu quarto e aguarde. o processo já está a correr, o senhor será informado de tudo na devida altura. já estou a exceder os limites da minha missão ao falar-lhe assim tão amavelmente; [...]."
kafka, o processo
||| ... eram várias estradas. uma lista feita com atenção. o som do rádio no carro ajudava aos momentos de cansaço. sair cedo. eram os mini-concursos. sim, ainda me lembro. por incrível que pareça a memória tem destas coisas. foram viagens, às dezenas [ou centenas], felizes. depois era dada a benesse de "desistir por carta". chegou a internet e passou tudo a ser contado em cliques. o corpo agradeceu a mudança pois terminava cansado. mas aqueles encontros com os outros findaram. era só um olá na fila: "também vieste aqui?". passou tudo a ser uma lista. os nomes todos na lista. todos para todas as escolas. e sempre pensei que o ministério da educação guardava mais de setenta por cento dos seus esforços e lógica de existência nesta coisa de gerir recursos humanos. uma grande agência de gestão de lugares que se moviam ao sabor de necessidades adivinhadas em gabinetes em lugares altos de onde as pessoas parecem mais pequenas. uma massa disforme e não identificável. era só ver as listas. continua a ser assim. nomes e nomes. mais nomes. e números. e dias de vida e de trabalho que se jogam para um lugar num concurso que deixou de ser mini para ser nacional. mas há uma coisa que não mudou. estas notícias [aqui] são uma repetição demasiado presente. filas, comentários nos jornais e televisão. na era da web social ainda mais acompanhados de sarcásticas análises em directo. tudo como se fosse normal. tudo como se tivesse que ser assim. e tudo com as mesmas reivindicações de sempre. o respeito. e o conceito. são contratados. é que aqui que digo sempre: "já chega". não. são professores. o vínculo laboral é outra coisa. ninguém diz que um enfermeiro é contratado. ou um médico. há esta coisa estúpida constante de confundir o vínculo com a profissão no caso dos professores. mas devo ser só eu que vejo esse absurdo. e neste ano, em que tudo parece um pouco mais atrasado [eu julgo que estrategicamente] só me consigo lembrar do minotauro. sim, do labirinto. é que as filas que estão feitas nos centos de emprego, na era do e/governo e das coisas todas no sistema e na internet que podiam poupar horas de trabalho e de "falta de respeito" vai ainda alargar-se mais toda esta coisa de conseguir gerir os recursos humanos. acho mesmo que qualquer gestor devia passar pelo universo da educação para perceber o que é criar o improvável dentro do impossível. desdobram-se modelos de gestão das escolas. das primeiras tentativas de "municipalização" da coisa às autonomias para fuga aos "mega-agrupamentos, passando pelos territórios de intervenção. tudo numa nova forma de concorrer que ainda está para nascer a somar ao concurso e aos concursos extraordinários. extraordinário tudo isto. assim é sempre simples "governar" uma classe profissional. chegados ao arranque do ano lectivo tudo está já desgastado. confuso. indefinido. ainda antes de começar. é por isso que o sistema representa aquilo que representa. não é "falta de respeito". é falta de consideração. que é pior. muito pior. mas isso, como tanta coisa, ninguém parece ver...
01/09/2014
||| das duas, uma é certa...
||| ... "previsões só no fim do jogo". os homens do futebol, de tempos a tempos, relembram esta. e é com isso em mente que escrevo isto. em breve retomam as aulas. os miúdos. as coisas em modo de velocidade de cruzeiro. mas ou me engano muito ou, para além das coisas de gestão de carreira que tenho falado pouco aqui porque me parecem sempre secundárias às outras e há quem o faça muito melhor do que eu em espaços como este, decidi virar vidente e fazer uma previsão antes do fim do jogo. melhor, até antes do jogo começar. e dos muitos confrontos que antevejo, assim como sucessos [de que falarei amanhã], vejo dois que se agigantam. e penso que são dois que se falam em surdina e por isso me apeteceu dizer em bom som por aqui. será um tipo de vaticínio em jeito de oráculo sendo que de vestal tenho muito pouco. mas pode ser que funcione. parto do princípio simples que este será o ano de consolidação das fracturas criadas em anos anteriores. o aumento de alunos por turma, os hiper-mega-super agrupamentos ingovernáveis, os estatutos e regulamentos e coisas que tais. parto assim para duas observações concretas. penso que a indisciplina será um factor em destaque e em crescimento. e penso que tudo se centrará na falência das aprendizagens verdadeiras. passo a explicar as coisas coisas que retiro de um saco de tantas outras. muitas vezes calado, subterrado em formas processuais confusas e administrativas, muitas vezes ainda mais abafadas dos comentários por vergonha ou pela análise simples de um estudo qualquer feito de fora para dentro, creio que o "fenómeno" da indisciplina será dos mais prejudiciais que a escola enfrentará neste ano lectivo. mesmo que muitas estratégias complexas ou simples estejam em marcha [como as velhinhas e falidas turmas de nível] este estado de coisas que vem do ano passado se não tiver uma estratégias concreta, absoluta e visível irá agravar-se substancialmente. mesmo que ninguém o diga. mesmo que fique fechado a sete chaves no interior da escola ou da sala de aula, pela gestão cada vez mais difícil mas conseguida por muitos professores, este será um dos factores mais complexos e desafiantes que a escola, como um todo, terá que gerir em escalada crescente. e ou eu me engano muito ou será quase impossível esconder tudo no interior das muralhas das escolas por muito mais tempo. exige um plano pensado. medidas concretas. formação. ajustes. e gestão. gestão estratégicas [de um ministério surdo e cego neste aspecto]. sem estatísticas e com medidas concretas seria possível prevenir. mas acho mesmo que começa o ano lectivo e já iremos remediar ao longo do caminho o que não é a mesma coisa do que, verdadeiramente, prevenir. e depois, as aprendizagens. se este ano a facilidade substituiu a exigência nos exames e as suavidades substituíram as realidades agudas de uma "desaprendizagem" significativa, penso que tudo tenderá a ser mais embrulhado neste ano. se o resultado de "trabalhar para os exames" no ano passado se tornou uma evidência de um sistema reprodutor mais do que criador, este ano será muito mais simples, simplesmente procurar reproduzir tudo isso num dimensão ainda maior. isto é, desde o início. mecanizar procedimentos. repetir. exaustivamente. mas a lógica de uma escola inclusiva e os rankings [essa mentira ainda mais vendida] vão fazer o resto do trabalho. aprender será uma coisa supérflua. o que importará será reproduzir. o que não é a mesma coisa. nem sequer é uma coisa. é um gesto mecânico. e por isso, como nunca, a avaliação será o motor da escola. o que retira da aprendizagem o seu verdadeiro peso. de processo passa a procedimento. e com isto vamos perder todos. o interesse. a motivação. a curiosidade e por incrível que pareça o que nos digam exaustivamente, vai perder-se o conhecimento. espero, sinceramente, estar errado. a verdade é que sempre fui muito mau em previsões. e ainda bem. pode mesmo ser que esteja profundamente errado. mas como diz o outro: "previsões, só no fim do jogo. e este ainda está para começar...
||| aos deuses manes, recomecemos...
peter gibbons: so i was sitting in my cubicle today, and i realized, ever since i started working, every single day of my life has been worse than the day before it. so that means that every single day that you see me, that's on the worst day of my life.
dr. dwanson: what about today? is today the worst day of your life?
o insustentável peso do trabalho, filme, mil novecentos e noventa e nove
||| ... ano dois. deste espaço. e com este texto, o recomeço. e com setembro, o retomar da escola como lugar central do correr dos dias. e ao sentar-me para estes poucos minutos para escrever só uma imagem me ocorre. a de um cubículo. sim. podia fazer deste texto um momento floreado sobre sorte, fortuna e sucesso. mas não me apetece. apetece-me recorrer à memória: "sobre a nudez crua da verdade, o manto diáfano da fantasia", como diria eça. e retomo o cubículo. porque a imagem permanece em mim. como aqueles dos filmes de má qualidade de um certo universo do imaginário americano num falso exercício estético de "open-space". o cubículo. seria assim que descrevia a escola, a que vamos encontrar este ano lectivo. e neste dia de "apresentações" que antecedem as "reuniões gerais" habita em mim um misto de sensações. a de ver a escola quadrada, fechada, perdida, obsoleta, cheia dos problemas estruturais ainda mais agravados e a força revolucionária de desejar uma verdadeira e imensa mudança. é mesmo a sensação de estar num cubículo. daqueles dos filmes. em que a falsa ideia de uma liberdade está na inversa proporção do trabalho para fazer que empurra o olhar para baixo, preso em papeis e nas secretárias, limitando o horizonte a um risco ou cruz para fazer num qualquer processo inacabado. a sensação é essa no [re]entrar na escola e no universo da educação. falta a revolução. há um contínuo movimento no sentido da inutilidade completa do sistema. salvam-se sempre aqueles que tentam fazer mais e diferente. aqueles que querem mudar a coisa. do ministério, feito repartição, nada mais se pode esperar do que uma gestão de recursos humanos cada vez mais complexa, cada vez mais delegada. cada vez mais desdobrada para a culpa não ser de quem ministra. se pensarmos que o ministério é o ofício de alguém, o que alguém devia fazer, percebemos que o que falta fazer ou está mal feito é maior do que o que se fez. o tempo de colocar os professores que faltam ao sistema que diz que eles não fazem falta é absurdo. ainda mais do que o normal. e por isso o desrespeito é incompetência exacerbada. e a escola fecha-se ainda mais sobre si mesma. e cada um, professor de um ofício maior, vai apresentar-se para viver no seu cubículo num espaço onde só lhe resta acreditar que um dia tudo vai mudar. para melhor. para um pouco melhor que seja. por isso, desejo a tal sorte, o tal sucesso e a tal fortuna para este ano lectivo que começa. mas desejo ainda mais força. e vontade. porque é preciso dizer basta. e é preciso pensar e criar. e mudar. e revolucionar. antes que o sistema todo se torne ainda mais obsoleto. ou gerido por outros interesses que não sejam aqueles do ensinar e do aprender que fazem da escola o lugar mais belo do mundo. seja este, por isso, o ano em que conseguimos dizer um pouco mais alto, com um pouco mais força, com a verdadeira vontade de transformar tudo isto em algo melhor, maior, mais belo. basta querer. bom [re]começo. bom ano lectivo.
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