12/05/2015
||| ensinar a bestialidade...
||| ... quando um primeiro-ministro diz: ""o nosso objetivo é vencer a doença, não é perguntar se as pessoas têm dor"" sabemos que estamos perante uma brutalidade. uma bestialidade nas palavras. na escola, os ecos chegam. as palavras cruzam-se. se retiramos da escola a bondade retiramos toda e qualquer defesa que os miúdos possam ter contra coisas ditas desta forma sempre, de cima para baixo, sem a mínima noção do que pode ser o sofrimento de quem, nada tendo, ainda perdeu. é por isso que é preciso levar a bondade a ser o centro da escola e na escola. para que palavras deste tipo, ditas desta forma, não passem de absurdos a esquecer em toda a sua extensão e significado. que a escola tenha esse imenso poder. sempre!...
11/05/2015
||| professores feitos de cansaço...
||| ... é ver que os dias parecem não ter fim. e as coisas por fazer vão-se acumulando. porque já não há mais forças. porque o corpo já não dá mais. porque são muitas e muitas horas acumuladas. a ver testes. a ver fichas. a preencher coisas. a rever outras tantas coisas. a pensar. o tempo que resta é quase uma maratona cuja meta parece distante demais. já só se houve: já só falta um mês e tal. ou: ainda falta um mês e tal mas depois acalma. ou não. ou o corpo já não consegue refazer-se de tanto que lhe é pedido. soma-se o sentimento de faltar fazer tanta coisa. às vezes de ter mais dois ou três braços para chegar aos miúdos que precisam de ajuda mas para os quais não temos nem mais um minuto. e acumula-se ao cansaço aquela frustração de não conseguir mais uns minutos. para eles. ou para os abanar para saírem de uma apatia que temos combatido desde o primeiro dia. é o cansaço, estúpido. que não deixa pensar. só saber que amanhã é outro dia igual. e é preciso, também amanhã, ser professor...
||| a escola que ensina o desenrasca-te...
||| ... às vezes sentava-me só a olhar. a escola que devia proteger e ensinar a cooperar era o lugar ideal para os espertos. dizia eduardo marçal grilo que na escola havia os sabidos, os sabichões e os sábios [estes em menos número]. o que percebi é que a escola transformou-se num lugar para as "espertezas". e são de todas as formas. e de todas as leis. muitos de nós fechamos os olhos. há até quem premeie essa coisa estranha por não lhe conhecer a forma. ou fingir que não a conhece. inundamos a escola destas coisas. às vezes chamamos a tudo isso qualquer coisa como "competitividade". fomentamos os atalhos mesmo sem querer. às vezes, só às vezes, sentava-me a ver tudo isso. e via...
10/05/2015
||| a sala de aula como lugar seguro...
||| ... ainda me lembro como se fosse hoje. era jovem e pensei a aula a dar de uma ponta a outra. era sobre o período de "encantamento" do nazismo na alemanha pós primeira guerra mundial. daqueles momentos das paradas. do apoio popular. uma aula na faculdade de letras da universidade de coimbra. um colega levantou-se enfurecido. está a fazer a apologia do nazismo! não, não estava. estava a explicar que houve, de facto, um apoio popular. das pessoas normais, comuns, que no seu dia a dia votaram, apoiaram e queriam aquela política. porque quanto se tira vontade e razão de futuro, quando se retira a segurança nos dias que correm, é fácil mandar e dizer que o caminho é aquele. não era apologia. era uma leitura assustadora sobre a irracionalidade do comando. repeti essa aula mais tarde. sem ninguém questionar. hoje, ao ver a escola como está teria medo de repetir essa aula. teria medo porque a pior coisa que pode existir para um miúdo é a sensação de não-segurança ou de inutilidade da escola como um todo. se somarmos a isso a incapacidade de reflectir sobre o passado, o presente e o futuro, então temos o cenário montado para que uma aula assim fosse mesmo um elogio acrítico sobre uma realidade horrenda. assusta-me pensar nisto. mas é a realidade que temos. mandar numa geração assim é tão simples que assusta...
||| paixão e coisas que tais na educação...
||| ... de tempos a tempos regressa a ideia de renovar a educação. dessa coisa da paixão. ou o seu contrário. da exigência. e coisas que tais. deixem a educação em paz, se faz favor, porque não é isso que é preciso. o que é preciso é renovação e coerência. consistência. há nisto um princípio apolítico. porque a politica tem que perceber que a educação, como outros campos, não é um lugar de lutas pelo voto. de nenhum dos lados. a educação é a base social. a estrutura. onde podemos ir buscar alicerces. não é feita em ciclo de quatro anos. é feita por gerações. e por identidade. perceber isto está ainda longe desta irracionalidade que cerca a vontade ganhar paixão com um discurso radical. seja ele de apoio/renovação, seja ele de continuidade do que temos hoje. o que falta não é paixão. é coerência no caminho e consistência na identidade social para a qual a escola serve o propósito basilar de educar para o futuro. é simples...
09/05/2015
||| direito de ensinar...
||| ... parece absurdo, mas daqui a um tempo o direito básico que um professor terá que defender é o direito a ensinar. a não reproduzir textos, programas, metas ou objectivos mas a ensinar. falta, ensinar. falta cada vez mais, ensinar. dar ao outro o que se sabe. como se aprendeu. como se pode aprender ainda mais. despertar o desejo de conhecer. afinar a curiosidade para o conhecimento. sem slogans nem ideologias ou teorias. só ensinar. parece absurdo mas ensinar é hoje o que um professor menos faz. faz cumprir as coisas necessárias. as outras, ficam de fora da sala de aula. do espaço onde o professor pode e deve ensinar. seja ele dentro ou fora da sala. parece absurdo mas daqui a um tempo qualquer professor terá que reclamar para ter direito a ensinar. a falar de coisas que não estão no programa. para levar os miúdos a locais que não estão pré-seleccionados. para incentivar a serem lidos livros que não estejam pré-aprovados. parece absurdo, mas cada vez é menos. e cada vez se ensina menos e menos na escola. com tudo o que isso faz de diferença...
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